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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Uivo, amanhã

Somos seguramente uma multidão imensa, aqueles que sentimos saudades do António Sérgio. Passarão amanhã cinco anos desde o desaparecimento de um dos maiores agitadores que a cena musical portuguesa conheceu, o formador de várias gerações, o homem da rádio e muito mais. A data vai ser assinalada com a estreia do documentário "Uivo", realizado por Eduardo Morais, no Palácio Foz, com sessões à tarde (16h30) e à noite (21h30). Do programa consta ainda a apresentação de "Uivo da Matilha", coletânea de cartas póstumas reunida pela sua cúmplice Ana Cristina Ferrão. À noite, haverá ainda espaço para atuações de Fast Eddie Nelson, The Fellow Man e Charles Sangnoir. "Uivo", o documentário, seguirá depois para outras 19 localidades, com o seguinte mapa de apresentações:

6 nov. - Barcelos
7 nov. - Santo Tirso
8 nov. - Coimbra (c/ Subway Riders e Dirty Coal Train)
10 nov. - Portalegre
11 nov. - Castelo Branco
12 nov. - Guarda
13 nov. - Bragança
15 nov. - Viseu
19 nov. - Porto
20 nov. - Braga
21 nov. - Barreiro
22 nov. - Rio Maior (c/ The Act-Ups, Cave Story, Dirty Coal Train)
27 nov. - Aveiro
28 nov. - Vale de Cambra
29 nov. - Caldas da Rainha (c/ Cave Story)
6 dez. - Setúbal
12 dez. - Beja (c/ Dirty Coal Train)
13 dez. - Loulé (c/ Dirty Coal Train)
20 dez. - Évora



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Recordando António Sérgio

Passaram, há poucos dias, dois anos do desaparecimento do António Sérgio. Se não podemos continuar a ouvir novidades na voz entusiasmada dele, temos pelo menos a possibilidade de o recordar em dezenas de gravações de programas como o Som da Frente ou até mesmo o Rolls Rock, que agora se encontram disponíveis no Mixcloud.

Oiçam, por exemplo, esta Lista Rebelde Especial para o Rolls Rock, em Outubro de... 1982:

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

António Sérgio no lugar de entrevistado, em 2002

Em 2002, por ocasião da edição da primeira colectânea evocativa do programa Som da Frente, tive a honra de entrevistar o António Sérgio. A honra e os nervos em franja. Afinal, nas ocasiões em que ele me convidou para os seus programas, senti-me sempre esmagado pela sua capacidade notável de estabelecer uma conversa agradável, com conteúdo interessante. Desta vez trocávamos os papéis e era eu que tinha que encontrar a boa história, a boa conversa. Mas se o dom de comunicação estava do lado do Sérgio entrevistador, também estava do lado do Sérgio entrevistado. Deixo aqui a gravação, sem qualquer edição, em sinal de tributo a quem tanto fez abrir os meus horizontes de escuta (e de tanta outra gente):

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Traços distintivos de uma geração, parte I

Por entre as inúmeras reacções de pesar à morte do António Sérgio, nos blogues, sites, redes sociais, jornais, televisão (cheguei a ver um deputado do PSD a recordar o Som da Frente com emoção, num debate da SIC Notícias), ou as que ontem se puderam ouvir na excelente emissão de homenagem que a Antena 3 realizou, há um aspecto que, com alguma graça, se afigura comum a toda esta geração e que pode ser resumido na seguinte frase:

«Eu ouvia o Som da Frente baixinho ou com headphones, porque os meus pais já estavam a dormir.»


E já que estamos nisto, uma brincadeira no facebook levou-me, entretanto, a ir apanhar outro traço característico desta geração:

«Eu pensava que o Tim cantava 'um avião para lá ir mais a miúda', não 'mais amiúde'.»

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Na próxima segunda-feira, a Antena 3 vai passar a noite a recordar António Sérgio

Sete horas da emissão da Antena 3, na próxima segunda-feira, a partir das 19h, vão ser ocupadas a recordar António Sérgio, com diversos convidados. Mais pormenores na notícia do site da no Blitz.

domingo, 1 de novembro de 2009

As estepes encontram-se ainda mais desoladas. Morreu António Sérgio.

