segunda-feira, 13 de outubro de 2003

Imperdível

Por falar em Santiago Alquimista (ver posta anterior), vão por lá passar hoje (segunda-feira) os incríveis Fat Freddy. Este inenarrável ensemble da folia vem de Matosinhos até Lisboa apresentar o álbum de estreia, "Fanfarras de Ópio" (à venda a partir de hoje). Se querem um pouco de música armada em experimental, se querem um pouco de swing e outros números especiais de contrabaixo, e, acima de tudo, se querem passar uma noite mais divertida do que o recall californiano ou do que o embaraço do governo português com a Sofia Martins da Cruz, cancelem já os planos de cinema mais barato desta segunda-feira e apareçam no Alquimista. A SÉRIO!

Bypass: dias melhores virão, com certeza

Há uns dois meses atrás, escrevi um artigo para a revista Número, a qual deve estar prestes a sair, onde procurei explorar dois ou três pontos de vista mais ou menos generalistas sobre o estado do rock -- não todo o rock, mas aquele que mais me interessa -- em Portugal. A jeito de ilustração, e a respeito de um dos pontos de vista abordados, falava de uma hipotética banda que, por mais que trabalhasse, nunca conseguia realmente saltar da garagem ou da meia-dúzia de concertos que conseguia fazer por ano, até que acontecesse ao baixista ir fazer o Erasmus lá para fora, ao baterista arranjar um emprego das 9 às 23h que lhe impedia quaisquer aventuras no rock'n'roll, conduzindo toda esta sucessão de peripécias ao fim de uma banda que até era bem interessante.
Por coincidência, e já depois de eu ter escrito o artigo e tê-lo enviado para a redacção da Número, eis que nos meus amigos Bypass se dá a saída (temporária, parece) de dois dos seus elementos, o guitarrista-vocalista e o teclista-baixista, os quais irão estar durante o próximo ano a prosseguir os seus estudos ou os seus trabalhos no estrangeiro. No Sábado fui ver pela primeira vez a nova formação -- três novos elementos entraram para o grupo enquanto convidados -- no concerto do Santiago Alquimista, em Lisboa. Para quem, como eu, já os conhece há mais de meia-dúzia de anos, do tempo em que não eram mais do que uma mera brincadeira de liceu, ainda sob outro nome, e que os viu crescer e tornar-se um grupo com a força que eles tinham, produzindo concertos inesquecíveis -- Paredes de Coura, Rock Kastrus, Fábrica da Pólvora, Lounge (num formato mais soft), Casa das Artes, etc. --, foi muito estranho entrar no Alquimista e dar, de repente, com aquela nova configuração do palco, com alguns novos arranjos e com uma forma de tocar ainda muito longe da invulgar coesão que a formação anterior tinha. Momentos houve em que ali parecia estar uma banda completamente diferente. Outros em que as coisas já funcionavam melhor. Desilusão? Pois sim, um pouco. Mas, ao mesmo tempo, estou seguro que estes comentários vão perder a sua razão com o tempo e que, olhando para isto tudo pelo lado bom da coisa, o tombo podia ser muito pior, tanto mais sabendo o pouco tempo em que foi produzida esta remodelação.
Tudo isto para dizer que eu só queria mesmo era que a história que eu descrevia no artigo não fosse a dos Bypass. Ou então mudo de nome para Professor Karamba.

sexta-feira, 10 de outubro de 2003

Como um disco muda o nosso quotidiano

Estou a experimentar belíssimas sensações ao ouvir o novo de Plaid, "Spokes". O duo parece ter regressado ao tempo em que eram The Black Dog e àquela electrónica tipicamente inglesa (vide alguns dos primeiros discos do Aphex Twin) que vai buscar os Kraftwerk e vai mais longe do que estes foram na criação de sequências "atmosféricas" e emocionalmente arrepiantes, ao mesmo tempo que adiciona beats e breakbeats próximos da escola drum'n'bass.

Outra grande audição dos últimos dias é o álbum dos Mécanosphère. A electrónica do Benjamin Bréjon funde-se na perfeição com a voz de Adolfo Luxúria Canibal. Por vezes, sinto que gostaria de ter visto os Mão Morta a deixarem evoluir a sua vertente mais electrónica por caminhos como este. Mas quando existe um disco como este já não é, obviamente, necessário.

quarta-feira, 8 de outubro de 2003

Pega que é ladrão #1

Durante o tempo em que a Operação Drunfo foi para o ar na Voxx, eu e o meu amigo João Gonçalves tínhamos uma rubrica à qual dávamos o nome de "Onde é que eu já ouvi isto?", onde pretendíamos desmascarar os gamanços descarados que alguns dos músicos de hoje fazem a riffs, melodias ou letras de temas já ausentes daquilo a que podemos chamar de memória colectiva. Recupero agora essa rubrica, com um novo nome, para o Juramento Sem Bandeira. Para a inaugurar, deixo um caso paradigmático dos tempos que vivemos: "Bohemian Like You", dos Dandy Warhols.

Toda a gente ainda se lembra do sucesso que este tema fez há pouco tempo, por força do notável co-branding que trouxe a maior das publicidades à banda norte-americana e a uma grande operadora de comunicações móveis. Mas poucos saberão que aquele riff de guitarra que a toda hora nos aparecia na TV, na rádio, na rua, na net, no telemóvel, etc., era tudo menos original. Já em 1979, os Specials, os maiores do ska-punk inglês, tinham no seu álbum de estreia, homónimo e produzido por Elvis Costello, uma canção chamada "Little Bitch" onde está patente o mesmo riff, igual nota a nota, que tanto sucesso trouxe aos Dandy Warhols e à companhia de telemóveis. É caso para se gritar bem alto... PEGA QUE É LADRÃO!

(Como a rubrica "Pega que é ladrão" não gosta de fazer acusações sem ter os factos comprovativos ao seu lado, aqui fica o link para ouvirem o tema dos Specials: Little Bitch.)

terça-feira, 7 de outubro de 2003

Editoras saltam para o lado de cá

Há duas novas editoras independentes portuguesas com domínio na web:

COBRA: a editora formada por Miguel Pedro, António Rafael e Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta, por onde saíram "Carícias Malícias", dos próprios, e "Bliss", dos Anger, pode ser acedida em www.cobradiscos.com.

