quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Asa Branca que migrou do Nordeste brasileiro para a Turquia

Já estamos habituados a ouvir versões de êxitos clássicos da pop e do garage rock dos anos 60 -- essencialmente os americanos e ingleses, mais difundidos por todo o mundo -- em várias outras línguas diferentes das originais. Em Espanha, França, Alemanha, Itália, Brasil e até em países asiáticos ou africanos, as barreiras da língua, por um lado, e a importância que as bandas de hoteis, bares e casinos, onde os ocidentais se juntavam, por outro, e até mesmo contigências de ordem política, que impediam as rádios nacionais de passar música estrangeira, fizeram florescer bandas cujo reportório era, na maior parte das vezes, constituído por versões daquels temas anglo-saxónicos. Mas esta história que aqui trago é um pouco mais caricata.

Enquanto ouvia pela primeira vez o recém-editado "Turkish Freakout 2", mais uma compilação ótima de psicadelia turca dos anos 70 (talvez um pouco aquém do primeiro volume, mas, lá está, esta ainda é a primeira audição), surge, já perto do final um tema que às primeiras notas remeteu logo para um velho clássico do choro brasileiro dos anos 40, "Asa Branca", criado por Luis Gonzaga e Humberto Teixeira e interpretado por tanta gente boa: Caetano, Elis, Bethânia, Gilberto Gil, Tom Zé, Hermeto Pascoal e Raul Seixas, entre muitos outros. Até o David Byrne a canta numa versão excelente em companhia dos Forró in the Dark. Oiçam aqui o Luís Gonzaga:



E agora, no leitor da Amazon, oiçam a versão turca, de uns tais de Sirin, com o título "Sevgili Golgem" (as liners notes dizem que se traduz para "sombra negra", enquanto o turco que vive dentro da máquina de tradução do google fala em, erm..., "querido a minha sombra é vividamente")

Como é que a Asa Branca -- que é uma ave migratória, por sinal -- chega à Turquia, nos anos 70? A versão do Raul Seixas é cantada em inglês. Até podia ser, mas continuava a não deixar de ser estranho. Uma pesquisa adicional na internet, contudo, permite descobrir aquela que aparenta ser a explicação mais verosímil: o inenarrável Demis Roussos também tem uma versão. E da Grécia à Turquia sempre foi um pulo, nem que fosse só para andar à pancada. É cantada em inglês (talvez haja versão em grego), chama-se "White Wings" e está aqui, para escuta, mas cuidado com os vossos ouvidos. Mas... continuam duas coisas por explicar. Primeiro, como é que a canção voou do Brasil para a Grécia, apesar de tudo uma viagem mais aceitável do que o voo direto Brasil-Turquia; e, segundo, como é que a versão turca tem arranjos muito mais próximos da versão original do que piroseira orquestrada da escala feita na Grécia?