segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os melhores concertos de 2010 (1 a 10)

1. Staff Benda Bilili @ FMM (31/7)
Escrevi, na altura: "E a última grande explosão (literalmente até, pois coube-lhes as honras de fogo de artifício com que o FMM todos os anos se despede do castelo) veio com os Staff Benda Bilili. O disco era estupendo, já se sabia. Mas que os Staff Benda Bilili conseguissem, mesmo que esquecidos ou ignorados todos os problemas físicos que os debilitam, multiplicar a um ponto impensável toda aquela energia para o palco com as suas rumbas diabólicas e fazer transpirar as gentes no castelo daquela forma insana, era algo que nem nas minhas perspectivas mais optimistas encontrava lugar." VÍDEO

2. Sonic Youth @ Coliseu dos Recreios (22/4)
Já vi Sonic Youth umas sete ou oito vezes. Esta é bem capaz de ter sido a melhor. Escrevi, na altura: "Perdoem-me os que não tiveram oportunidade de ver os Sonic Youth, no ano passado, no Primavera Sound, mas não consigo deixar de reagir ao concerto desta noite sem ter por referencial aqueloutro. Como é que dois espectáculos com alinhamentos tão semelhantes, conseguem ser tão diferentes, pelo menos nas reacções que provocaram a mim e, suspeito, a outros que, como eu, também lá estiveram? Será porque hoje estávamos numa sala cheia, comprimida, com muito calor e muito suor, e não numa doca, ao ar livre, entre largos milhares de pessoas, entre horários de dezenas e dezenas de outras actuações? Será porque os temas mais recentes estão agora mais rodados ao vivo? Será porque hoje a banda esteve efectivamente melhor, sem ostentar aquele ar de frete do ano passado? Será porque a empatia com o público foi outra? Será pelo clima de euforia com que toda a gente -- pelo menos ao meu redor -- ansiava pelo concerto de hoje? Não sei. O que sei é que tudo hoje, desde os temas mais recentes até coisas antiquíssimas como «Shadow of a Doubt0«, «Schizophrenia», «Cross the Breeze» ou «Death Valley '69» soava (e fazia suar) de uma forma que me fez sentir um miúdo a ir aos seus primeiros concertos no Coliseu (tal como o André, que tem 14 anos e saiu de lá com um sorriso de orelha a orelha). Estes foram os «meus» Sonic Youth. Os meus e os de muita gente, ao longo de várias gerações. E provavelmente vão por cá andar ainda em 2020 ou 2030, a conquistar novos públicos e a manter estas relações «para a vida» com as gerações mais antigas. Pelo menos, é o que o espectáculo de hoje sugere." VÍDEO

3. Shellac @ ZDB (24/5)
Eu disse que ia haver mais Shellac nesta lista. E de outro concerto na mesma semana que aquele que aqui já apareceu. Escrevi, na altura: "Os Shellac não são uma banda. São um relógio suíço de frontispício em que, no lugar do cuco ou dos paisanos da aldeia surge um power trio clássico. São um metrónomo de três hastes, cada uma delas com um tique-taque sincronizado ao limite do absurdo, mais preciso que o relógio atómico de Greenwich. Eles nem se olham entre si quando acertam entre si as paragens, os arranques, as mudanças de tempos. E Steve Albini, como se tornou hábito dizer-se, é deus. E também é um óptimo guitarrista, que extrai da sua Travis Bean de alumínio o som rude, sujo e áspero do metal com que a maior parte de nós cresceu ao ouvir as bandas que Albini gravou e produziu ao longo das duas últimas décadas. E é ainda um poeta rock, em diferentes momentos do espectáculo, como em "The End of Radio". Nessas alturas, Albini pisa com toda a segurança o caminho de outros poetas americanos de palco como Patti Smith, Jim Morrison ou Jello Biafra. Mas Shellac não é só Albini. Bob Weston, que tem o sangue do hardcore de DC a correr pelas cordas do baixo, e Todd Trainer, um autêntico demónio na bateria (nota: não é figurativo), são as duas outras engrenagens do tal relógio suíço." VÍDEO

4. N'Diale - Jacky Molard Quartet & Founé Diarra Trio @ FMM (29/7)
Escrevi, na altura: "Quem imaginaria que a música de tradição europeia a que o bretão Jacky Molard se tem dedicado ao longo da carreira, e que já apresentou por duas outras ocasiões em Sines, casaria tão bem com a música do trio maliano de Founé Diarra? Quem é que é capaz de dizer, sem mais nem menos, que um prato de peixe e de carne, em simultâneo, se pode tornar uma maravilha da gastronomia? A este respeito, aliás, o António Pires dizia que "o gajo que inventou a carne de porco à alentejana deve ter tido uma experiência semelhante". E como é que dançamos isto? Com as pernas para a frente ou com o rabo espetado para trás? Estas eram as interrogações iniciais de muitos, certamente, mas não foram mesmo mais do que isso mesmo: iniciais. Rapidamente, todos atirámos os axiomas etnomusicológicos para trás das costas e abraçámos calorosamente aquela que foi uma das experiências mais incríveis de sempre no palco do castelo." VÍDEO

