sábado, 4 de julho de 2015

100 do FMM (até ver), do 31 ao 40


31. ORCHESTRA BAOBAB (Senegal)
Castelo, 24/jul/2008::vídeo::
"Antecipei muito, mas mesmo muito este espectáculo, ao ponto de recear que o excesso de expectativa contra-atacasse na altura. Mas acabei por não conseguir parar de dançar do início ao fim, de sorriso idiota estampado na cara."

32. BASSEKOU KOUYATÉ & NGONI BA (Mali)
Centro de Artes, 17/jul/2008::vídeo::
"Não foi preciso muito para que toda a gente presente no pequeno auditório de Sines ficasse rendida ao blues dançante proporcionado pelas ngoni (guitarra maliana) do grupo de Bassekou Kouyaté, que já tinha dado um excelente concerto no África Festival, em Belém, no ano anterior."

33. CARLOS BICA TRIO AZUL C/DJ ILL VIBE (Portugal / Alemanha / EUA)
Castelo, 26/jul/2007::vídeo::
"Chamei na altura à actuação do trio Azul com o convidado Ill Vibe "festival de fronteiras abertas". O conservadorismo é palavra que nunca fez parte do dicionário de Carlos Bica, Frank Möbus e Jim Black, músicos de outro mundo que se encaixaram de forma perfeita com um DJ para fazer coisas bonitas, como diria o Artur Jorge, em palco."

34. N'DIALE - JACKY MOLARD QUARTET & FOUNÉ DIARRA TRIO (Bretanha / Mali)
Castelo, 29/jul/2010::vídeo::
"Quem imaginaria que a música de tradição europeia a que o bretão Jacky Molard se tem dedicado ao longo da carreira, e que já apresentou por duas outras ocasiões em Sines, casaria tão bem com a música do trio maliano de Founé Diarra? Quem é que é capaz de dizer, sem mais nem menos, que um prato de peixe e de carne, em simultâneo, se pode tornar uma maravilha da gastronomia? A este respeito, aliás, o António Pires dizia que 'o gajo que inventou a carne de porco à alentejana deve ter tido uma experiência semelhante'. E como é que dançamos isto? Com as pernas para a frente ou com o rabo espetado para trás? Estas eram as interrogações iniciais de muitos, certamente, mas não foram mesmo mais do que isso mesmo: iniciais. Rapidamente, todos atirámos os axiomas etnomusicológicos para trás das costas e abraçámos calorosamente aquela que foi uma das experiências mais incríveis de sempre no palco do castelo."

35. GAITEIROS DE LISBOA (Portugal)
Castelo, 26/jul/2013::vídeo::

36. RACHID TAHA (Argélia)
Castelo, 27/jul/2007::vídeo::
"Receava-se que, à semelhança do que se viu há pouco tempo no youtube, a propósito de um concerto realizado algures na Europa, Rachid Taha se entornasse mais do que devia e ainda viesse a cair rotundo no palco. No backstage, na primeira vez que o vi, eu quase receei que ele caísse para cima das saladas do buffet. Ai, ai. Mais tarde, encontrei o tour manager que me deu um abraço forte como se dele fosse um amigo de há longuíssima data. Ai, ai. Mas a grande verdade é que, depois, o concerto acabou por ser realmente aquilo por que se ansiava. Hora e meia de material ao qual o corpo não consegue resistir, com incursões por "Barra Barra", "Ecoute-Moi Camarade", "Rock El Casbah" e outros temas obrigatórios. No final, na parte dos agradecimentos, percebeu-se ainda que toda a banda estava quase tão entornada como Rachid Taha."

37. FAIZ ALI FAIZ (Paquistão)
Castelo, 25/jul/2008::vídeo::
"No qawwali, música religiosa dos sufistas paquistaneses trazida ao resto do mundo pela voz de Nusrat Fateh Ali Khan, não é de todo necessário entender-se as palavras com que aqueles homens sentados no chão pretendem levar a comunidade de ouvintes ao wajd, ao estado de êxtase, ao contacto com Alá. Verborreia religiosa à parte, se Alá é aquilo a que a cerimónia de Faiz Ali Faiz desencantou, eu quero ser islamista (e, não vale a pena irem por esse caminho que estão a pensar: ao contrário de outras, aquela noite até foi serena nisso)."

38. YASMIN LEVY (Israel)
Castelo, 29/jul/2010::vídeo::
"Em 2009, o FMM ofereceu-nos Mor Karbasi. Em 2010, tivemos direito a Yasmin Levy, uma voz para a qual faltam adjectivos na língua portuguesa, uma actuação de fazer mexer com todos os sentidos."

39. VISHWA MOHAN BHATT & THE DIVANA ENSEMBLE (Índia)
Castelo, 28/jul/2011::vídeo (CONCERTO COMPLETO!)::
"Qualquer que seja a origem, qualquer que seja o credo, qualquer que seja a raça, há todo um mundo unido pela música das sete notas... Disse-o, mais ou menos assim, o mestre Vishwa Mohan Bhatt algures a meio da interpretação irrepreensível da sua slide guitar modificada com cordas simpáticas, ao jeito de instrumentos indianos como a sitar. Como se não bastasse o virtuosismo do mestre, o grupo de músicos ciganos do Rajastão que o acompanhava deu mais uma lição sobre a diáspora da música, de como o canto do flamenco não é assim tão diferente destes antigos músicos dos rajás. Até uma espécie de prima das castanholas mediterrânicas estava lá para ajudar à festa. Fica para a memória de momentos singulares deste festival -- eu estou quase a chamar-lhe-ia epifanias -- aquele em que o mestre fazia ditados rítmicos cada vez mais rápidos para os seus companheiros de palco..."

