quinta-feira, 12 de março de 2009

A crise, a música e o mercado do "ao vivo"

Talvez por "defeito" de formação, vejo-me recorrentemente a pensar neste assunto. Até há pouco tempo, pensávamos que o negócio da música ao vivo, especialmente por comparação com o cada vez mais moribundo negócio da música gravada, ia de vento em popa. Mas talvez estejam a começar a chegar ventos de mudança (para pior).

A crise financeira que abalou o mundo tem, pelo menos a curto prazo, um impacte particularmente negativo ao nível do consumo. As notícias da crise disseminam pelos consumidores uma espécie de vírus a que vulgarmente chamamos pessimismo. Mesmo que a situação neste momento até seja simpática face às desgraças pelas quais já passa uma grande parte da população, imaginamos que o mais certo é também perdermos o emprego, imaginamos que haverá uma altura em que não vamos conseguir pagar a prestação da casa e não sabemos como iremos suportar a creche da miudagem, quanto mais sabermos como vamos conseguir pagar as prestações de um carro que praticamente já não sai do sítio porque a gasolina está cara, receamos que a nossa moeda perca valor e que os mil e um tipos de produtos importados que fazem parte do nosso cabaz de consumo fiquem além das nossas capacidades. Não acreditamos em nada e prescindimos de férias, de jantares semanais, de cinemas, concertos ou de despesas mais fúteis que vão além daquelas que temos como essenciais para o dia-a-dia.

Mas voltemos ao mercado do "ao vivo". Se o pessimismo no consumo atacar o público dos concertos, goram-se as expectativas de milhares de actores económicos que investiram fortemente neste mercado que tinha, como dizia mais acima, excelentes horizontes. Talvez seja ainda cedo, mas já se diz à boca larga que existem muitos agentes e promotores com a corda na garganta, com crises de tesouraria que lhes impedem de fazer face a custos fixos ou a bilheteiras pouco simpáticas ou a custos diferidos como os impostos. E se estes agentes vão ao fundo, uma boa parte do negócio da música ao vivo, de grandes festivais a pequenos promotores, de bandas com pequenas ou grandes ambições, enterra-se com eles.

O Reino Unido, por exemplo, foi sempre um ponto de passagem fundamental para digressões, não necessariamente porque haja mais público, mas porque é o Reino Unido, porque é o centro histórico de todos os negócios que mexem com a música, porque é garantia de maior visibilidade internacional, porque ajudará, eventualmente, a negociar com maior tranquilidade o resto da digressão ou de futuras digressões. Num clima de pessimismo dos consumidores, num clima de forte descida do valor da libra como aquele a que assistimos, como é que o mercado europeu do "ao vivo" reagirá?

É cedo demais para se tirarem conclusões, mas uma coisa é certa: algo vai mudar e não há razão para grandes optimismos. Vejamos como decorre este Verão de festivais.