5. Barbez @ FMM (30/7)
Escrevi, na altura: "Os Barbez, grupo de Nova Iorque com ligações à Tzadik de John Zorn, apareceram no FMM com toda a pinta de outsiders. O grupo de Dan Kaufman já por cá tinha passado para um concerto na ZDB, para um concerto mediano, mas agora, com formação alargada e com um som perfeito que permitiu a percepção ao detalhe das texturas e frases criadas em palco, misturando klezmer com rock de câmara ou jazz marginal, a lembrar bandas da editora Constellation, tudo foi diferente, para melhor. Muito melhor. Houve algo que se manteve, contudo: o papel central de Pamelia Kurstin na música do grupo. Nunca se viu em Sines alguém a "tocar" theremin, o estranho instrumento literalmente intocável que os russos desenvolveram nos anos 20 do século passado (e para o qual Lenine chegou a receber aulas), e a estreia coube, felizmente, a uma das suas mais incríveis intérpretes." VÍDEO

6. Yasmin Levy @ FMM (29/7)
Em 2009, o FMM ofereceu-nos Mor Karbasi. Em 2010, tivemos direito a Yasmin Levy, uma voz para a qual faltam adjectivos na língua portuguesa, uma actuação de fazer mexer com todos os sentidos. VÍDEO

7. Master Musicians Of Bukkake @ ZDB (17/10)
O reino dos MMB veio até nós. Antes mesmo do espectáculo começar, o cenário do palco dava desde logo a perceber que aquilo a que ali íamos assistir seria muito diferente do habitual. Em inúmeros aspectos. Hoje, que vivemos cada vez mais o tempo das imagens, o tempo do parecer em detrimento do ser, toda a actuação dos MMB, com todo aquele aparato cénico, podia cair dentro do saco das futilidades com que frequentemente somos brindados na música que vai sendo feita por aí, mas ali há muito mais do que cenário. Há até, pasme-se, profissionalismo e naturalidade em palco, como demonstrou o incidente em que a energia eléctrica foi abaixo e o colectivo continuou a tocar em formato acústico até o fuzz voltar aos amplificadores, sem nunca parar o tema. Houve até quem não se tivesse apercebido do incidente. VÍDEO

8. Faust & James Johnston @ Maria Matos (6/10)
E eis que tivemos a oportunidade de ver os Faust-que-não-eram-os-outros-Faust, os Faust-que-são-mais-malucos-do-que-os-outros-Faust, que o diga quem depois teve que limpar o palco do Maria Matos depois da encenação quase fiel, imaginamos, do apocalipse. Cereja no topo do bolo: a guitarra tresloucada de James Johnston, o eterno Gallon Drunk. VÍDEO

9. Liquid Liquid @ Primavera (29/5)
Já andamos todos um pouco fartos dos regressos de bandas míticas dos anos 70, 80 ou 90, não? Não são poucas vezes que saímos com aquela sensação de "naquele tempo deve ter sido bom, e esta apresentação é um documento importante para nós que não vivemos essa época" -- ao que imediatamente pensamos (ou dizemos entredentes) -- "mas foi uma seca do cacete". Ou, ainda pior, "eh pá, eles só voltaram para meter dinheiro ao bolso por conta dessas mentes nostálgicas que por aí pairam". Mas a actuação dos Liquid Liquid esteve o mais distante possível disso que possa haver. Este foi um dos casos raros em que que saímos a dizer "porra, isto faz todo o sentido hoje; FESTÃO como 99% dos miúdos que por aí andam não sonham conseguir vir a fazer." Ou algo do género. VÍDEO

10. Les Savy Fav @ Primavera (28/5)
Para quem gosta de loucos à solta num palco (E FORA DELE!) pouca concorrência haverá para os Les Savy Fav (esperem pelos Monotonix em Fevereiro). Convenhamos, às tantas já não sabemos se é só da performance do Tim Harrington (talvez seja, que os discos não são propriamente interessantes), mas que importa isso? É uma experiência como poucas. Já agora, se viram o vídeo dos Liquid Liquid, no posto acima, hão-de reparar na aparição do Tim. VÍDEO