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sábado, 28 de janeiro de 2017

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Os melhores concertos de 2010 (21 a 30)

21. Diplo @ Primavera (28/5)
Os puristas do rock nunca chamariam a isto um concerto. Deu para pular, deu para dançar, deu para fazer um festão pela noite dentro como poucas bandas conseguem fazer. Foi o quê, então? (Foi uma pena não ter conseguido ver Major Lazer...) VÍDEO

22. Lee 'Scratch' Perry @ Primavera (29/5)
Já começo a perder a conta ao número de vezes que vi o senhor Perry (e para o ano vai haver mais). Talvez, por isso mesmo, ele não fosse a opção mais óbvia no cartaz ultra-congestionado do Primavera, mas o destino prega partidas porreiras e esta foi uma delas. VÍDEO

23. Vitorino e Janita Salomé Com Grupo De Cantadores De Redondo @ FMM (28/7)
O Alentejo não seria o mesmo se não tivessemos os irmãos Salomé. E este foi um dos momentos mais bonitos, arrepiantes até, do FMM, que este ano inaugurou o slot no horário para o final de tarde no castelo (curiosamente, dois outros espectáculos que surgem mais abaixo, Kimi Djabaté e 34 Puñaladas, foram também à mesma hora, no mesmo espaço). VÍDEO

24. Kimi Djabaté @ FMM (30/7)
Já sabemos, mas ainda não somos muitos, que o Kimi Djabaté é um dos músicos maiores que connosco convivem. É grande nos discos, é grande nas actuações a solo, mas experimentem deixá-lo aparecer com a banda completa, incluindo o genial Galissá na kora. VÍDEO

25. Paus @ Churrasco (3/7)
Ok, foi um acontecimento. Churrasco para os amigos à porta da garagem onde a banda ensaia, bateria siamesa cá fora e, claro, uma apresentação dessa incrível máquina de ritmo com energia a rodos. E ainda há mais Paus nesta lista, mais acima.

26. Oquestrada @ Incrível Club (23/3)
Outros que abriram a porta de casa ao público. Ver os Oquestrada no Incrível, que os viu nascer, é uma experiência única.

27. 34 Puñaladas @ FMM (29/7)
Quem os viu e quem os vê. Cinco anos depois, os 34 Puñaladas voltaram a Sines, voltaram a dar um espectáculo ao fim de tarde, mas agora, numa formação mais reduzida, e com as guitarras e o tremendo calor da voz do Alejandro Guyot a darem ao tango a dignidade e a ousadia que realmente merece. VÍDEO

28. Lee Ranaldo & Rafael Toral @ ZDB (21/4)
Não é em qualquer noite de copos que esbarramos sem querer num Steve Shelley ou que vemos o seu parceiro Lee Ranaldo numa pequena sala cujos cantos conhecemos melhor que certas partes da nossa casa, mas, para lá do acontecimento social, e tal como nas vezes anteriores que este por cá passou a solo (Gulbenkian ou São Jorge, por exemplo), houve texturas e outras brincadeiras com a guitarra que nos fizeram subir à estratosfera da imaginação. VÍDEO

29. Pavement @ Primavera (27/5)
Eram o principal motivo para a romaria ao Primavera deste ano. E, mesmo que tudo o resto houvesse corrido mal, restar-nos-ia este belo momento. VÍDEO

30. Mission Of Burma @ ZDB (24/5)
Não saírem ofuscados pela actuação dos Shellac, na mesma noite, era missão quase impossível, mas foi magnífico ouvir "That's When I Reach For My Revolver" e outras por um trio de veteranos pelos quais não se sentiu a passagem da idade.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O meu Primavera Sounds 2010

Enquanto se dá descanso aos pés dos quilómetros percorridos e das horas em pé a ver concertos e a dançar, enquanto se dá descanso aos ouvidos e à cabeça de tanto rock’n’roll, enquanto se dá descanso ao corpo daquela coisa com nome de santo a que os espanhóis chamam cerveja, há tempo para um esforço de rememoração daquilo que se conseguiu ver e ouvir no Primavera Sound 2010. Notem que esta é apenas uma breve apreciação do que foi «o meu Primavera Sounds 2010». Se já quando se assina uma reportagem sobre um mero concerto a subjectividade é, por natureza, inescapável, muito mais próprio se torna o relato de um festival em que mais de meia-dúzia de palcos funcionam praticamente em simultâneo, em que a cada um cabe decidir o alinhamento do que pretende ver. E este ano, por várias razões, a começar pela memória do estouro físico e mental da experiência de 2009, «o meu Primavera Sounds 2010» foi bastante mais compacto. Mas vamos aos destaques destes três dias de festival no Forum de Barcelona:

