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domingo, 9 de julho de 2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017

sábado, 5 de novembro de 2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

domingo, 31 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 3, Can



FUTURE DAYS
CAN (Alemanha)
Edição original: United Artists
Produtor(es): Can
discogs allmusic wikipedia

Holger Czukay: "Bel Air [a faixa de 20 minutos que ocupa o segundo lado de Future Days] mostrou os Can como um grupo de sinfonias elétricas que pintava uma paisagem pacífica ainda que por vezes dramática".

Menos rock, menos focado, menos terreno, mais ambiental, mais planante, mais atmosférico. Ao quinto álbum, os Can passavam a pintar paisagens sonoras, dando o mote para a música ambiental. "Moonshake", o mais curto dos quatro temas que compõem o disco, é talvez a exceção, o último ponto de focagem. Os restantes são para se serem ouvidos sem pressas, com a mente livre para voar. "Future Days" marca este ponto de viragem na carreira dos Can, que, pouco depois, veriam o vocalista Damo Suzuki sair. Os Can continuariam com a arquitetura de paisagens no álbum seguinte, "Soon Over Babaluma".

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Esta noite somos visitados por um daqueles colossos imensos



Há quarenta e tal anos, Holger Czukay, então aluno de Stockhausen, então professor de música, então pouco fã de rock, não imaginava provavelmente que viria a ficar com o nome gravado profundamente na história relevante daquele género popular da música moderna, ao fundar e constituir-se como um dos principais motores criativos desse formidável grupo que foram os CAN. Em 11 anos, os CAN vieram e foram, não deixando porém de ficar na cartilha de milhares e milhares de bandas que ainda hoje trilham os caminhos abertos pelos alemães. Czukay continuou com os seus projectos em nome próprio, brincou com a rádio de ondas curtas, fez-se pioneiro da arte do sampling, cortando as fitas das gravações e colando-as, e colaborou com um número infindável de boa gente, com gente mais nova, mas clientes da mesma fonte de génio, como David Sylvian, Brian Eno ou Jah Wobble.

É hoje, sexta-feira. Aos 72 anos, Czukay a Lisboa, ao palco do Lux, num espectáculo promovido pela Filho Único. A primeira parte vai estar por conta dos Gala Drop, que aproveitam para lançar a versão LP do seu magnífico álbum de estreia (e que, entre outras coisas, os vai levar também ao palco do Coliseu dos Recreios, para a primeira parte dos Sonic Youth). Os bilhetes custam 15€, estão à venda na Flur e na Louie Louie ou, depois, na bilheteira do Lux.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Ainda há mais -- e que mais -- para Abril!



HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY. HOLGER CZUKAY.

Era uma vez um grupo de friques alemães conhecidos por esse mundo fora pelo nome CAN. Jaki Liebezeit, Irmin Schmidt, Michael Karoli (já falecido), e os vocalistas Damo Suzuki e Malcolm Mooney, todos eles foram entronados na coorte do krautrock, mas Holger Czukay, antigo aluno de Stockhausen e a principal roda motriz do grupo, foi o que mais sobressaiu, tendo prolongado uma interessante carreira a solo (bom, com alguns altos, mas também com alguns baixos). É a primeira vez que vem a Portugal para um concerto a solo. A Filho Único garantiu a sua presença por cá em Abril, dia 9, no Lux, com a primeira parte para os Gala Drop. Os bilhetes custam 15 euros.

E, já que se fala na Filho Único, há mais novidades. Além do que já era sabido (Panda Bear, Beach House), há novo sarau no Museu do Chiado, com Lula Pena e Sir Richard Bishop (4 de Março, 10€), há Pedro Magina (Aquaparque) no Lounge (10 de Março), há Joe McPhee e Chris Corsano em formato de duo no MusicBox (12 de Março, 8€) e Little Claw com Gabriel Arantes na primeira parte, também no Musicbox (19 de Março).

