terça-feira, 8 de setembro de 2009

Um olhar fraterno

"José Afonso - Um Olhar Fraterno" já saiu há sete anos, mas só agora tive oportunidade de o ler de fio a pavio. Trata-se da biografia de José Afonso, uma de várias que apareceram ao longo das últimas décadas, esta escrita pelo seu irmão João Afonso dos Santos e dado à estampa pela Editorial Caminho (sendo, por isso, ainda fácil de encontrar em qualquer livraria). Com uma agilidade notável na escrita, singular até nesta área das biografias de artistas portugueses, João Afonso dos Santos traça o percurso de vida do seu irmão, o homem e o artista, como quem conta uma história dentro de outras histórias, as histórias que fizeram este país e o mundo, que moldaram José Afonso e que José Afonso ajudou a moldar. Só uma biografia assim poderia fazer jus ao génio do artista. Deixo algumas passagens das palavras introdutórias do livro, com a esperança de fazer chegá-lo a quem ainda por ele não passou os olhos:

As páginas que se seguem começaram por ser umas croniquetas desemparelhadas que surgiram no Boletim da Associação José Afonso. Assim como eram assim continuam, libertas do espartilho que as comprimia. Reformuladas e ampliadas, prosseguidas depois por uma intenção de continuidade. Tal como foram afeiçoadas de início, mantêm, pois, a autonomia que as marcou, o mesmo é dizer o fraccionamento narrativo e discursivo que uns tantos grampos cingidos, colocados em linha de fractura, intentam corrigir.
Pedaços de memórias, do autor e alheias, palavras da própria pessoa esquadrinhada nestas linhas (trazidas a público por entrevistadores isentos, supõe-se, da pecha de infidelidade material de que não raro se queixou o entrevistado), testemunhos, excertos de cartas resgatadas do esquecimento em que dormiam, apontamentos laterais a propósito e não sei se a despropósito divagam por terrenos algumas vezes apenas confinantes àqueles por onde transitou o Zeca. Circunvagantes estas abordagens. Isto é, movem-se em aproximações ao centro sem realmente o atingirem -- objectivo a bem dizer inantigível: José Afonso, na sua verdadeira e complexa dimensão, apesar de ele se ter, e todos quantos com ele privaram talvez o terem, por um homem comum e simples. Comum foi-o, e do comum, quer dizer do colectivo ou da sua memória, extraiu a rara inspiração das palavras e dos sons. Simples igualmente o foi. No que de seu reservava na partilha das suas inquietudes. No gesto, no trato, no convívio. Mas desde quando um sujeito comum e simples, por idiossincrasia ou opção cultural, se apresenta como matéria fácil de indagar e de narrar?
(...)
Biografá-lo, ainda que contra ele, quero dizer, contra a sua natural singeleza, a aversão à ribalta, a propensão a subalternizar o que empreendeu no campo criativo e interventor, é tarefa de si justificada. Mas trabalhosa, até por força da particularidade acabada de enunciar. Será necessário escavar por debaixo dessa atitude para se encontrar a pessoa e talvez a época que, à sua dimensão, espelhou e sobre a qual, queiramos ou não, actuou -- ele e todos quantos com ele estiveram nessa jornada de dar voz a quem a não tinha, embora a sua fosse porventura a mais autêntica e visível voz de quantas então se manifestaram.
(...)
Em suma, uma visão própria (como poderia ser de outro modo?) expressa em abordagens provisórias, no sentido já sublinhado de que hão-de cruzar-se com outras representações do mesmo objecto. Subjectiva mas não preconceituosa. Isto é, procura não enveredar por enquadramentos redutores, não trajar a personagem no pronto-a-vestir das ideias feitas, sejam elas políticas, ideológicas ou quaisquer outras, em que ele, Zeca, nunca se abasteceu.
(...)