domingo, 27 de dezembro de 2009

Os 100 mais de uma década de concertos, #9

9. DIRTY THREE @ LUX
2 de Junho de 2007
Reacção naquela própria noite: "Uma pessoa vai com todas as expectativas do mundo. Uma pessoa anda à espera de vê-los há anos. Uma pessoa recebe mensagens dos amigos a dizer '[em Barcelona] foi do c. tens que ir'. Ou seja, como dizia antes, uma pessoa vai com todas as expectativas do mundo. Mas e se todas as expectativas do mundo com que uma pessoa vai são desde logo ultrapassadas, a uma velocidade seguramente interdita por lei, logo aos primeiros minutos do concerto? (Sim, é de um concerto que se fala. O concertaço dos Dirty Three, esta noite no Lux.) Jim White, o baterista, e Mick Turner, o guitarrista, são peças imprescindíveis neste jogo de cadências e explosões que os Dirty Three fazem colidir em palco, disso não se tenha qualquer dúvida, mas é sobre o violino de Warren Ellis que acaba por recair, na maior parte das vezes, a atenção. Ele não fez um pacto com o diabo. Ele é mesmo o diabo. Não que seja o mais virtuoso dos violinistas. Em rigor, ele até nem é o violinista clássico (como o Andrew Bird, para citar um exemplo com menos de 48 horas passadas, o é, mesmo apesar das referências folk dos Squirrel Nut Zippers). Ellis é o 'fiddler' que anima uma tasca barulhenta algures no meio do deserto australiano, acompanhado de bouzukis num numa aldeia grega, musicando lendas de lobos algures na Europa de Leste. E ainda tem a lata de tirar feedbacks do instrumento. O concerto desta noite conseguiu ser, por diversos momentos, e não se tenha pejo em usar a palavra quando ela deve ser efectivamente usada, epifânico. Foi a celebração plena daquilo que a música consegue por vezes produzir ao vivo: um rapto violento da consciência do ouvinte (e tão bem que sabe fechar os olhos e facilitar essa captura) para uma terra de ninguém, onde se experimentam sensações que só algumas drogas poderão produzir. O regresso do cativeiro é que pode não ser fácil. É que se sente saudades."