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Peripécias

(Alerta geral! alerta geral! Post pessoal! Post demasiado pessoal!) São três e vinte da manhã e só agora chego a casa, depois de ter ficado apeado por baixo de um viaduto, sem gasolina, a primeira vez que isto acontece em 14 anos de carta, é preciso que seja dito, depois da primeira estação de serviço não aceitar o multibanco, e, acabo já esta frase pouco dada a respirações, como se estivesse armado em Saramago, desculpem lá, voltando ao que dizia, depois de um estupendo, um devastador, um inclassificável concerto dos Akron/Family. Ufa. A expectativa era muita, conforme terão reparado nas postagens anteriores, carregadas de vídeos que testemunham a passagem destes friques de Brooklyn por outros palcos. Mas nada do que se passou esta noite pelo Musicbox foi menos bom do que aquilo deixava perceber, e se já era difícil superar tantas expectativas, próprias já só de um puto que noutros tempos aguardaria impacientemente concertos de Jesus and Mary Chain ou Nick Cave, como explicar que esta noite foi ainda melhor do que aquilo que se esperava? Por outro lado, como não haveremos nós de reagir perante tipos simples e humildes que tocam bem e suam em palco (conseguido com que a plateia os acompanhe nessa missão), enquanto esticam os limites da imaginação melómana ao jogarem os Can e os Faust com a free folk marada norte-americana, as polifonias do gospel com as polifonias das guitarras? Foi uma noite inesquecível. Como o meu chapéu, assim que o comprar, se este não for um dos concertos do ano. Não fosse ter que trabalhar na terça-feira e eu vos diria quem estaria em Braga amanhã. Há bandas que merecem esse sacrifício e os Akron/Family, por voltarem a fazer-me sentir um puto a descobrir a alegria que é ver um concerto, preenchem inapelavelmente o requisito. Akron/Family ou Angels of Light, voltem, já.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Entrevista com Damo Suzuki

Quando Damo Suzuki veio a Lisboa há dois anos atrás, aproveitei a ocasião para o entrevistar. O que se segue foi publicado na edição de Novembro de 2004 da revista Número Magazine, assim como está, em inglês.
É favor não esquecer que Damo está de volta a Portugal neste fim-de-semana: sexta-feira, com os CAVEIRA, na ZDB, e, no sábado, com os Soopa, nos Maus Hábitos.

DAMO SUZUKI
Turning European, I think I'm turning European, I really think so

Image hosted by Photobucket.comDamo Suzuki, Japanese-Born, 54, pop industry phobic, has been doing this for seven years or so. That is, touring every underground venue in the world, improvising with local musicians, communicating through music. The Damo Suzuki Network, as it is called, is growing larger every time. Last June, when the ex-Can singer played in Oporto and Lisbon, he joined musicians -- or "sound carriers", as he likes to put it -- like Nuno Rebelo, Marco Franco, Scott Nydegger (Mécanosphère), Massimo Pupilo (Zu) or people from Sooba, the experimental act from Oporto. He didn't know them before, as it happens most of the time, one fact that pushes the freedom frontiers in terms of improvisation and "instant composing", a term that Damo likes to underline in his unique concept for music. Did it work? Oh hell, it really did.

You ran away from your folk's house by the time you were 16.
It was quite necessary to get out from Japan. Japan lost the II World War and so they had many things to develop. I was very curious about other countries, as I was quite good with geography. If you'd live in Ireland or England or Japan, you would have this sentiment to see other countries. It's different from here. Well, ok, Portuguese people were quite a sentimental people, with Vasco da Gama, but it was different. And today you have information. You don't have to travel anywhere.

Then you went to Moscow.
Yes, but before I were in America and Asia. First time I came to Europe was 1968. Since then I've been living in Europe. It's quite important for me.

Did you ever get back to Japan and stayed for, like, more than a week?
I did, but not more than one month.

You feel more like Japanese or European?
I don't like to have any kind of responsibilities and if you are connected to one nation, you feel some kind of responsibilities, like elections and so on. But I don't have that kind of feeling because no country in the world is good enough for me [laughter]. Maybe I'm being quite arrogant [laughter]. I think is much better not to have any kind of nationality.