40. JACKY MOLLARD ACOUSTIC QUARTET (Bretanha)
Castelo, 24/jul/2007::vídeo::
"Foi, para mim, o primeiro grande estrondo do FMM deste ano. É certo que, em Porto Covo, os Etran Finatawa e o Darko Rundek já tinham rendido bastante, mas na segunda-feira, no Centro de Artes de Sines, o Acoustic Quartet do bretão Jacky Mollard produziu a primeira das grandes maravilhas ao vivo do festival. A canção irlandesa tem andado um pouco arredada dos festivais de música do mundo, se exceptuarmos naturalmente os intercélticos que se vão realizando pelo Norte do país. Quando se encontra um "fiddler" como o Jacky Mollard (parecido com o Fausto como qualquer outro bretão) é motivo de grande regozijo. Já para não falar do encontro de novo com ele na companhia do seu acordeonista na esplanada do bar do Salão Musical, para uma jam até às tantas da manhã..."

sexta-feira, 3 de julho de 2015

100 do FMM (até ver), do 41 ao 50


41. HARRY MANX (Ilha de Man)
Praia, 26/jul/2007::vídeo::
"À medida que o sol ia ameaçando desaparecer até ao dia seguinte, o manês (espécie de gentílico inventado à pressa para quem provém da Ilha de Man) Harry Manx cativou o público junto à praia, com o seu blues impregnado de raga, com uma mohan veena (uma guitarra adaptada à música clássica indiana. Aprendi a cortar na palavra sublime como quem corta no açúcar para o café, mas aqui vou ter que dar uma facadinha e usar o termo. Sublime."

42. IVA BITTOVÁ (República Checa)
Centro de Artes, 22/jul/2008
"Grandes vozes. Iva Bittová, com grande empenho dramático e solta de compromissos líricos, num registo que vai do demoníaco ao pueril, do soturno ao cómico. (…) Uns assustavam-se com esta mulher checa nas suas explorações de carácter mais dramático. Outros arrepiavam-se com as suas capacidades vocais. Ou no violino. Mais um postal de Sines bem guardado na memória."

43. FLAT EARTH SOCIETY MEETS JIMI TENOR (Bélgica / Finlândia)
Porto Covo, 19/jul/2008::vídeo::
"Virtuosos de outro planeta. A Flat Earth Society, enquanto colectivo. (…) Será porventura exagero, mas talvez houvesse mais músicos em palco do que pessoas no público a conhecerem a obra de Jimi Tenor. Mas isso, aqui, neste festival, não só não é novidade, como até potencia a criação de momentos de descoberta que são de aplaudir. Mas nem tão pouco parece que este interessante encontro da big band com o génio excêntrico do finlandês, outrora do mundo das electrónicas e afins, tenha aguçado por aí além a curiosidade do povo. Mas, para quem prestou atenção, todo o espectáculo foi percorrido por grandes ideias."

44. ERIKA STUCKY (Suíça)
Castelo, 28/jul/2007::vídeo::
"A suíça Erika Stucky foi uma das maiores surpresas deste festival. O uso que faz da voz, seja no formato spoken word (magnífica a versão para 'These Boots Are Made for Walking'), seja na canção, seja nos yodelays, aliado à boa disposição que atravessou toda a actuação, ajudou a que este espectáculo possa ficar retido na memória por bastante tempo."

45. L'ENFANCE ROUGE (França / Itália / Tunísia)
Praia, 22/jul/2009::vídeo::
"Na praia, houve também alguns concertos verdadeiramente explosivos, a começar pelo dos franco-magrebinos L'Enfance Rouge, numa reencarnação de uns Sonic Youth do tempo do EP de estreia ou de "Confusion is Sex" (já para não falar das semelhanças gritantes entre as baixistas de ambos os projectos), de uns Swans ou de uns Shellac mais roufenhos ainda, mas com uma integração magnífica com instrumentos árabes que estiveram nesta formação e que, aliás, contribuíram para o excelente "Trapani ~ halq al waady", álbum de há dois anos. "

46. MOSCOW ART TRIO (Rússia)
Centro de Artes, 21/jul/2008
"Virtuosos de outro planeta. (…) Qualquer um dos músicos do Moskow Art Trio. (…) Grandes vozes. (…) Sergey Starostin, dos Moskow Art Trio."

47. RACHEL UNTHANK & THE WINTERSET (Inglaterra)
Praia, 25/jul/2008::vídeo::
"Grandes vozes. (…) As irmãs Unthank."

48. ASIF ALI KHAN & PARTY (Paquistão)
Castelo, 25/jul/2013::vídeo::

49. ETRAN FINATAWA (Níger)
Praia, 20/jul/2007::vídeo::

50. TINARIWEN (Mali)
Castelo, 30/jul/2010::vídeo::

quinta-feira, 2 de julho de 2015

100 do FMM (até ver), do 51 ao 60


51. TTUKUNAK (País Basco)
Centro de Artes, 23/jul/2007::vídeo::
"Quem já viu Kepa Junkera ao vivo, já saberia o que é uma txalaparta, mas os outros tiveram oportunidade de a conhecer através das duas irmãs que formam o grupo Ttukunak."

52. MAHMOUD AHMED (Etiópia)
Centro de Artes, 26/jul/2007::vídeo::

53. BELLOWHEAD (Inglaterra)
Castelo, 25/jul/2007::vídeo::

54. TARTIT (Mali)
Castelo, 26/jul/2007::vídeo::

55. K'NAAN (Somália)
Praia, 26/jul/2006::vídeo::
"O K'Naan é o maior. Ontem, junto à praia, e depois do prog celta do Jacques Pellen, tivemos direito a assistir a uma das maiores explosões do festival. Chama-se Keinan Warsame, mas é mais conhecido por K'Naan. Nasceu na Somália, mas vive "exilado" no Canadá. Usa o hip hop como arma, com letras arrepiantes como "não se supunha que eu passasse dos 14" ou como naquela em que ele fala da infância em Mogadíscio enquanto pergunta "is this hardcore?" (com bocas ao 50 Cent e a outros pelo meio). Foi muito, muito forte, lirica e musicalmente."

56. BALOJI (RD Congo)
Castelo, 19/jul/2013::vídeo::
"(…) que animal de palco"

57. FEMI KUTI (Nigéria)
Castelo, 31/jul/2004
"(…) e para o fim um Femi Kuti em grande forma"

58. ROKIA TRAORÉ (Mali)
Castelo, 25/jul/2013::vídeo::

59. AYARKHAAN (Iacútia)
Castelo, 29/jul/2011::vídeo::
"Já se sabia que o espetáculo das Ayarkhaan não iria deixar ninguém indiferente. As técnicas de canto usadas, em aliança com o estranho efeito que retiram do khomus, um berimbau de boca típico daquelas paragens orientais, penetram fundo nos sentidos que usamos durante um concerto. A perícia com que o grupo da veterana Albina Degtyareva o faz, expressa ora nos guinchos e relinchares que julgávamos estarem no campo das impossibilidades da voz humana, ora nos jogos rítmicos guturais feitos no berimbau, fazem elevar a consideração por este trio."

