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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

100 de 1979, n.º 83, The Tree People



THE TREE PEOPLE
THE TREE PEOPLE (EUA)


Edição original: (ed. autor)
Produtor(es): Stephen Cohen, The Tree People



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

100 de 1976, n.º 44, Pierre Moerlen's Gong



GAZEUSE! / ESPRESSO
PIERRE MOERLEN'S GONG (França)


Edição original: Virgin
Produtor(es): Dennis MacKay



terça-feira, 2 de junho de 2015

100 de 1973, o primeiro deles todos: ENO - HERE COME THE WARM JETS



HERE COME THE WARM JETS
ENO (Inglaterra)
Edição original: Island
Produtor(es): Brian Eno
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Para lá de toda aquela imagem andrógina e espampanante com que Brian Eno aparecia em público na altura, ainda na espuma da onda do glam, havia, já se sabia, um esteta compulsivo com requintes de cientista louco quando montava laboratório nos estúdios de gravações. Reza a lenda que para esta sua estreia a solo terá reunido 16 músicos razoavelmente diferentes para que do choque entre as diversas abordagens pudesse captar a energia do acidente. Assim como os físicos que se entretém a ver partículas a coliderem entre si. Chamou a si todos os Roxy Music, à exceção de Bryan Ferry. Foi buscar o baterista Simon King aos Hawkwind e o baixista Paul Rudolph aos vizinhos Pink Fairies, também ele futuro Hawkwind. De Canterbury, chamou o baixista Bill MacCormick, dos Matching Mole. Dos King Crimson, vieram o guitarrista Robert Fripp, com quem Eno já tinha trabalhado no excelente "(No Pussyfooting)" (ver abaixo nesta lista) e o baixista John Wetton. Ainda teve a ajuda do guitarrista Chris Spedding. Depois, continua a lenda, dançou para eles. Ou melhor, Eno dirigiu os músicos através da dança e de outros sinais, corporais ou verbais, aos quais estes iam respondendo em simpatia. Na posse das gravações individuais, lançou-se depois a um meticuloso trabalho de mistura, corte e costura, do qual fez parir uma dezena de canções das quais se diz terem poucas ou nenhumas semelhanças com os contributos originais. À boa maneira inglesa da altura, juntou-lhe rapidamente letras cómicas que soassem bem e que, à exceção da história do dragão humano A.W. Underwood invocada em "The Paw Paw Negro Blowtorch", pouco ou nenhum sentido fizessem. É que a voz era mais um instrumento manipulado pelo cientista louco.

Ao 12.º dia, o criador chamou-lhe um álbum e descansou.

Há nestas dez canções ainda muito dos Roxy Music, claro, pelo menos na forma como Eno veria o grupo de onde tinha saído meses antes. As duas primeiras faixas, "Needles In The Camel's Eye" e "The Paw Paw Negro Blowtorch" são bons exemplos dessa espécie de declaração de interesses de Eno. Em "Baby’s on Fire" também, mas aqui já tínhamos a guitarra incendiária de Fripp a pegar fogo aos modelitos de lantejoulas, num solo que ainda parece furar os ouvidos de muita gente nos dias de hoje. "Cindy Tells Me" volta ao glam, por via da pop dos anos 60, como se fosse revista pelos Velvet e depois esticada pela saturação de efeitos de Eno. Em "Driving Me Backwards", parece que há um filme a andar para trás, enquanto um pianista se houve do fundo de uma cave, exortando os seus demónios, momento negro que é logo compensado pela beleza de "On Some Faraway Beach", uma melodia de tons nostálgicos que fica no ouvido, uma fórmula que Eno viria a repetir aqui e em discos futuros. Volta ao glam em "Blank Frank", porventura deitando mais ácido sarcástico para cima do seu passado recente. Cheia de voz e de letras parvas e boas vem depois "Dead Finks Don’t Talk". Pop épica a abrir uma alameda de aclamação para os dois grandes momentos finais do disco. Talvez devamos dizer os monumentos finais do disco. O primeiro, "Some of Them Are Old", lembra Robert Wyatt ou outro amigo deste, Ivor Cutler, mas aqui Eno, ou melhor, os vários Enos que aqui ouvimos em coro conduzem a folk que constitui a melodia da canção a cenários cósmicos, como quando Sun Ra levava o bebop para além de Saturno. No final da canção fica um piano solto, perdido no espaço, como que uma sinfonia do rasto radiofónico do big bang, a qual se continua a ouvir, se estiverem bem atentos, na faixa final, que dá ou recebe o título do álbum. Nela, voltamos aos traços nostálgicos que Eno tão bem consegue deixar numa canção, seja a solo, seja nas bandas que já produziu até hoje. É tão bom este momento que não conseguimos fazer outra coisa que não seja voltar a ouvir o disco do princípio.