Os baixos, as baterias e os músicos que tocam que se fartam
Do cartaz do Primavera Sound deste ano fizeram parte inúmeras bandas com sonoridade (e line-ups) assentes nas secções rítmicas. O protagonismo do baixo e da bateria era evidente nas várias correntes e gerações que passaram por estes palcos.
Da terra do kraut, veio Michael Rother acompanhado de Steve Shelley e Aaron Mullan, para uma enérgica e retemperadora revisitação do reportório dos Neu!, no último final de tarde soalheiro do festival. Do kraut também se ouviu revivalismo por parte de músicos mais novos, como foi o caso da bela surpresa chamada Beak>, o novo projecto de Geoff Barrows, dos Portishead.
Da terra do funk-punk, vieram os Liquid Liquid. Quem, como eu, imaginava que se ia apenas prestar tributo a mais um grupo icónico do passado agora regressado aos palcos, de músicos enferrujados pelo tempo, percebeu logo desde o início o engano. Foi, neste meu Primavera, o melhor de todos os espectáculos (em ex aequo com os Les Savy Fav, mas já lá vamos). Esta potente máquina de dança parece não ter parado no tempo, não só por causa do acaso circunstancial do legado da banda fazer todo o sentido nas pistas de dança de hoje, mas também, e ainda mais, porque os próprios músicos tocam com um rigor e uma energia tais que tornam a dança obrigatória desde o início e que, por várias ocasiões, produzem clímaxes de loucura indescritíveis.
Da terra do pós-rock, vieram os Ui e os Tortoise. Os primeiros, dois baixos e bateria, circunspectos mas exímios na linguagem que criaram nos anos 90. Mais abertos, mais completos, mais ágeis, mais ricos musicalmente, os Tortoise, com John McEntire e John Herndon a trazerem as suas baterias para a frente do palco, mostraram em palco aquilo que já tinham provado em estúdio com “Beacons of Ancestorship”, isto é, que este combo de músicos exímios e multifacetados merece continuar a prolongar a carreira, já tantos anos depois da euforia do pós-rock.

Who rocks the party?
Ainda que com pena de ter perdido, por diferentes motivos, os concertos de Monotonix (diz quem foi que a loucura se instalou no palco ATP, com estes punks israelitas a tocarem no meio da assistência), King Khan, Black Lips, Almighty Defenders (grupo que reúne elementos dos dois anteriores), «o meu Primavera Sounds 2010» ficou marcado pela actuação dos nova-iorquinos Les Savy Fav. Tim Harrington, o vocalista, é a grande figura desta edição do festival. Se em mais de vinte anos de concertos pensava que já tinha visto de tudo, eis Tim Harrington a mostrar o contrário. Ainda mal a actuação tinha começado e já ele, apenas em calções, depois de ter retirado o seu fato de panda mutante, se atirava para a plateia. Ele e a sua opulente barriga. Surfava por cima dos espectadores, subia às bancadas, ia o mais longe possível que o cabo permitia, voltava a palco para subir as estruturas laterais e tentar destruir um ou outro holofote, voltava a atirar-se para o público, fazia questão em aleijar-se ao mergulhar de cabeça para o chão ou cobria-se de pó de talco e atirava-se de novo para a plateia, enquanto cantava o perfeitamente explícito “Who Rocks the Party?”. Tudo isto sem se furtar à tarefa de ter a voz nos momentos certos, no decorrer do excelente alinhamento trazido pelos Les Savy Fav. No último crowd-surfing desapareceu no meio do público e já não voltou. Hoje deve estar com hematomas pelo corpo inteiro. Até o Iggy Pop passa por atinado ao lado de Tim Harrington, que ainda atravessou o palco de um lado ao outro no dia seguinte, na actuação dos Liquid Liquid (ver vídeo aqui). Who rocks the party? Who rocks the party?

