quinta-feira, 24 de abril de 2008

Em poucas palavras, Maldoror foi... soberbo

À segunda vez -- a primeira foi a estreia, em Braga -- deu para desfrutar do espectáculo levado à cena pelos Mão Morta de uma perspectiva diferente. Quer isto dizer que deu para tomar atenção a pormenores obfuscados da outra vez pelo efeito surpresa, pela overdose de informação visual e sonora de que é composta a peça musical, o concerto dramatizado, a opereta rock, o que lhe queiramos chamar. Deu também para reparar mais facilmente em alguns defeitos. O próprio volume da informação que é projectada para o espectador é talvez o principal, levando a que, por vezes, a atenção se desvie do texto para os vídeos, para os actos que Adolfo Luxúria Canibal e os outros músicos desempenham na cena, para a música. Mas se é isso é um pecado, também não deixa de poder ser visto como uma virtude. Afinal de conta, ao longo de hora e meia de espectáculo, os Cantos de Maldoror são servidos ao público através de uma imensa opulência de pequenos pormenores. E, já agora, quando o espectáculo sair para a rua em formato DVD, vai haver oportunidade de prestar atenção as vezes que se quiser. A tudo.
Esta foi a penúltima noite de Maldoror, o espectáculo. A 3 de Maio, em Braga, encerra-se definitivamente este período na vida da banda. É o fechar de pano para uma experiência raríssima no panorama musical português e até, de certa forma, por esse mundo, de tão fora de moda que ficaram as produções deste género. Por um lado, envolvem sempre grande empenho das pessoas que nelas participam. E, hoje, a nova cronometria da indústria musical -- gravar discos com cada vez maior frequência, fazer digressões pelo mesmo continente duas ou três vezes por ano -- não deixa grande espaço para projectos de longo prazo. Por outro lado, envolvem grandes investimentos quase nunca rentabilizáveis à bilheteira. Também por isto, a oportunidade que foi dada a algumas centenas de pessoas de verem este espectáculo por várias salas do país é algo que vai ficar na memória das mesmas por largos tempos. São acontecimentos como este que marcam a diferença, passe o cliché.