A meio caminho entre o glam, cujo prazo estava a acabar, e o punk, que batia à porta, Brian Eno conseguiu um disco da mais extraordinária pop. Pop para gente chanfrada, é certo, mas pop extraordinária. E vanguardista, até para os dias de hoje.


(Antes que alguém venha do Wikipedia com a reclamação de que o disco saiu já em janeiro de 1974, aconselha-se primeiro a leitura da página de discussão das alterações que esse artigo já teve, nomeadamente no que à data de lançamento concerne. Também poderá ver o registo no Discogs ou, talvez ainda mais importante..., o próprio disco. O meu, em CD, tem claramente indicação de 1973 como ano da edição original...)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

100 de 1973, n.º 2, José Afonso



VENHAM MAIS CINCO
JOSÉ AFONSO (Portugal)
Edição original: Orfeu, Arnaldo Trindade & Cª
Produtor(es): José Niza
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"A formiga no carreiro vinha em sentido contrário, caiu ao Tejo ao pé de um septuagenário. Larpou, trepou às tábuas que flutuavam nas águas e do cimo de uma delas virou-se para o formigueiro: mudem de rumo, já lá vem outro carreiro."

Sim, o país iria mudar de rumo no ano seguinte. José Afonso vinha ajudando a erguer uma certa tensão pré-revolucionária, convocando pelo país inteiro os ânimos dos revoltados. O regime, que cada vez mais dificuldades teria em gerir a crescente sublevação trazida pelas artes populares, em particular pela música de Afonso e de outros, respondia com a prisão: em maio de 1973, o cantor era encerrado na prisão de Caxias, por onde ficou durante vinte dias. Aí, diz-se ter escrito várias das canções que compõem este álbum, como aquela que viria a ser o extraordinário poema de "Era um Redondo Vocábulo". No outono do mesmo ano, reuniu-se em Paris com José Mário Branco e quase duas dezenas de músicos franceses, para gravar o disco, que viria a ser lançado em Portugal no Natal seguinte.
Apesar de toda esta tensão, que poderia fazer regressar algum do imediatismo que as canções de José Afonso tinham tido em discos anteriores, "Venham Mais Cinco" não é um disco direto ou pragmático. Há letras que são de leitura direta, é certo, e que talvez por isso se tornariam banda sonora obrigatória da revolução, como a do próprio tema-título ou "A Formiga no Carreiro" (acima citada). Em todo o caso, José Afonso vinha, já desde os discos imediatamente anteriores, a trilhar com sabedoria novos caminhos de modernidade, que parecem impossíveis de terem encontrado eco favorável no atraso do país de então. Era como se a semente da educação, que Afonso tanto se empenhou a espalhar pelo país ao longo dos anos, estivesse agora a dar frutos. Portugal já podia acolher um disco como "Venham Mais Cinco", já podia acolher esta modernidade invulgar estampada nas letras, nas composições e nos arranjos. Era como se uma espécie de tropicalismo à portuguesa estivesse a nascer, pelas mãos do maior génio que as nossas músicas conheceram.

domingo, 31 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 3, Can



FUTURE DAYS
CAN (Alemanha)
Edição original: United Artists
Produtor(es): Can
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Holger Czukay: "Bel Air [a faixa de 20 minutos que ocupa o segundo lado de Future Days] mostrou os Can como um grupo de sinfonias elétricas que pintava uma paisagem pacífica ainda que por vezes dramática".