Still, have you found something you could call home, in Germany?
No, it's not home. I have three kids, so that's where I have to stay, as a responsibility of a father, but that's not too much important, because "home" is some kind of answer I'm still looking for and maybe I cannot find it. "Home" for me is not a geographical place. It has to do much more with spiritual things.

And then, Damo met Can. Could you describe what happened that day you met Holger Czukay and Jaki Liebezeit from Can?
It was 1970, April or May. I used to work in a musical play, in Munich. I was there only to get money to get back home.

That play was Broadway's "Hairs", right?
Yeah, I did it for three months. I was singing, and dancing and doing that sort of stuff. But it wasn't a pleasant job. I did it only for the money, because it was really very boring everyday. And one day -- I was used to make street music -- I was doing this happening and the members of Can were there, sitting at a café and watching me. They came up to tell me that they had no singer and that they had a concert that night and asked me if I could join them. I had nothing to do, so "ok, I can join you". It was fun, because, apart from doing music in the streets, I never thought on making music as my life.

What happened that night can somehow be related to what you do nowadays? I mean, you go to a venue, you don't know the people you're going to play with...
Today [this interview was set before the Lisbon's gig], I don't know two of them. Well, I met them at the sound-check... But it's ok, it's our communication.

How does it work? How do you set these lineups? Do you choose the people you're going to work with?
Most of the time, I don't choose them. Sometimes it's the venue that asks people to come and play. Others, like when I'm playing in small villages, where there aren't musicians who can improvise, I ask some people. I have a list of the "sound carriers" -- I call them "sound carriers" because it's better than the word "musicians". They don't have to follow theory or systems in music. We are free when we make sound at the moment.

Don't you fear not having that kind of communication happening one night?
No, it's being good every time, in a way. Just different. For instance, in Portugal I'm playing much more with experimental or free-jazz musicians, but if I play in England, I'll have much more rock music. So, it's different every time. And that's why I'm not tired. If you are doing the same kind of music everyday, with the same people, it's stressant... It's like getting a regular job. I don't like that. Our concerts are freedom. You can make much more creative things.

And how is it when you get to play this way with ex-Can members? Is it different?
It's not different, but it's like a football game. If you already played with someone, you know how he moves. So, it's much easier. But I don't like to take that easy work all the time. I like to do adventures in my life. It's really nice enter into adventure when you don't have a concept. Every moment you create is something. If you're playing composed old stuff, you cannot find this. And also the mistakes: here it is not a mistake, you can get another way to create; in composed music, a mistake is a mistake. Human being is not perfect. Everybody does mistakes. And it's important you accept other people that also make mistakes.

How do people react to your concerts?
Place to place it is very different. In some country, people are watching a little bit distant from us. In other, people are dancing all the way from the beginning. But I cannot say "this place is good" or "this place is bad". Actually, everywhere it's good.

When you left Can, you also took departure from music...
Eleven years. I didn't make any music in these eleven years. I was enjoying family and I really don't like pop culture. We were getting quite famous in Germany and also in England. That time, I met a German girl and we married. For me, family was, suddenly, much more important than music itself. I was quite fed up of music. Last Can recording I did was "Future Days" and it was for me the best LP. It was easy for me to get out of music because I thought I couldn't do better than that. So why should I continue?

In this Can book that was released two or three years ago, the late Michael Karoli says "It's beyond doubt that Damo became more professional the longer we worked with him. When he left us after 'Future Days' he was just at the point where he could have become an amazing fantastic singer."
[Laughter] I didn't know this. This is really good. He's isn't any more here and it's really nice to remember him.

