sexta-feira, 11 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #5


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

5. Qual é a principal motivação dos Mão Morta quando pegam noutros autores ou imagéticas concretas, do Müller ao Ducasse, da Internacional Situacionista à geração perdida de Braga? Tributo? Propaganda panfletária (num bom sentido da palavra)? Exploração artística de um tema?

ALC: Bem, antes de mais há uma motivação de ordem prática e que tem a ver com a dispersão geográfica dos diversos elementos da banda e que sempre esteve presente desde os primórdios, independentemente da formação em causa. Ter um assunto definido, para o qual cada um, no seu canto, possa sintonizar energias criativas, ajuda a ultrapassar a distância e a separação e a evitar que a dispersão geográfica se transforme em indefinição estética ou em cacofonia. Depois, porque trabalhar um conceito torna-se mais objectivo (e portanto menos sujeito a divagações e interpretações subjectivas) se esse conceito tiver um modelo a balizá-lo e a concretizá-lo. Finalmente, porque a literatura é, para nós, grande fonte de inspiração, que nos induz a querer explorar ou trabalhar artisticamente um assunto ou uma imagética ou um autor, independentemente das vicissitudes particulares que nos levam a pegar hoje nisto e não naquilo. Claro que as escolhas assim operadas têm um lado de tributo e mesmo de divulgação/propaganda, que é inerente ao facto de, ao fazê-lo, estarmos a confessar publicamente o nosso agrado e interesse por um autor ou uma obra e a focalizar as atenções de terceiros, ou mesmo a sua curiosidade, nessa obra ou autor, mas não são esses os nossos objectivos primeiros.