Menos rock, menos focado, menos terreno, mais ambiental, mais planante, mais atmosférico. Ao quinto álbum, os Can passavam a pintar paisagens sonoras, dando o mote para a música ambiental. "Moonshake", o mais curto dos quatro temas que compõem o disco, é talvez a exceção, o último ponto de focagem. Os restantes são para se serem ouvidos sem pressas, com a mente livre para voar. "Future Days" marca este ponto de viragem na carreira dos Can, que, pouco depois, veriam o vocalista Damo Suzuki sair. Os Can continuariam com a arquitetura de paisagens no álbum seguinte, "Soon Over Babaluma".

sábado, 30 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 4, Neu! (rep.)



NEU! 2
NEU! (Alemanha)
Edição original: Brain
Produtor(es): Conny Plank, Neu!
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O segundo tomo da ofensiva conduzida por Klaus Dinger e Michael Rother abre de forma semelhante à álbum estreia. 11 minutos e 17 segundos de "Für Immer", demonstração perfeita daquilo que viemos a reconhecer como a assinatura dos Neu!, que tanta gente influenciou ao longo destes quarenta anos. Também como no disco do ano anterior, as faixas que se seguem são menos de motorika (assim chamaram os jornalistas ao binário do baterista Dinger) e mais de colagens sonoras e improvisações experimentadas em estúdio. É o que se passa principalmente no lado B, uma sequência de versões diferentes do single "Neuschnee/Super", lançado entre o 1º e o 2º disco, que aqui os Neu! manipularam de diferentes formas. De uma súbida carência (de dinheiro para continuarem em estúdio), surge uma das primeiras experiências de remistura e reconstrução de gravações previamente editadas, como entretanto se veio a tornar habitual no negócio da música.
Como no primeiro álbum (e no terceiro), foram precisas quase três décadas para que houvesse uma edição em CD. Até 2001, o ano em que a Astralwerks reeditou os três álbuns, só apareciam edições piratas à venda.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 5, Tom Zé (rep.)



TODOS OS OLHOS
TOM ZÉ (Brasil)
Edição original: Continental
Produtor(es): Milton José
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Todo compositor brasileiro é um complexado.
Por que então esta mania danada, esta preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério, de sorrir tão sério, de chorar tão sério, de brincar tão sério, de amar tão sério?

(in "Complexo de Épico")

Quarto disco de Tom Zé, que por esta altura, depois de ter dado uma importante mão ao avanço do tropicalismo -- ele que talvez fosse o mais tropicalista de todos, acabou sendo ignorado, havendo até quem lhe chamasse "Trotski do tropicalismo" -- entrava na fase mais obscura da sua carreira, que só terminaria já perto dos anos 90, quando David Byrne repôs um pouco de justiça no mundo ao apadrinhá-lo via Luaka Bop. Talvez por aparentar ser mais experimentalista que os álbuns anteriores, "Todos os Olhos" acabou por vender pouco. Mas estão lá todos os elementos pelos quais hoje reconhecemos Tom Zé como uma das maiores forças criativas que o Brasil viu nascer. Tem coisas próximas do samba, tem coisas próximas do forró nordestino ("Quando eu Era Sem Ninguém"), tem coisas próximas dos cantares ao desafio ("Dodó e Zezê"), tem muito de Brasil no que de diversamente rico o Brasil tem, sem nunca soar a "conservador", palavra proibida em todo a carreira de Tom Zé e frequente no reportório de outros artistas da música brasileira, mesmo os mais afoitos. A capa de "Todos os Olhos" é também protagonista de uma história curiosa. Durante anos pensou-se (e talvez ainda por aí circule a ideia) que a imagem na capa era a de um ânus com um berlinde nele depositado. Era essa, contudo, a ideia inicial do poeta Décio Pignatari, um dos fundadores do concretismo brasileiro, como forma de afronta à ditadura militar. O olho do cu. Todos os Olhos. É o que parece, é o que muita gente pensou durante anos que era, até eventualmente o próprio Tom Zé, que terá ajudado a perpetuar o mito. A fotografia original chegou a ser feita, mas como era óbvia demais para enganar os censores, a opção recaiu sobre os lábios da boca (da mesmo modelo). Como se diz aqui, eis que o cu que deveria imitar um olho se torna uma boca que imita o cu.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 6, Iggy & The Stooges (rep.)