60. MASTER MUSICIANS OF JAJOUKA (Marrocos)
Castelo, 30/jul/2005

quarta-feira, 1 de julho de 2015

100 do FMM (até ver), do 61 ao 70


61. VITORINO E JANITA SALOMÉ COM GRUPO DE CANTADORES DE REDONDO (Portugal)
Castelo, 28/jul/2010::vídeo::
"O Alentejo não seria o mesmo se não tivessemos os irmãos Salomé. E este foi um dos momentos mais bonitos, arrepiantes até, do FMM, que este ano inaugurou o slot no horário para o final de tarde no castelo"

62. LE TRIO JOUBRAN (Palestina)
Castelo, 22/jul/2011::vídeo::
"Como dizia antes do festival, ouvir um alaúde bem tocado já é inebriante. Ora, torna-se difícil dizer o que é ouvir três tipos a fazerem-no ao mesmo tempo e, ainda por cima, a manterem diálogos vertiginosos e frequentemente improvisados, talvez possíveis apenas a quem cresceu junto, como estes irmãos Joubran."

63. FATOUMATA DIAWARA (Costa do Marfim / Mali / França)
Castelo, 26/jul/2012::vídeo::
"Fatoumata Diawara, a linda. Começou como Rokia Traoré, sua compatriota, no primeiro dos seus dois concertos em Sines. Calma, serena, intimista. Acabou como Rokia no segundo. Explosiva, festiva, imparável. Fatoumata Diawara, provavelmente a mulher mais bonita que alguma vez pisou o palco do castelo de Sines, foi a grande revelação deste ano."

64. SECRET CHIEFS 3 (EUA)
Castelo, 22/jul/2011::vídeo::
"Quem pensar que Trey Spruance é um monstro intratável, bem pode tirar daí a ideia. Nos bastidores, abundava não só em simpatia e humildade, como em curiosidade pelo que havia sido estas 13 edições de festival. Sentiu-se até "estúpido" por tocar a seguir ao Trio Joubran, como se pode ouvir no vídeo, na "flash interview" dada ao Mário Dias. Em formato de quinteto, surpreendeu muita gente que não esperava a música pesada dos SC3 no festival. E poderia ter sido um espetáculo ainda melhor, não fosse o longo tempo que perdia entre cada tema, a afinar a guitarra, por exemplo, e que fazia arrefecer o público, já por si apanhado nas noites frias do primeiro fim de semana do FMM."

65. HUGH MASEKELA (África do Sul)
Castelo, 28/jul/2012::vídeo::
"Masekela, o génio de palco. Já anda pelos setentas e afirma-se como músico desde os 5. Todos estes anos de digressões, discos, experiências bem sucedidas por África e pelos EUA, fizeram dele a maior lenda viva da música africana. E é ali no palco que ele o prova. Não só mantém intacta toda a sua capacidade técnica instrumental e vocal, como sabe como poucos como se dirigir a uma audiência, mesmo que seja para a "picar". "

66. REIJSEGER FRAANJE SYLLA (Países Baixos / Senegal)
Castelo, 20/jul/2013::vídeo::
"(…) o Sylla é dono de uma voz incrível, que nem precisa de amplificação, como no começo do concerto, quando vagueou pela multidão, de garganta escancarada"

67. STAFF BENDA BILILI (RD Congo)
Castelo, 26/jul/2012::vídeo::
"(…) Junte-se ainda os Staff Benda Bilili, que regressaram àquele palco apenas dois anos depois, por força do cancelamento do concerto de Gurrumul. Houve festa rija, claro, ainda que pudesse ter ajudado ter havido um maior distanciamento face ao anterior concerto dos congoleses."

68. BASSAM SABA AL-MADAR (Líbano / EUA)
Castelo, 20/jul/2012::vídeo::

69. BOMBINO (Níger)
Castelo, 19/jul/2012::vídeo::
"Há que falar também no Bombino, que no primeiro dia do festival, levou a festa dos blues a todos os que ali estavam, num formato intenso e marcadamente hipnótico, muito diferente daquele que apresentou no ano passado, em Lisboa. O pobre do Otis Taylor, que tocou imediatamente antes, terá inventado “trance-blues”. Talvez tenha ficado envergonhado ao ouvir o trance no blues do guitarrista do Níger."

70. BOOM PAM (Israel)
praia, 26/jul/2008::vídeo::


terça-feira, 30 de junho de 2015

100 do FMM (até ver), do 71 ao 80


71. KONONO NO.1 (RD Congo)
praia, 30/jul/2005

72. KIMI DJABATÉ (Guiné-Bissau)
Castelo, 30/jul/2010::vídeo::
"Já sabemos, mas ainda não somos muitos, que o Kimi Djabaté é um dos músicos maiores que connosco convivem. É grande nos discos, é grande nas actuações a solo, mas experimentem deixá-lo aparecer com a banda completa, incluindo o genial Galissá na kora."

73. MORIARTY (EUA)
Centro de Artes, 22/jul/2008::vídeo::

74. WALDEMAR BASTOS (Angola)
Castelo, 23/jul/2008::vídeo::

75. SILVÉRIO PESSOA (Brasil)
praia, 24/jul/2008::vídeo::

76. TARAF DE HAÏDOUKS (Roma / Roménia)
Castelo, 0/jul/2001

77. KTU (Finlândia / EUA)
Castelo, 25/jul/2008::vídeo::
"Virtuosos de outro planeta. (…) Qualquer um dos KTU."

78. WIMME (Lapónia)
praia, 29/jul/2010::vídeo::
"Há mais de dez anos que ansiava por um concerto dele por cá e nunca imaginei que fosse tão bem recebido como foi ali em Sines, no palco da praia, ao fim da tarde, para uma música que se imagina nas montanhas, no frio."

