segunda-feira, 29 de julho de 2013

Rescaldo mais ou menos nostálgico, rápido e pouco abrangente da edição n.º 15 do FMM

E lá chegou ao fim mais uma edição do Festival de Músicas do Mundo. Ao longo de semana e meia, houve mais de quarenta concertos no programa principal, dezenas de atividades paralelas (DJs, ateliês para crianças, dezenas de atuações de grupos da escola de música local, peças de teatro, conversas com escritores, etc.) e um aparentemente infindável número de acontecimentos ad hoc levados a cabo por gente que se deslocou a Sines para ver, ouvir e participar neste festival singular. Deixo aqui um pequeno rescaldo do que vi e ouvi, ciente de que muito ficará para dizer além destas linhas e de que outros terão muitas mais histórias para contar.


OS MELHORES ESPETÁCULOS

1. BASSEKOU KOUYATÉ & NGONI BA (castelo)
A forma como Bassekou Kouyaté toca o ngoni, a guitarra tradicional do Oeste africano, quase que dá para desconfiar. Ninguém pode tocar um instrumento assim, aparentemente limitado, aparentemente frágil, daquela maneira. Mas ele toca. Andaram o Georges Beauchamp e o Les Paul a criar as guitarras elétricas tal como as conhecemos para agora aparecer um tipo no palco do castelo (e, anos antes, no Centro de Artes) a tirar partido de um instrumento com quase sete séculos de idade e a fazer o mesmo que os maiores guitarristas da história do rock. Com uma banda feita a partir da família -- mulher, filhos e irmão, pelo menos -- põe rapidamente o público a dançar e a chegar àquele ponto de ebulição que poucos conseguem. E logo ao segundo concerto do festival.

2. SÍLVIA PÉREZ CRUZ (Centro de Artes)
A maior revelação do cartaz para quem escreve estas linhas, um tipo que agora se sente idiota e ignorante o suficiente por não a ter conhecido mais cedo. Sílvia Pérez Cruz é dona de uma voz ao mesmo tempo doce, ternurenta, mas também forte, interventiva e absolutamente segura, que usa o castelhano, o galego, o catalão e o português para arrebatar os corações do público. Esteve acompanhada por um guitarrista de trejeitos vanguardistas, indie para os dias que correm, adepto do ruído e dos pequenos pormenores, de vistas abertas e capacidades abrangentes (não estou a descrever o Marc Ribot, mas podia). Perto do fim, houve uma versão arrepiante de "Os Gallos", também conhecida por "Gallo Rojo, Gallo Negro", uma fábula anti-franquista. Alguém que disponibilize a gravação nos sítios do costume.

3. DAKHABRAKHA (castelo)
Se calhar, já podemos esquecer os Hedningarna ou as Värttinä ou outros grupos do Norte e Leste da Europa que nos anos 80 e 90 se destacavam no circuito de então, mais estreito e talvez menos global, da chamada world music. Os ucranianos DakhaBrakha, um homem e quatro mulheres, trouxeram a Sines a riqueza das harmonias vocais femininas, ora gentis, ora estridentes, amiúde contaminadas pela energia da dança dirigida tanto ao corpo como ao cérebro, sem nunca deixarem cair uma pinga do azeite aparente nesta fusão. Para muitos dos que me rodearam ao longo destes dias, terão sido mesmo a grande bomba do festival.

4. BARBEZ (castelo)
É, pessoalmente, uma sensação forte esta de ter um coletivo como os Barbez, da vanguarda nova-iorquina, num festival como este. Diz muito sobre o que é esta festa. Os Barbez, esses, dão-se também lindamente com esse espírito. Uma vez mais, trouxeram ao palco um arranjo caleidoscópico de frases médio-orientais, de folclore do leste da Europa, de drones (os musicais, não os dos EUA) e outros arrepiamentos rock, de canções de revolta como a magnífica versão de "Bella Ciao". Fizeram ainda encore com uma versão dos Residents (e parecia que não podia ser mais natural a invocação).



