segunda-feira, 4 de abril de 2011

O fim



Foi assim, no sábado, no Madison Square Garden de Nova Iorque. O fim dos LCD Soundsystem. Trago para aqui o texto que o Vítor Belanciano deixou na sua coluna de opinião do Público na passada quarta-feira. Há que concordar com todas as palavras, todos os sinais de pontuação:

O FIM

Talvez tenha começado a fazer aquilo em que realmente acreditava tarde, mas sei lá o que é isso de ter começado tarde. A frase é de James Murphy, americano, músico, 40 anos, líder dos LCD Soundsystem, um dos projectos da música popular mais expressivos dos últimos dez anos. No sábado, em Nova Iorque, num concerto de três horas no Madison Square Garden, sobem ao palco pela última vez. Depois, o fim.

Nos últimos oito anos entrevistei quatro vezes James Murphy e vi-o em palco em meia dúzia de concertos em diferentes partes do mundo. Dos muitos músicos com quem já falei foi talvez aquele em que percebi uma maior consciência do lugar que ocupava e do que desejava para si próprio. Não por calculismo. Mas para poder assegurar que os efeitos sociais e culturais da sua actuação correspondiam às suas escolhas de base.

Não por acaso, o primeiro tema que criou, “Losing my edge” (2002), constituía uma brilhante e irónica reflexão sobre como gostar de determinada música nunca é um gesto desinteressado. É uma forma de dizermos que pertencemos a um mundo e não queremos pertencer a outro. É uma escolha não dissociada do que somos e com quem desejamos estar conectados.

Em Maio do ano passado, quando o entrevistei pela última vez, já sabia que a presente digressão seria a última. Dizia não ver propósito em continuar apenas para ser mais conhecido, ganhar mais dinheiro ou ser obrigado a reinventar-se a partir de estímulos exteriores, quando o seu desejo era ser ele próprio.

Há quem não acredite no seu gesto, dizendo que é apenas mais uma encenação. Há quem sustente que é desejo de atenção. E quem acredite que regressará como outros. Não creio. Pelo menos no formato actual.

Há um ano, quando proferiu a frase com que iniciei este texto, acrescentava que ser um músico tardio tinha inconvenientes mas vantagens. Ser mais seguro das suas opções permitia-lhe obter hoje muito mais prazer.

É assim James Murphy. Num contexto onde todos se pisam por momentos de fama em reality-shows e onde todos querem parecer jovens, o quarentão de ar anafado, assumiu as suas fragilidades – não é grande cantor, não é um dotado tecnicamente – para as superar, criando alguma da música mais vital dos últimos anos, apostando em ser autêntico porque é essa a única forma de ser singular e retirando-se de cena com naturalidade.

Enquanto uns desesperam com o futuro das suas carreiras e em estarem sempre sob as luzes dos holofotes, ele vai à sua vida, para ter uma existência tranquila. Trocou os aviões, a exaustão das digressões e os quartos de hotel, por uma presença mais relaxada.

Os vinte anos não foram fáceis para ele. Andou perdido. Reinventou-se aos trinta. Mas acabar agora nada tem a ver com a idade, nem com o mito da juventude ainda tão conectado com a cultura pop ou com querer acabar no auge. É outra coisa. É a verdadeira mudança, dizia o ano passado. A que exige persistência, conhecimento de si e dos outros. É aceitar que chegou o tempo de recomeçar de outra forma. Na música, não é fácil encontrar alguém tão livre como ele.


Vítor Belanciano, Público 30-3-11