terça-feira, 7 de abril de 2015

100 de 1973, n.º 57, Chico Buarque (rep.)



CHICO CANTA
CHICO BUARQUE (Brasil)
Edição original: Phonogram/Philips
Produtor(es): Roberto Menescal
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A minha tristeza não é feita de angústias
A minha tristeza não é feita de angústias
A minha surpresa
A minha surpresa é só feita de fatos
De sangue nos olhos e lama nos sapatos
Minha fortaleza
Minha fortaleza é de um silêncio infame
Bastando a si mesma, retendo o derrame
A minha represa

(In "Fortaleza")

É um disco à parte na carreira de Chico Buarque. É a banda sonora da peça "Calabar: o Elogio da Traição", escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra. Censurada na altura da estreia -- tal como o próprio disco, que teve de sair com o nome que é conhecido até hoje e não com o mesmo da peça, e com dois dos temas, "Anna de Amsterdam" e "Vence na Vida Quem Diz Sim", em versão instrumental, desprovida da voz e das letras que não agradaram aos censores -- a peça contava a história de Domingos Calabar (séc. XVII) numa versão diferente daquela que a história guardou: a de um traidor à pátria portuguesa na altura das invasões neerlandesas do Nordeste brasileiro. Pela habitual via da metáfora, a peça questionava a propaganda oficial do regime militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. "Chico Canta" é, portanto, uma banda sonora de uma peça, não tendo porém um tema musical central e recorrente, mas uma mistura generosa de géneros -- até fado aqui se encontra -- e de ideias diferentes para arranjos. Dificilmente entrará nas listas dos melhores discos de Chico Buarque, e até há quem se dedique a tecer-lhe duras críticas, mas se entendermos que este é um daqueles artistas em que até as obras menores se destacam entre as de outros menos propensos ao toque de génio, "Chico Canta" tem que aparecer nesta colheita de 73.