And what made you turn again to music?
Oh, that was a really horrible story. I had a cancer. I was Jehovah's Witness that time and I made every operation without blood transfusions. In the first operation, chances to survive were 30% with blood from other people. I did it without. I survived but three days later it went wrong and then the doctor said he could only give 15% of possibility to live. "With or without blood transfusion, it doesn't matter; you don't have so many chances to live." It was a really hard situation, but I survived, without the blood transfusion. Since then -- anything like 18 years ago or so -- I've been feeling so good. I even had the feeling that I like to injury myself [ed: then I got why he ripped those filters off his cigarettes] and do the things that I really want to do, so that's why I came back to music. And besides that I like to help people telling them the way I survived this bad situation. If I can share my energy with the people, then it is really good. For me, music has always been communication. If we are in one room together with the audience, the audience doesn't know a thing, as well as the musician, as it is going to happen tonight. We are on the same stage. We are living the time together. So, it's quite important for me to be making music again. And I like to reach more than music, especially now, with all these materialisms. I'd like to change it a little bit. It's called the "Never Ending Tour". It's not only me. I'd like to continue this forever, but the day I go under the ground, perhaps there'll be new people that can take this on. Now, in the 21st century, we have so much information... For instance, when I was 13, I hadn't so much information like my kid. They have to change the next world in a better way. But we can make some kind of stone -- like when building a house -- and then generation after generation can change it. With music, I think is quite possible, but only if you do improvised music, because music is not communicated though industry. On another kind of music, the system is already there to get success, to become popular, to look good or any other thing.

Do you listen to music at home?
I do. Mostly, classical music. From today I listen only to my music. I record every concert, so there's enough material. I listen only to live recordings.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma racha no crâneo (por Fernando Magalhães)

Os discos importados e as interferências da rádio, a bizarria progressiva, o krautrock e o ódio ao punk. Mas o que realmente fica é a revelação de que os perigos que o consumo e audição desenfreados de álbuns podem não ser psicológicos. É o que acontece quando um disco dos Public Image Ltd nos acerta em cheio no crâneo.


O disco que mais me marcou em toda a minha vida foi, sem dúvida, "Metal Box", dos Public Image Lda. Vinha embalado numa caixa circular em metal. Calhou, numa certa data fatídica, cair da estante em que se encontrava, atingindo-me em cheio no crâneo. Fiquei marcado para sempre. Cinco pontos no occipital mais um trauma profundo que me fez odiar para sempre John Lydon e a música dos PIL. Foi, de qualquer forma, o contacto mais físico que alguma vez tive com um disco.

Mas a minha relação com a música popular e com os discos começara muitos anos antes do acidente. Carregando na tecla "rewind", chego a 1968, aos 13 anos de idade. Como ainda não possuía gira-discos, ouvia rádio. Aliás, como toda a gente interessada pela música nessa época. Só mais tarde me apercebi dos perigos, não só lesivos da integridade física, como, sobretudo, psicológicos, que o consumo e audição desenfreados de álbuns de música pop/rock implicava.

No início, ouvir música era uma actividade inocente. Fixava o nome de canções, por vezes tomava notas ou elaborava as minhas próprias listas de preferências. Lembro-me de escutar até ao enjoo, quer obras-primas como "The Dock Of The Bay", de Otis Redding, quer coisas tão prosaicas como "The Legend Of Xanadu", de Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick and Tich ou "Bonnie & Clide", de George Fame. "Light My Fire", escutei-a pela primeira vez na voz de José Feliciano. Quando ouvi o original, dos Doors, senti-me chocado. A voz de Jim Morrison não tremia o suficiente...

Fui passando o tempo desta maneira até que, na transição para a década de 70, a loucura explodiu, tornando-se galopante como o passar dos anos. Um programa da Rádio Renascença fez nascer em mim o gosto pelas músicas bizarras e pelas sonoridades mais retorcidas da então emergente "música progressiva", esse papão das décadas seguintes. Chamava-se o programa Página Um, com locução e realização de José Manuel Nunes. Abriram-se mundos. Cada audição de ábuns com o selo de editoras, como a Vertigo, Island, Harvest ou Neon constituía uma descoberta: Trees, Savoy Brown, Jethro Tull, Forest, Incredible String Band, Gracious, The Greatest Show on Earth, Warm Dust, Quatermass eram nomes que se me iluminavam na imaginação envolvidos numa mística própria. A música tinha cor e sabor. Nas discotecas (por vezes minúsculas lojas de electrodomésticos) encontravam-se muitos desses discos (invariavelmente com capas de abrir) que hoje são preciosidades para o coleccionador. Comprei uns tantos e desdenhei uma quantidade de outros. "It's All Work Out In Boomland", dos T2, "Ben", dos Ben, "Pre-Flight", dos Room, "Three Parts Of My Soul", dos Dr. Z, "The Polite Force", dos Egg, "Sorcerers" dos Jan Dukes de Grey, entre outras raridades, passaram-me pelas mãos...