79. HANGGAI (China)
Castelo, 23/jul/2009
"Calhou termos assistido ao concerto dos chineses Hanggai ao lado um do outro e o Manuel foi aproveitando os intervalos para discutir algumas ideias interessantes. A que mais guardei prendia-se com a curiosidade de o canto gutural (ou próximo de gutural), algo que os Hanggai transportam para o seu universo rock, se ter desenvolvido em pontos diversos do mundo com uma característica comum: áreas pouco densamente povoadas. (texto completo, "Músicas Universais e Paralelas", aqui.)"

80. UXÍA (Galiza / Portugal / Guiné-Bissau)
Castelo, 22/jul/2009::vídeo::

segunda-feira, 29 de junho de 2015

100 do FMM (até ver), 81 ao 100

Vem aí julho, vem aí FMM. A 17.ª edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines acontece de 17 a 25 de julho e tem como enormíssimo cabeça de cartaz o maliano Salif Keita (última noite). Mas antes de mais, retrospetivemos um pouco, alimentemos essa nostalgia danada. Começo aqui a minha lista de concertos diletos do FMM ao longo destes anos, entre mais de três centenas de coisas boas (e umas ou outras não tão boas assim) que vi e das quais tirei notas. Aproveito também para recordar algumas das palavras escritas no passado a respeito de alguns destes momentos inesquecíveis.


81. CHUCHO VALDÉS BIG BAND (Cuba)
Castelo, 23/jul/2009::vídeo::

82. HERMETO PASCOAL (Brasil)
Castelo, 29/jul/2005

83. ALINE FRAZÃO (Angola)
Centro de Artes, 23/jul/2013::vídeo::

84. SIBA E A FULORESTA (Brasil)
Centro de Artes, 17/jul/2008::vídeo::
"(…) Festa popular. Siba e a Fuloresta no exterior do Centro de Artes, com o Siba a improvisar versos dedicados a Sines, às pessoas e ao festival. (…)"

85. MARIEM HASSAN (Saara)
Castelo, 29/jul/2006
"Grandes surpresas [do FMM 2006]: K'Naan e Mariem Hassan."

86. L’ENFANCE ROUGE & LOFTI BOUCHNAK (França / Itália / Tunísia)
Castelo, 20/jul/2012::vídeo::

87. CHICHA LIBRE (EUA)
praia, 24/jul/2009::vídeo::
"Na praia, ainda, destaque também para os Chicha Libre, que, apesar do mau som com que começaram o espectáculo, foram melhorando cada vez mais, até terminarem com uma estrondosa versão de "Guns of Brixton", dos Clash."

88. LEE 'SCRATCH' PERRY (Jamaica)
Castelo, 25/jul/2009::vídeo::
"No último dia do FMM, as atenções, claro, estiveram voltadas para Lee 'Scratch' Perry. No backstage, o clima era de um alvoroço nunca visto, com toda a gente à espera da chegada da lenda do dub, que aconteceu minutos antes do concerto. Do lado da plateia, uma imensa multidão esperava também ansiosamente que este senhor de 73 anos de idade subisse ao palco, o que faria depois da habitual introdução da banda de suporte, enfeitado da cabeça aos pés, multi-colorido, ainda que o dourado assumisse domínio, "trashy" como diria a miudagem fashionistas de hoje, e transportando uma mala de viagem que não serviu para nada a não ser ajudar a compor a imagem. Instantes depois, veio um dos momentos com que o FMM marca a última actuação do castelo desde a sua primeira edição, o fogo-de-artifício. Ainda que menos espampanante que em outros anos, colou muito bem a "Fire", um dos temas de "Repetance", o álbum que Andrew W.K. (!) produziu para Perry no ano passado. O resto da noite prosseguiu com o dancehall entaramelado de Perry, típico dos anos recentes da carreira do jamaicano, que fez toda a gente dançar e suar até ao fim."

89. SEUN KUTI & EGYPT 80 (Nigéria)
Castelo, 29/jul/2006::vídeo::

90. DEBASHISH BHATTACHARYA (Índia)
Castelo, 24/jul/2009::vídeo::

91. JANITA SALOMÉ (Portugal)
Castelo, 22/jul/2009::vídeo::

92. RABIH ABOUH-KHALIL & JOACHIM KÜHN & JARROD CAGWIN (Líbano / Alemanha / EUA)
Castelo, 27/jul/2006

93. JP SIMÕES (Portugal)
Castelo, 20/jul/2013::vídeo::
"(…) a música é ótima, os interlúdios nunca falham (…)"

94. KASAÏ ALLSTARS (RD Congo)
Castelo, 23/jul/2009

95. HAZMAT MODINE (EUA)
Porto Covo, 18/jul/2008
"Virtuosos de outro planeta. (…) Wade Schuman, dos Hazmat Modine, na harmónica. "

96. GALANDUM GALUNDAINA (Portugal)
Porto Covo, 20/jul/2007::vídeo::

97. OUMOU SANGARÉ (Mali)
Castelo, 25/jul/2007::vídeo::

98. WORLD SAXOPHONE QUARTET (EUA)
Castelo, 27/jul/2007::vídeo::

99. NURU KANE (Senegal)
Castelo, 28/jul/2006

100. 34 PUÑALADAS (Argentina)
Castelo, 29/jul/2010::vídeo::
"Quem os viu e quem os vê. Cinco anos depois, os 34 Puñaladas voltaram a Sines, voltaram a dar um espectáculo ao fim de tarde, mas agora, numa formação mais reduzida, e com as guitarras e o tremendo calor da voz do Alejandro Guyot a darem ao tango a dignidade e a ousadia que realmente merece."

terça-feira, 2 de junho de 2015

100 de 1973, o primeiro deles todos: ENO - HERE COME THE WARM JETS



HERE COME THE WARM JETS
ENO (Inglaterra)
Edição original: Island
Produtor(es): Brian Eno
discogs allmusic wikipedia YOUTUBE