RAW POWER
IGGY AND THE STOOGES (EUA)
Edição original: CBS
Produtor(es): Iggy Pop, David Bowie
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Entre esta centena de discos, "Raw Power" é provavelmente o que conheço há mais tempo, de uma velhinha cassette que tanto terá rodado que ainda hoje recordo, quase nota por nota, o fuzz do James Williamson, quase berro por berro, a verborreia do Iggy Pop. Reza a história que, por esta altura, os Stooges já tinham acabado. A Elektra já não queria saber deles. O álbum homónimo de estreia (1969) e "Fun House" (1970) tinham vendido pouco. É neste contexto que Iggy Pop conhece David Bowie. Muda para a mesma empresa de management do inglês e viaja para Londres com Williamson para gravar um disco a solo. Não encontra músicos ingleses que o satisfaçam e chama os irmãos Ron e Scott Asheton. Os Stooges voltavam assim a gravar, mas agora o grupo chamar-se-ia, de forma honesta, Iggy & Stooges. Bowie produziu num só dia sete das oito faixas, a partir de... três pistas que Iggy Pop lhe passou, banda na primeira, guitarra solo na segunda e a voz na terceira. O resultado, ainda que com a limitada cirurgia plástica que Bowie conseguiu fazer, não deixa de ser uma amálgama sonora de fuzz e berraria puxados aos limites, que, para a altura, mesmo para o contexto de Detroit de onde vinham os Stooges, metia medo. Parecia que queriam destruir tudo o que lhes aparecesse pela frente. Parecia tudo aquilo que anos mais tarde se encontraria na explosão do punk em Inglaterra. Mas, muitos anos depois, Iggy Pop, talvez para destruir ainda mais, voltaria a colocar "Raw Power" na história por outros motivos. À produção de Bowie sucedeu-se, em 1995, uma versão pirata, com a primeira mistura de Pop. Mas em 1997, numa reedição em CD da Columbia, Pop pegaria em tudo de novo para produzir aquele que é, mesmo para os dias de hoje, um dos discos com volume permanentemente mais alto de sempre, um trabalho que desagradou meio mundo, incluindo os próprios James Williamson e Ron Asheton.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 7, Gong (rep.)



FLYING TEAPOT
GONG (França/Inglaterra)
Edição original: Virgin
Produtor(es): Giorgio Gomelsky
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Se isto fosse a lista dos discos mais chanfrados de 1973, este estava batido no topo. A chanfradice não vem só do tema cósmico que atravessa todo o disco, apesar de ser uma história que merece a pena ser contada. Inspirada numa alegada visão do vocalista australiano Daevid Allen durante uma lua cheia na páscoa de 66, a história de "Flying Teapot" fala de um egiptologista suinicultor, Mista T Being, a quem um vendedor de rua de bules antigos e colecionador de rótulos de chá, Fred the Fish, vende um brinco mágico, o qual é capaz de captar mensagens do planeta Gong através de uma estação pirata de rádio chamada Radio Gnome Invisible. Os dois viajam para o Tibete onde se encontram com o abominável homem da cerveja, Banana Ananda, que passa o tempo a cantar "Banana Nirvana Mañana" e se embebeda com Foster's... Só por isto, já merece a pena ir até ao fim do mundo à procura deste disco. Esta história está então na base da trilogia aqui iniciada e prosseguida em "Angel's Egg" -- 64.º nesta lista -- e em "You" (1974). Mas, dizia atrás, a chanfrandice não vem só da história. Musicalmente, "Flying Teapot" é um disco de loucos. Só tipos completamente fora do registo de lucidez que a sociedade entenda como normal seriam capazes de chegar a composições e a arranjos desta natureza, um autêntico frenesi de géneros (jazz, rock, prog e muito mais), de instrumentos, de ritmos, de tempos. É o melhor, a par com "Camembert Electrique" (1971), da fase Allen. Pode não chegar para dar alucinações como a que ele teve naquela tal páscoa, mas poucas vezes a música consegue chegar tão perto de ser assim tão alucinante.

terça-feira, 26 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 8, José Mário Branco (rep.)