LOOP: a pequena grande editora do Rui Miguel Abreu, D-Marz e companhia continua o seu excelente trabalho na área do hip hop português, estando agora disponível através de www.looprecordings.com.

Ambas as editoras disponiblizam nestes locais os seus discos a preços inferiores àqueles que vemos nas lojas. Por isso, é aproveitar!

segunda-feira, 6 de outubro de 2003

Young Adam

Ele há bandas sonoras que tornam um filme grande sem se deixarem cair no protagonismo excessivo, sem ofuscar a nossa atenção e distraí-la do desempenho dos actores e do guião. Acontece isso com a banda sonora do filme "Young Adam", de autoria de David Byrne, que dirigiu uma série de outros músicos de Glásgua, ligados a bandas como Mogwai, Delgados ou Belle & Sebastian. O filme, realizado por David McKenzie, conta as atribulações do jovem Joe (Ewan McGregor), que encontra trabalho numa barca de transporte de carvão e demais combustíveis que faz serviço entre Glásgua e Edimburgo durante os anos 50 (?). A escassez de diálogos é complementada de forma subtil pelas tensões eróticas que se desenvolvem dentro e fora da barca ao longo de todo o filme, com a música a marcar um delicado papel -- pela finura das cordas, essencialmente, que por vezes lembra os Rachel's -- como já não se via há algum tempo no novo cinema britânico, frequentemente dado a incursões mais berrantes na música popular. Brilhante a forma como o filme encerra, com David Byrne a cantar "The Great Western Road".
Enquanto a Medeia Filmes se presta a estrear o filme nas salas portuguesas, a AnAnAnA aproveita a ocasião e faz o lançamento de "Lead Us Not Into Temptation - Music from the Film Young Adam" (Thrill Jockey, 2003), de David Byrne, e "The Last Great Wilderness" (Geographic, 2003), uma outra banda sonora que os Pastels compuseram para o anterior filme de McKenzie.

Regresso ao passado #4: Pop-Off

Continuando o hábito de fazer estas viagens ao passado em segundas-feiras intercaladas, proponho desta vez a recordação não de uma banda, como aconteceu até agora com os Ik Mux, os Crise Total e os Corpo Diplomático, mas de um programa de televisão que foi enorme no seu tempo, o Pop-Off. Ao longo de três anos, o programa da Latina Europa desempenhou um papel singular na divulgação (e no fomento) da explosão de novas bandas do início da década anterior, quebrou barreiras na comunicação televisiva e formou público. Por tudo isto deixou uma carga enorme de saudades naqueles que sentem que nunca mais se foi tão longe na televisão, que nunca mais se foi tão longe na música servida por imagens. Encontrei o texto que se segue no site do jornalista Jorge P. Pires, um dos operários de texto do programa. O mesmo serviu de entrada na Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dirigida pelos irmãos Luís e João Pinheiro de Almeida, e editada em 1998 pelo Círculo de Leitores:

POP-OFF

O magazine «Pop-Off» foi emitido pela RTP-2 entre Setembro de 1990 e Agosto de 1993, e foi um dos programas que marcaram a imagem e o sentido da produtora independente Latina-Europa, a par do programa infantil «Ícaro» e do magazine juvenil «Lentes de Contacto», entre outras produções. Intencionalmente dedicado à moderna música urbana portuguesa, o «Pop-Off» foi contratado pela RTP - na época em que o responsável pelo Departamento de Programas Musicais e Recreativos era José Nuno Martins - a uma nova empresa de produção televisiva, fundada em 1987 por Paulo Miguel Forte e António Saraiva, que, além da experiência recolhida junto de algumas empresas congéneres europeias, eram já responsáveis por alguma animação no panorama musical da RTP, sendo autores dos primeiros videoclips dos Madredeus e de Júlio Pereira (Paulo Miguel Forte), ou dos Mler Ife Dada (A. Saraiva). A Latina-Europa estreou no Verão de 1989 a sua primeira produção para a RTP, o magazine «Lusitânia Expresso», que além das produções originais incluía blocos de programação consignados por outras produtoras independentes europeias, com as quais a Latina-Europa estabelecera convénios. Com o «Lusitânia Expresso», a RTP abriu-se pela primeira vez à influência das estéticas alternativas em televisão, e exibiu obras paradigmáticas da estética videográfica - como as do polaco Zbig Rybczynski - intercaladas por pequenas ficções, videoclips e curtos documentários sobre a nova geração das artes nacionais, produzidos e realizados por Paulo Miguel Forte e António Saraiva. Ficaram aí registados os primeiros audiovisuais sobre autores como o fotógrafo Daniel Blaufuks, ou o poeta Al Berto. Na sequência do «Lusitânia Expresso», aclamado por críticos tão impenitentes como o decano Mário Castrim, a Latina-Europa conseguiu junto da RTP, em 1990, contratos para novas produções.

O contrato do «Pop-Off» impunha a regularidade de produção de um videoclip original por emissão. Os apresentadores eram Gimba (Eugénio Lopes) e Sofia Morais, uma adolescente que fôra vista pela primeira vez nos estúdios da Latina-Europa enquanto figurante no primeiro videoclip dos Sétima Legião, realizado por António Gutierres. Os textos - cuja elaboração foi inicialmente proposta por José Nuno Martins a João Gobern e José Matos Cristovão - eram de Rui Monteiro, que nesse ano se tornara director do semanário «Blitz». A realização, inicialmente de Paulo Miguel Forte e António Saraiva, ao longo dos meses seguintes foi progressivamente confiada a José Pinheiro e Bruno Niel Costa - o primeiro vinha de um Curso de Formação na RTP; o segundo, francês e ex-estudante universitário de Artes e Estética, com alguma experiência em video, residia há pouco tempo em Lisboa desde que se casara com uma portuguesa.

Desde o início, o programa marcou a diferença. Primeiro pela inacreditável irreverência de Gimba - que, além de apresentador, era também o entrevistador de serviço, e certa vez ofereceu a Rui Reininho 500 escudos para um corte de cabelo novo, pormenor apenas digno de registar devido à reacção gelada do cantor dos GNR. Depois pelo registo de reportagem de rua conseguido por José Pinheiro e Bruno Niel (por vezes em situações quase inacreditáveis), o qual permitia a espontaneidade neste primeiro contacto com a nova geração de músicos - até aí sobretudo mediatizados pelos jornais e pela rádio. Finalmente, pela prossecução e desenvolvimento da estética visual antes experimentada no «Lusitânia Expresso», talvez o melhor trunfo da Latina-Europa, que a dada altura era a única produtora televisiva em Lisboa a dispôr da tecnologia necessária para a obtenção de semelhantes resultados visuais e gráficos no écran televisivo.