5. SHIBUSA SHIRAZU ORCHESTRA (castelo)
Mais de 30 japoneses em palco, uma orquestra psicadélica, um maestro que bebe cerveja e fuma, uma personagem na frente que parece o Kratos do God of War e outros mimos que lhe sucedem, duas bailarinas que passam o espetáculo inteiro a fazer coreografias com bananas de plástico, um tipo a pintar um dragão-largarto-golfinho numa tela branca que vai subindo com o andar da noite, uma medusa gigantesca que aparece mais para o fim e flutua sobre o castelo. É isto um teatro japonês, um noh, um kabuki? Se ignorarmos algumas pequenas incursões fáceis pelas ondas balcãs-ska, serão os Pink Floyd e os Gong de olhos rasgados a triparem numa comuna teatral? Incrível.



Outros espetáculos digníssimos de destaque: Hazmat Modine (dois Tom Waits em palco, um masculino e o outro feminino, é forte), Baloji (que animal de palco), Reijseger Fraanje Sylla (o Sylla é dono de uma voz incrível, que nem precisa de amplificação, como no começo do concerto, quando vagueou pela multidão, de garganta escancarada), JP Simões (a música é ótima, os interlúdios nunca falham), Jon Luz, Aline Frazão, Tcheka (quando é que explodes para o mundo?), Nathalie Natiembé, Carlos Bica trio "Azul" com Jim Black e Frank Möbus, Rokia Traoré, Asif Ali Khan & Party, Gaiteiros de Lisboa, Rachid Taha.

Ficaram por ver, por razões diferentes: O Carro de Fogo de Sei Miguel e Extremadura Territorio Flamenco (y que pena me da).


AS DESILUSÕES, COISAS MENOS BOAS OU ATÉ MISERÁVEIS (SEM QUALQUER ORDEM ESPECIAL)

Hassan el Gadiri & Trance Mission
Foram dois projetos completamente diferentes a tocar em simultâneo no mesmo palco, sem qualquer comunicação entre si, a não ser por intermédio de caras feias. Nos únicos momentos em que a coisa funcionava, os belgas reforçavam apenas o som dos marroquinos. Isso não é fusão.

Hermeto Pascoal
Estava a ser um planeta de outro sistema solar, mas, já mesmo perto do fim, Hermeto Pascoal deixou-se aproximar demasiado de um buraco negro. O percussionista Fábio Pascoal terá avisado o seu pai que não podiam tocar mais tempo, num ato que o próprio terá admitido depois ter sido resultante de uma falha de comunicação. Seja como for, em resposta à indicação, Hermeto pegou no microfone para deixar a plateia dividida com: "este festival é uma merda!" Banda saiu, banda voltou, Fábio pediu desculpa, Hermeto não, tocaram mais um tema e foram-se embora. Já poucos os aplaudiram. E já ninguém se deve lembrar da "Rua do Capelão" que ali foi tocada.

A autoridade
Nas minhas primeiras incursões ao FMM, trazia para contar aos amigos que ainda não haviam sido contaminados por este vírus de Sines, que uma das diferenças agradáveis do festival era não se ver ou, pelo menos, não se sentir a presença opressora de forças de autoridade ou de gorilas mal encarados e perigosos de empresas privadas de segurança. Muito mudou, contudo, nos últimos anos. Como em 2012, os espetadores com bilhete pago eram sempre vasculhados à entrada do castelo, o que também ajudava a criar filas maiores. Constou, porém, que a revista deixava de ser feita por altura das aberturas de portas ao público sem bilhete, por alturas da última banda do castelo. Claro, alguém chegou ao comentário "mas revistam os que pagam bilhete e que lá estão para ver o concerto, mas já não revistam quem poderá entrar depois só para armar confusão?"
Mais contundente foi o Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, que em palco, a propósito da canção "Avis Rara", usou do microfone para dizer algo que cito de memória, com naturais desvios de vocabulário, mas certeza na ideia: "Tinha 19 anos no 25 de abril. Não me lembro de, antes, ver forças policiais a revistarem a privacidade de quem se preparava para entrar em espetáculos."



Por este ano, acabou. Para o ano... tem que haver mais.