quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Liberdade e irreverência na "música para uma nova tradição"

"A música tradicional como espaço de liberdade e de irreverência." A frase de Carlos Guerreiro, surgida a meio da actuação dos Gaiteiros de Lisboa resumia de forma particularmente feliz a noite de ontem e o espírito que atravessou não só as actuações dos quatro grupos envolvidos mas também a mensagem deixada pelo homenageado, João Aguardela, e que os seus amigos pretendem continuar a fazer passar através das iniciativas do projecto Megafone 5. Tradição, liberdade e irreverência estão nos Gaiteiros desde o primeiro disco, estão na folia de tasca dos Oquestrada, surgem subrepticiamente nos instrumentais dos Dead Combo, estão na voz de Maria Antónia Mendes, d'A Naifa. Não havia maneira de celebrar melhor esta ideia.

A história do Megafone 5 é uma história bonita desde o princípio. Há nove meses, logo na noite imediata ao funeral de João Aguardela, Nuno Calado, da Antena 3, liga o chat do gmail e põe-se à conversa com Pedro Gonçalves (o jornalista). "Temos que fazer qualquer coisa." A bola passa para depois para o Luís Varatojo e para a Sandra Baptista, que desenvolvem a ideia até chegar ao ponto em que a conhecemos hoje. Megafone 5 não foi apenas a habitual noite de homenagem. É um site (www.aguardela.com) com tudo sobre a obra do João, incluindo o download livre dos quatro volumes de Megafone, as transformações que o músico fez de recolhas da música tradicional portuguesa, e é também algo que vai muito mais longe e se projecta no futuro da música feita por cá, com a criação de um prémio para distinção da nova música tradicional portuguesa, em colaboração com a SPA. E tudo isto começou com um "temos que fazer qualquer coisa".

Voltando à noite de ontem, a coisa começou por ameaçar correr mal. Os Gaiteiros de Lisboa, que continuo a ter para mim como um dos dois ou três melhores grupos portugueses, especialmente ao vivo (embora, infelizmente, isso pareça ser cada vez coisa mais rara), tiveram um som baixíssimo. Sou quase capaz de jurar que a percussão não estava amplificada. Em dias normais, a percussão dos Gaiteiros esmaga-nos contra as costas das cadeiras. Ainda por cima, o grupo aproveitou para introduzir variações particularmente curiosas nos temas (um deles até era, aparentemente, inédito). Depois da experiência do "Três Cantos", comecei até a recear que viesse aí a moda do "veja primeiro, oiça depois (com o CD e DVD)". Contudo, os níveis de volume atingiram o desejável na actuação seguinte, com os Oquestrada. E aqui o público acordou. Com a vocalista Miranda, sempre despachada, sempre irrequieta (o raio da mulher não aguenta mesmo o palco, passeia pela plateia, mete-se com fotógrafos e espectadores), a festa instalou-se no grande auditório do CCB. Só foi pena a actuação do "fadista pugilista" -- figura de Alfama que costuma animar, e bem, a "Incrível Tasca Móvel", o espectáculo que os Oquestrada têm com os Anonima Nuvolari -- que fugia constantemente aos tempos do fado que saía dos Casios do Lima e do Donatello (fado com Casios, claro -- "liberdade e irreverência"). Depois do intervalo, os Dead Combo levaram o espectáculo para o terreno da serenidade que tão bem conseguem recriar, especialmente em ambientes como estes do CCB. E se esta noite era como que um showcase da "música para uma nova tradição", aos Dead Combo ficou nitidamente atribuído o papel de enunciar que não é preciso cantar, nem tão pouco recriar ponto por ponto as frases melódicas e rítmicas da muitas músicas tradicionais portuguesas para conseguir exprimir algo que é intrinsecamente nosso. Para o final, veio A Naifa. Ao primeiro tema, o lugar de Aguardela estava ali guardado, vazio, mas poucos esperavam (nem tão pouco alguns dos elementos da própria organização) que aquele espaço viesse a ser ocupado pela... Sandra Baptista. E houve mais momentos bonitos e enternecedores na actuação d'A Naifa, como aquele em que a vocalista Maria Antónia Mendes revelou à audiência a história por trás das letras de "Uma Inocente Inclinação para o Mal", o último álbum do grupo. No disco, as letras surgem creditas a Maria Rodrigues Teixeira. Era o nome de uma avó de João Aguardela, e, afinal, era ele o verdadeiro autor das letras, sem sequer a própria banda o ter sabido na altura...

Foi uma noite muito bonita, muito bonita mesmo.