A meio da Primavera de 1991, a emissão do videoclip «A Minha Sogra É Um Boi», do grupo Mata-Ratos (realizado por Diamantino Ferreira, que trabalhava com Paulo Miguel Forte no programa «Ícaro») provocou a ira de José Nuno Martins e dos responsáveis da RTP por esta canção incluir a frase «Chutou-me os colhões». Este episódio veio introduzir alguns factores de tensão na Latina-Europa (particularmente porque, apesar de diversos episódios do «Pop-Off» já terem sido emitidos, o contrato do programa ainda não havia sido assinado - e assim a produtora não recebera ainda qualquer pagamento), depois agravados com o mini-folhetim «Cázé Duarte», a história de um artista de subúrbio que quer brilhar na grande cidade. A história, escrita por Rui Monteiro e improvisada por Gimba e por toda a equipa da Latina-Europa (a banda de Cázé Duarte, Os Fatelas, era constituída por Elvis Veiguinha, Manuel Amaro da Costa, realizador do «Lentes de Contacto», Diamantino Ferreira e José Pinheiro) em episódios de 5 minutos por emissão, teve o seu público mas não estava prevista no contrato do programa. O posterior desentendimento entre Paulo Miguel Forte e Rui Monteiro levou à demissão deste. Desde então tornaram-se mínimas as referências às actividades da Latina-Europa nas páginas do «Blitz», embora mais tarde Gimba tenha vindo a colaborar no jornal durante um certo período. Nos tempos seguintes, os textos do programa passaram a ser escritos por Gimba, com a colaboração de Henrique Amaro (então adolescente e locutor de rádio numa estação dos arredores de Lisboa) durante dois meses.

Quando, no entanto, a RTP renovou o contrato do programa por mais um ano, Paulo Miguel Forte convidou o jornalista ( e ex-estudante de Filosofia) Jorge Pires a ocupar-se do programa - o que, para este, significava um regresso à Latina-Europa, que conhecera na fase inicial do «Lusitânia Expresso», cujos textos da primeira série escrevera a partir da oitava emissão, após desistência de Inês Pedrosa, embora o seu nome nunca fosse creditado no genérico do programa (escrevera também o guião da curta-metragem «Body-Chip», realizada por Paulo Miguel Forte e interpretada pelo modelo Ricardo Carriço no seu primeiro desempenho como actor). A sua primeira tarefa, no final de Agosto, consistiu em estruturar o guião de uma reportagem sobre o Rock Rendez-Vous, para a qual Gimba e Henrique Amaro haviam recolhido diversos depoimentos. Quase em simultâneo com Jorge Pires, entraram também para a equipa do «Pop-Off» o músico Tiago Lopes, dos Golpe de Estado (e ex-Linha Geral), que passou a assegurar a sonoplastia do programa, e João Marchante, finalista da Escola Superior de Cinema, que ali colaborou entre Setembro de 1991 e Março de 1992.

Entretanto, as alterações sentidas no meio musical português no início da década de 90 encontravam o seu veículo ideal de expressão: novas editoras independentes, edições de autor, projectos musicais ainda não publicados (como os participantes no concurso de novas bandas organizado pela Câmara Municipal de Lisboa), encontravam no «Pop-Off» um meio de expressão à sua altura. Por isso, o programa passou a preterir o contacto com as editoras em favor do relacionamento directo com os músicos, assumindo por inteiro a sua dupla estratégia: adquirir um estatuto sólido de impulsionador da cena musical, enquanto revelava a actualidade de um mercado discográfico nacional cujos limites se iam progressivamente alargando. O programa introduziu igualmente as formas e a estética de um programa completamente alternativo, que pulverizava os géneros musicais e não se coibia de incluir uma entrevista com o acordeonista Quim Barreiros (no que foi, aliás, pioneiro na televisão portuguesa) ao lado de um videoclip com uma nova e absolutamente desconhecida banda de heavy-metal portuguesa, ou apontamentos de reportagem sobre as profissões adjacentes: os «roadies», os produtores, os radialistas, etc. Além dos textos, as entrevistas e reportagens do programa passaram a ser feitas por Jorge Pires, e o papel da apresentadora Sofia Morais foi reconduzido no sentido da criação de uma figura virtual, puramente videográfica - mas, graças aos excelentes dotes de interpretação de Sofia Morais, capaz de assumir diferentes personalidades e formas. A ideia foi aperfeiçoada a partir da Primavera de 1992, com a caracterização de Alda Salavisa e a colaboração de Cristina Duarte, que passou a assegurar o «styling».

Em Fevereiro de 1992, José Pinheiro interrompeu por algumas semanas as suas funções no «Pop-Off» para acompanhar a romântica viagem até Timor de um navio curiosamente chamado «Lusitânia Expresso»; as muitas horas de reportagem que então obteve permanecem até hoje inéditas. Em Maio desse ano, Bruno Niel Costa abandonou a Latina-Europa para integrar temporariamente o Departamento de Promoções da RTP. O seu último trabalho para o «Pop-Off» foi «B.A.D.», um videoclip dos Zirkus Maximus (uma efémera banda da Azambuja) que foi parcialmente filmado junto dos altos fornos da Siderurgia Nacional e contou com a colaboração da bailarina Mónica Lapa e do actor Duarte Barrilaro Ruas. António Forte, ex-baterista dos Emílio e a Tribo do Rum e dos Osso Exótico, e também ex-assistente de realização do «Ícaro» (que entretanto terminara) juntou-se então à equipa do «Pop-Off» - a par de João Pedro Gomes, ex-estudante da Escola António Arroio e também radialista numa estação dos arredores de Lisboa, que passou a ser o infografista do programa, em substituição do original Zeb.