MARGEM DE CERTA MANEIRA
JOSÉ MÁRIO BRANCO (Portugal)
Edição original: Guilda da Música
Produtor(es): José Mário Branco
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«Não foi por vontade nem por gosto que deixei a minha terra»
(in "Por Terras de França")

Segundo álbum do exilado José Mário Branco e, em certa medida, continuação do primeiro, "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1970). Em jeito de parêntesis, tenho aqui um pequeno, minúsculo problema entre mãos (mais um). É que "Margem de Certa Maneira" não saiu, tecnicamente, em 73. Foi gravado em novembro de 72, em França, e foi lançado poucos dias antes do Natal. Pormenores. Fim de parêntesis e avante com o que interessa. Algumas destas canções vinham de um projeto anterior de José Mário Branco com o escritor e jornalista Álvaro Guerra, "Crónicas". A censura, que andava mais atenta desde 71, rejeitou dois terços do trabalho, que foi assim posto de lado e aqui recuperado em parte. Nos arranjos (não será José Mário Branco o melhor arranjador que este país alguma vez conheceu?), nos instrumentos (o estranho cromorno em "Engrenagem" ou no tema-título remete ouvidos atuais para outros iconoclastas geniais, os Gaiteiros de Lisboa), na reconstrução de uma certa musicalidade portuguesa, se assim lhe podemos chamar, ainda para mais num disco que, curiosamente, é gravado essencialmente por músicos franceses, "Margem de Certa Maneira" é tanto ou mais revolucionário que o seu antecessor, é tão ou mais digno de figurar para sempre na galeria das melhores obras de autores portugueses. Como em Zeca Afonso, com quem José Mário Branco tantas vezes trabalhou, a música popular portuguesa dava um passo gigantesco em frente. E nos temas abordados, "Margem de Certa Maneira" parece tão atual como então. Ou ainda mais.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 9, Kraftwerk (rep.)



RALF UND FLORIAN
KRAFTWERK (Alemanha)
Edição original: Philips
Produtor(es): Conny Plank, Ralf Hütter, Florian Schneider
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Como o título não deixa escapar, a formação era constituída por Ralf Hütter e Florian Schneider, que deixou o grupo em 2008. Em 1973, os Kraftwerk estavam de novo reduzidos ao duo fundador, depois de por lá ter passado gente como Michael Rother e Klaus Dinger, que viriam a ser os Neu!. Na verdade, ao duo deve ser acrescentado o nome de Conny Plank, o produtor que acompanhava os Kraftwerk desde o início e que esteve por trás do som de tanta boa gente do kraut, como os já mencionados Neu! (todos os álbuns), os Kluster/Cluster (idem), Harmonia, Guru Guru, Ash ra Tempel, etc. "Ralf und Florian" (ou "Ralf and Florian" nas edições internacionais) é essencialmente instrumental e aponta para aquela que será a marca do som dos Kraftwerk daí para a frente, assentando essencialmente na experimentação de sintetizadores e no uso de caixas de ritmo.
(Passaram mais de quarenta anos. Digam lá se não vos parece ouvir o Panda Bear no "Tanzmuzik", por exemplo. Em todo o caso, o desafio traz água no bico... é que o Panda Bear até já o samplou.)

domingo, 24 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 10, Tom Waits (rep.)



CLOSING TIME
TOM WAITS (EUA)
Edição original: Asylum
Produtor(es): Jerry Yester
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Now it's closing time, the music's fading out
Last call for drinks, I'll have another stout.
Well I turn around to look at you, you're nowhere to be found,
I search the place for your lost face, guess I'll have anotherround
And I think that I just fell in love with you.