Também ganhei o hábito de escutar -- em péssimas condições, diga-se de passagem, tal a quantidade de interferências -- a Rádio Luxembourg, só por causa de um programa chamado Dimensions. A locução estava a cargo de Kid Jensen, que hoje ganha a vida a fazer anúncios de colectâneas saudosistas no Quantum Channel, mas nessa altura era um guru, concorrente de John Peel. Por vezes passava faixas inteiras, interessantíssimas, de 20 minutos, de bandas desconhecidas. Quem seriam? Terrível expectativa. Quando, finalmente, o Kid se prestava a revelar o segredo, lá vinha a onda de ruído tapar a audição do nome do intérprete. Mas lá fui apanhando uns quantos nomes: Focus, Clarck Hutchinson, Dando Shaft, Mogul Trash, entre dezenas de outros que hoje preenchem o catálogo de reedições em compacto da Repertoire.

Claro que, entretanto, a compra de álbuns já se tornara um imperativo estético e moral (há quem lhe chame vício). Com o "pequeno" senão da mais do que frequente falta de liquidez obstar a aquisição de todos os objectos de desejo. Acabei por descobrir que saía mais barato mandar vir os discos de fora. Através de firmas exportadoras como a Tandy's e, mais tarde, a COB. Horas e horas de angústia, com as semanas a passar devagar, até a campainha da porta tocar, por fim, de uma forma especial, e aparecer-me pela frente o carteiro segurando nas mãos o mágico embrulho de cartão. Rasgado furiosamente o pacote, seguia-se o prazer da revelação, o manuseamento da capa, terminando na audição de álbuns que muitas vezes encomendava sem nunca os ter ouvido antes, apenas pela foto da capa ou pela leitura de uma crítica mais sugestiva no "Melody Maker", no "New Musical Express" ou nas revistas francesas "Rock & Folk" e "Best". Muitas vezes por simples intuição.

Anos de magia, em que parecia dispor de todo o tempo para ouvir um disco, as vezes que quisesse, até conhecer de cor as letras e as melodias. Um, dois por mês, chegavam, a princípio, para me ocupar até à encomenda seguinte. Depois, à medida que as posses iam aumentando, aumentava proporcionalmente o ritmo de compra com o consequente descalabro económico. Era o vício a ditar as suas leis.

Foram esses os anos do deslumbramento, da procura inflamada da criatividade e da diferença que determinariam a partir daí a minha forma de ouvir música.

A aventura continuou por outras descobertas e latitudes. Do "krautrock" (Tangerine Dream, Harmonia, Cluster, Kraftwerk, Neu!, Yatha Sidhra, Release Music Orchestra, Parzival, Klaus Schulze, Eroc, Wallenstein, as edições originais encontravam-se com facilidade...), dos tesouros de Canterbury (Soft Machine, Hatfield and the North, Caravan, Khan, Gong, Gilgamesh, National Health, Kevin Ayers...) das pérolas da Virgin (David Vorhaus, Comus, Henry Cow, Faust...). E ouvia os programas de rádio do António Sérgio. Até ao ano da grande desilusão: 1976. Confesso: odiei o "punk" desde o primeiro momento. Curiosamente, foi o mesmo António Sérgio o primeiro a divulgar a praga em Portugal. Ouvia e amaldiçoava os Sex Pistols, Sham 69, X-Ray Spex, 999, The Damned (apesar de Lol Coxhill tocar num dos seus discos...). A salvação chegou dos Estados Unidos, com os Suicide, Devo, Talking Heads, Pere Ubu. A Inglaterra contribuiu com os Cabaret Voltaire e os Human League, de "Reproduction", "Travelogue" e do EP "The Dignity Of Labour".

