quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Hoje é dia de nos metermos nos assuntos dos blues

Já andam aí há alguns anos. Ensinaram-nos que os blues, nos tons mais fiéis ao género original, podem ser interpretados e ouvidos por malta nova. Agora convidam-nos a provar, a quem ainda disso precise, que um disco desta velha coisa do delta do Mississipi pode ocupar com a mesma galhardia o espaço da estante lá em casa.

Chamam-se Nobody's Bizness, contam com a voz de Petra e de Catman (que também pega na harmónica e se senta em frente ao piano, quando é caso disso), as guitarras, o banjo e dobro dos irmãos Luís e Pedro Ferreira, o baixo de Luís Oliveira e a bateria de Isaac Achega. Acabaram de lançar "It's Everybody's Bizness", álbum de estreia produzido a meias entre os próprios e Paulo Miranda, onde reúnem temas clássicos do género e ainda um punhado de originais.

Hoje dá-se o lançamento oficial do disco, com concerto no Maxime, a partir das 23h. Metamo-nos nesse tal assunto dos blues.

(Até lá, aproveitem para ler este belo press release escrito pelo António Pires.)

A História dos blues está feita de encruzilhadas. A lendária encruzilhada na quinta Dockery onde Robert Johnson terá vendido a alma ao diabo em troca de se tornar o melhor guitarrista de sempre. A escolha que foi apresentada pelo destino a T-Bone Walker, John Lee Hooker, B.B. King ou Muddy Waters: continuo a tocar guitarra acústica ou passo para a eléctrica e a minha música chega assim a mais pessoas (e, quem sabe, até mudo o futuro de toda a música popular)? A decisão de vida que Ali Farka Touré teve que tomar: serei para sempre taxista ou mecânico de automóveis ou tenho como missão vir a ser músico profissional e lançar as pontes definitivas entre os blues e a música da África Ocidental? Ou a encruzilhada que Eric Clapton encontrou quando percebeu que a sua vida não podia continuar dependente do álcool e das drogas duras: deixo esta merda ou serei para sempre conhecido como "o drogado que deixou o filho cair da janela e morrer"?

Ao fim de alguns anos a cantar e a tocar as canções dos bluesmen que mais amam e admiram, as questões que os Nobody's Bizness encontraram na sua encruzilhada pessoal não foram tão dramáticas nem tão românticas ou bizarras quanto estas, mas foram, mesmo assim, difíceis de resolver: continuaremos para sempre a fazer versões ou vamos em frente, pomos a cabeça no cepo e mostramos o que valemos também enquanto autores? E foi isso mesmo que fizeram. Ou, pelo menos, a cinquenta por cento. Depois de, em 2005, terem editado um álbum ao vivo gravado na Capela da Misericórdia, em Sines, onde interpretavam temas de Robert Johnson, Willie Dixon ou Lonnie Chatmon, os Nobody's Bizness têm agora um álbum em que seis das doze canções têm assinatura do grupo (com a preciosa ajuda de João MacDonald nas letras de uma delas). E saíram-se brilhantemente da tarefa! Nos seus originais estão toda a paixão e ensinamentos que sempre retiraram dos blues, mas também o amor que têm pela country, pelo bluegrass, pela folk norte-americana (ou por um eventual eixo canadiano que une Leonard Cohen, Neil Young e Joni Mitchell), pelo jazz e por uma visão aberta das músicas do mundo. E, ao lado de várias versões de Willie Dixon (ainda e sempre) ou William Broonzy, aqui estão meia dúzia de originais que põem desde já os Nobody's Bizness num elevadíssimo patamar criativo.

Uma outra encruzilhada, digamos paralela (se é que se pode falar de paralelas quando também se fala de encruzilhadas - mas essa é uma boa questão para os geómetros resolverem), que os Nobody's Bizness encontraram foi a opção de gravar, ou não, em estúdio. Tendo o palco como território natural para a sua música, como é que o brilho da voz de Petra, a magia da harmónica e a profundidade de voz de Catman, as finíssimas filigranas das guitarras e banjos dos irmãos Ferreira e os tapetes voadores de Luís Oliveira e Isaac Achega poderiam ser recriados - porque é de recriar que aqui se trata - em estúdio? A questão era complicada mas resolveu-se de forma fácil: tendo como aliado Paulo Miranda, que com os Nobody's Bizness co-produziu o disco no seu AMP Studio, em Viana do Castelo, o grupo lisboeta rapidamente descobriu no estúdio minhoto uma extensão da sua sala de ensaios onde todos se sentiram confortáveis e a sua música pôde fluir livremente. E, se o primeiro álbum circulou por um grupo restrito de fãs fiéis e habituais, os Nobody's Bizness são agora everybody's bizness, para ouvir de ouvidos limpos e alma aberta.

António Pires
Outubro de 2010


Alinhamento do disco:

1 - I want a little boy (Murray Mercher/Billy Moll)
2 - Don't go no further (Willie Dixon)
3 - Time waster (Nobody's Bizness)
4 - When monday comes (Nobody's Bizness) *
5 - Nobody (no guidance song) (Nobody's Bizness)
6 - This pain in my heart (Willie Dixon)
7 - When the lights go out (Willie Dixon)
8 - Roll mamma (Nobody's Bizness)
9 - Blues for the month of june (João MacDonald/Nobody's Bizness)
10 - The blues don't care (Gwill Owen/Charles Olney)
11 - Black, brown & white (William Broonzy)
12 - Show's up! (Nobody's Bizness)

* Com Francisco Silva (Old Jerusalem) e Ana Figueiras (Unplayable Sofa Guitar) nos coros.