Ao longo do tempo, cada alteração na equipa do programa teve consequências mais ou menos subtis. A entrada de João Pedro Gomes ocorreu em Junho de 1992, e ficou assinalada pela elaboração de uma «emissão em brasileiro» (onde a voz de João Pedro dobrava a de Sofia Morais, e que foi parcialmente filmada no lote de terreno deixado vazio após a demolição do Rock Rendez-Vous), com que a equipa decidiu saudar a simultânea abertura dos trabalhos da conferência mundial ECO-92 no Rio de Janeiro. Um segundo programa dedicado à ECO-92 foi, na semana seguinte, filmado junto às poluídas margens do rio Trancão, perto de Moscavide. Esta emissão praticamente inaugurou a fase dos «programas de tema», com cuja construção a equipa se ocupou ao longo do Verão e do Outono seguintes: um «Pop-Off policial», um «Pop-Off Side» (em ‘blague’ aos programas desportivos da RTP), um «Pop-Off Star Trek», um «Pop-Off dos Milhões» (‘blague’ aos concursos televisivos), ou um «Pop-Off no ano 2012» são apenas alguns exemplos. A entrada para a equipa de Nuno Tudela, estagiário do Curso Superior de Cinema do Conservatório, foi assinalada pela criação de um «Pop-Off Twin Peaks», para o qual os textos de Jorge Pires foram reescritos com as sílabas em ordem inversa, para que Sofia Morais os lesse nessas condições. A gravação video de Sofia Morais foi depois lida em retrocesso e copiada para um segundo gravador video, de modo a que o estranho resultado final da apresentação se assemelhasse à fala do anão na popular série televisiva realizada por David Lynch. O assistente de realização Jesus Roque, que viria mais tarde a gozar de grande destaque como «o figurante desconhecido», foi também contratado nesta época, bem como Maria João Wolmar, que veio substituir Teresa Albuquerque na assistência de produção.

No início de Setembro, por consulta ocasional de uma revista que continha a programação da RTP-Internacional (que estreara as suas emissões no início de Agosto desse ano), a equipa descobriu que o programa estava a ser emitido semanalmente via satélite, embora num horário diferente (aos domingos à tarde, de acordo com o tempo médio de Greenwich, e era actualmente visto na Madeira e nos Açores.

Faltavam duas semanas para o início das emissões regulares da estação privada SIC quando o «Pop-Off» celebrou a sua centésima emissão, com um programa dos mais arrojados, que incluía uma extensa entrevista com o vocalista dos Ena Pá 2000, Manuel João Vieira. O delírio valeu à equipa uma reportagem do «Diário de Notícias», porque uma jornalista vira a emissão às 2 e meia da manhã (o horário para que a RTP remetera o programa) e ficara curiosa, porque pensava tratar-se de uma estação de televisão pirata. Quando publicada, a reportagem acabaria porém por divulgar diversa informação truncada. Na noite anterior à estreia da SIC, o «Pop-Off» teve uma das suas mais radicais emissões, iniciada com uma mira técnica igual à daquela estação, mas alterada de forma a ler-se «BIC», e dedicada a Nossa Senhora de Fátima: Sofia Morais, nesse papel, voava como o Super-Homem, calçava uns ténis com meias às riscas (como as da Pippi das Meias Altas) e dava conselhos a dois pastorinhos que nunca se fartavam de ver televisão debaixo de uma azinheira, interpretados por João Pedro Gomes e Jesus Roque.

Estimulado pelo facto de estar a ser difundido por satélite, foi neste período que o «Pop-Off» se tornou mais declaradamente semiótico e experimentalista, manipulando e subvertendo os códigos normais de significado, e procurando levar ao ridículo a ideia de que a comunicação televisiva atinge as pessoas no seu último reduto - o lar - e, graças a alguns processos que não cabe aqui enumerar, em regra provoca nelas um efeito perverso: o de ser sucessivamente interpretada como "verdadeira". Se alguma coisa aparece na televisão, não pode ser mentira - e assim, a par de videoclips, reportagens e entrevistas no mais puro estilo realista (todas as entrevistas e reportagens do programa sempre foram feitas «live on tape» e ao primeiro take) e elementos declaradamente falsos e erróneos. Um dos momentos mais apreciados pela equipa foi a produção de um videoclip dos "Fake No More" (com letra de Jorge Pires, música de Tiago Lopes e vocalização de João Pedro Gomes), uma banda inexistente que reunia quase todos os pequenos defeitos e «clichés» das bandas portuguesas. Outro momento célebre aconteceu no programa 110 (emitido a 25.11.92), concebido como um filme mudo e antigo, com intertítulos, saltos e riscos na película.

Quando, em Novembro de 1992, a RTP difundiu, num noticiário da hora de almoço, as primeiras imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz, em Dili, a equipa do programa reuniu-se de emergência e concebeu uma resposta imediata, que surgiu na forma de videoclip, com música de Tiago Lopes e letra do rapper General D, naquela que foi a sua segunda intervenção televisiva (a primeira ocorreca exactamente durante uma reportagem do programa com os «rappers» de Miraflores. Oferecido ao noticiário da RTP, o clip seria recusado com uma desculpa fraca, de que o jornalista João Dias Miguel deu conta em notícia publicada no matutino «Público».

Num texto escrito por Jorge Pires e divulgado pela equipa por altura da sua centésima edição, proclamava-se que «Quantos aos lançamentos editoriais das grandes editoras, habituámo-nos a falar com os músicos antes e durante o seu trabalho. Não depois. O princípio do realismo fez-nos preferir que as pessoas falem francamente daquilo que tentam construir, e dos problemas que defrontam para o fazer. Existem outros programas de televisão onde se pode fazer melhor figura e vender mais discos. É possível manter e amplificar a ficção de que existe um país cheio de músicos, que estão cheios de ideias novas. É possível oferecer liberdade de expressão aos músicos portugueses; o Pop-Off nunca se limitou a ser um programa "de rock"; é um programa de música. É possível oferecer aos espectadores a visão do que acontece nas grandes noites dos pequenos concertos, e descobrir o que é que anima toda esta gente que deseja ser músico e ter uma banda. Se tudo isto está a acontecer na televisão, é porque é verdade». Todo este jogo com o sentido e o significado de um programa sobre música moderna portuguesa ajudou a criar códigos e uma identidade própria, bem como um público de culto, que anos depois ainda recordava os melhores momentos. Para isso também contribuiu o lado "verdadeiro" do programa: em 1992/1993 o POP-OFF acompanhou várias histórias com meses de antecedência em relação à imprensa (casos dos álbuns dos Xutos e Pontapés e dos Zero), efectuou várias incursões em reportagem no «país real» (Açores, Porto, Vila do Conde, Ovar, Braga, Évora e Viseu), e conseguiu garantir um razoável equilíbrio na informação sobre as chamadas "bandas de primeira linha" e sobre os grupos completamente desconhecidos do grande público. Ao mesmo tempo, a temática nem sempre se concentrou exclusivamente na música: entrevistaram-se escritores, autores de banda desenhada, editores, radialistas, engenheiros de som, produtores de espectáculos, "roadies", "managers" e, por diversas vezes, público anónimo. Foram várias as bandas reveladas pelo programa, e que graças a ele conseguiram contratos para edição discográfica, quando as editoras perceberam que determinadas canções já tinham um público conhecedor, que as entoava durante os concertos de bandas que não haviam gravado ainda nenhum disco - citem-se os casos dos Ramp, dos LX-90 e dos Braindead.

