quinta-feira, 10 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #4


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

4. Enquanto letrista e vocalista dos Mão Morta, onde te sentes mais à vontade? Na escrita de raiz dos temas e dos conceitos presentes em discos ditos "comuns" ou na adaptação de textos e ambientes de outros para espectáculos como "Müller..." ou "Maldoror"? Sentiste que invadias espaço alheio quando pegavas em Heiner Müller ou, agora, em Isidore Ducasse?

ALC: Como letrista sinto-me, não me parece que o termo "à vontade" seja o mais correcto!... Sinto-me menos angustiado, mais relaxado, quando faço meras adaptações e traduções de textos pré-existentes, escritos por outros autores. Porque, quando acontecem, isso pressupõe que haja, desde logo, alguma identificação com o autor, portanto uma sensibilidade para o entender e uma cumplicidade - o contrário da sensação de intrusão em espaço alheio! E havendo essa cumplicidade e estando o texto já escrito, a tradução ou a adaptação para um fim determinado são pequenas operações sem história... Diferente da angústia da folha em branco, em que tudo tem ainda de ser escrito! Embora, ainda como letrista, pior do que a folha em branco é a foha em branco para escrever letras e textos originais mas respeitando ideias e conceitos de outros autores ou adaptando imagéticas e vivências, como aconteceu com as letras para o "Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável", baseado no legado teórico da Internacional Situacionista, ou para o "Nus", informado pelo "Uivo" do Allen Ginsberg. Como vocalista, é-me indiferente a origem das letras, se são próprias ou se são de outrém.