segunda-feira, 8 de junho de 2009

10 anos sem Miguel Afonso

Faz hoje 10 anos que o Miguel Afonso desapareceu. De noite, enquanto recolhia a casa de bicicleta, como sempre, e após mais um dia de trabalho na Faculdade de Ciências de Lisboa -- onde era investigador doutorado, apesar de muito novo, na área da biomecânica -- foi colhido brutalmente na segunda circular por um automóvel que se pôs em fuga e cujo condutor nunca mais se conheceu a identidade. Terminou muito cedo a vida de alguém que a vivia com uma intensidade e com um entusiasmo únicos. Conheci-o nas trocas, primeiro de pautas de música no início dos 90s, mais tarde de gravações piratas de concertos (cada um de nós tinha o seu catálogo, o dele bem mais vasto, que frequentemente anunciávamos nos pregões do Blitz). Encontrá-lo nos concertos era a coisa mais vulgar do mundo, ele com o seu cada vez mais sofisticado sistema de gravação (gravador DAT, com grandes baterias penduradas às costas e com os microfones estéreo fixados às hastes dos óculos). E se o concerto era dos More República Masónica, do qual seria seguramente o fã nº 1, era certíssimo que, fosse qual o sítio que fosse, o Miguel estava lá na primeira fila. Também na primeira fila nos encontrámos diversas vezes, já ao final dos concertos, para pedir setlists aos roadies, outra das manias coleccionistas que tínhamos em comum na altura. Entre os mil e um projectos a que se dedicava, o Miguel chegou ainda a tocar baixo numa banda, os Galore, cujo álbum em CD-R chegou a ser vendido na FNAC (em CD-R!), não me perguntem como (anos depois da sua morte, ainda cheguei a encontrar o disco nos saldos de uma das lojas). Aprendi muita música com ele e acho que me senti contagiado, na altura, pela intensidade com que vivia tudo o que fazia. Talvez por isso, mesmo passados estes 10 anos, continue à espera de me encontrar com ele num concerto qualquer.