quinta-feira, 12 de julho de 2007

Finalmente, tanto tempo depois

Há mais de quinze anos que aguardava este concerto dos Mudhoney. Na altura, as cassettes rodavam que se fartavam no walkman, mas faltava o concerto. As descrições que ia lendo nos jornais ingleses, particularmente aquela inesquecível reportagem no NME a propósito do lamaçal de Reading em 1992, contribuiam ainda mais para cavar esta lacuna ontem preenchida, finalmente.
De perto, nota-se que Mark Arm tem os olhos mais sumidos. Os traços faciais estão mais vincados. Enfim, está mais velho, como todos nós, mas isso não transparece naquela voz rouca e aguda. Continua perfeita. A presença em palco, e isso também é válido para todos os Mudhoney, quase engana quem não conheça a história do grupo. Parece que se formaram ontem, que estão a dar os primeiros concertos. E não fazem frete a tocar para duas ou três dezenas de pessoas, como se o tempo não tivesse passado. Mesmo quando os parceiros de berço Pearl Jam tocam hoje para multidões de estádio (há coisas que custam a entender na vida). Houve temas de todos os discos, de "Superfuzz Bigmuff", de 1988, a "Under a Billion Suns", de 2006. Ao longo de cerca de duas horas, não se ouviu "Here Comes Sickness", mas deu para recordar coisas como "You Got It (Keep It Outta My Face)", "Touch Me I'm Sick", "Suck You Dry", "Burn it Clean" (alguém que me confirme se não estou a sonhar com esta), "When Tomorrow Hits", o mais recente "Where is the Future", ou ainda as versões de "Hate the Police", dos Dicks, e "Fix Me", dos Black Flag, com que terminou a noite. Há mais de quinze anos que eu esperava por este concerto. E é incrível como tanto tempo de expectativa acumulada não saiu dali defraudada, bem pelo contrário.
Costumo dizer que os D3Ö são a minha banda favorita de Coimbra, desde há três ou quatro anos. E ontem, o trio ajudou-me, uma vez mais (um tipo não se cansa dos concertos destes gajos) a confirmar essa opinião. O termostáto da sala rebentou -- também não era preciso muito, se formos pelo lado literal da coisa -- e os Mudhoney estiveram lá sempre do princípio ao fim, seguindo o concerto com manifesto prazer.
Também protagonista da noite foi o Culto Club. Já não há salas assim. Uns 150 metros quadrados, limitados por paredes pintadas a cor-de-sangue por onde escorre o suor, um mezanino, empregados/donos com ares de velha guarda rock dos anos 80 e 90, um clima de aparente intranquilidade face ao receio de que algo comece a ruir a qualquer momento, enfim... Uma sala de rock, ideal para o que ontem se assistiu em Cacilhas.