quarta-feira, 29 de abril de 2009

O homem do espectáculo

Foi um bom espectáculo, antecipo já a conclusão, mas... há uma pedra no sapato que teima em não sair nesta espécie de passeio selectivo pela obra de David Byrne. Vejamos: há, e creio que será, mais do que uma opinião, uma constatação unânime, vários tipos de David Byrnes. Entre eles, o David "new wave" Byrne, o David "Luaka" Byrne, o David "renascentista" Byrne, o David "realizador de bandas sonoras" Byrne, o David "cool showman" Byrne (e paremos por aqui, não porque o génio não tenha mais facetas, mas porque já ficou demonstrado o exemplo). Se a primeira persona já está há muito desaparecida, não queria que o espectáculo desta noite fosse tomado, quase por inteiro, pela última. Afinal de contas e apesar de ter acompanhado a preparação do espectáculo quase diariamente, através do seu blogue, ainda cheguei a alimentar inconscientemente a esperança de que tudo fosse mais do que um alinhamento perfeito de coreografias, de marcações de palco, de deixas visuais para a mudança no ritmo das músicas, enfim, de um espartilho cheio de atilhos que pouco ou nada tem a ver com o que espero de um concerto de rock. A coreografia dos dançarinos não era chocante, nada disso, ainda que me tenha passado pela cabeça que o Tony Carreira também deverá usar bailarinos nos seus mega-espectáculos (se não usa, devia, que o público gosta sempre de todo o tipo de fogo-de-vista em palco). Esperava era mais David Byrnes em palco, portanto, o que até veio a acontecer, não tanto quanto desejaria, nos sucessivos encores, que fizeram a melhor parte da noite, coroada pelo sublime "Everything That Happens". Como espectáculo, foi bom, volto a repetir, e sublinho a palavra espectáculo, porque não há outra para descrever estas duas horas de música e dança, mas é uma noite que será coberta pelo manto do esquecimento mais cedo do que outras, aposto. Espectáculos há muitos. Para que fiquem na memória, precisam de ser mais do que um espectáculo.