Para lá de toda aquela imagem andrógina e espampanante com que Brian Eno aparecia em público na altura, ainda na espuma da onda do glam, havia, já se sabia, um esteta compulsivo com requintes de cientista louco quando montava laboratório nos estúdios de gravações. Reza a lenda que para esta sua estreia a solo terá reunido 16 músicos razoavelmente diferentes para que do choque entre as diversas abordagens pudesse captar a energia do acidente. Assim como os físicos que se entretém a ver partículas a coliderem entre si. Chamou a si todos os Roxy Music, à exceção de Bryan Ferry. Foi buscar o baterista Simon King aos Hawkwind e o baixista Paul Rudolph aos vizinhos Pink Fairies, também ele futuro Hawkwind. De Canterbury, chamou o baixista Bill MacCormick, dos Matching Mole. Dos King Crimson, vieram o guitarrista Robert Fripp, com quem Eno já tinha trabalhado no excelente "(No Pussyfooting)" (ver abaixo nesta lista) e o baixista John Wetton. Ainda teve a ajuda do guitarrista Chris Spedding. Depois, continua a lenda, dançou para eles. Ou melhor, Eno dirigiu os músicos através da dança e de outros sinais, corporais ou verbais, aos quais estes iam respondendo em simpatia. Na posse das gravações individuais, lançou-se depois a um meticuloso trabalho de mistura, corte e costura, do qual fez parir uma dezena de canções das quais se diz terem poucas ou nenhumas semelhanças com os contributos originais. À boa maneira inglesa da altura, juntou-lhe rapidamente letras cómicas que soassem bem e que, à exceção da história do dragão humano A.W. Underwood invocada em "The Paw Paw Negro Blowtorch", pouco ou nenhum sentido fizessem. É que a voz era mais um instrumento manipulado pelo cientista louco.

Ao 12.º dia, o criador chamou-lhe um álbum e descansou.

Há nestas dez canções ainda muito dos Roxy Music, claro, pelo menos na forma como Eno veria o grupo de onde tinha saído meses antes. As duas primeiras faixas, "Needles In The Camel's Eye" e "The Paw Paw Negro Blowtorch" são bons exemplos dessa espécie de declaração de interesses de Eno. Em "Baby’s on Fire" também, mas aqui já tínhamos a guitarra incendiária de Fripp a pegar fogo aos modelitos de lantejoulas, num solo que ainda parece furar os ouvidos de muita gente nos dias de hoje. "Cindy Tells Me" volta ao glam, por via da pop dos anos 60, como se fosse revista pelos Velvet e depois esticada pela saturação de efeitos de Eno. Em "Driving Me Backwards", parece que há um filme a andar para trás, enquanto um pianista se houve do fundo de uma cave, exortando os seus demónios, momento negro que é logo compensado pela beleza de "On Some Faraway Beach", uma melodia de tons nostálgicos que fica no ouvido, uma fórmula que Eno viria a repetir aqui e em discos futuros. Volta ao glam em "Blank Frank", porventura deitando mais ácido sarcástico para cima do seu passado recente. Cheia de voz e de letras parvas e boas vem depois "Dead Finks Don’t Talk". Pop épica a abrir uma alameda de aclamação para os dois grandes momentos finais do disco. Talvez devamos dizer os monumentos finais do disco. O primeiro, "Some of Them Are Old", lembra Robert Wyatt ou outro amigo deste, Ivor Cutler, mas aqui Eno, ou melhor, os vários Enos que aqui ouvimos em coro conduzem a folk que constitui a melodia da canção a cenários cósmicos, como quando Sun Ra levava o bebop para além de Saturno. No final da canção fica um piano solto, perdido no espaço, como que uma sinfonia do rasto radiofónico do big bang, a qual se continua a ouvir, se estiverem bem atentos, na faixa final, que dá ou recebe o título do álbum. Nela, voltamos aos traços nostálgicos que Eno tão bem consegue deixar numa canção, seja a solo, seja nas bandas que já produziu até hoje. É tão bom este momento que não conseguimos fazer outra coisa que não seja voltar a ouvir o disco do princípio.

A meio caminho entre o glam, cujo prazo estava a acabar, e o punk, que batia à porta, Brian Eno conseguiu um disco da mais extraordinária pop. Pop para gente chanfrada, é certo, mas pop extraordinária. E vanguardista, até para os dias de hoje.


(Antes que alguém venha do Wikipedia com a reclamação de que o disco saiu já em janeiro de 1974, aconselha-se primeiro a leitura da página de discussão das alterações que esse artigo já teve, nomeadamente no que à data de lançamento concerne. Também poderá ver o registo no Discogs ou, talvez ainda mais importante..., o próprio disco. O meu, em CD, tem claramente indicação de 1973 como ano da edição original...)

segunda-feira, 1 de junho de 2015

100 de 1973, n.º 2, José Afonso



VENHAM MAIS CINCO
JOSÉ AFONSO (Portugal)
Edição original: Orfeu, Arnaldo Trindade & Cª
Produtor(es): José Niza
discogs wikipedia YOUTUBE

"A formiga no carreiro vinha em sentido contrário, caiu ao Tejo ao pé de um septuagenário. Larpou, trepou às tábuas que flutuavam nas águas e do cimo de uma delas virou-se para o formigueiro: mudem de rumo, já lá vem outro carreiro."

Sim, o país iria mudar de rumo no ano seguinte. José Afonso vinha ajudando a erguer uma certa tensão pré-revolucionária, convocando pelo país inteiro os ânimos dos revoltados. O regime, que cada vez mais dificuldades teria em gerir a crescente sublevação trazida pelas artes populares, em particular pela música de Afonso e de outros, respondia com a prisão: em maio de 1973, o cantor era encerrado na prisão de Caxias, por onde ficou durante vinte dias. Aí, diz-se ter escrito várias das canções que compõem este álbum, como aquela que viria a ser o extraordinário poema de "Era um Redondo Vocábulo". No outono do mesmo ano, reuniu-se em Paris com José Mário Branco e quase duas dezenas de músicos franceses, para gravar o disco, que viria a ser lançado em Portugal no Natal seguinte.
Apesar de toda esta tensão, que poderia fazer regressar algum do imediatismo que as canções de José Afonso tinham tido em discos anteriores, "Venham Mais Cinco" não é um disco direto ou pragmático. Há letras que são de leitura direta, é certo, e que talvez por isso se tornariam banda sonora obrigatória da revolução, como a do próprio tema-título ou "A Formiga no Carreiro" (acima citada). Em todo o caso, José Afonso vinha, já desde os discos imediatamente anteriores, a trilhar com sabedoria novos caminhos de modernidade, que parecem impossíveis de terem encontrado eco favorável no atraso do país de então. Era como se a semente da educação, que Afonso tanto se empenhou a espalhar pelo país ao longo dos anos, estivesse agora a dar frutos. Portugal já podia acolher um disco como "Venham Mais Cinco", já podia acolher esta modernidade invulgar estampada nas letras, nas composições e nos arranjos. Era como se uma espécie de tropicalismo à portuguesa estivesse a nascer, pelas mãos do maior génio que as nossas músicas conheceram.

