segunda-feira, 26 de março de 2012

O mais próximo que conseguimos estar de Robert Wyatt, nesta quinta-feira

Se um dia me perguntarem pelo músico que mais gostaria de ver ao vivo, tenho a resposta na ponta da língua: Robert Wyatt. Pela sua notável carreira a solo ou, recuando no tempo, pela discografia dos Soft Machine ou dos "seus" Matching Mole, pelas colaborações preciosas com o seu velho camarada Kevin Ayers, com Brian Eno, com David Gilmour, com Michael Mantler e com tantos outros. Pelo compositor, pelo intérprete.

É provavelmente a maior lacuna na história de concertos em Portugal. Isto, claro, se ninguém aparecer já a seguir a dizer que Wyatt já cá esteve em mil novecentos e setenta e tal, no sítio tal, com os músicos fulanos de tal. Não vale dizer que ele já passou por Portugal. Na verdade, Wyatt passou por cá em criança, como testemunha uma resposta aqui há uns anos a Rui Tentúgal, do Expresso:
«Portugal foi muito importante para mim. A minha empatia com o Terceiro Mundo vem do facto de eu ter sido fantasticamente intoxicado por um país que naqueles tempos imaginávamos ser o Terceiro Mundo: as crianças andavam descalças, as raparigas eram impossivelmente exóticas, os meus pais deixavam-me ficar acordado até tarde porque todas as crianças portuguesas ficavam acordadas até tarde (e podiam beber vinho misturado com água). Brinquei com uma rapazinho chamado Rudolfo que era tão bonito que se eu tivesse ficado mais algum tempo ter-me-ia tornado homossexual. Foi incrível ver esta gente, que era muito mais pobre do que nós, ter uma vida maravilhosa na pobreza. Um melão custava um escudo. As pessoas carregavam na cabeça grandes blocos de gelo, com um passo muito digno. Fiquei com vergonha de ter sapatos e tentei andar descalço, mas o chão estava cheio de escarros e a minha mãe obrigou-me a calçá-los. Lembro-me de coisas muito simples, como dormir na praia, com um cobertor, em sítios como a Trafaria, junto ao rio, e ver as estrelas...Para um rapazinho que vivia num subúrbio de londres, com brumas e nevoeiro, era como um reino mágico. Isto é incrivelmente romântico, mas eu não percebia nada de pobreza ou opressão (Portugal ainda era um país fascista), eu via apenas a beleza das pessoas, mas não compreendia o que é que isso tinha a ver comigo, como é que eu podia ser parte daquilo»
(Esta visita de Wyatt ao Portugal dos anos 50 serviu de inspiração para o EP "A Short Break", uma pequena coleção de temas gravados em casa e lançada em 1992.)

Mas a que vem isto agora? Quinta-feira vamos estar mais perto de Wyatt! Mas já lá vamos, porque interessa contar a história do início. Em 2009, sob a direção do contrabaixista Daniel Yvinec, a Orchestre National de Jazz, de França, gravou um tributo ao músico inglês. "Around Robert Wyatt" reunia velhos temas como "Alifib" ou "Vandalusia", as mais recentes "Just As You Are" ou "Del Mondo", e até composições de outros que ora se tornaram fundamentais no longo reportório de Wyatt, como "Shipbuilding", de Elvis Costello, ora tiveram a voz do barbudo, como "The Song" e "Kew Rhone", dos velhos amigos John Greaves e Peter Blegvad. Além do próprio Wyatt, emprestaram voz aos temas nomes como Rokia Traoré ou a atriz pela qual este vosso escriba tinha o maior dos fascínios nos idos de 90: Iréne Jacob. "Around Robert Wyatt" viria a ser distinguido como "Álbum do ano" na gala anual "Les Victoires du Jazz".

Quinta-feira, dia 29, então, vamos tê-los por cá, em mais uma etapa da programação CCBeat. A Orchestre National de Jazz vem ao grande auditório do CCB apresentar este tributo desenhado em torno de Robert Wyatt, com a colaboração do próprio e, como convidados especiais, teremos Erik Truffaz no trompete e Perry Blake na voz. Os preços dos bilhetes, se ainda os houver, variam entre os 5,33€ e os 15,99€, havendo os descontos do costume para jovens, menos jovens, estudantes, profissionais do espetáculo e grupos.



Orchestre National de Jazz
Daniel Yvinec - direção artística
Eve Risser - piano, piano preparado, flauta
Vincent Lafont - teclas, eletrónica
Antonin-Tri Hoang - saxofone alto, clarinete, piano
Remi Dumoulin - saxofone tenor, clarinete
Matthieu Metzger - saxofones, efeitos electrónicos
Joce Mienniel - flauta, eletrónica
Sylvain Bardiau - trompete
Pierre Perchau - guitarra, banjo
Sylvain Daniel - baixo elétrico
Yoann Serra - bateria