sexta-feira, 31 de julho de 2009

Músicas universais e paralelas


Hanggai "Drinking Song" @ FMM Sines

Há cerca de uma semana, por ocasião do FMM, marquei presença na apresentação do livro "Músicas nas Cidades", do meu caro amigo Manuel Fernandes Vicente. Já aqui falei por várias vezes da obra. Um dos seus pontos interessantes é a tese que o Manuel defende de que o meio ambiente, neste caso, as cidades ou as regiões, condiciona em grande parte (ou condicionou) a criação, neste caso, a música. O autor cita, como um dos primeiros exemplos com que se deparou na sua vida de melómano, o caso das bandas kraut, que ele bem cedo começou a distinguir de acordo com a cidade alemã de que eram originárias.

Calhou termos assistido ao concerto dos chineses Hanggai ao lado um do outro e o Manuel foi aproveitando os intervalos para discutir algumas ideias interessantes. A que mais guardei prendia-se com a curiosidade de o canto gutural (ou próximo de gutural), algo que os Hanggai transportam para o seu universo rock, se ter desenvolvido em pontos diversos do mundo com uma característica comum: áreas pouco densamente povoadas. Nunca tinha feito essa ligação, mas, de facto, temos as vastas estepes da Mongólia, onde os Hanggai foram buscar esta técnica. Temos as grandes planícies do interior norte-americano, onde os índios praticavam também um género de canto semelhante. Temos a Lapónia, uma região ocupada por Noruega, Finlândia, Suécia e Rússia, onde o povo sami tem no canto yoik, uma tradição. Bate certo.

Noutra alusão, o Manuel falava-me dos instrumentos de corda fabricada a partir de crina de cavalo que os Hanggai usavam. Até o nosso conhecido violino é ainda tocado com arcos feitos a partir de crina. Será aqui mais difícil sustentar desenvolvimentos em paralelo do mesmo tipo de instrumento, até porque os historiadores da música sugerem que os primeiros violinos podem mesmo ter sido os morin huur como aquele que os Hanggai trouxeram a Sines, e que, por via das rotas comerciais, chegaram à Europa há cinco ou seis séculos, transformando-se em violinos, violoncelos, etc. Gostaria, contudo, de imaginar que a simples proliferação de um animal doméstico como o cavalo teria ajudado a fazer nascer, de forma autónoma, instrumentos semelhantes em diferentes partes do mundo. Assim como ainda hoje me faz confusão que um instrumento como a gaita-de-foles exista em tantas partes diferentes da Europa (e não só), com formas absolutamente diversas e métodos igualmente díspares. Afinal, ovelhas, cabras e vacas, a partir do couro das quais é feito o instrumento, existia (e existe) por todo o lado. Não poderia a simples disponibilidade em abundância do material ter constituído ponto de partida para que a mesma ideia surgisse, em paralelo, em diferentes pontos?

Exemplos como estes, com maior ou menor segurança na defesa desta tese, não faltarão. Remotamente relacionado com isto, há também paralelismos curiosos nas linguagens das canções, nos temas que abordam, naquilo que pretendem comunicar. Este "Drinking Song" dos Hanggai, por exemplo, pode ser cantado em cantonês ou em qualquer outra língua oriental, que não precisaria deste título em inglês para que, ao escutá-lo, percebessemos que se trata de uma canção de... copos. Faz lembrar, por exemplo, o "Engwish Bwudd", dos norte-americanos Man Man. Ou uma boa parte da... folk irlandesa. Canções de bêbedos para bêbedos. Se pusermos de lado o mundo islamista, um tema como este é, convenhamos, universal. É imediatamente percebido por uma boa parte do mundo.

Na primeira vez que os Hanggai tocaram esta canção (ela foi repetida já no encore), lembrei ao Manuel que, depois da experiência das "Músicas nas Cidades", das músicas que pertencem a uma cidade, podia estudar as músicas que pertencem, ao mesmo tempo, a diferentes cidades, ao mundo, quem sabe sem qualquer ligação entre si na origem. É o meio ambiente a mandar, à mesma. É a velha psicogeografia, de que os situacionistas tanto gostavam. O desafio ficou lançado, Manuel.