terça-feira, 25 de maio de 2010

Shellac da Nort'América

Os Shellac não são uma banda. São um relógio suíço de frontispício em que, no lugar do cuco ou dos paisanos da aldeia surge um power trio clássico. São um metrónomo de três hastes, cada uma delas com um tique-taque sincronizado ao limite do absurdo, mais preciso que o relógio atómico de Greenwich. Eles nem se olham entre si quando acertam entre si as paragens, os arranques, as mudanças de tempos. E Steve Albini, como se tornou hábito dizer-se, é deus. E também é um óptimo guitarrista, que extrai da sua Travis Bean de alumínio o som rude, sujo e áspero do metal com que a maior parte de nós cresceu ao ouvir as bandas que Albini gravou e produziu ao longo das duas últimas décadas. E é ainda um poeta rock, em diferentes momentos do espectáculo, como em "The End of Radio". Nessas alturas, Albini pisa com toda a segurança o caminho de outros poetas americanos de palco como Patti Smith, Jim Morrison ou Jello Biafra. Mas Shellac não é só Albini. Bob Weston, que tem o sangue do hardcore de DC a correr pelas cordas do baixo, e Todd Trainer, um autêntico demónio na bateria (nota: não é figurativo), são as duas outras engrenagens do tal relógio suíço. O alinhamento teve vários pontos de contacto com o concerto do ano passado, no Primavera, e ainda mais terá certamente com o deste ano no mesmo local. Quem nunca passou pela experiência Shellac e na próxima sexta-feira, em Barcelona, se propuser a trocar parte dos Pixies ou dos The King Khan & BBQ Show, que tocam quase à mesma hora noutros palcos, não ficará seguramente a perder.
Assistiu-se, esta noite, a um dos maiores concertos deste ano. (Mission of Burma foi bom, óptimo até, mas depois do estrondo shellaquiano, fica-se com pouco para se dizer.)