No seu último ano, e apesar de seleccionado para a RTP-Internacional, o «Pop-Off» não voltou a beneficiar de um contrato de produção anual; em vez disso, teve contratos de 13 episódios, que foram sucessivamente renovados até findarem em Agosto de 1993. Ao longo dos seus três anos de emissão, o «Pop-Off» coleccionou um bonito livro de recortes, repleto de críticas e referências elogiosas na imprensa mas que, na maior parte das vezes, eram completamente alheios ao contexto e aos objectivos da equipa do programa. Melhores momentos: as referências elogiosas feitas pela revista alemã "Metronom", e a reportagem feita em Fevereiro de 1992 pelo programa "Boomerang" da FR3 (Marselha), cuja equipa se deslocou ao estúdio da Latina-Europa e acompanhou um dia na vida do programa.

O programa 133, e último, foi emitido em Agosto de 1993. Era construído como uma ‘blague’ em torno do filme «Terminator 2», com Arnold Schwarzenegger, e, no termo de uma aventura de acção com a esfuziante Sofia Morais e os diversos elementos da equipa do programa (alguns disfarçados de Ninjas para um breve apontamento de «filme kung-fu» - uma das ideias, neste caso de Tiago Lopes, que nunca se concretizaram), o andróide maligno era derrotado. As suas últimas palavras: «I’ll be back». Desde então, a equipa do programa não voltou a reunir-se.

José Pinheiro - seguramente o maior autor português de videoclips, e responsável por boa parte da imagem da música popular portuguesa na entrada dos anos 90 - prosseguiu a sua carreira como realizador video, bem como Bruno Niel e António Forte, tendo estes últimos, em épocas diferentes, adaptado a linguagem visual ensaiada no «Pop-Off» ao magazine televisivo de moda «86-60-86». Sofia Morais prosseguiu carreira como locutora da estação de rádio XFM, tendo feito aparições esporádicas em programas da RTP. Gimba tornou-se posteriormente um dos fundadores dos Irmãos Catita, e em 1997 publicou o seu primeiro trabalho em nome próprio, após duas décadas de colaboração com os mais diversos grupos e projectos musicais.

domingo, 5 de outubro de 2003

Satanás em Coimbra

Não resisti a citar aqui o texto excrito por Silva Resende (lembram-se dele enquanto presidente da FPF nos anos 80?) no Jornal O Dia. Fica um agradecimento ao meu amigo Luís G. por ter sido através dele -- e de uma posta sua no forum sons -- que descobri este belo naco de prosa. Ora atentai nas sábias palavras do senhor Silva Resende:

SATANÁS EM COIMBRA...
artigo de Antero da Silva Resende

Desde os seus começos na década de cinquenta que o movimento da música "rock" era suspeito de práticas ocultistas e pretensos misticismos orientais. Foi, no entanto com Elvis Presley que tomou, à laia de preparação imoral, o pleno significado de um rito animalesco e libidinoso, quando o nome da música foi confessadamente adaptado a práticas sexuais dentro dos automóveis e se compôs uma expressão retirada do calão americano.

"Rock'n'roll" passou a ser sinónimo de "fornicação", e Elvis Presley fazia essa exibição nos palcos com movimentos corporais adequados, a tal ponto que na gíria dos frequentadores o seu nome aparecia mudado para "Elvis Pelvis". Depois do seu suicídio, provocado pela sobredose de droga, em Agosto de 1977, apesar da degradação da sua imagem, os discos passaram a vender-se a ritmo alucinante entre a juventude, e o próprio "rock" não cessou de multiplicar em formas cada vez mais provocantes e selváticas: "hard rock", "heavy rock", "punk rock", "acid rock", todos eles com mensagens dirigidas à prostituição, à violência e à droga, e todos assentes numa tal intensidade de ruído, a mais de 100 decibéis, que além da destruição do cérebro excitam as pulsões sexuais - este efeito ampliado pela "stroboscopia", isto é, a alternância da escuridão e da luz intensa a ritmos frenéticos.

Coube aos "Beatles", por quem tantos amantes de música vertem prantos saudosos, a iniciativa confessa de integrar no "rock" o culto de Satanás, com o número designado por "Norwegian Wood", integrado no álbum "Rubber Soul". Isto inspirou um filme para a TV, chamado "Magical Mystery Tour", em 1968; e ainda o "Devil's White Album" (Álbum Branco do Diabo), cujo nome não deixa dúvidas sobre a sua natureza e seus fins: propagar o evangelho de Satanás.

Só muito mais tarde e já em nossos dias é que cientificamente se descobriu que tudo isto mais não era do que uma forma subtil de influenciar o psiquismo dos ouvintes ferindo-os abaixo do nível da consciência.

As mensagens subliminares que contêm obedecem a este catálogo, conforme apurou de ciência certa o padre Jean-Paul Regimbal, de Quebec, a quem se deve a denúncia desta praga diabólica que se infiltrou no seio da sociedade do nosso tempo e muito particularmente no seio da juventude:
- perversão sexual sob todas as formas;
- apelo à revolta contra a ordem estabelecida;
- incitamento ao suicídio;
- apelo à violência e ao crime de morte;
- consagração a Satanás.