(in "I Hope That I Don't Fall in Love with You")

Entre os discos que constam da minha coleção pessoal e desta longa lista, este é aquele que comprei há mais tempo. Na adolescência, ouvia tanta gente a tecer todo o tipo de elogios a Waits que tinha de perceber o que era. Não tínhamos youtube nem sequer internet para sacar discos, diria agora um avozinho meio trocado das ideias. A rádio, ou melhor, o António Sérgio era uma das poucas hipóteses de ouvir música antes de a comprar (a outra era, claro, o já tão longínquo sistema de partilha de discos entre amigos). Mas adiante. Aconteceu que "Closing Time" não bateu à primeira. Só com "Heartattack and Vine" (1980) ou "Swordfishtrombones" (1983) se faria luz e só anos mais tarde, já com meia discografia de Waits na estante e nos ouvidos, é que o álbum de estreia voltaria à liça, como se fosse preciso conhecer o porteiro deste bar fumarento de jazz, country e canção americana que é "Closing Time".

sábado, 23 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 11, John Cale (rep.)



PARIS 1919
JOHN CALE (País de Gales)
Edição original: Reprise
Produtor(es): Chris Thomas
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Tendo trabalhado com La Monte Young e Tony Conrad, tendo ajudado a fazer história no rock com os Velvet Underground, tendo depois trabalhado com Terry Riley e produzido discos para muito boa gente, John Cale surpreendeu, ao abrir ainda mais a sua área de intervenção com este "Paris 1919". Soberbo, belo, elegante, sofisticado, arrojado, luxuoso, poético, literário. Ao longo dos anos, têm sido usada toda a espécie de adjetivos apreciativos. É para isso que eles estão no dicionário.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 12, Gentle Giant (rep.)



IN A GLASS HOUSE
GENTLE GIANT (Inglaterra)
Edição original: WWA
Produtor(es): Gentle Giant, Gary Martin
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"Tens que levar esse disco", dizia-me o Fernando Magalhães na casa do "vendedor". Esta história já tem mais de 10 anos e o "vendedor" era um melómano que havia perdido o interesse na extensa discografia prog (e não só) da década de 70 que colecionara. "In a Glass House" e outros, como o "Naked Shakespeare" do Peter Blegvad, o "1001º Centigrades" dos Magma, mudavam assim de casa, mas de todo o produto da rapina, seria o disco dos Gentle Giant aquele que maior fascínio viria a despertar nos meus ouvidos. É, provavelmente, o disco prog a que continuo a recorrer com maior frequência, até hoje. São desconcertantes as mudanças de tempos, o encaixe meticuloso dos instrumentos de diferente espécie, a incursão por pequenos trechos folk, medievais até, e a precisão das costuras que unem todos estes retalhos. Por mais que tenha vindo a tentar, nenhum outro disco dos Gentle Giant conseguiu reproduzir o mesmo efeito. Eu bem tinha que ter trazido este disco.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 13, The Modern Lovers



THE MODERN LOVERS
THE MODERN LOVERS (EUA)
Edição original: Beserkley
Produtor(es): John Cale, Robert Appere, Alan Mason
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Um caso de batota -- ou meia batota, convenhamos -- nunca vem só. Se o disco dos Mutantes chegou à luz do dia apenas em 1992, eis aqui outro caso de parto tardio, ainda que a espera não tenha sido tão longa. O primeiro álbum dos Modern Lovers, de Jonathan Richman, saiu em 1976, mas as sessões produzidas na sua maioria por John Cale eram do ano que aqui se anda há meses a destacar. E aqui há que explicitar as sessões produzidas pelo ex-Velvet, que se traduziriam nessa tal edição de 76, pois este debute dos Modern Lovers acabou por vir servido em diferentes versões ao longo dos anos. Até o profícuo Kim Fowley esteve envolvido em produções diferentes das primeiras canções do grupo de Richman. Por outro lado, é curiosa a participação de Cale no disco, já que Richman é provavelmente o músico que melhor soube herdar e prosseguir o legado dos Velvet Underground, até hoje, mais do que o próprio produtor, mais do que a outra força motora, Lou Reed. Aqui, temas como "Roadrunner", o grande hit do disco, "Pablo Picasso", tema obrigatório do reportório de Richman ao longo das décadas, ou "Girl Friend", são daquela afirmação as melhores das evidências. Se uma das maiores tautologias do rock apregoa que a música nunca seria a mesma sem os Velvet na sua história, manda a justiça que também se diga que toda a cena independente que conhecemos seria tremendamente diferente se não fosse por esta criatura diletante que ainda hoje fascina pequenas plateias e que frequentemente a história tende a esquecer: Jonathan Richman.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 14, Os Mutantes (rep.)



