terça-feira, 15 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #7


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

7. No prefácio que escreveste para a edição de "Os Cantos de Maldoror" pelas Quasi, relembras a tua adolescência, quando andavas a pichar as paredes de Braga com slogans tirados do livro. Hoje, não é isso que fazes, enquanto voz do grupo, quando declamas algumas frases, que ficam na memória dos espectadores, como "Estou sujo. Roído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam." (em "A Porcaria") ou como acontecia nos refrões do "Latrina...", por exemplo?

ALC: Bom, em última análise estamos sempre a fazer a mesma coisa sob maneiras diversas, como se diz do Hemingway que escreveu sempre o mesmo livro apesar dos diferentes títulos e enredos!... Mas as pichagens de 74/75 obedeciam a uma vontade precisa, dar um pouco de graça literária às paredes cobertas de propaganda partidária, ainda que jogando no campo do imediatismo propagandístico, e daí a escolha de frases que podiam revestir a forma de slogan, enquanto a construção de canções, discos ou espectáculos, ainda que baseados noutros autores ou em obras literárias, obedece unicamente à necessidade de evasão que a criação artística propicia, tanto maior quanto essa criação é partilhada e colectiva. O efeito de memorização e de reprodução de partes dessa criação artística é mera consequência do formato canção utilizado, que inclui na sua estrutura o refrão ou estribilho, e não o objectivo primeiro. Claro que este efeito colateral, de certo modo, vai ao encontro do efeito colateral e slogan das pichagens, mas é necessária muita teoria analítica para os colocar lado-a-lado...