Outras coisas
No palco principal, apenas prestei atenção a três actuações. Primeiro, The Fall, que tiveram um arranque enérgico, proporcionado por um dos temas-título do novo álbum “Your Future Our Clutter”, e a esperada sobranceria de Mark E. Smith, que se entreteve por várias vezes a mexer nos amplificadores dos seus músicos. Excelente versão do “Strychnine”, dos Sonics, uma vez gravada para uma Peel Session e depois tornada habitual ao vivo. Mais tarde, vieram os Pavement, com um alinhamento mais ou menos esperado, alguns convidados de ocasião (dos Monotonix e dos Broken Social Scene) e algumas histórias ao microfone: “I got in the elevator with Mark E. Smith, Colin Newman from Wire and two members of Mission of Burma – It was a punk rock wet dream”, dizia o Scott “Spiral Stairs” Kannberg. Na sexta-feira, foi o dia de Pixies. Tal como nos Pavement, ouviu-se aquilo que mais ou menos se esperava (exceptuando a magnífica versão de “Winterlong”) e também se ouviu muitos pregos de Kim Deal (e diz quem estava mais perto do palco que, perante os risos da baixista nestas ocasiões, Frank Black reagia com cara de poucos amigos...).
Um susto chamado Gary Numan: ao princípio, imaginei tratar-se de uma qualquer banda dos círculos góticos espanhóis. Não era de se supor que houvesse alguém a tocar àquela hora no palco Vice, sabendo-se que neste festival os horários são respeitados de forma absolutamente escrupulosa, mas era mesmo o Gary Numan que ali estava naqueles preparos. Entrou logo directamente para o lugar de pior experiência n’«o meu Primavera Sounds 2010».

É muita gente
Há uma razão, entre outras, para não gostar, de uma forma geral, do conceito de festival. As multidões. E se, no ano passado, a experiência do Primavera tinha sido interessante por justamente não ter sido afectada por este problema, à excepção do último dia, por causa da presença em cartaz de Neil Young, este ano teve multidões compactas todos os dias e logo desde bem cedo. Em vários dos espectáculos, principalmente nos mais apelativos do palco principal ou nos do palco ATP, tornou-se complicado conseguir bons lugares, com um mínimo de boa visibilidade. Para ajudar ao clima de caos que rapidamente se instalava com o movimento das massas, as redes de telemóvel deixavam de funcionar. Comunicação por voz tornava-se impossível, e por texto havia atrasos de 10 ou 20 minutos na entrega das mensagens. Estamos em 2010 e problemas de comunicações em situações de grandes aglomerações de povo são coisa que já nem sequer por cá existe.
Por este andar, não vai haver «o meu Primavera Sounds 2011».

O TOP 10 d’«o meu Primavera Sounds 2010»
1º Liquid Liquid
Les Savy Fav (ex aequo)
3º Michael Rother & Friends present Neu! Music
4º Shellac
5º Tortoise
6º Diplo
7º Lee ‘Scratch’ Perry
8º Beak>
9º Pavement
10º The Fall

(O que mais pena me deu de não ter visto: The Almighty Defenders, Monotonix, Apse, Scout Niblett, Thee Oh Sees, The King Khan & BBQ Show, Major Lazer, Dum Dum Girls, Atlas Sound)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Notas finais do FMM: o castelo e a praia


(Fotografia João Gonçalves)

"Sines seria perfeita se o ano tivesse duas semanas: uma de Festival e uma para descansar", lia-se na tabacaria do largo dos Correios (assim o diz a minha amiga Arlinda). Acabou a 11ª edição do FMM e agora há que voltar à normalidade dos dias, à neura da espera.
Depois da "manga" por Porto Covo, depois dos dois dias de calma com concertos no Centro de Artes, a festa regressou ao castelo e à praia, onde se pôde assistir a momentos inesquecíveis:

No topo dos topos, o espectáculo "Pau na Mula", de Cyro Baptista e da sua companhia de percussionistas, que conquistou facilmente o público com a irreverência, algures a meio caminho entre Tom Zé e Hermeto Pascoal (dois compatriotas igualmente chanfrados que pisaram aquele mesmo palco) e o virtuosismo dos músicos. As partes do sapateado, por Nicholas Young, por exemplo, devem ter sido a coisa mais fora de comum e mais eficiente que já se viu neste festival. Também pouco usual (se é que alguma vez aconteceu) foi a exigência bem sucedida do público para um segundo encore. Mesmo depois do encerramento do palco pela voz do Mestre de Cerimónias Mário Dias, o público continuou a entoar a frase melódica com que tinha literalmente participado no tema anterior, a pedido de Cyro Baptista, e a festa voltou.