O "A" E O "Z"
OS MUTANTES (Brasil)
Edição original: Philips
Produtor(es): Os Mutantes
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«O "A" e o "Z"» surge nesta lista com, enfim, alguma batotice. Afinal, foi editado apenas em 1992, quase 20 anos depois de ter sido gravado. Em 1973, a Polydor não terá encontrado valor comercial num disco que diz-se ter sido composto e executado sob o efeito de LSD e chegou mesmo a despedir a banda. Foi o primeiro álbum dos Mutantes que comprei e devo confessar que, na altura, não suscitou o mesmo entusiasmo que o conseguido na descoberta (posterior) dos álbuns anteriores, em particular os dois primeiros, homónimos, mas com o tempo e com audições mais atentas, o disco veio crescendo. Já sem Rita Lee, os Mutantes assumiam-se definitivamente progs, épicos até, culminando no assombro de faixa que é "Uma Pessoa Só" ou no tema musical de abertura e fecho, os tais A e Z, com que o disco abre e encerra. Era ácido do melhor.

terça-feira, 19 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 15, Vangelis O. Papathanassiou (rep.)



EARTH
VANGELIS O. PAPATHANASSIOU (Grécia)
Edição original: Vertigo
Produtor(es): Vangelis O. Papathanassiou
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É a loucura total? Vangelis nesta lista? E em 15º? Vamos com calma. "Earth", tido oficialmente como o primeiro disco a solo de Vangelis, embora para trás houvesse já outros discos -- bandas sonoras e álbuns lançados sem a autorização do músico grego --, é um verdadeiro encanto para os ouvidos, do primeiro ao último minuto. Da explosão rock de "Come On" (youtube abaixo), a faixa de abertura (que outros álbuns conhecem que comecem com toda esta garra?), até à derradeira "A Song", um poema narrado sobre o tapete de sintetizadores que viriam a caracterizar a obra de Vangelis nos anos subsequentes, encontramos em "Earth" inúmeros motivos de interesse que nos fazem ouvi-lo vezes sem conta, tanto por prazer, como por vontade de descobrir pormenores, como quando nos aproximamos e nos afastamos as vezes que queremos de um quadro pendurado numa exposição. "Earth" é um disco rico em pormenores nos ambientes mais ou menos prog (do bom), mais ou menos étnicos e, claro, nas poucas e contidas piscadelas de olho à vindoura new age. Para os ouvidos de hoje, até as harmonias e os ritmos vocais dos Animal Collective ali parecemos ouvir ("Sunny Earth" ou "Ritual"). Vangelis, por onde te meteste tu depois?

segunda-feira, 18 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 16, Hawkwind (rep.)



SPACE RITUAL
HAWKWIND (Inglaterra)
Edição original: United Artists
Produtor(es): Hawkwind
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In case of Sonic Attack on your district, follow these rules: If you are making love it is imperative to bring all bodies to orgasm simultaneously. Do not waste time blocking your ears. Do not waste time seeking a "sound proofed" shelter. Try to get as far away from the sonic source as possible. Do not panic. Do not panic. Use your wheels. It is what they are for. Small babies may be placed inside the special cocoons and should be left, if possible, in shelters. Do not attempt to use your own limbs. If no wheels are available - metal - not organic - limbs should be employed whenever possible. Remember: In the case of sonic attack survival means "Every man for himself". Statistically more people survive if they think only of themselves. Do not attempt to rescue friends, relatives, loved ones. You have only a few seconds to escape. Use those seconds sensibly or you will inevitably die. Think only of yourself. Think only of yourself. Do not panic. Think only of yourself. Think only of yourself. These are the first signs of sonic attack: You will notice small objects - such as ornaments - oscillating. You will notice vibrations in your diaphragm. You will hear a distand hissing in your ears. You will feel dizzy. You will feel the need to vomit. There will be bleeding from orifices. There will be an ache in the pelvic region. You may be subject to fits of hysterical shouting or even laughter. These are all signs of imminent sonic destruction. Your only protection is flight. If you are less than ten years old remain in your shelter and use your cocoon. Remember - you can help no one else. You can help no one else. You can help no one else. Do not panic. Do not panic. Think only of yourself. Think only of yourself. Think only of yourself. Think only of yourself.
(Sonic Attack)

