segunda-feira, 31 de Maio de 2010

O meu Primavera Sounds 2010

Enquanto se dá descanso aos pés dos quilómetros percorridos e das horas em pé a ver concertos e a dançar, enquanto se dá descanso aos ouvidos e à cabeça de tanto rock’n’roll, enquanto se dá descanso ao corpo daquela coisa com nome de santo a que os espanhóis chamam cerveja, há tempo para um esforço de rememoração daquilo que se conseguiu ver e ouvir no Primavera Sound 2010. Notem que esta é apenas uma breve apreciação do que foi «o meu Primavera Sounds 2010». Se já quando se assina uma reportagem sobre um mero concerto a subjectividade é, por natureza, inescapável, muito mais próprio se torna o relato de um festival em que mais de meia-dúzia de palcos funcionam praticamente em simultâneo, em que a cada um cabe decidir o alinhamento do que pretende ver. E este ano, por várias razões, a começar pela memória do estouro físico e mental da experiência de 2009, «o meu Primavera Sounds 2010» foi bastante mais compacto. Mas vamos aos destaques destes três dias de festival no Forum de Barcelona:

Os baixos, as baterias e os músicos que tocam que se fartam
Do cartaz do Primavera Sound deste ano fizeram parte inúmeras bandas com sonoridade (e line-ups) assentes nas secções rítmicas. O protagonismo do baixo e da bateria era evidente nas várias correntes e gerações que passaram por estes palcos.
Da terra do kraut, veio Michael Rother acompanhado de Steve Shelley e Aaron Mullan, para uma enérgica e retemperadora revisitação do reportório dos Neu!, no último final de tarde soalheiro do festival. Do kraut também se ouviu revivalismo por parte de músicos mais novos, como foi o caso da bela surpresa chamada Beak>, o novo projecto de Geoff Barrows, dos Portishead.
Da terra do funk-punk, vieram os Liquid Liquid. Quem, como eu, imaginava que se ia apenas prestar tributo a mais um grupo icónico do passado agora regressado aos palcos, de músicos enferrujados pelo tempo, percebeu logo desde o início o engano. Foi, neste meu Primavera, o melhor de todos os espectáculos (em ex aequo com os Les Savy Fav, mas já lá vamos). Esta potente máquina de dança parece não ter parado no tempo, não só por causa do acaso circunstancial do legado da banda fazer todo o sentido nas pistas de dança de hoje, mas também, e ainda mais, porque os próprios músicos tocam com um rigor e uma energia tais que tornam a dança obrigatória desde o início e que, por várias ocasiões, produzem clímaxes de loucura indescritíveis.
Da terra do pós-rock, vieram os Ui e os Tortoise. Os primeiros, dois baixos e bateria, circunspectos mas exímios na linguagem que criaram nos anos 90. Mais abertos, mais completos, mais ágeis, mais ricos musicalmente, os Tortoise, com John McEntire e John Herndon a trazerem as suas baterias para a frente do palco, mostraram em palco aquilo que já tinham provado em estúdio com “Beacons of Ancestorship”, isto é, que este combo de músicos exímios e multifacetados merece continuar a prolongar a carreira, já tantos anos depois da euforia do pós-rock.

Who rocks the party?
Ainda que com pena de ter perdido, por diferentes motivos, os concertos de Monotonix (diz quem foi que a loucura se instalou no palco ATP, com estes punks israelitas a tocarem no meio da assistência), King Khan, Black Lips, Almighty Defenders (grupo que reúne elementos dos dois anteriores), «o meu Primavera Sounds 2010» ficou marcado pela actuação dos nova-iorquinos Les Savy Fav. Tim Harrington, o vocalista, é a grande figura desta edição do festival. Se em mais de vinte anos de concertos pensava que já tinha visto de tudo, eis Tim Harrington a mostrar o contrário. Ainda mal a actuação tinha começado e já ele, apenas em calções, depois de ter retirado o seu fato de panda mutante, se atirava para a plateia. Ele e a sua opulente barriga. Surfava por cima dos espectadores, subia às bancadas, ia o mais longe possível que o cabo permitia, voltava a palco para subir as estruturas laterais e tentar destruir um ou outro holofote, voltava a atirar-se para o público, fazia questão em aleijar-se ao mergulhar de cabeça para o chão ou cobria-se de pó de talco e atirava-se de novo para a plateia, enquanto cantava o perfeitamente explícito “Who Rocks the Party?”. Tudo isto sem se furtar à tarefa de ter a voz nos momentos certos, no decorrer do excelente alinhamento trazido pelos Les Savy Fav. No último crowd-surfing desapareceu no meio do público e já não voltou. Hoje deve estar com hematomas pelo corpo inteiro. Até o Iggy Pop passa por atinado ao lado de Tim Harrington, que ainda atravessou o palco de um lado ao outro no dia seguinte, na actuação dos Liquid Liquid (ver vídeo aqui). Who rocks the party? Who rocks the party?

