sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Da terra de Bor

A editora Bor Land faz sete anos e continua a passar por cima da visão pessimista que assombra toda a indústria discográfica, das majors às independentes, com o mesmo objectivo de sempre, dar visibilidade aos pequenos, mostrando que afinal são grandes. E grandes, muito grandes mesmo, são os dois discos acabados de lançar. No panorama dos formatos, que cada vez fazem mais lei na forma como é oferecida a música, Norberto Lobo e Lobster estariam em campos diametralmente opostos. Mas na terra de Bor, isso nunca fez sentido. E ainda bem.

Norberto Lobo, guitarrista nos Norman, estreia-se a solo com "Mudar de Bina", trazendo a escola da guitarra dedilhada de John Fahey e discípulos para um contexto intrinsecamente português (parediano, se quisermos), como se dois mundos se abraçassem com a maior das naturalidades. Para melhor se entender a imagem deste abraço, talvez se possa ir buscar paralelamente os cruzamentos dos Dead Combo entre Ennio Morricone e o fado. Norberto dedilha a guitarra de forma exímia e não deixa sequer que da versão de "Mudar de Vida", de Carlos Paredes, transpareça qualquer sensação de sacrilégio. Um ouvido português sentiria isso à mínima falha. Um ouvido português delicia-se com este "Mudar de Bina". É novo e é antigo. É provocador e é respeitador. É estrangeiro e é nosso. É pai e mãe dando-se da melhor forma.

Depois das edições electrónicas via Merzbau, depois de inúmeros concertos por esse país fora, o duo terrorista formado por Ricardo Martins e Guilherme Canhão, os Lobster, estreia-se com "Sexually Transmitted Electricity", um compêndio arrasador de duelos instrumentais entre bateria e guitarra que, por vezes, encontra paralelo nos combates bateria & baixo dos Lightning Bolt. "Keep it Brutal", lema que dá nome a uma das faixas do disco, descreve perfeitamente a fúria que os dois músicos entregam à interpretação destes duelos, sem resvalar para o facilitismo, sem nunca deixarem de mostrar que dominam com perfeição as armas que escolheram.

Lobster e Norberto Lobo, este na primeira parte de Daniel Higgs, tocam hoje no Audiório de Vieira do Minho e no Maxime, respectivamente, para amanhã se juntarem no mesmo palco (já se disse, na terra de Bor é isto que faz sentido e ainda bem) no Passos Manuel (Porto). Mais concertos virão, que tanto um como os outros são animais de palco.