domingo, 31 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 3, Can



FUTURE DAYS
CAN (Alemanha)
Edição original: United Artists
Produtor(es): Can
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Holger Czukay: "Bel Air [a faixa de 20 minutos que ocupa o segundo lado de Future Days] mostrou os Can como um grupo de sinfonias elétricas que pintava uma paisagem pacífica ainda que por vezes dramática".

Menos rock, menos focado, menos terreno, mais ambiental, mais planante, mais atmosférico. Ao quinto álbum, os Can passavam a pintar paisagens sonoras, dando o mote para a música ambiental. "Moonshake", o mais curto dos quatro temas que compõem o disco, é talvez a exceção, o último ponto de focagem. Os restantes são para se serem ouvidos sem pressas, com a mente livre para voar. "Future Days" marca este ponto de viragem na carreira dos Can, que, pouco depois, veriam o vocalista Damo Suzuki sair. Os Can continuariam com a arquitetura de paisagens no álbum seguinte, "Soon Over Babaluma".

sábado, 30 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 4, Neu! (rep.)



NEU! 2
NEU! (Alemanha)
Edição original: Brain
Produtor(es): Conny Plank, Neu!
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O segundo tomo da ofensiva conduzida por Klaus Dinger e Michael Rother abre de forma semelhante à álbum estreia. 11 minutos e 17 segundos de "Für Immer", demonstração perfeita daquilo que viemos a reconhecer como a assinatura dos Neu!, que tanta gente influenciou ao longo destes quarenta anos. Também como no disco do ano anterior, as faixas que se seguem são menos de motorika (assim chamaram os jornalistas ao binário do baterista Dinger) e mais de colagens sonoras e improvisações experimentadas em estúdio. É o que se passa principalmente no lado B, uma sequência de versões diferentes do single "Neuschnee/Super", lançado entre o 1º e o 2º disco, que aqui os Neu! manipularam de diferentes formas. De uma súbida carência (de dinheiro para continuarem em estúdio), surge uma das primeiras experiências de remistura e reconstrução de gravações previamente editadas, como entretanto se veio a tornar habitual no negócio da música.
Como no primeiro álbum (e no terceiro), foram precisas quase três décadas para que houvesse uma edição em CD. Até 2001, o ano em que a Astralwerks reeditou os três álbuns, só apareciam edições piratas à venda.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 5, Tom Zé (rep.)



TODOS OS OLHOS
TOM ZÉ (Brasil)
Edição original: Continental
Produtor(es): Milton José
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Todo compositor brasileiro é um complexado.
Por que então esta mania danada, esta preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério, de sorrir tão sério, de chorar tão sério, de brincar tão sério, de amar tão sério?

(in "Complexo de Épico")

Quarto disco de Tom Zé, que por esta altura, depois de ter dado uma importante mão ao avanço do tropicalismo -- ele que talvez fosse o mais tropicalista de todos, acabou sendo ignorado, havendo até quem lhe chamasse "Trotski do tropicalismo" -- entrava na fase mais obscura da sua carreira, que só terminaria já perto dos anos 90, quando David Byrne repôs um pouco de justiça no mundo ao apadrinhá-lo via Luaka Bop. Talvez por aparentar ser mais experimentalista que os álbuns anteriores, "Todos os Olhos" acabou por vender pouco. Mas estão lá todos os elementos pelos quais hoje reconhecemos Tom Zé como uma das maiores forças criativas que o Brasil viu nascer. Tem coisas próximas do samba, tem coisas próximas do forró nordestino ("Quando eu Era Sem Ninguém"), tem coisas próximas dos cantares ao desafio ("Dodó e Zezê"), tem muito de Brasil no que de diversamente rico o Brasil tem, sem nunca soar a "conservador", palavra proibida em todo a carreira de Tom Zé e frequente no reportório de outros artistas da música brasileira, mesmo os mais afoitos. A capa de "Todos os Olhos" é também protagonista de uma história curiosa. Durante anos pensou-se (e talvez ainda por aí circule a ideia) que a imagem na capa era a de um ânus com um berlinde nele depositado. Era essa, contudo, a ideia inicial do poeta Décio Pignatari, um dos fundadores do concretismo brasileiro, como forma de afronta à ditadura militar. O olho do cu. Todos os Olhos. É o que parece, é o que muita gente pensou durante anos que era, até eventualmente o próprio Tom Zé, que terá ajudado a perpetuar o mito. A fotografia original chegou a ser feita, mas como era óbvia demais para enganar os censores, a opção recaiu sobre os lábios da boca (da mesmo modelo). Como se diz aqui, eis que o cu que deveria imitar um olho se torna uma boca que imita o cu.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 6, Iggy & The Stooges (rep.)