A morte é sempre uma má notícia, mas custa ainda mais quando a recebemos sem por ela esperarmos. Fiquei a saber há instantes que desapareceu um dos meus heróis de adolescência, que me ensinou a gostar de música sem fronteiras de qualquer espécie, uma companhia de muitas noites ligadas à rádio. Ainda há dias me interrogava pela aproximação do seu 60º aniversário. Infelizmente, já não vai acontecer. António Sérgio faleceu na noite de ontem, vítima de problemas cardíacos. O meu pensamento vai agora para a Cristina (vocês eram sempre o casal mais bonito que eu encontrava nos concertos), para os filhos e para todos que de perto trabalharam com ele.
O corpo do Sérgio vai ser velado hoje na Basílica da Estrela, a partir das 18h.
Notícia do DN
Notícia do Público

ACTUALIZAÇÃO:
Informa o Nuno Calado no Facebook que se realiza amanhã, pelas 15h, missa de corpo presente na Basílica da Estrela, seguindo depois o funeral para o cemitério dos Prazeres.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Espelho Meu - História do Rock Português

77, António Sérgio, António Variações, Aqui del Rock, Ban, Baton Rouge, Bunnyranch, Cães Vadios, Cameraman Metalico, Capitão Fantasma, Censurados, Conjunto Mistério, Corpo Diplomático, Crise Total, D3Ö, Delfins, Filipe Mendrix, GNR, Heróis do Mar, Joaquim Costa, Legendary Tigerman, M'as Foice, Mão Morta, Mata Ratos, Mler if Dada, Moonspell, Peste e Sida, Pop dell'Arte, Quarteto 1111, Rádio Macau, Rui Veloso, Sheiks, Street Kids, Tédio Boys, Telectu, UHF, Victor Gomes, Xutos e Pontapés.

Que fazem todos estes nomes juntos? São as figuras das 38 pinturas que integram a exposição "Espelho Meu - História do Rock Português" que vai estar patente no Santiago Alquimista a partir do próximo sábado, 1 de Março. As obras "Espelho Meu" são da autoria de Sardine & Tobleroni, uma dupla de artistas plásticos residente em Londres. Sardine é português e muita gente já o conheceu como Victor Silveira, como Victor Torpedo ou como Vitinho (sim, o dos Tédio Boys e dos Parkinsons). Tobleroni é o suíço Jay Rechsteiner. A exposição é inaugurada no próximo sábado, com um concerto dos Pop Dell'Arte e um dj set dos Bunnyranch.

CORRECÇÃO: A exposição estará patente no Alquimista apenas no sábado, já que depois vai fazer um percurso pelo país.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O uivo da resistência

O lobo vai voltar. Dia 3 de Dezembro, António Sérgio vai voltar à rádio, pouco tempo depois de ter sido dispensado pela Comercial. O novo programa de Sérgio chama-se "Viriato 25" e vai ser emitido na Radar, todos os dias da semana, a partir das 23h.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Um ano depois de John Peel

É estranho, mas está quase a fazer um ano. Foi a 25 de Outubro do ano passado que John Peel morreu, vítima de um ataque cardíaco ocorrido durante o gozo das férias do seu métier habitual: contagiar ouvintes de todo o mundo, aos microfones da BBC Radio One, com um entusiasmo genuíno e único pelas novas e velhas músicas populares. Para assinalar a passagem desta data, a BBC preparou o "John Peel Day": seis horas de música, com seis apresentadores, e... cerca de 500 concertos de tributo a decorrer por todo o Reino Unido. No dia 24 (repete dia 27), será possível escutar -- na Radio 6 -- o primeiríssimo programa de Peel para a BBC, de Outubro de 1967. Há muito para ver e escutar no site dedicado ao radialista: www.bbc.co.uk/radio1/johnpeel/.

(Para os coleccionadores de Peel Sessions, tal como o gerente aqui do tasco, prestem atenção à lista que a BBC disponibilizou com, aparentemente, todas as transmissões ao longo destes últimos quarenta anos. É informação de grande relevo, pois até agora só havia um livro esgotadíssimo -- o António Sérgio é a única pessoa que conheço que o tenha, por cá -- com referências a todas as Peel Sessions até 91 ou 92, sendo que após essa data, um site montado por outro coleccionador complementava a informação. Agora, aparentemente, está tudo completo. É de aproveitar.)

