sábado, 30 de junho de 2007

Ainda Ali Farka Touré e o Mali

Há alturas em que o olhar, o escutar, o sentir, todas as nossas atenções se dispersam. E isso é bom. Há outros momentos, porém, em que todas essas atenções são dirigidas para um único foco, como um raio laser que concentra energia. E isso é bom, também, mas pode ser perigoso. Uns chamam-lhe teimosia, obsessão, obstinação, pancada, distúrbio maníaco-compulsivo, e por aí adiante. Outros chamam-lhe somente amor.

Há dois discos que têm tocado muito por aqui: "Segu", de Bassekou Kouyaté & Ngoni Ba, e o álbum homónimo de Vieux Farka Touré. O que há aqui em comum? Mali e Ali Farka Touré.

O primeiro, Bassekou Kouyaté, esteve na banda que Ali Farka trouxe a Lisboa há dois anos, na primeira edição do África Festival, realizada no Anfiteatro Keil do Amaral. É considerado o melhor intérprete da ngoni, uma guitarra tradicional maliana, que ontem foi também o foco das atenções no grupo com que Bassekou se apresentou, em Belém, para mais uma edição do "África".

O segundo, filho de Ali Farka, começou nas percussões, mas o pai, conhecendo este as dificuldades de uma profissão de músico, proibiu-o de seguir essa paixão. Ali Farka queria-o na carreira militar, mas Vieux Farka não desistiu da música e passou a tocar guitarra às escondidas do seu progenitor. Toumani Diabaté, o grande mestre da kora e discípulo de Ali Farka (com o qual também tocou no mítico concerto do anfiteatro Keil do Amaral), reconheceu as capacidades de Vieux e intercedeu junto do pai deste. Com Diabaté a servir de tutor, veio a autorização. Veio depois a gravação deste álbum de estreia, onde participam Diabaté e o próprio Ali Farka, num claro sinal de passagem de testemunho.

Tal como nos blues do delta do Mississipi, estes blues das margens do Níger, prováveis parentes ancestrais daqueles, usam as repetições e as pentatónicas para chegar a uma mesma expressão intrinsecamente genuína e orgânica, que faz dançar o corpo e a mente (e não é raro que esta sue mais que o primeiro), que faz chorar e rasgar um sorriso ao mesmo tempo, que faz sentir algo que não conseguimos explicar a alguém que não oiça música. Como aquele momento do concerto de ontem de Bassekou Kouyaté, num tema bastante calmo dedicado especialmente à memória de Ali Farka Touré.

No próximo Inverno, vou a Bamako, Niafunké e, se tudo correr bem, a Timbuktu, para o festival do deserto. Seja por teimosia ou por amor (se é que um não é causa para o efeito do outro e vice-versa).

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