RAW POWER
IGGY AND THE STOOGES (EUA)
Edição original: CBS
Produtor(es): Iggy Pop, David Bowie
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Entre esta centena de discos, "Raw Power" é provavelmente o que conheço há mais tempo, de uma velhinha cassette que tanto terá rodado que ainda hoje recordo, quase nota por nota, o fuzz do James Williamson, quase berro por berro, a verborreia do Iggy Pop. Reza a história que, por esta altura, os Stooges já tinham acabado. A Elektra já não queria saber deles. O álbum homónimo de estreia (1969) e "Fun House" (1970) tinham vendido pouco. É neste contexto que Iggy Pop conhece David Bowie. Muda para a mesma empresa de management do inglês e viaja para Londres com Williamson para gravar um disco a solo. Não encontra músicos ingleses que o satisfaçam e chama os irmãos Ron e Scott Asheton. Os Stooges voltavam assim a gravar, mas agora o grupo chamar-se-ia, de forma honesta, Iggy & Stooges. Bowie produziu num só dia sete das oito faixas, a partir de... três pistas que Iggy Pop lhe passou, banda na primeira, guitarra solo na segunda e a voz na terceira. O resultado, ainda que com a limitada cirurgia plástica que Bowie conseguiu fazer, não deixa de ser uma amálgama sonora de fuzz e berraria puxados aos limites, que, para a altura, mesmo para o contexto de Detroit de onde vinham os Stooges, metia medo. Parecia que queriam destruir tudo o que lhes aparecesse pela frente. Parecia tudo aquilo que anos mais tarde se encontraria na explosão do punk em Inglaterra. Mas, muitos anos depois, Iggy Pop, talvez para destruir ainda mais, voltaria a colocar "Raw Power" na história por outros motivos. À produção de Bowie sucedeu-se, em 1995, uma versão pirata, com a primeira mistura de Pop. Mas em 1997, numa reedição em CD da Columbia, Pop pegaria em tudo de novo para produzir aquele que é, mesmo para os dias de hoje, um dos discos com volume permanentemente mais alto de sempre, um trabalho que desagradou meio mundo, incluindo os próprios James Williamson e Ron Asheton.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 7, Gong (rep.)



FLYING TEAPOT
GONG (França/Inglaterra)
Edição original: Virgin
Produtor(es): Giorgio Gomelsky
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Se isto fosse a lista dos discos mais chanfrados de 1973, este estava batido no topo. A chanfradice não vem só do tema cósmico que atravessa todo o disco, apesar de ser uma história que merece a pena ser contada. Inspirada numa alegada visão do vocalista australiano Daevid Allen durante uma lua cheia na páscoa de 66, a história de "Flying Teapot" fala de um egiptologista suinicultor, Mista T Being, a quem um vendedor de rua de bules antigos e colecionador de rótulos de chá, Fred the Fish, vende um brinco mágico, o qual é capaz de captar mensagens do planeta Gong através de uma estação pirata de rádio chamada Radio Gnome Invisible. Os dois viajam para o Tibete onde se encontram com o abominável homem da cerveja, Banana Ananda, que passa o tempo a cantar "Banana Nirvana Mañana" e se embebeda com Foster's... Só por isto, já merece a pena ir até ao fim do mundo à procura deste disco. Esta história está então na base da trilogia aqui iniciada e prosseguida em "Angel's Egg" -- 64.º nesta lista -- e em "You" (1974). Mas, dizia atrás, a chanfrandice não vem só da história. Musicalmente, "Flying Teapot" é um disco de loucos. Só tipos completamente fora do registo de lucidez que a sociedade entenda como normal seriam capazes de chegar a composições e a arranjos desta natureza, um autêntico frenesi de géneros (jazz, rock, prog e muito mais), de instrumentos, de ritmos, de tempos. É o melhor, a par com "Camembert Electrique" (1971), da fase Allen. Pode não chegar para dar alucinações como a que ele teve naquela tal páscoa, mas poucas vezes a música consegue chegar tão perto de ser assim tão alucinante.

terça-feira, 26 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 8, José Mário Branco (rep.)



MARGEM DE CERTA MANEIRA
JOSÉ MÁRIO BRANCO (Portugal)
Edição original: Guilda da Música
Produtor(es): José Mário Branco
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«Não foi por vontade nem por gosto que deixei a minha terra»
(in "Por Terras de França")

Segundo álbum do exilado José Mário Branco e, em certa medida, continuação do primeiro, "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1970). Em jeito de parêntesis, tenho aqui um pequeno, minúsculo problema entre mãos (mais um). É que "Margem de Certa Maneira" não saiu, tecnicamente, em 73. Foi gravado em novembro de 72, em França, e foi lançado poucos dias antes do Natal. Pormenores. Fim de parêntesis e avante com o que interessa. Algumas destas canções vinham de um projeto anterior de José Mário Branco com o escritor e jornalista Álvaro Guerra, "Crónicas". A censura, que andava mais atenta desde 71, rejeitou dois terços do trabalho, que foi assim posto de lado e aqui recuperado em parte. Nos arranjos (não será José Mário Branco o melhor arranjador que este país alguma vez conheceu?), nos instrumentos (o estranho cromorno em "Engrenagem" ou no tema-título remete ouvidos atuais para outros iconoclastas geniais, os Gaiteiros de Lisboa), na reconstrução de uma certa musicalidade portuguesa, se assim lhe podemos chamar, ainda para mais num disco que, curiosamente, é gravado essencialmente por músicos franceses, "Margem de Certa Maneira" é tanto ou mais revolucionário que o seu antecessor, é tão ou mais digno de figurar para sempre na galeria das melhores obras de autores portugueses. Como em Zeca Afonso, com quem José Mário Branco tantas vezes trabalhou, a música popular portuguesa dava um passo gigantesco em frente. E nos temas abordados, "Margem de Certa Maneira" parece tão atual como então. Ou ainda mais.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 9, Kraftwerk (rep.)



RALF UND FLORIAN
KRAFTWERK (Alemanha)
Edição original: Philips
Produtor(es): Conny Plank, Ralf Hütter, Florian Schneider
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Como o título não deixa escapar, a formação era constituída por Ralf Hütter e Florian Schneider, que deixou o grupo em 2008. Em 1973, os Kraftwerk estavam de novo reduzidos ao duo fundador, depois de por lá ter passado gente como Michael Rother e Klaus Dinger, que viriam a ser os Neu!. Na verdade, ao duo deve ser acrescentado o nome de Conny Plank, o produtor que acompanhava os Kraftwerk desde o início e que esteve por trás do som de tanta boa gente do kraut, como os já mencionados Neu! (todos os álbuns), os Kluster/Cluster (idem), Harmonia, Guru Guru, Ash ra Tempel, etc. "Ralf und Florian" (ou "Ralf and Florian" nas edições internacionais) é essencialmente instrumental e aponta para aquela que será a marca do som dos Kraftwerk daí para a frente, assentando essencialmente na experimentação de sintetizadores e no uso de caixas de ritmo.
(Passaram mais de quarenta anos. Digam lá se não vos parece ouvir o Panda Bear no "Tanzmuzik", por exemplo. Em todo o caso, o desafio traz água no bico... é que o Panda Bear até já o samplou.)

domingo, 24 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 10, Tom Waits (rep.)