quarta-feira, 29 de junho de 2005

A nova compilação do Som da Frente

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As memórias não se devem deixar trair pelos tempos que vivemos. É ou não é verdade que muitos de nós nos sentimo privilegiados por termos crescido com o "Som da Frente" a tocar nas nossas rádios? O António Sérgio e a Ana Cristina voltaram a compilar alguns dos temas que fizeram mossa a uma geração de ouvintes do "Som da Frente", para edição já na próxima segunda-feira, dia 4 de Julho, com selo EMI.
Quando no ano de 2001 comecei a coligir dados para a primeira compilação "Som da Frente" senti de imediato que os 11 anos em que o programa se manteve "No Ar", através na R.D.P. - Rádio Comercial entre 1982 e 1993, iriam obrigar-me a muita ginástica para lidar com essa enorme carga de actividade ininterrupta do meio musical.

Estava consciente de que o programa divulgara milhares de bandas, artistas e projectos musicais, uns mais marcantes que outros, o que naturalmente levantava constrangimentos à concepção de um acoplamento coerente e, ao mesmo tempo, aliciante para quem se sentisse motivado para tal reencontro.

Antevi, mas nunca na totalidade do pesadelo que se tornou, que o processo de licenciamento viria a sofrer incríveis dificuldades (muitas das quais redundaram em impossibilidade) na obtenção de determinados temas de certos artistas.

Resolvi planear uma compilação de material sonoro da emissão radiofónica que viajasse desde o seu início até ao aparecimento do 'compact-disc' em 1986, ganhando assim, uma data 'redonda' e um limite cómodo.

Confiei que, mediante resultados, tudo se viesse a completar com um resumo menos parcial de todo o tempo de vida do programa, pondo em saliência os muitos cambiantes, as novidades e os empurrões com que a música popular (e não só o rock) nos presenteou nesse período brilhante de invenção e performance.

Ao partir para este segundo e final passo na reposição da memória do "Som da Frente", pensei no reencontro com os que descobriram na Rádio portuguesa, um espaço que apenas tinha como objectivo ser um estandarte da "arte de ouvir".

Sabia que o concretizá-lo se tornou a companhia duma geração a quem se pedia avidez pelo conhecimento, uma atitude de diferença, uma agilidade igual ou superior à do próprio programa, para que a montra de sons se tornasse a "enriquecedora experiência sensorial" que povoa ainda o imaginário de muitos seus contemporâneos.

«O 'Som da Frente' propunha-se como projecto de divulgação e como espaço de inovação na medida em que procurava encontrar o ponto de viragem nas formas de abordar a música, tentando deslocá-las para fora do âmbito restrito do 'rodar de discos' descontextualizado. De onde quer que o mundo o observasse , o 'Som da Frente' observava o mundo.» (escreveu Ana Cristina Ferrão na nota de capa da edição anterior, e estas palavras espelham o projecto rádio subjacente a esses 11 anos de emissão)

Graças aos ouvintes, às músicas e aos músicos a quem sempre brindei com o protagonismo na inovação, na mudança e na alternativa, constato hoje que o sonho de muitas noites desses longos 11 anos de vida "no éter" se tornou realidade.

Uma realidade que é também memória e que dedico a quem fez mais do que todos nós pela música: "John Peel - Music Lover".

Como repeti noite após noite, pelo direito à diferença!

We love you!

António Sérgio, Janeiro 2005

CD1:

The The - Uncertain Smile
M/A/R/R/S - Pump Up the Volume
Mantronix - Who Is It?
Jesus Jones - Move Mountains
Stump - Charlton Heston
The dB's - Dynamite
Stan Ridgway - Peg and Pete and Me
Youssou N'Dour - Macoy
Les Négresses Vertes - C'est Pas La Mer à Boire
New Model Army - 51st State
American Music Club - Johnny Mathis's Feet
Cocteau Twins - Wax and Wane
Morrissey - My Love Life

CD2:

The Alarm - Where Were You Hiding When the Storm Broke?
Red Hot Chili Peppers - Jungle Man
Talking Heads - Burning Down the House
Romeo Void - Never say never
Devo - The Day My Baby Gave Me a Surprise
The Specials - Ghost Town
Fun Boy Three - Murder She Said
Boomtown Rats - A Hold of Me
Anne Clark - World Without Warning
Scritti Politti - The Sweetest Girl
Mazzy Star - Fade Into You
The Passions - I'm in Love With a German Film Star
The Sundays - Here's Where The Story Ends

PELO DIREITO À DIFERENÇA!