Mais um álbum ao vivo (e o último, ou melhor dizendo, o primeiro de todos nesta lista). E este é de uma das bandas que, na altura, mais passava tempo em cima de um palco, o que é fácil de perceber quando se escuta o disco. Cem minutos de rock que levam a concluir que os Hawkwind seriam uma das melhores bandas ao vivo de então. Tal como nos Magma ou nos Gong (e em tantos outros trabalhos da época, na música ou fora dela), o espaço, o cosmos, o pânico de uma invasão extra-terrestre, o sonho com algo para além da Terra servia de mote para a produção do grupo e para este espetáculo em particular, um a que chamaram "ópera rock espacial".

domingo, 17 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 17, Magma (rep.)



MEKANÏK DESTRUKTÏW KOMMANDÖH
MAGMA (França)
Edição original: Vertigo
Produtor(es): Giorgio Gomelsky
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Por falar em óperas (rock) dos anos 70, a propósito da entrada anterior ("Berlin", de Lou Reed), eis o álbum mais aclamado de uns dos mais "sinfónicos" (e mais chanfrados) da altura, os franceses Magma. Em "Mekanïk Destruktïw Kommandöh", está lá tudo o que definiu os Magma: o jazz, o prog e a sinfonia rock ou até mesmo as sementes do death metal, tudo isto carregado de virtuosismos técnicos e de ideias desconcertantes que nos fazem ouvir os discos vezes sem conta à procura de pormenores escondidos, num todo que é extensivamente coral, cantado na língua "kobaïan", a tal que foi inventada por Christian Vander, baterista e principal ideólogo do grupo, que aqui dava prosseguimento à epopeia da colónia terrestre no planeta Kobaïa. Alguém chamou a isto, e foi muito feliz na expressão, "gospel extra-terrestre".

sábado, 16 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 18, Lou Reed (rep.)



BERLIN
LOU REED (EUA)
Edição original: RCA
Produtor(es): Bob Ezrin
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«Lou Reed's Berlin is a disaster, taking the listener into a distorted and degenerate demimonde of paranoia, schizophrenia, degradation, pill-induced violence and suicide. There are certain records that are so patently offensive that one wishes to take some kind of physical vengeance on the artists that perpetrate them. Reed's only excuse for this kind of performance (which isn't really performed as much as spoken and shouted over Bob Ezrin's limp production) can only be that this was his last shot at a once-promising career. Goodbye, Lou.»
(Crítica devastadora da Rolling Stone, em 1973, que 30 anos mais tarde o colocaria no 344º posto da sua lista dos 500 melhores discos de sempre)

Sempre joguei na equipa dos que preferem "Transformer" (1972) a "Berlin". E foi só até muito recentemente que comecei a perceber e a gostar mais (muito mais) deste terceiro álbum a solo de Lou Reed, destas orquestras e destes arranjos um tanto ou quanto megalómanos. "Berlin" é daqueles discos, como tantos na época, que tem de ser ouvido do primeiro ao último minuto, sem saltos nos temas e sem distrações, para poder ser devidamente apreciado. Afinal de contas, ainda que esteja relativamente longe do conceito da ópera rock então em voga, "Berlin" apresenta um alinhamento conceptual, a história de Caroline e Jim e do caminho em direção ao abismo de drogas e violência que o romance de ambos toma. Reed e Bob Ezrin, o pianista e produtor do disco, quiseram desde o início levar a obra em todo o seu esplendor para o palco, mas as críticas e as vendas fizeram com que o projeto fosse arquivado para apenas 33 anos depois ser posto em prática na "Berlin Tour", que ficou documentada num filme de Julian Schnabel.