Não precisamos de demonstrar os efeitos desta vaga demoníaca porque eles se sucedem na Humanidade, desde a perversão moral que deixa a perder de vista a aliança dos prostíbulos e das cloacas, até aos suicídios colectivos que rivalizam com as grandes tragédias que enlutam a Humanidade.

Aliás, o "beatle" mais responsável pelas músicas do grupo, acabou assassinado num café de Nova Iorque, às mãos de um satanista tornado instrumento da seita, como "punição" contra a exibição torpíssima desse "beatle" num palco de teatro a manter relações com a mulher no dia do casamento...

Como refere o mesmo autor, os temas das canções nunca se afastam desse modelo obrigatório: rebelião contra os pais, contra a sociedade e contra tudo o que existe; libertação de todos os instintos sexuais; apelo à anarquia para fazer triunfar no mundo o reino universal de Satanás.

Na verdade, porém, o processo ainda estava no começo. Em 1970 emergiam do anonimato os "Rolling Stones", que logo suplantaram os "Beatles" e sob o impulso de um sujeito chamado Mick Jagger, tomaram uma orientação ainda mais abertamente satânica, como se pode ver dos seus hinos a Satanás:
- Sympathy for Devil (Simpatia pelo Diabo);
- Dancing with Mister D (Dansemos com o senhor Diabo);
- To their Satanic Majesties (A Suas Majestades Satânicas).

Para ilustrar o programa, estes concertos contam no seu activo com violências inauditas, não raro mortos e feridos, e um clima de exaltação confundível com a loucura.

Lê-se na Enciclopédia Rock: "príncipes das trevas e campeões da música mais provocante, os Rolling Stones confirmaram desde 1967, a sua reputação luciferiana, com o trecho "passemos a noite juntos", que foi censurado devido às referências sexuais provocantes. Os incidentes escandalosos que sobrevieram levaram Jagger à prisão.

Todas as enormes tragédias que enlutam as sociedades modernas e que deixam de boca aberta aqueles mesmos que de boa fé duvidam da existência do Maligno, tantas vezes mencionado por Cristo que lhe chamou o "homicida desde o princípio", não deixaram de subir de tom à custa de outros grupos rivais e concorrentes dos "Rolling Stones", nomeadamente os "Pink Floyd" e os "Black Sabbath", tendo todos despertado uma "elite" de possessos diabólicos em que avulta o sempre falado Mick Jagger, que foi iniciado na entrega a Satanás por duas bruxas especialistas de práticas de magia: Marianne Faithfull e Anita Pallemberg.

Este último aspecto bem como os títulos de alguns trechos, merecem um esclarecimento suplementar.

Satanás não tem, por si mesmo, o poder de penetrar no santuário da consciência das pessoas. "De intimis solus Deus" - já assim se consagrava na filosofia e na teologia. Só Deus pode penetrar no recesso das almas.

Mas o homem pode consagrar-se, não apenas a Deus, mas por devoção que espelha a sua crença e a sua confiança na protecção do Céu, à Virgem Santíssima ou aos Santos Anjos, por exemplo, dando-lhes assim o poder da pertença, o oferecimento de todas as suas faculdades, como, aliás, consta de uma fórmula ainda muito em voga entre nós. Essa livre disposição que pode chegar à entrega total no acto de consagração é igualmente eficaz na consagração a Satanás, que desde então passa a comandar os pensamentos, as palavras e as obras dos que se lhe ofereceram. É de pensar que estes infelizes caídos nas malhas do Mal, nunca antes tinham suspeitado do acto de consagração, praticado no culto cristão. Mas o Diabo aspira ao senhorio do mundo e à conquista da Humanidade, nem que seja a macaquear a obra divina. É certamente de inspiração demoníaca esta consagração ao Anjo Caído que perpassa com suspeita insistência nos álbuns do "rock".

Significativa vem a ser também a caminhada dos portugueses até Coimbra onde acabam de aterrar os "Rolling Stones" e os seus velhinhos já a cair da tripeça, com ar esquálido e olhares vidrados pelo frio da vida que lhes anoitece.

A multidão e o delírio da comunicação social espelham os estragos morais e intelectuais já feitos no seio da nossa população, nomeadamente das gerações novas que podemos considerar em parte maior completamente perdidas. A passagem triunfal dos "Rolling Stones" é a contraprova do apodrecimento moral de populações de jovens e menos jovens tocados do vírus satânico. Almas viradas do avesso, buscam a felicidade nas emanações pantanosas dos vícios mais abjectos. Escolhem como ídolos indivíduos que se despojaram, nos braços do Diabo, de toda a dignidade humana. E ocupam os cérebros derrancados com mensagens subliminares que os impulsionam até às regiões desoladas da consciência, onde deixou de pulsar o afecto, a aspiração do belo, a esperança da luz e da verdade.


P.S.: a substância deste escrito não é nova. Já mais do que uma vez tratei este assunto em O DIA. Pretexto novo é esta visita dos "Rolling" e o alvoroço causado numa sociedade que vai à desfilada a caminho dos abismos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2003

Fartura de concertos no regresso às aulas

Não há fome que não dê em fartura. Para acabar de uma só talhada com os queixumes derivados da escassez de concertos de grupos estrangeiros por cá, eis que surge, prolongada até pelo menos ao final do ano, uma excelente temporada de espectáculos. Tinham todo o fundamento esses queixumes: afinal, e tirando os festivais dos patrocinadores Verão para os quais já falta a paciência, o que aconteceu de interessante nos últimos três ou quatro meses? E no Paradise Garage, acabaram-se os bons concertos? É o Lux que vai retomar o protagonismo?
Depois dos Fall, no passado fim-de-semana, depois da Rosie Thomas ontem (e hoje no Porto), vamos ter aí os regressos do Will Oldham (17/10), John Cale (24 e 24/10), Chicks on Speed (30 e 31/10), Blur e Elbow (5/11) e Peaches (6 e 26/12). Nas estreias, aguardamos com ansiedade os Liars (24 e 25/11). E em Aveiro vai acontecer um festival de músicas do mundo com um dos melhores cartazes dos últimos anos.
Haja dinheiro para tudo isto!