No último dia do FMM, as atenções, claro, estiveram voltadas para Lee 'Scratch' Perry. No backstage, o clima era de um alvoroço nunca visto, com toda a gente à espera da chegada da lenda do dub, que aconteceu minutos antes do concerto. Do lado da plateia, uma imensa multidão esperava também ansiosamente que este senhor de 73 anos de idade subisse ao palco, o que faria depois da habitual introdução da banda de suporte, enfeitado da cabeça aos pés, multi-colorido, ainda que o dourado assumisse domínio, "trashy" como diria a miudagem fashionistas de hoje, e transportando uma mala de viagem que não serviu para nada a não ser ajudar a compor a imagem. Instantes depois, veio um dos momentos com que o FMM marca a última actuação do castelo desde a sua primeira edição, o fogo-de-artifício. Ainda que menos espampanante que em outros anos, colou muito bem a "Fire", um dos temas de "Repetance", o álbum que Andrew W.K. (!) produziu para Perry no ano passado. O resto da noite prosseguiu com o dancehall entaramelado de Perry, típico dos anos recentes da carreira do jamaicano, que fez toda a gente dançar e suar até ao fim.

Dias antes, na abertura do castelo, a noite foi também memorável pelo seu conjunto. Não é habitual haver uma programação temática, propriamente dita, para os dias do festival, mas esta foi feita de propósito: guitarra portuguesa com Rui Vinagre, um homem da terra; Janita Salomé acompanhado por alguns dos melhores músicos portugueses da actualidade (José Salgueiro, Mário Delgado, Yuri Daniel, José Peixoto, ...); Uxía, acompanhada por Manecas Costa e Zeca Medeiros, chegou, tal como Janita, a cantar José Afonso; e Acetre, um grupo da extremenha Olivença, que também passou pela música tradicional portuguesa.

Na quinta-feira, os chineses Hanggai provaram ao vivo o valor que lhes era reconhecido no disco de estreia. Rock épico misturado com cantos guturais e instrumentos tradicionais da Mongólia, com direito a bis para "Drinking Song", um tema festivo que, apesar da língua em que é cantado, é imediatamente compreendido por quase toda a gente...

Na praia, houve também alguns concertos verdadeiramente explosivos, a começar pelo dos franco-magrebinos L'Enfance Rouge, numa reencarnação de uns Sonic Youth do tempo do EP de estreia ou de "Confusion is Sex" (já para não falar das semelhanças gritantes entre as baixistas de ambos os projectos), de uns Swans ou de uns Shellac mais roufenhos ainda, mas com uma integração magnífica com instrumentos árabes que estiveram nesta formação e que, aliás, contribuíram para o excelente "Trapani ~ halq al waady", álbum de há dois anos. Na praia, ainda, destaque também para os Chicha Libre, que, apesar do mau som com que começaram o espectáculo, foram melhorando cada vez mais, até terminarem com uma estrondosa versão de "Guns of Brixton", dos Clash.

Agora, é esperar mais 300 e tal dias.

Lista dos concertos favoritos nestes nove dias de FMM09:

1º Cyro Baptista/Pau na Mula
2º Mor Karbasi
3º L'Enfance Rouge
4º Uxía
5º Lee 'Scratch' Perry
6º Chicha Libre
7º Hanggai
8º Chucho Valdés Big Band
9º Dele Sosimi Afrobeat Orchestra
10º Debashish Bhattacharya

(Ah, e o Bailarico Sofisticado deste ano deve ter provavelmente sido o melhor do FMM até hoje. Pelo menos, na nossa opinião não independente. Foi seguramente aquele em que mais nos divertimos.)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Lee Perry no FMM!



Lee "Scratch" Perry. É o primeiro nome divulgado oficialmente, via twitter, pela organização do Festival Músicas do Mundo de Sines. E que nome. Aos 73 anos e ainda exemplo de juventude irrequieta e absolutamente chanfrada, como mostram o último disco e o último DVD gravado a partir do palco, a maior lenda viva do dub e do reggae desloca-se novamente a Portugal, para um concerto no derradeiro dia do festival, 25 de Julho.
Tratando-se do último dia, a actuação do "Upsetter" merecerá certamente, ainda que tal não esteja garantido na nota da organização, honras de fogo de artifício. E, nas duas vezes em que Jamaica rimou com fogo, nas edições em que o apogeu da festa se deu com os Black Uhuru (com Sly & Robbie), em 2001, ou com os Skatalites, em 2003, houve autêntica magia, como todos que lá estiveram seguramente testemunharão.
Faltam 130 dias para o FMM, 139 para o Lee "Scratch" Perry. Já faltou mais.