segunda-feira, 14 de maio de 2007

Um fim-de-semana à antiga (a ressaca)


(Fotografia Fátima Inácio Gomes)

Maldoror, o espectáculo, é terrivelmente assombroso. A tarefa impossível de passar para o palco tudo o que é cantado por Maldoror, a personagem, na obra de Isidore Ducasse, encontra neste compromisso assumido pelos Mão Morta a solução ideal e, sem qualquer margem de dúvida, bem sucedida. A elegia do Mal, da repulsa, do nojo ("Estou sujo, roído pelos piolhos e os porcos quando olham para mim vomitam"), do humor mais negro (o comício de "A Poesia") ilustrada no interminável mostruário (ou monstruário, se quiserem) de vícios e arrazoados de maledicência é capturada no essencial pela selecção de textos feita por Adolfo Luxúria Canibal, cabalmente sublinhada na música dos restantes Mão Morta, nos encadeamentos dramáticos encenados por António Durães e no desempenho de toda a equipa envolvida na produção (os figurinos é que podiam ser menos neo-gótico-industriais, convenhamos).

Um dia antes, os outros maiores sobreviventes dos anos 80, hoje quase irmãos desavindos, os Pop Dell'Arte, provaram que ainda conseguem ter em palco a chispa que, numa vez ou outra, esteve ausente dos esporádicos concertos do grupo nos últimos anos. Talvez a atenção depositada neles pelos belgas Glimmers tenha servido de tónico a João Peste, que apareceu em palco coroado de César (e não era apenas elemento figurativo... Peste foi imperador ao vivo, como já não se via há muito tempo). Quase metade do espectáculo foi ocupada por temas novos que farão parte de um novo álbum que ninguém sabe quando sairá, como sempre. E não é a única boa quase-notícia: para os lados da Ama Romanta também é de se esperar algumas novidades para breve...