quarta-feira, 27 de maio de 2009

Não têm nada que agradecer

Numa altura em que a música -- e a cultura africana em geral -- ganha visibilidade cada vez mais nítida nos círculos independentes, os Extra Golden constituem, por excelência, um interessante case study deste fenómeno de redescoberta. O que começou por ser apenas uma mera jam entre amigos norte-americanos e quenianos, em Nairobi, proporcionada na sequência da recolha para uma tese de doutoramento no local por parte de um dos primeiros, o músico e musicólogo Ian Eagleson, é hoje muito mais do que uma ligação efémera. É mesmo uma banda como muitas outras: grava discos -- este já é o seu terceiro álbum; faz digressões -- estiveram por cá no ano passado para concertos inesquecíveis. Apesar dos obstáculos vividos pelo caminho, o maior dos quais sendo a morte de Otieno Jagwasi, o queniano com que Eagleson e Alex Minoff gravaram o primeiro disco, os Extra Golden têm resistido ao tempo, fazendo com que esta curiosa ponte entre Ocidente e África se torne cada vez mais sólida. Resistiu às fronteiras que as potências ocidentais cada vez mais fecham aos músicos africanos (enquanto governador de Chicago, Barack Obama, teve um papel chave na carreira dos Extra Golden, ao facilitar uma digressão do grupo pelos EUA, ao que estes lhe responderam com uma magnífica canção de agradecimento, no anterior álbum). Resistiu às tensões étnicas verificadas resultantes das eleições presidenciais quenianas em Dezembro de 2007, que obrigou as famílias de Opiyo Bilongo e Onyango Jagwasi, a parte queniana dos Extra Golden na altura, a perder os seus pertences e a deixar as suas casas.
Entre os puristas, há, como seria de esperar, quem enjeite o processo, talvez os mesmos ou descendentes daqueles que há duas décadas apontavam o dedo à descoberta da África do Sul por Paul Simon. Afinal, nos Extra Golden, a guitarra de Minoff está longe de ser completamente fiel à tradição benga e, no final, temos algo meio indefinido entre o rock ocidental e a música de Nairobi. Mas essa é capaz de ser a principal das curiosidades e das virtudes do grupo. Este tom crioulo, que não é a língua do rock, que não é a língua das guitarras e dos ritmos africanos, é língua franca numa no man's land, território fértil de sofisticação, onde corpo e mente também dançam e também rockam e rollam.
Em "Thank You Very Quickly", o terceiro álbum, agora editado, entende-se todo este processo de crescimento e de consolidação de uma banda de que acima se falava. E também a gratidão dos elementos que a constituem, evidente logo no próprio título do disco, a todos aqueles que os apoiaram e continuam entusiasmados com esta ideia. Apesar de a maior parte dos temas terem sido gravados num único dia (e na sala das máquinas da casa dos pais de Eagleson!), é notória a maior riqueza dos arranjos e a coesão ao nível da mistura, num registo mais psicadélico, mais próximo dos Golden (a anterior banda de rock de Minoff e Eagleson, onde também militavam elementos dos Trans Am e dos Royal Trux). Estamos já muito longe do primeiro álbum do grupo, ainda que este, quase uma maqueta, pouco sirva de exemplo. Já por comparação com algo mais recente, "Here Ma Nono", o álbum anterior, não há aqui temas absolutamente irresistíveis e quase fiéis à tradição benga, como tínhamos em "Love Hijackers" ou, mesmo no campo da psicadelia, algo como escutávamos e sentíamos em "Obama". Há temas fortes, como o inicial "Gimakiny Akia", com os melhores e mais ricos arranjos do todo, mas "Thank You Very Quickly" é, acima de tudo, um disco para ser escutado como álbum (como é que explicamos isto à geração shuffle?), do princípio ao fim. "Thank You Very Quickly" está disponível em CD e LP, com edição Thrill Jockey e distribuição nacional a cargo da Mbari.
Estiveram a uma unha negra de regressarem a Portugal este ano, mas tudo indica que só os voltaremos a ter connosco, se assim tivermos essa sorte, em 2010. Era muito bom que assim fosse.