segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os 100 mais de uma década de concertos, #7

7. DAMO SUZUKI NETWORK @ ZDB
19 de Junho de 2004
Muito escrevi sobre esta noite, na altura: " 'Provavelmente, só deixarei isto quando for para debaixo da terra.' Era assim que o Damo Suzuki respondia neste sábado a uma de muitas questões que lhe fiz: 'por quanto tempo mais vais continuar com a never ending tour?' Aos 54 anos, Damo, o mítico vocalista dos Can era 70-74, é um poço imenso de vitalidade. Quem o escuta inunda-se de fascínio. Nas coisas mais simples, como a comemoração da vitória da República Checa, depois da sua Alemanha ter empatado, ou o mal menor do molho de manteiga no robalo ('vocês, com peixe tão bom e tão fresco, deviam comê-lo o mais natural possível') a teses mais profundas, como o cancro que ultrapassou, o que lhe trouxe 'uma nova vida' e um regresso à música, 11 anos de ausência depois, ou aquilo que o leva, desde os dezasseis anos, a girar constantemente à volta do mundo, ou ainda todo um conjunto de noções simbólicas e filosóficas que sustentam o conceito do 'instant composing'. O que é o 'instant composing'? Numa palavra, improvisação. Damo raramente conhece os músicos com quem toca nos locais por onde passa a digressão -- a 'never ending tour' -- do Damo Suzuki Network. No sábado, por exemplo, só conhecia o baixista italiano Massimo Pupillo, dos Zu, porque com ele havia tocado nos dias anteriores, em Vigo e no Porto. Do resto da formação do concerto na ZDB, os portugueses Marco Franco (bateria) e Nuno Rebelo (guitarra) eram os únicos que estavam mais à vontade entre si. E o quinto elemento, um americano de origem francesa que tocou flauta transversal e clarinete baixo, é a ilustração perfeita do conceito de 'instant composing': a cerca de meia-hora do início do concerto, Damo, eu, o Scott Nydegger e o Pilot Rouge, dos Mécanosphère, entrámos na sala vazia da ZDB, onde este indivíduo, com ar de professor, tocava flauta sozinho, para ele próprio; pouco depois, Damo dizia-nos: 'vou falar com o técnico de som, gostava que este tipo tocasse connosco.' O músico americano seria mais um 'sound carrier' -- é assim que Damo chama a si próprio e aos músicos que o acompanham nestas aventuras. Damo coloca muito ênfase, para explicar a forma como entende aquilo que faz, no termo 'comunicação'. Uma comunicação que ocorre entre um grupo de pessoas 'que partilham as mesmas parcelas de espaço e de tempo'. Comunicação entre os 'sound carriers', entre estes e o público, entre as pessoas que compõem a plateia da ZDB. E é isso o que acontece ao longo das mais de duas horas (?) de improvisação. É, obviamente, sobre Damo que recaem os olhares do público. Dali saem frases melódicas e hipnóticas como aquelas fizeram de álbuns como 'Tago Mago' ou 'Future Days' obras primas eternas. Dali sai uma entrega que abala, logo desde o início, com qualquer postura mais indiferente que o espectador possa imaginar. Entre os outros 'sound carriers', é Marco que se destaca, comandando a improvisação rítmica, fornecendo pistas ao resto do grupo, com a preciosa ajuda de Massimo, que contanstemente maltrata o seu instrumento, tal como mostrara em Zu, meses antes. Também o Nuno compreende de forma soberba os caminhos que a secção rítmica lhe abre e assume a autoridade suficiente para, frequentemente, lançar, ele próprio, deixas sublimes para todos os outros. O flautista americano compõe o cenário com altivez, principalmente na primeira do espectáculo, improvisando linhas livres que assentam e cristalizam sobre a torrente de lava sónica que do palco corre. Improv meets rock meets free jazz meets metal meets Damo. Perto do fim, o japonês mergulharia nos braços da assistência, enquanto os outros 'sound carriers' se entregavam ao último, porventura o mais agressivo, dos caos sonoros que naquela sala foram fabricados. A 'comunicação' tinha acontecido e, ao fim da noite, entendia-se melhor o que Damo antes explicava acerca da sua forma de ver a música. Afinal, não se tratava de meros símbolos, de meras teorias de 'proggie'. Era mesmo a música a assumir o seu mais ancestral desígnio, amplamente disseminado pelas civilizações desde a idade da pedra. Magnífica comunhão de espaço e tempo."