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma racha no crâneo (por Fernando Magalhães)

Os discos importados e as interferências da rádio, a bizarria progressiva, o krautrock e o ódio ao punk. Mas o que realmente fica é a revelação de que os perigos que o consumo e audição desenfreados de álbuns podem não ser psicológicos. É o que acontece quando um disco dos Public Image Ltd nos acerta em cheio no crâneo.


O disco que mais me marcou em toda a minha vida foi, sem dúvida, "Metal Box", dos Public Image Lda. Vinha embalado numa caixa circular em metal. Calhou, numa certa data fatídica, cair da estante em que se encontrava, atingindo-me em cheio no crâneo. Fiquei marcado para sempre. Cinco pontos no occipital mais um trauma profundo que me fez odiar para sempre John Lydon e a música dos PIL. Foi, de qualquer forma, o contacto mais físico que alguma vez tive com um disco.

Mas a minha relação com a música popular e com os discos começara muitos anos antes do acidente. Carregando na tecla "rewind", chego a 1968, aos 13 anos de idade. Como ainda não possuía gira-discos, ouvia rádio. Aliás, como toda a gente interessada pela música nessa época. Só mais tarde me apercebi dos perigos, não só lesivos da integridade física, como, sobretudo, psicológicos, que o consumo e audição desenfreados de álbuns de música pop/rock implicava.

No início, ouvir música era uma actividade inocente. Fixava o nome de canções, por vezes tomava notas ou elaborava as minhas próprias listas de preferências. Lembro-me de escutar até ao enjoo, quer obras-primas como "The Dock Of The Bay", de Otis Redding, quer coisas tão prosaicas como "The Legend Of Xanadu", de Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick and Tich ou "Bonnie & Clide", de George Fame. "Light My Fire", escutei-a pela primeira vez na voz de José Feliciano. Quando ouvi o original, dos Doors, senti-me chocado. A voz de Jim Morrison não tremia o suficiente...

Fui passando o tempo desta maneira até que, na transição para a década de 70, a loucura explodiu, tornando-se galopante como o passar dos anos. Um programa da Rádio Renascença fez nascer em mim o gosto pelas músicas bizarras e pelas sonoridades mais retorcidas da então emergente "música progressiva", esse papão das décadas seguintes. Chamava-se o programa Página Um, com locução e realização de José Manuel Nunes. Abriram-se mundos. Cada audição de ábuns com o selo de editoras, como a Vertigo, Island, Harvest ou Neon constituía uma descoberta: Trees, Savoy Brown, Jethro Tull, Forest, Incredible String Band, Gracious, The Greatest Show on Earth, Warm Dust, Quatermass eram nomes que se me iluminavam na imaginação envolvidos numa mística própria. A música tinha cor e sabor. Nas discotecas (por vezes minúsculas lojas de electrodomésticos) encontravam-se muitos desses discos (invariavelmente com capas de abrir) que hoje são preciosidades para o coleccionador. Comprei uns tantos e desdenhei uma quantidade de outros. "It's All Work Out In Boomland", dos T2, "Ben", dos Ben, "Pre-Flight", dos Room, "Three Parts Of My Soul", dos Dr. Z, "The Polite Force", dos Egg, "Sorcerers" dos Jan Dukes de Grey, entre outras raridades, passaram-me pelas mãos...

Também ganhei o hábito de escutar -- em péssimas condições, diga-se de passagem, tal a quantidade de interferências -- a Rádio Luxembourg, só por causa de um programa chamado Dimensions. A locução estava a cargo de Kid Jensen, que hoje ganha a vida a fazer anúncios de colectâneas saudosistas no Quantum Channel, mas nessa altura era um guru, concorrente de John Peel. Por vezes passava faixas inteiras, interessantíssimas, de 20 minutos, de bandas desconhecidas. Quem seriam? Terrível expectativa. Quando, finalmente, o Kid se prestava a revelar o segredo, lá vinha a onda de ruído tapar a audição do nome do intérprete. Mas lá fui apanhando uns quantos nomes: Focus, Clarck Hutchinson, Dando Shaft, Mogul Trash, entre dezenas de outros que hoje preenchem o catálogo de reedições em compacto da Repertoire.

