terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um sonho hippie, n.º 2

"Um dia, quando o Ben Young era pequeno e nós procurávamos uma escola para ele, a Pegi ficou quase em lágrimas depois de uma vista de olhos particularmente deprimente que demos a uma sala de aula para deficientes, na Califórnia. Saiu-lhe então: 'por que é que não chamamos os nossos amigos, fazemos um concerto para angariar fundos e abrimos uma escola? Podíamos ter o Bruce Springsteen!' Limitei-me a olhar para ela, calado que fiquei com esta ideia audaciosa.
"Graças à sua bondade, o Bruce fê-lo e esgotou os nossos primeiros concertos. Abrimos a escola com estes fundos. O Bruce Springsteen é coisa séria. Estava no seu primeiro pico de carreira e a sua aparição foi magnífica a todos os níveis. (...)
"O Bruce ainda é meu amigo. Não falamos muito. Não precisamos de o fazer. Ele é genial e na sua própria liga. Eu não sou ele, nem ele é eu. Mas fazemos caminhos semelhantes, escrevendo e cantando o nosso tipo de canções pelo mundo fora, tal como o Bob e alguns outros cantautores. É uma espécie de fraternidade silenciosa. Ocupamos este espaço na mente das pessoas com a nossa música. No ano passado, perdi o homem à minha direita, o 'pedal steel guitarist' Ben Keith. Este ano, o Bruce perdeu o homem à sua direita, o saxofonista Clarence Clemons. É altura para outra conversa; os amigos podem ajudar-se uns aos outros apenas estando lá. Agora, cada um de nós vai olhar para a sua direita e ver um buraco gigantesco, uma memória, o passado e o futuro. Eu não tocarei com outro músico de 'pedal steel' tentando recriar as partes do Ben, e sei que o Bruce não tocará com outro homem do saxofone que tente fazer as do Clarence. Essas partes não vão voltar a acontecer. Já aconteceram. E isso tira muito dos nossos repertórios."


Neil Young, in "Waging Heavy Peace: A Hippie Dream" (Viking, 2012)