Outras coisas
No palco principal, apenas prestei atenção a três actuações. Primeiro, The Fall, que tiveram um arranque enérgico, proporcionado por um dos temas-título do novo álbum “Your Future Our Clutter”, e a esperada sobranceria de Mark E. Smith, que se entreteve por várias vezes a mexer nos amplificadores dos seus músicos. Excelente versão do “Strychnine”, dos Sonics, uma vez gravada para uma Peel Session e depois tornada habitual ao vivo. Mais tarde, vieram os Pavement, com um alinhamento mais ou menos esperado, alguns convidados de ocasião (dos Monotonix e dos Broken Social Scene) e algumas histórias ao microfone: “I got in the elevator with Mark E. Smith, Colin Newman from Wire and two members of Mission of Burma – It was a punk rock wet dream”, dizia o Scott “Spiral Stairs” Kannberg. Na sexta-feira, foi o dia de Pixies. Tal como nos Pavement, ouviu-se aquilo que mais ou menos se esperava (exceptuando a magnífica versão de “Winterlong”) e também se ouviu muitos pregos de Kim Deal (e diz quem estava mais perto do palco que, perante os risos da baixista nestas ocasiões, Frank Black reagia com cara de poucos amigos...).
Um susto chamado Gary Numan: ao princípio, imaginei tratar-se de uma qualquer banda dos círculos góticos espanhóis. Não era de se supor que houvesse alguém a tocar àquela hora no palco Vice, sabendo-se que neste festival os horários são respeitados de forma absolutamente escrupulosa, mas era mesmo o Gary Numan que ali estava naqueles preparos. Entrou logo directamente para o lugar de pior experiência n’«o meu Primavera Sounds 2010».

É muita gente
Há uma razão, entre outras, para não gostar, de uma forma geral, do conceito de festival. As multidões. E se, no ano passado, a experiência do Primavera tinha sido interessante por justamente não ter sido afectada por este problema, à excepção do último dia, por causa da presença em cartaz de Neil Young, este ano teve multidões compactas todos os dias e logo desde bem cedo. Em vários dos espectáculos, principalmente nos mais apelativos do palco principal ou nos do palco ATP, tornou-se complicado conseguir bons lugares, com um mínimo de boa visibilidade. Para ajudar ao clima de caos que rapidamente se instalava com o movimento das massas, as redes de telemóvel deixavam de funcionar. Comunicação por voz tornava-se impossível, e por texto havia atrasos de 10 ou 20 minutos na entrega das mensagens. Estamos em 2010 e problemas de comunicações em situações de grandes aglomerações de povo são coisa que já nem sequer por cá existe.
Por este andar, não vai haver «o meu Primavera Sounds 2011».

O TOP 10 d’«o meu Primavera Sounds 2010»
1º Liquid Liquid
Les Savy Fav (ex aequo)
3º Michael Rother & Friends present Neu! Music
4º Shellac
5º Tortoise
6º Diplo
7º Lee ‘Scratch’ Perry
8º Beak>
9º Pavement
10º The Fall

(O que mais pena me deu de não ter visto: The Almighty Defenders, Monotonix, Apse, Scout Niblett, Thee Oh Sees, The King Khan & BBQ Show, Major Lazer, Dum Dum Girls, Atlas Sound)