Claro que, entretanto, a compra de álbuns já se tornara um imperativo estético e moral (há quem lhe chame vício). Com o "pequeno" senão da mais do que frequente falta de liquidez obstar a aquisição de todos os objectos de desejo. Acabei por descobrir que saía mais barato mandar vir os discos de fora. Através de firmas exportadoras como a Tandy's e, mais tarde, a COB. Horas e horas de angústia, com as semanas a passar devagar, até a campainha da porta tocar, por fim, de uma forma especial, e aparecer-me pela frente o carteiro segurando nas mãos o mágico embrulho de cartão. Rasgado furiosamente o pacote, seguia-se o prazer da revelação, o manuseamento da capa, terminando na audição de álbuns que muitas vezes encomendava sem nunca os ter ouvido antes, apenas pela foto da capa ou pela leitura de uma crítica mais sugestiva no "Melody Maker", no "New Musical Express" ou nas revistas francesas "Rock & Folk" e "Best". Muitas vezes por simples intuição.

Anos de magia, em que parecia dispor de todo o tempo para ouvir um disco, as vezes que quisesse, até conhecer de cor as letras e as melodias. Um, dois por mês, chegavam, a princípio, para me ocupar até à encomenda seguinte. Depois, à medida que as posses iam aumentando, aumentava proporcionalmente o ritmo de compra com o consequente descalabro económico. Era o vício a ditar as suas leis.

Foram esses os anos do deslumbramento, da procura inflamada da criatividade e da diferença que determinariam a partir daí a minha forma de ouvir música.

A aventura continuou por outras descobertas e latitudes. Do "krautrock" (Tangerine Dream, Harmonia, Cluster, Kraftwerk, Neu!, Yatha Sidhra, Release Music Orchestra, Parzival, Klaus Schulze, Eroc, Wallenstein, as edições originais encontravam-se com facilidade...), dos tesouros de Canterbury (Soft Machine, Hatfield and the North, Caravan, Khan, Gong, Gilgamesh, National Health, Kevin Ayers...) das pérolas da Virgin (David Vorhaus, Comus, Henry Cow, Faust...). E ouvia os programas de rádio do António Sérgio. Até ao ano da grande desilusão: 1976. Confesso: odiei o "punk" desde o primeiro momento. Curiosamente, foi o mesmo António Sérgio o primeiro a divulgar a praga em Portugal. Ouvia e amaldiçoava os Sex Pistols, Sham 69, X-Ray Spex, 999, The Damned (apesar de Lol Coxhill tocar num dos seus discos...). A salvação chegou dos Estados Unidos, com os Suicide, Devo, Talking Heads, Pere Ubu. A Inglaterra contribuiu com os Cabaret Voltaire e os Human League, de "Reproduction", "Travelogue" e do EP "The Dignity Of Labour".

O passo seguinte foi o mergulho insano nos "industriais" (o que prejudicou grandemente a minha saúde mental). O lema era Einstürzende Neubauten, Test Department e SPK; bidões, Black & Decker e martelos pneumáticos. Mas antes o fogo e metal das fábricas do apocalipse que o pontapé na avó da punkalhada.

Com a chegada dos anos 80, após um flirt com a Made To Measure (Hector Zazou, Daniel Schell, Benjamin Lew & Steven Brown) transferi-me com armas e bagagem para o universo da Recommended Records, onde o espírito do Progressivo adquirira novas formas de beleza e esquizofrenia criativa: Roberto Musci & Giovanni Venosta, Doctor Nerve, Jocelyn Robert, Biota, Steve Moore, Wha Ha Ha, Boris Kovac, Non Credo, Wondeur Brass... Alguém se deve lembrar de uma certa lista dos melhores álbuns dos anos 80 que apareceu publicada, em duas semanas, consecutivas, no jornal "Blitz"... Quando, por fim, já nos anos 90, comecei a escrever sobre música, a razão deu início à sua actividade de médico legista. Mas as autópsias não conseguiram arrefecer a paixão. Foram milhares e milhares de sons sulcados pela agulha do gira-discos e pelo laser do CD que sulcaram igualmente a minha alma.

Discos da minha vida, há vários. Contudo, apenas um me fez chorar, quando o ouvi pela primeira vez: "Pawn Hearts" dos Van der Graaf Generator, onde percebi que a santidade e a loucura podiam ser só uma e a mesma coisa e coexistir num homem só. Fui conferindo a minha própria loucura pelos poemas e pela música de Peter Hammill. Estremeci com "In Camera", que me fez compreender onde termina uma canção e começa o inferno.

