segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Eu vi a Patti Smith chorar

Eu vi a Patti Smith chorar de alegria. Foi perto do final de "Rock'n'Roll Nigger", já nos derradeiros instantes do concerto de ontem no Coliseu dos Recreios. Como é que uma mulher que carrega com as marcas amargas que a vida se lembrou de lhe trazer, com mais de 30 anos de carreira (com uma pausa prolongada pelo meio), consegue ainda ficar assim tocada por uma plateia? É certo que é uma plateia que a adora desde o início, aliás, mesmo antes do início. É certo que a empatia é mútua, com Patti Smith a elogiar a Lisboa bonita e independente dos Starbucks. Ou quando lembra a Lisboa que havia nos seus estudos, numa fase final da vida do seu marido Fred "Sonic" Smith. Ou quando a aluna de Rimbaud decide dedicar uma música a Pessoa e, mais tarde, pôr este nos versos improvisados de "Perfect Day", de Lou Reed. Mas aquelas lágrimas impossíveis de conter diziam tudo. Era o final de uma noite magnífica para todos. Para o público, para a senhora Smith, para a sua banda, onde ainda reina o seu guitarrista de longa data, Lenny Kaye, que aproveitou da melhor forma o descanso da cantora para puxar pelos acordes de "Pushin' Too Hard", dos Seeds. Foi uma noite com muitos tributos, não sendo estranho o facto do último álbum de Smith ser justamente um álbum de covers. Deste, ouviu-se uma versão longa e entremeada com poemas de Smith de "Are You Experienced?", de Jimi Hendrix, e "Smells Like Teen Spirit", extropiado do pessimista "how low" tal como na versão gravada em "Twelve". Mas também houve "Gloria", "Dancing Barefoot", "Because the Night", "People Have the Power" e outros clássicos da carreira de Patti Smith. Duas horas de concerto que puseram novos e velhos aos saltos, aos berros e, claro, com um enorme sorriso na cara no final de uma noite de domingo. Esta semana vai ser mais produtiva.