Há mais uma festa no Restaurante Panorâmico

Depois do arrebatador "Super Panorama", em que a Experimenta Design deu a conhecer esse fascinante local para festas e concertos escondido na floresta de Monsanto, em Lisboa, fiquem a saber que o Restaurante Panorâmico vai voltar a ser usado em breve, possivelmente ainda este mês. Não conheço mais detalhes, por enquanto, mas prometo voltar à carga assim que houver nomes.

quarta-feira, 1 de outubro de 2003

Histórias da Musicnet. Parte 2: A internet?

Recuemos cinco anos no tempo. Em 1998, já toda a gente falava da internet. Para uns, era um milagre que justificava desmesurados investimentos financeiros. Para outros, era o descalabro moral da civilização moderna, era o sexo, era a pirataria, era o fim das relações inter-pessoais em favor das frias salas de chat. Quase não havia o meio termo.
Não sei exactamente porque razão, mas no meio musical português, quase todos os seus agentes encaixavam na última categoria. Era provavelmente pelos receios da pirataria, embora na altura a coisa não tivesse assumido os contornos que depois veio a ganhar com o Napster, o AudioGalaxy, ou mais recentemente, o Kazaa ou o Soulseek. De qualquer das formas, em 1998, a Musicnet era então vista pela generalidade das editoras, das promotoras de concertos e até pelos próprios músicos, como um projecto feito por maluquinhos, dirigido a maluquinhos. E, cuidado, maluquinhos perigosos! Havia até, para ilustrar com um exemplo, uma editora internacional bem conhecida -- a 4AD -- que dava ordens expressas ao seu distribuidor nacional -- a MVM -- para não enviar promos seus aos maluquinhos dos sites de música, mesmo que fossem para estes poderem publicar meras críticas aos discos...
Aos poucos e poucos, as coisas foram mudando. Pouco tempo depois, os maluquinhos dos sites -- começaram a aparecer outros, com posições institucionais mais fortes -- já eram convidados para irem a esta ou aquela apresentação ou para cobrirem este ou aquele concerto. Já havia quem sugerisse que se colocasse um excerto de um mp3 -- ou até mesmo o mp3 inteiro -- do disco daquela nova banda que estava a aparecer e à qual convinha dar a maior visibilidade possível. Já nos imploravam -- é a palavra certa -- para fazer aquela entrevista com aquele artista. Um conhecido chefe de promotoção e marketing já propunha que lhe dessemos destaque privilegiado e permanente, em troca de material multimédia a que poucos tinham acesso.
De repente, os grandes agentes do meio descobriam que tinham nos meios online uma via mais barata e quiçá mais eficiente de de fazerem a promoção das suas mercadorias e os maluquinhos dos sites já não tinham que repetir a mesma lenga-lenga de sempre quando com eles falavam ao telefone. Sim, telefone, pois na altura ainda eram poucos aqueles que tinham mail...
Em 1999, um ano depois, o panorama era já, portanto, bastante diferente. No entanto, há coisas que nunca mudam: os Metallica, no T99, impediam a acreditação para o seu concerto de fotógrafos de orgãos online... (haverá banda mais ciberó-foba à face da Terra?)

Saem umas estatísticas para a mesa do canto

Top dos "referrers" (desde o início):
forumsons.com
acorneta.blogspot.com
janela-indiscreta.com
cronicasdaterra.blogspot.com
google.com

LIARS! LIARS! LIARS! LIARS!

Vêm aí os concertos do ano! Os nova-iorquinos Liars vão estar finalmente em Portugal e os engraçadinhos que os viram no início deste ano (?) em Londres vão agora finalmente poder deixar de meter inveja.
LIARS + X-WIFE - 24 de Novembro - Porto, Sá da Bandeira
LIARS - 25 de Novembro - Lisboa, Lux
Os bilhetes vão ser postos à venda nos próximos dias, aos preços de 15 (compra antecipada) e 17 euros (próprio dia).

We can win, we can win, we can win. Can you hear us? Can you hear us? Can you hear us? CAN YOU HEAR US?

terça-feira, 30 de setembro de 2003

Música maquinal

No passado Domingo, teve lugar no café do S. Jorge (agora chama-se Lounge Space) um debate sobre o futuro do uso da música, por ocasião da Experimenta Design 2003, onde o principal orador era o músico, jornalista, musicólogo, blablabla, David Toop, coadjuvado pelos portugueses João Paulo Feliciano e António Contador. Não trago aqui a generalidade da conversa, até porque cheguei demasiado tarde, mas gostaria de reflectir aqui sobre um assunto que ali foi abordado. Podia tê-lo feito lá, e estive quase a fazê-lo, mas a participação estava tão animada que nem sequer arrisquei pedir para falar. Mas vamos a factos concretos. Enquanto se falava sobre a popularização e universalização (por mais sofistas que sejam estes termos, mas isso é outra história) dos meios tecnológicos ao serviço da música ou do ponto a que estes próprios meios chegaram e do alcance que permitem ao potencial criador musical, um dos indivíduos da assistência fez questão de lembrar por duas vezes que mais tarde ou mais cedo seria delineado o mapa cerebral e que tal, em conjunto com o conhecimento das reacções bioquímicas que o som produz no cérebro humano, permitiria saber-se como fazer boa música para o cérebro, isto é, permitiria a qualquer máquina decentemente programada criar música para o humano ouvir com agrado.
É uma imagem pertinente. Não me espanta nada que com o avanço da bioquímica e da tecnologia em geral se possa chegar a um estado destes. No campo das imagens, por exemplo, sabemos que a intermitência cadenciada de luz produz efeitos nada negligenciáveis naqueles que a vêem. Ainda na noite anterior ao debate, no concerto para filmes de Lee Ranaldo, João Paulo Feliciano advertia eventuais epilécticos presentes na sala do S. Jorge para o risco que poderia constituir a curta-metragem "The Flicker", que não era mais do que meia hora de flashes de luz branca. Desde a altura que "The Flicker" foi realizado (falha-me a memória, mas talvez anos 40), muito já se avançou neste campo. Imagens subliminais, terapias de choque através de imagens, etc., são termos a que nos fomos habituando. Ao mesmo tempo, e voltando à música, vamos ouvindo falar que muitos dos grandes êxitos mainstream são minuciosamente produzidos, com base em hipotéticos estudos, para que esta ou aquela frequência, esta ou aquela sequência de notas, agradem ao maior número de pessoas.
Por mais pertinente que seja esta ideia dos efeitos bioquímicos dos sons, estaremos sempre a falar de algo que é apenas, afinal, uma das muitas faces da música. Isto é, a música não pode ser reduzida ao estímulo sensorial. Como forma de expressão, a música é pluridimensional e encerra em si muitos mais atributos do que um encadeamento de frequências e volumes. Para começar, a música é indissociável do contexto em que foi produzida, por um lado, e do contexto em que é ouvida, por outro. Beethoven não faria hoje o mesmo tipo de sinfonias. Pelo lado do ouvinte, não podemos ter pretensões de ter as mesmas sensações a ouvir as primeiras canções dos Rolling Stones como os nossos pais ou avós tiveram há quarenta anos. A música tem tempo, tem espaço, tem relevo social e relevo cultural. Mais importante ainda, talvez, cada ouvido é diferente de outro ouvido.