O passo seguinte foi o mergulho insano nos "industriais" (o que prejudicou grandemente a minha saúde mental). O lema era Einstürzende Neubauten, Test Department e SPK; bidões, Black & Decker e martelos pneumáticos. Mas antes o fogo e metal das fábricas do apocalipse que o pontapé na avó da punkalhada.

Com a chegada dos anos 80, após um flirt com a Made To Measure (Hector Zazou, Daniel Schell, Benjamin Lew & Steven Brown) transferi-me com armas e bagagem para o universo da Recommended Records, onde o espírito do Progressivo adquirira novas formas de beleza e esquizofrenia criativa: Roberto Musci & Giovanni Venosta, Doctor Nerve, Jocelyn Robert, Biota, Steve Moore, Wha Ha Ha, Boris Kovac, Non Credo, Wondeur Brass... Alguém se deve lembrar de uma certa lista dos melhores álbuns dos anos 80 que apareceu publicada, em duas semanas, consecutivas, no jornal "Blitz"... Quando, por fim, já nos anos 90, comecei a escrever sobre música, a razão deu início à sua actividade de médico legista. Mas as autópsias não conseguiram arrefecer a paixão. Foram milhares e milhares de sons sulcados pela agulha do gira-discos e pelo laser do CD que sulcaram igualmente a minha alma.

Discos da minha vida, há vários. Contudo, apenas um me fez chorar, quando o ouvi pela primeira vez: "Pawn Hearts" dos Van der Graaf Generator, onde percebi que a santidade e a loucura podiam ser só uma e a mesma coisa e coexistir num homem só. Fui conferindo a minha própria loucura pelos poemas e pela música de Peter Hammill. Estremeci com "In Camera", que me fez compreender onde termina uma canção e começa o inferno.

É verdade, e a folk? Essa é outra história. Uma história de amor sem o reverso da medalha. Encetou-se em 1969 quando uma amiga me ofereceu "Liege & Lief" dos Fairport Convention. A partir daí fluiu como um rio com o caudal cada vez mais forte. Até hoje.

Termino com uma lista (não há quem lhes resista) de dez discos cujas primeiras audições, no mínimo, me fizeram acreditar que a música popular pode ser algo mais do que uma maquinação da indústria. Discos que me fizeram sentir o mesmo frémito da "primeira vez":

"Ummagumma" (o disco de estúdio) (Pink Floyd, 69)
"Acquiring the Taste" (Gentle Giant, 70)
"Magma" (Magma, 70)
"Faust" (Faust, 71)
"Ege Bamyasi" (Can, 72)
"The Henry Cow Leg End" (Henry Cow, 73)
"Rock Bottom" (Robert Wyatt, 74)
"Autobahn" (Kraftwerk, 74)
"Suicide" (Suicide, 77)
"Low" (David Bowie, 77)
"Berlin" (Art Zoyd, 87)


Fernando Magalhães
Supl. Sons, Público
08/01/99

sexta-feira, 2 de julho de 2004

De onde raio é que vem o nome? #16: Can

Na "bíblia" do krautrock que Julian Cope escreveu, o ex-Teardrop Explodes dá conta de vários significados, em diferentes línguas, para a palavra "Can". Em turco, "can" (lido "chan"), significa "vida" ou "alma". "Kan", em japonês, significa "sentimento" ou "emoção", ao passo que "Chan", na mesma língua e usado numa saudação, se poderá traduzir por "amor". No entanto, e segundo Irmin Schmidt, o teclista dos Can, o significado da designação será mais prosaico: um acrónimo de comunismo, anarquismo e niilismo (como na charada de hoje).

