segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O novo álbum dos Hipnótica

Os Hipnótica andam outra vez pelos palcos do país, agora com novo álbum, "Twelve-Wired Bird of Paradise". Ainda ontem estiveram na primeira parte dos Broken Social Scene, na Aula Magna, e hoje vão fazer o mesmo no concerto do Porto, na Casa da Música. Há meses, pediram-me para redigir o press release do disco, que aqui reproduzo de seguida. Se é verdade que a linguagem de um PR é quase sempre diferente, mesmo que ligeiramente, de uma crítica propriamente dita, acreditem que o álbum é um autêntico estrondo e que tudo que aqui escrevo é absolutamente fiel à opinião com que fiquei deste novo trabalho dos Hipnótica logo desde o primeiro momento em que o escutei.
Os Hipnótica nunca foram de ambientes especialmente soturnos ou carregados, mas dá quase vontade de dizer que, ao quinto álbum de originais, os rapazes que há 16 anos se lançaram para a música no Palco Oriental, em Lisboa, descobriram… a luz do Sol, os passarinhos a cantarem, as cores de uma paisagem relaxante.

Não seria inteiramente verdade, teimo, mas quanto mais se ouve “Twelve-Wired Bird of Paradise”, mais fica a certeza de que os Hipnótica abriram uma daquelas janelas que esteve sempre fechada na sala de ensaios e deixaram entrar uma brisa de frescura primaveril nas composições. Entraram na pop sem medos, uma pop leve sem ser ligeira (o musiquês permite estes paradoxos linguísticos), uma pop sofisticada. Talvez agora venhamos a preferir vê-los em concerto à tarde, num piquenique no parque, com crianças (que brinquem no “Playground” da primeira faixa). Não quereremos mais Hipnótica à noite, em salas fumarentas.

Temas como “Playground”, “Black Glove”, “It’s OK to Get Lost”, “Sun Palace” ou “Wild Side” ajudam a ilustrar o que há cima designava, algo pomposamente, por pop sofisticada. Sofisticada porque está lá a leveza das canções, mas, afinal de contas, porque as pessoas continuam a ser as mesmas (ou quase: saiu Eduardo Raon e entrou o guitarrista JP Daniel), também se mantém a preocupação com os arranjos, o cuidado quase doentio pelas harmonias e simpatias entre os instrumentos, entre os instrumentos e a voz de João Branco Kyron, cuidado esse que já era notável no álbum anterior, “New Communities for Better Days”.

Procurando manter as metáforas ao largo, que novidades há nestes arranjos que ajudam a explicar a mudança? Há essencialmente duas que ressaltam destas primeiras audições: a guitarra acústica dedilhada do estreante JP Daniel, omnipresente ao longo do disco e integrada de forma absolutamente feliz no espaço que lhe cabe, muitas das vezes em diálogo com a de Bernard Sushi, que para este disco quase largou os teclados, e as apostas nos loops envolventes que transformam as canções em danças para a mente (e para o corpo, por vezes).

Depois de horas e horas a tentar fugir àquele lugar-comum dos press releases e das críticas de discos novos em que se diz que o artista reinventa-se no álbum em causa, devo admitir: desisto. Os Hipnótica reinventaram-se neste disco. Não há como fugir. E é, provavelmente, o melhor álbum que os Hipnótica gravaram até hoje.

Contrapondo o lugar-comum anterior, deixo uma proposta improvável para fechar um press release, se a banda deixar passar o desafio e o ouvinte estiver a fim (e a tempo) de o experimentar: tente ouvir primeiro, antes de tudo o resto, “Bang Bang Steel Drum”, a última faixa do disco. Sou capaz de apostar que vai depressa querer saber o que se passou nas faixas anteriores. Vai, como que houvesse aqui uma aventura que merece a pena ser experimentada. Uma aventura que chega ao fim neste paraíso caribenho desenhado pelo António Watts no steel drum , o instrumento de percussão mais solarengo (e eu acrescentaria mais nostálgico) que o mundo da música já conheceu. Seja qual for a opção tomada pelo ouvinte, ter este “Bang Bang Steel Drum” a começar ou a fechar é uma massagem encantadora aos canais auditivos e a tudo o que há depois deles a caminho do cérebro. É mais ou menos isto a pop sofisticada de que falava.