quinta-feira, 25 de setembro de 2003

A petição

Os Clã pretendem editar um DVD com a gravação do magnífico espectáculo onde fizeram a banda sonora ao vivo do "Nosferatu" de Murnau. Só falta a autorização do Instituto Murnau.
Eu estive lá e fiquei francamente impressionado com a forma como os Clã musicaram o filme. Seria uma enorme pena que esta banda sonora não ficasse registada para a posteridade, como este DVD permitirá.
Quem estiver interessado em dar o seu apoio a este projecto, pode ir a:
http://www.petitiononline.com/cla2409/petition.html

quarta-feira, 24 de setembro de 2003

Incógnito - parabéns a você

Já lá vão 15 anos. O Incógnito celebra hoje mais um aniversário, com os tradicionais bolo e champanhe. PARABÉNS!

terça-feira, 23 de setembro de 2003

A entrevista do Blitz ao Mark E. Smith

Gostei muito de ler a "entrevista" do Sérgio Gomes da Costa ao Mark E. Smith, dos Fall, na edição de hoje do Blitz. Sempre admirei a capacidade que alguns jornalistas têm em transfomar entrevistas impossíveis em belos textos, como é o caso deste.

(Esta é a única posta de hoje e, possivelmente, o "Juramento Sem Bandeira" vai reduzir a sua actividade nos próximos dias. Os últimos capítulos na biografia dos Mão Morta, que urge acabar o mais depressa possível, estão a roubar-me demasiado tempo...)

segunda-feira, 22 de setembro de 2003

Um cartaz magnífico

É o mínimo que se pode dizer da programação da segunda edição do festival Sons em Trânsito, que este ano decorre entre 20 e 30 de Novembro, em Aveiro. Alguns dos nomes mais solicitados e mais conceituados da actual música do mundo vão lá estar. É ou não é um luxo de cartaz aquele que apresente Klezmatics, Mari Boine, Susheela Raman e Kimmo Pohjonen (na foto), entre outros? Para mais informações vejam o cronicasdaterra.blogspot.com, o blogue do Luís Rei, que acabou de dar esta "caixa".

Regresso ao passado #3: Corpo Diplomático

1978. Nasciam os Faíscas, a primeira banda punk portuguesa, a par com os Aqui D'El Rock. Na formação estavam Rocky Tango (Paulo Pedro Gonçalves, ex- Heróis do Mar, LX90, etc.), Dedos Tubarão (Pedro Ayres Magalhães, hoje nos Madredeus), John Lee Finuras e Gato Dinamite (Emanuel Ramalho, hoje baterista nos Delfins). O manager era o Zé Pedro que conhecemos da guitarra ritmo dos Xutos & Pontapés.
Em Janeiro de 79, na comemoração dos 25 anos do rock, nos Alunos de Apolo, os Xutos davam o seu primeiro concerto, ao passo que os Faíscas davam o último. À formação dos Faíscas juntar-se-iam Ultravioleta (Carlos Gonçalves, hoje vocalista nos Raindogs) e Carlos Maria Trindade (hoje nos Madredeus). Na audição de vocalistas onde foi escolhido Carlos Gonçalves chegou a aparecer António Variações...
Mudavam a sonoridade -- em direcção à new wave -- e mudavam de nome para Corpo Diplomático, estreando-se ao vivo com esta designção na primeira parte dos Tubes em Cascais. António Sérgio, o senhor da rádio, apostou neles e começou por editar, através da etiqueta "Nova", um single numerado, com os temas "A Festa do Bruno" e "Engrenagem", uma versão de José Mário Branco. Depois veio o álbum, "Música Moderna", de onde foi retirado o tema que o "Juramento sem Bandeira" aqui disponibiliza em mp3: "Amor de Guichet".
Os Corpo Diplomático acabaram algures no ano de 1980, mas pouco tempo demorou para que alguns deles aparecessem de novo em cena, com um novo nome: Heróis do Mar.
Dois sítios sobre os Corpo Diplomático a visitar: #1, #2.

domingo, 21 de setembro de 2003

O belo panorama

Esperei que a festa pudesse ser um tudo nada mais agitada, é certo. O Burnt Friedmann, por exemplo, já fez espectáculos melhores, diga-se. Mas o melhor da noite de ontem foi mesmo a descoberta daquele espaço fantástico. Contextualizo: a bienal Experimenta Design teve ontem a sua festa de inauguração no Restaurante Panorâmico de Monsanto, um misterioso edifício situado no centro da floresta de Lisboa, que em pouco -- ou mesmo nada -- fica a dever às bizarras construções dos mestres Schuiten & Peeters. Projectado, segundo palavras soltas ouvidas ontem, por Cassiano Branco, o grande urbatecta do Estado Novo, esta torre circular de oito andares não é usada para os fins que foi construída, isto é, o restaurante com uma bela vista sobre Lisboa, há mais de dez anos. E, no entanto, tudo parece estar na mais perfeita das condições, como se o último jantar ali servido tivesse sido apenas anteontem.
No último dos andares, parece que mora, qual Geovanni Batista, um caseiro. Depois há uma imensa cisterna que recolhe a água da chuva. Depois, as salas cheias de requinte onde ontem teve lugar a festa. E depois ainda fica uma enorme vontade de descobrir o resto, de protagonizar uma aventura aos confins do misterioso restaurante.
A Experimenta não podia seguramente ter escolhido melhor lugar para a festa.