É verdade, e a folk? Essa é outra história. Uma história de amor sem o reverso da medalha. Encetou-se em 1969 quando uma amiga me ofereceu "Liege & Lief" dos Fairport Convention. A partir daí fluiu como um rio com o caudal cada vez mais forte. Até hoje.

Termino com uma lista (não há quem lhes resista) de dez discos cujas primeiras audições, no mínimo, me fizeram acreditar que a música popular pode ser algo mais do que uma maquinação da indústria. Discos que me fizeram sentir o mesmo frémito da "primeira vez":

"Ummagumma" (o disco de estúdio) (Pink Floyd, 69)
"Acquiring the Taste" (Gentle Giant, 70)
"Magma" (Magma, 70)
"Faust" (Faust, 71)
"Ege Bamyasi" (Can, 72)
"The Henry Cow Leg End" (Henry Cow, 73)
"Rock Bottom" (Robert Wyatt, 74)
"Autobahn" (Kraftwerk, 74)
"Suicide" (Suicide, 77)
"Low" (David Bowie, 77)
"Berlin" (Art Zoyd, 87)


Fernando Magalhães
Supl. Sons, Público
08/01/99

sexta-feira, 21 de maio de 2004

Com o ego em cima

Em primeiro lugar, desculpem qualquer coisinha em relação às pontas de auto-promoção que o que vem a seguir apresenta. Não me agradaria fazê-lo em muitos outros exemplos de elogios (e críticas, pois claro), mas nestes em particular, não consigo evitá-lo.
Há jornalistas e personalidades do meio da música que nos moldaram a forma de entender essa arte ou que nos educaram ao longo do nosso crescimento. Eu tenho duas pessoas que caem particularmente nessa categoria. Dois Antónios: o Pires e o Sérgio. O Pires já me fez pessoalmente -- e agora é que entra a parte da auto-promoção -- os maiores elogios ao "Narradores da Decadência". Fiquei, tanto pelo papel que ele teve na minha formação como pelo acompanhamento que ele fez do percurso dos Mão Morta, naturalmente envaidecido. Hoje, no Independente, o Sérgio escreveu estas linhas: «O livro dedicado aos Mão Morta é um manancial de informações incrível para quem se interessa pelo grupo (que é "só" um dos de maior culto em Portugal), à parte ter um apêndice (em jeito de enciclopédia) que dá um enorme prazer percorrer.»
Um gajo fica, além de feliz por ouvir e ler estas palavras, com lata suficiente para se armar em convencido.

segunda-feira, 22 de setembro de 2003

Regresso ao passado #3: Corpo Diplomático

1978. Nasciam os Faíscas, a primeira banda punk portuguesa, a par com os Aqui D'El Rock. Na formação estavam Rocky Tango (Paulo Pedro Gonçalves, ex- Heróis do Mar, LX90, etc.), Dedos Tubarão (Pedro Ayres Magalhães, hoje nos Madredeus), John Lee Finuras e Gato Dinamite (Emanuel Ramalho, hoje baterista nos Delfins). O manager era o Zé Pedro que conhecemos da guitarra ritmo dos Xutos & Pontapés.
Em Janeiro de 79, na comemoração dos 25 anos do rock, nos Alunos de Apolo, os Xutos davam o seu primeiro concerto, ao passo que os Faíscas davam o último. À formação dos Faíscas juntar-se-iam Ultravioleta (Carlos Gonçalves, hoje vocalista nos Raindogs) e Carlos Maria Trindade (hoje nos Madredeus). Na audição de vocalistas onde foi escolhido Carlos Gonçalves chegou a aparecer António Variações...
Mudavam a sonoridade -- em direcção à new wave -- e mudavam de nome para Corpo Diplomático, estreando-se ao vivo com esta designção na primeira parte dos Tubes em Cascais. António Sérgio, o senhor da rádio, apostou neles e começou por editar, através da etiqueta "Nova", um single numerado, com os temas "A Festa do Bruno" e "Engrenagem", uma versão de José Mário Branco. Depois veio o álbum, "Música Moderna", de onde foi retirado o tema que o "Juramento sem Bandeira" aqui disponibiliza em mp3: "Amor de Guichet".
Os Corpo Diplomático acabaram algures no ano de 1980, mas pouco tempo demorou para que alguns deles aparecessem de novo em cena, com um novo nome: Heróis do Mar.
Dois sítios sobre os Corpo Diplomático a visitar: #1, #2.