segunda-feira, 21 de junho de 2004

A rede

"Provavelmente, só deixarei isto quando for para debaixo da terra." Era assim que o Damo Suzuki respondia neste sábado a uma de muitas questões que lhe fiz: "por quanto tempo mais vais continuar com a never ending tour?" Aos 54 anos, Damo, o mítico vocalista dos Can era 70-74, é um poço imenso de vitalidade. Quem o escuta inunda-se de fascínio. Nas coisas mais simples, como a comemoração da vitória da República Checa, depois da sua Alemanha ter empatado, ou o mal menor do molho de manteiga no robalo ("vocês, com peixe tão bom e tão fresco, deviam comê-lo o mais natural possível") a teses mais profundas, como o cancro que ultrapassou, o que lhe trouxe "uma nova vida" e um regresso à música, 11 anos de ausência depois, ou aquilo que o leva, desde os dezasseis anos, a girar constantemente à volta do mundo, ou ainda todo um conjunto de noções simbólicas e filosóficas que sustentam o conceito do "instant composing".

O que é o "instant composing"? Numa palavra, improvisação. Damo raramente conhece os músicos com quem toca nos locais por onde passa a digressão -- a "never ending tour" -- do Damo Suzuki Network. No sábado, por exemplo, só conhecia o baixista italiano Massimo Pupillo, dos Zu, porque com ele havia tocado nos dias anteriores, em Vigo e no Porto. Do resto da formação do concerto na ZDB, os portugueses Marco Franco (bateria) e Nuno Rebelo (guitarra) eram os únicos que estavam mais à vontade entre si. E o quinto elemento, um americano de origem francesa que tocou flauta transversal e clarinete baixo, é a ilustração perfeita do conceito de "instant composing": a cerca de meia-hora do início do concerto, Damo, eu, o Scott Nydegger e o Pilot Rouge, dos Mécanosphère, entrámos na sala vazia da ZDB, onde este indivíduo, com ar de professor, tocava flauta sozinho, para ele próprio; pouco depois, Damo dizia-nos: "vou falar com o técnico de som, gostava que este tipo tocasse connosco." O músico americano seria mais um "sound carrier" -- é assim que Damo chama a si próprio e aos músicos que o acompanham nestas aventuras.

Damo coloca muito ênfase, para explicar a forma como entende aquilo que faz, no termo "comunicação". Uma comunicação que ocorre entre um grupo de pessoas "que partilham as mesmas parcelas de espaço e de tempo". Comunicação entre os "sound carriers", entre estes e o público, entre as pessoas que compõem a plateia da ZDB. E é isso o que acontece ao longo das mais de duas horas (?) de improvisação. É, obviamente, sobre Damo que recaem os olhares do público. Dali saem frases melódicas e hipnóticas como aquelas fizeram de álbuns como "Tago Mago" ou "Future Days" obras primas eternas. Dali sai uma entrega que abala, logo desde o início, com qualquer postura mais indiferente que o espectador possa imaginar. Entre os outros "sound carriers", é Marco que se destaca, comandando a improvisação rítmica, fornecendo pistas ao resto do grupo, com a preciosa ajuda de Massimo, que contanstemente maltrata o seu instrumento, tal como mostrara em Zu, meses antes. Também o Nuno compreende de forma soberba os caminhos que a secção rítmica lhe abre e assume a autoridade suficiente para, frequentemente, lançar, ele próprio, deixas sublimes para todos os outros. O flautista americano compõe o cenário com altivez, principalmente na primeira do espectáculo, improvisando linhas livres que assentam e cristalizam sobre a torrente de lava sónica que do palco corre. Improv meets rock meets free jazz meets metal meets Damo.

Perto do fim, o japonês mergulharia nos braços da assistência, enquanto os outros "sound carriers" se entregavam ao último, porventura o mais agressivo, dos caos sonoros que naquela sala foram fabricados. A "comunicação" tinha acontecido e, ao fim da noite, entendia-se melhor o que Damo antes explicava acerca da sua forma de ver a música. Afinal, não se tratava de meros símbolos, de meras teorias de "proggie". Era mesmo a música a assumir o seu mais ancestral desígnio, amplamente disseminado pelas civilizações desde a idade da pedra. Magnífica comunhão de espaço e tempo.
(10/10)
(entrevista com Damo Suzuki para breve, algures)