segunda-feira, 7 de junho de 2010

Contra Mundum, Dada Pro Semper



"Contra Mundum", contra tudo e contra todos, como um manifesto de independência total? É certo que os Pop Dell'Arte nunca foram uma banda comum, uma banda igual a tantas outras. Talvez seja até arriscado falar-se nos Pop Dell'Arte enquanto banda, dada a dificuldade que encontramos na comparação com as carreiras de outros projectos, dados os vários interregnos de percurso, dadas as várias mudanças de formação, dadas as posições de militância à margem do circuito comum. Contra as expectativas que o público e os meios constroem ao redor de uma banda, o projecto de João Peste (e de Zé Pedro Moura, novamente) procurou sobreviver ao longo destas mais de duas décadas, sem nunca se vergar a terceiros, chegando a cair por vezes no esquecimento das gerações mais antigas de fãs, surgindo a parte do público mais jovem como algo que não eram mais do que "uns gajos estranhos do tempo dos irmãos mais velhos", perdendo até, sejamos explícitos no que ao negócio da música diz respeito, valor de mercado. Mas sempre sem vergar. Não é tão raro assim ocorrer-me a expressão "não deixar cair os parentes na lama" quando penso nos Pop Dell'Arte, talvez até porque a tenha chegado a ouvir, em tempos e a propósito da carreira do grupo, da boca do próprio João Peste. Aquelas palavras podem ser expressão de altivez e soberba, quando quem o diz não tem obra que as sustente, ou de mentira, quando todos vemos que a dignidade se perdeu pelo caminho. Mas poucos, pouquíssimos projectos, por cá ou lá fora, conseguiram manter a dignidade, manter os seus parentes enxutos como os Pop Dell'Arte conseguiram.

"Contra Mundum" já seria um álbum brilhante mesmo sem este contexto, mas talvez este próprio percurso pouco comum dos Pop Dell'Arte possa ajudar, pelo menos em parte, a perceber como é que chegámos, quase 23 passados da edição de "Free Pop", a um conjunto tão ímpar de canções como este. Sabe bem ouvi-lo, depois de todos estes anos de espera, depois de avanços e recuos na edição do sucessor de "Sex Symbol" (1995), que chegaram a criar o ritual anedótico da habitual notícia anual do novo álbum de originais dos Pop Dell'Arte. Mas, se a espera serviu para alguma coisa, ajudou pelo menos a que o resultado fosse um disco extremamente cuidado nas composições (sempre o mais importante, não será assim?), na produção, nos mais pequenos detalhes, na voz perfeita de João Peste.

Haverá talvez quem da escuta deste álbum saia aborrecido por aqui não encontrar grandes evidências de rompimento com o passado. Muito do que aqui escutamos já conhecemos de outras vidas do grupo. Mesmo até o namoro, aparentemente recente, com a boémia dançante, em que o novo single "Ritual Trandisco" surge como paradigma perfeito dessa relação, é algo que já os Pop Dell'Arte sabiam fazer, e bem, desde "Querelle". Os temas abordados, amor, sexo, religião, ficção científica e a postura sempre, sempre dada fazem desde há longo tempo parte do código genético dos Pop Dell'Arte.

Voltando atrás, o que, no fundo, torna "Contra Mundum" um disco especial são as composições, as canções. Há aqui canções que valem bem o tempo que se esperou para se poder ouvi-las. Canções que nos levam a ouvir o disco vezes sem fim, numa espécie de ritual antigo, do tempo em que éramos crianças ou adolescentes e de vinte em vinte minutos nos levantávamos para virar a agulha ou o lado da cassette. E de tão boas que são, vale mesmo a pena dissecá-las um pouco mais do que é habitual:

1. Ritual Transdisco. O single de apresentação de "Contra Mundi" arranca em primeiro no alinhamento. Os Pop Dell'Arte voltam ao clube, às pistas de dança, dando seguimento ao percurso iniciado no funk-punk de "Querelle", primeiro disco do grupo (1987), e que passou, entre outras paragens clubísticas, pela house em "MC Holly" (1991) ou na mais recente versão de "No Way Back" (2008), para não falar da atenção que alguns dos temas do grupo tem merecido por parte de editoras e projectos lá fora nos últimos tempos. Mas se Campo de Ourique fosse Brooklyn, já teríamos, mesmo antes do álbum sair, metade do rooster da DFA a fazer versões e remisturas de "Ritual Transdisco" (e de vários outros temas deste disco), acreditem. É um groove de 100 BPMs magnífico.
2. My Rat Ta-Ta. Uma valsa dada, com a voz nasalada de João Peste a encaixar na perfeição. Faz lembrar outros momentos da história do grupo, como a versão de "Little Drummer Boy" ou "Poppa Mundi". Atenção, o refrão vai ficar no ouvido. Dá vontade de o cantar pelas ruas soalheiras destes dias. Dá vontade de pegar nos braços de um(a) estranho(a) para dançar.
3. Wild'n'Chic. Há uma parte da crítica internacional que, sempre que apanha um grupo independente que ao terceiro ou quarto álbum produz uma obra pop de contornos arrojados, faz títulos com "(Nome da banda): os próximos U2?". Aconteceu com os Cure, aconteceu com os Radiohead, aconteceu há pouco tempo com os The National. A que propósito vem isto? É que este "Wild'n'Chic" é, por excelência, um tema que encaixa bem nesta definição. Pop épica, com guitarras em sustain, e outros instrumentos a entrarem, compasso a compasso, e a produzirem crescendos, quase com sabor a hino ("wild'n'chic, we are so wild'n'chic, we are the ones"). O Brian Eno passou pelo estúdio e ninguém se deu conta.
4. Slave for Sale. De volta à pista de dança e ao funk-punk, a baixas BPMs, num terreno que, uma vez mais, não é nada estranho aos Pop Dell'Arte, tanto na música como no tema sexo, que transpira ao longo de toda a faixa. The biggest dick in San Francisco, the biggest dick in San Francisco.
5. Noite de Chuva em Campo-de-Ourique. Algo que também não é nada estranho aos Pop Dell'Arte: João Peste a cantar a capella um poema de amor.
6. Eastern Streets. Mais dança. O baixo e a bateria continuam a mandar, mas agora com um toque latino-exótico-bongolândia nas percussões e numa guitarra que entra de vez em quando e que parece marcar os passos de dança, como se fossem pegadas desenhadas num tapete de aprendizagem. Irresistível. Rituais de tambores, rituais de estranhos prazeres (...) Ao longe oiço os passos de um marinheiro louco, dançando ao luar
7. Mr. Sorry. Surge naturalmente na sequência de "Eastern Streets". Há qualquer coisa neste som da guitarra que lembra os Pop Dell'Arte, bem como outros grupos da Ana Romanta, dos anos 80.
8. Diary of a Soldier (I Saw U Dancin'). Um piano e um ambiente planante de banda sonora e Peste em registo melancólico.
9. (How I Miss Your Furious Kisses) In My Room. Mais funk estrambólico à Pop Dell'Arte, no tema mais curto do álbum.
10. Electric G. Por aqui paira, aposto, Philip K. Dick. E quem fala em K. Dick, tala também em Gary Numan. Talvez. Não é coisa que seja estranha nos Pop Dell'Arte, nem tão pouco a forma de cantar de Peste neste tema.
11. La Nostra Feroce Volontà D'Amore. E por aqui parece pairar outro dos heróis de Peste, Scott Walker, num tema cantado em italiano sobre loops de orquestra, rematado de forma deliciosa por "A Internacional" em versão de caixa de música.
12. Har Megido's Lullaby. É dos temas mais simples e, ao mesmo tempo, mais bonitos que se podem encontrar no disco. Uma canção de embalar, se se conseguir imaginar, para o dia do apocalipse, para o último dos cataclismos, para a batalha de deus contra os homens (Har Megido é o nome hebraico do lugar biblíco que viria a dar origem à palavra "armagedom"). É um tema perfeito para terminar o alinhamento do disco (ainda que haja uma 13ª faixa, sem nome, de curta duração e sem estrutura de canção, a encerrar "Contra Mundum").

Pop Dell'Arte - La Nostra Feroce... from pm on Vimeo.