domingo, 7 de setembro de 2003

Sol de Domingo

À semelhança do que acontece em muitas outras áreas de negócio deste país, o meio musical local vê-se enjeitado por uma notável inexistência de relacionamento. Primeiro, os músicos mal se conhecem uns aos outros. Não discutem entre si os problemas que os afectam em conjunto. Não têm, pelo menos em Lisboa, um espaço onde possam tocar com frequência ou onde se encontrem para beber uma cerveja e, realce-se, falar, trocar experiências. Até mesmo criar, quem sabe, as famosas "cenas locais". Segundo, à excepção de uma publicação (o DN+), não se pode dizer que existam propriamente editoriais sobre música nos jornais portugueses. E, ao contrário do que acontecia há anos atrás, tem sido raro encontrar-se nas páginas dos jornais os encontros de músicos ou outros agentes do meio para discutir as temáticas mais importantes da indústria em que se inserem (excepção feita ao notável trabalho do Blitz a respeito da aclamada "crise da música portuguesa"). Terceiro, uma editora evita sempre misturar o seu nome com as suas concorrentes (diz, por exemplo, quem tenta fazer, a custo, uma compilação de artistas provenientes de diferentes "casas"). Quarto, é raríssimo haver conferências públicas de abordagem de temas como a importância da imprensa musical nacional nos dias de hoje, o relevo da pirataria em Portugal ou o preço dos CDs nas lojas. Se muitas das vezes nem os próprios agentes do meio dominam na globalidade os temas que, de certa forma, os afectam no dia-a-dia, o que dizer do público em geral? Na maior parte das vezes, nem imaginará a situação de crise que a indústria musical atravessa.
Em relação ao quarto ponto anterior (os debates públicos), a associação 100 Ideias decidiu meter mãos à obra e organizar um ciclo de debates integrado no festival New Sounds from Portugal, que a mesma associação está a levar a cabo em Cascais (começou ontem e vai até ao final do mês -- o calendário de concertos, debates e demonstrações está disponível numa posta mais abaixo). É, conforme disse, uma ocasião rara, que traz à memória os prestimosos debates que todos os anos, por altura do festival SBSR, o casal António Sérgio e Ana Cristina têm vindo a realizar. Fora esses, poucas mais exemplos são vistos no panorama nacional.
Fui convidado há poucos dias para moderar o debate de hoje, o primeiro, em virtude da impossibilidade do Nuno Galopim poder dar a sua ajuda. "Vou pois. Agrada-me a ideia." Foi isso que deverá também ter respondido à organização o Rodrigo Cardoso, responsável pela editora Bor Land, que ultimamente tem dado a conhecer os nomes Alla Pollaca (onde ele também toca), Old Jerusalem, In Her Space, Bildmeister, Norton, entre muitos outros, entre muitas outras edições. Não sei o que os outros convidados terão então respondido, mas, segundo a organização, tanto o Nuno Gonçalves, dos Gift, como o Tozé Brito, da Universal, ou o Francisco Silva, da FNAC Cascais, estavam todos eles confirmados para aparecerem hoje no Centro Cultural de Cascais. Mas a verdade é que não apareceram mesmo e nem sequer se dignaram -- uma vez mais segundo a 100 Ideias -- a dar qualquer satisfação. Resumindo, o debate (sobre o preço alto a que a música é hoje vendida) não aconteceu.
É verdade que, apesar do empenho da organização, o público não acorreu em massa. É verdade que, dadas tais circunstâncias, o debate, a acontecer, nunca iria produzir grandes mais valias de conhecimento, a não ser nas poucas pessoas que ali estavam, a contar com os próprios oradores. Concordo em absoluto que alguns dos convidados terão coisas mais importantes para fazer numa tarde ensolarada de Domingo do que enfiar-se num pátio fechado (triste ideia do arquitecto ou do dono do espaço) do Centro Cultural de Cascais. Mas, e a confiar, sublinhe-se, nas palavras da organização, confirmar a presença e depois não aparecer é pouco ético, tanto mais neste meio, como dizia ao início, onde a falta de relacionamento é já tanta.