CLOSING TIME
TOM WAITS (EUA)
Edição original: Asylum
Produtor(es): Jerry Yester
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Now it's closing time, the music's fading out
Last call for drinks, I'll have another stout.
Well I turn around to look at you, you're nowhere to be found,
I search the place for your lost face, guess I'll have anotherround
And I think that I just fell in love with you.

(in "I Hope That I Don't Fall in Love with You")

Entre os discos que constam da minha coleção pessoal e desta longa lista, este é aquele que comprei há mais tempo. Na adolescência, ouvia tanta gente a tecer todo o tipo de elogios a Waits que tinha de perceber o que era. Não tínhamos youtube nem sequer internet para sacar discos, diria agora um avozinho meio trocado das ideias. A rádio, ou melhor, o António Sérgio era uma das poucas hipóteses de ouvir música antes de a comprar (a outra era, claro, o já tão longínquo sistema de partilha de discos entre amigos). Mas adiante. Aconteceu que "Closing Time" não bateu à primeira. Só com "Heartattack and Vine" (1980) ou "Swordfishtrombones" (1983) se faria luz e só anos mais tarde, já com meia discografia de Waits na estante e nos ouvidos, é que o álbum de estreia voltaria à liça, como se fosse preciso conhecer o porteiro deste bar fumarento de jazz, country e canção americana que é "Closing Time".

sábado, 23 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 11, John Cale (rep.)



PARIS 1919
JOHN CALE (País de Gales)
Edição original: Reprise
Produtor(es): Chris Thomas
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Tendo trabalhado com La Monte Young e Tony Conrad, tendo ajudado a fazer história no rock com os Velvet Underground, tendo depois trabalhado com Terry Riley e produzido discos para muito boa gente, John Cale surpreendeu, ao abrir ainda mais a sua área de intervenção com este "Paris 1919". Soberbo, belo, elegante, sofisticado, arrojado, luxuoso, poético, literário. Ao longo dos anos, têm sido usada toda a espécie de adjetivos apreciativos. É para isso que eles estão no dicionário.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 12, Gentle Giant (rep.)



IN A GLASS HOUSE
GENTLE GIANT (Inglaterra)
Edição original: WWA
Produtor(es): Gentle Giant, Gary Martin
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"Tens que levar esse disco", dizia-me o Fernando Magalhães na casa do "vendedor". Esta história já tem mais de 10 anos e o "vendedor" era um melómano que havia perdido o interesse na extensa discografia prog (e não só) da década de 70 que colecionara. "In a Glass House" e outros, como o "Naked Shakespeare" do Peter Blegvad, o "1001º Centigrades" dos Magma, mudavam assim de casa, mas de todo o produto da rapina, seria o disco dos Gentle Giant aquele que maior fascínio viria a despertar nos meus ouvidos. É, provavelmente, o disco prog a que continuo a recorrer com maior frequência, até hoje. São desconcertantes as mudanças de tempos, o encaixe meticuloso dos instrumentos de diferente espécie, a incursão por pequenos trechos folk, medievais até, e a precisão das costuras que unem todos estes retalhos. Por mais que tenha vindo a tentar, nenhum outro disco dos Gentle Giant conseguiu reproduzir o mesmo efeito. Eu bem tinha que ter trazido este disco.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 13, The Modern Lovers



THE MODERN LOVERS
THE MODERN LOVERS (EUA)
Edição original: Beserkley
Produtor(es): John Cale, Robert Appere, Alan Mason
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Um caso de batota -- ou meia batota, convenhamos -- nunca vem só. Se o disco dos Mutantes chegou à luz do dia apenas em 1992, eis aqui outro caso de parto tardio, ainda que a espera não tenha sido tão longa. O primeiro álbum dos Modern Lovers, de Jonathan Richman, saiu em 1976, mas as sessões produzidas na sua maioria por John Cale eram do ano que aqui se anda há meses a destacar. E aqui há que explicitar as sessões produzidas pelo ex-Velvet, que se traduziriam nessa tal edição de 76, pois este debute dos Modern Lovers acabou por vir servido em diferentes versões ao longo dos anos. Até o profícuo Kim Fowley esteve envolvido em produções diferentes das primeiras canções do grupo de Richman. Por outro lado, é curiosa a participação de Cale no disco, já que Richman é provavelmente o músico que melhor soube herdar e prosseguir o legado dos Velvet Underground, até hoje, mais do que o próprio produtor, mais do que a outra força motora, Lou Reed. Aqui, temas como "Roadrunner", o grande hit do disco, "Pablo Picasso", tema obrigatório do reportório de Richman ao longo das décadas, ou "Girl Friend", são daquela afirmação as melhores das evidências. Se uma das maiores tautologias do rock apregoa que a música nunca seria a mesma sem os Velvet na sua história, manda a justiça que também se diga que toda a cena independente que conhecemos seria tremendamente diferente se não fosse por esta criatura diletante que ainda hoje fascina pequenas plateias e que frequentemente a história tende a esquecer: Jonathan Richman.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 14, Os Mutantes (rep.)



O "A" E O "Z"
OS MUTANTES (Brasil)
Edição original: Philips
Produtor(es): Os Mutantes
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«O "A" e o "Z"» surge nesta lista com, enfim, alguma batotice. Afinal, foi editado apenas em 1992, quase 20 anos depois de ter sido gravado. Em 1973, a Polydor não terá encontrado valor comercial num disco que diz-se ter sido composto e executado sob o efeito de LSD e chegou mesmo a despedir a banda. Foi o primeiro álbum dos Mutantes que comprei e devo confessar que, na altura, não suscitou o mesmo entusiasmo que o conseguido na descoberta (posterior) dos álbuns anteriores, em particular os dois primeiros, homónimos, mas com o tempo e com audições mais atentas, o disco veio crescendo. Já sem Rita Lee, os Mutantes assumiam-se definitivamente progs, épicos até, culminando no assombro de faixa que é "Uma Pessoa Só" ou no tema musical de abertura e fecho, os tais A e Z, com que o disco abre e encerra. Era ácido do melhor.