sexta-feira, 29 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 5, Tom Zé (rep.)



TODOS OS OLHOS
TOM ZÉ (Brasil)
Edição original: Continental
Produtor(es): Milton José
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Todo compositor brasileiro é um complexado.
Por que então esta mania danada, esta preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério, de sorrir tão sério, de chorar tão sério, de brincar tão sério, de amar tão sério?

(in "Complexo de Épico")

Quarto disco de Tom Zé, que por esta altura, depois de ter dado uma importante mão ao avanço do tropicalismo -- ele que talvez fosse o mais tropicalista de todos, acabou sendo ignorado, havendo até quem lhe chamasse "Trotski do tropicalismo" -- entrava na fase mais obscura da sua carreira, que só terminaria já perto dos anos 90, quando David Byrne repôs um pouco de justiça no mundo ao apadrinhá-lo via Luaka Bop. Talvez por aparentar ser mais experimentalista que os álbuns anteriores, "Todos os Olhos" acabou por vender pouco. Mas estão lá todos os elementos pelos quais hoje reconhecemos Tom Zé como uma das maiores forças criativas que o Brasil viu nascer. Tem coisas próximas do samba, tem coisas próximas do forró nordestino ("Quando eu Era Sem Ninguém"), tem coisas próximas dos cantares ao desafio ("Dodó e Zezê"), tem muito de Brasil no que de diversamente rico o Brasil tem, sem nunca soar a "conservador", palavra proibida em todo a carreira de Tom Zé e frequente no reportório de outros artistas da música brasileira, mesmo os mais afoitos. A capa de "Todos os Olhos" é também protagonista de uma história curiosa. Durante anos pensou-se (e talvez ainda por aí circule a ideia) que a imagem na capa era a de um ânus com um berlinde nele depositado. Era essa, contudo, a ideia inicial do poeta Décio Pignatari, um dos fundadores do concretismo brasileiro, como forma de afronta à ditadura militar. O olho do cu. Todos os Olhos. É o que parece, é o que muita gente pensou durante anos que era, até eventualmente o próprio Tom Zé, que terá ajudado a perpetuar o mito. A fotografia original chegou a ser feita, mas como era óbvia demais para enganar os censores, a opção recaiu sobre os lábios da boca (da mesmo modelo). Como se diz aqui, eis que o cu que deveria imitar um olho se torna uma boca que imita o cu.

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