sábado, 24 de outubro de 2009

Que força é essa, amigo?

(Um pequeno aviso: quem pretende desfrutar plenamente dos concertos do Porto, na próxima semana, deve imediatamente saltar este texto, diria eu...)

Não foi o espectáculo do ano. Mas isso sou eu que o digo, forreta (e teso) que comprei bilhete para uma galeria de segunda, a onde o som chegava baixinho e disforme, os três cantos transformavam-se em quatro com ajuda do vizinho desafinado do lado ou a percussão ganhava outro tom nas palmas do vizinho de trás.

Logo à primeira canção, “Guerra e Paz”, percebe-se que o espectáculo é para ser conjugado no plural. Os três músicos cantam em coro “ainda agora aqui chegámos” em vez do “ainda agora aqui chegado” que Sérgio Godinho cantava no original e, num estilo frequente ao longo da noite, os músicos repartem a interpretação dos versos, cruzam-se nas palavras de uns e de outros sem nunca se chocarem. A camaradagem cultivada ao longo de anos está ali sobre-evidenciada e as autorias confundem-se em palco, como se não houvesse canções do Sérgio, do Zé Mário ou do Fausto, mas de todos os três. Há pequenos desvios a esta ideia, quando cada um deles fica sozinho em palco. Aí volta a ideia que fazíamos de cada um dos músicos, aí ressaltam ao ouvido as diferenças. José Mário Branco é aquele que expande musicalmente mais o seu reportório, ilustração trazida, por exemplo, no jazz ao estilo de Big Band em “Onofre”, com Carlos Bica e José Peixoto. Fausto é o melhor cantor e aquele que leva o alinhamento mais próximo da tradição música popular portuguesa, com toques beirões (fez falta poder-se dançar naquela arena maldita). Sérgio Godinho é o poeta, por excelência, entre os três, e fez terminar o seu momento a solo com uma arrepiante interpretação de “O Primeiro Dia”.

Feitas as actuações a solo, e outras a dueto, onde curiosamente numa das quais, Sérgio Godinho e José Mário Branco cantaram “Se tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)”, do ausente Fausto (lá está, a canção ontem não era do Fausto, era de todos), voltou-se a baralhar tudo de novo. Se a banda de suporte era composta de excelência e se os arranjos eram magníficos (todo o receio que Sérgio Godinho trouxesse os seus roqueiros era infundado, felizmente), o momento em que os três músicos ficaram sozinhos com as suas guitarras acabou por ser um dos mais especiais da noite. Tirando o final (já lá vamos), terá sido o momento em que houve maior aproximação com o público. Nisto – ou na falta disto – residiu talvez um dos maiores defeitos do espectáculo, aliás. Já seria de esperar que um espectáculo deste género, apoiado numa grande produção, onde tudo precisa de ser ensaiado ao detalhe, onde quase tudo é encenado e repetido, perca depois naqueles outros aspectos que alguns de nós valorizamos mais. Faltou um pouco de improvisação, um pouco de anarquia, um pouco de mijo fora do penico, um pouco daquelas coisas que ajudam a que um espectáculo se torne verdadeiramente único e inesquecível nas memórias. Nesse sentido, e sem querer dramatizar excessivamente, “Três Cantos” é um produto moderno, como aqueles que encontramos nos supermercados, hermeticamente embalados, obedientes a todas as normas de higiene e segurança. Mas, atenção, é bom e é saudável.

Regressou a banda de suporte e surgiu a semi-surpresa (alguns já sabiam) no tributo a José Afonso, em “De Não Saber o que Me Espera”. Foi a parte mais emotiva do espectáculo, com “Ser Solidário”, “Mudam-se os Tempos…” , uma versão arrasadora de “Que Força É Essa”, o melhor momento da noite, e ainda o inesperado tema principal do filme “A Confederação”. “Inquietação” fechou de forma soberba o primeiro encore e, para o regresso, outra surpresa em palco, o momento da noite que mais contribuiu para desfazer a ideia de pouco arrojo de que falava no parágrafo anterior. Sob uma intensa tempestade debitada pelo PA, os técnicos de palco rapidamente montaram dezenas de tripés de microfone à boca do palco, para de seguida surgirem todos os músicos ali à frente, em meia-lua, para cantarem, quase sem ajuda do sistema sonoro, “Na Ponta do Cabo”. Mal se ouvia na galeria de 2ª, mas, visualmente, era um final perfeito.

Agora é esperar pela edição em CD e DVD, cuja edição se prevê, de acordo com os panfletos, daqui a apenas dois meses.


Alinhamento de “Três Cantos”:

Os três, com a banda:
1. Guerra e Paz [L e M: Sérgio Godinho; de Era Uma Vez um Rapaz, 1985]
2. Travessia do Deserto [L e M: José Mário Branco, de Ser Solidário, 1982]
3. Como um Sonho Acordado [L e M: Fausto, de Por Este Rio Acima, 1982]
José Mário Branco e Sérgio Godinho:
4. Barca dos Amantes [L: Sérgio Godinho; M: Milton Nascimento; de Coincidências, 1983]
José Mário Branco (c/Carlos Bica e José Peixoto):
5. Onofre [L e M: José Mário Branco; de Resistir é Vencer, 2004]
6. Emigrantes da Quarta Dimensão (Carta a J.C.) [L e M: José Mário Branco; de Correspondências, 1990]
José Mário Branco e Fausto:
7. Mariazinha [L e M: José Mário Branco; de Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, 1971]
Fausto:
8. Eis Aqui o Agiota [L e M: Fausto; de A Ópera Mágica do Cantor Maldito, 2003]
9. Adeus Orelhas de Abano [L e M: Fausto; de A Ópera Mágica do Cantor Maldito, 2003]
10. A Nova Brigada dos Coronéis de Lápis Azul [L e M: Fausto; de A Ópera Mágica do Cantor Maldito, 2003]
Sérgio Godinho:
11. O Velho Samurai [L e M: Sérgio Godinho; de Ligação Directa, 2006]
12. Cuidado com as Imitações [L e M: Sérgio Godinho; de Campolide, 1979]
13. O Primeiro Dia [L e M: Sérgio Godinho; de Pano-Cru, 1978]
José Mário Branco e Sérgio Godinho:
14. Se tu Fores Ver o Mar (Rosalinda) [L e M: Fausto; de “Madrugada dos Trapeiros”, 1977]
Os três:
15. Quatro Quadras Soltas [L e M: Sérgio Godinho; de “Campolide”, 1979]
Os três, mas sozinhos, sem banda:
16. Canto dos Torna-Viagem [L e M: José Mário Branco; de Resistir é Vencer, 2004]
17. A Ilha [L e M: Fausto; de Por Este Rio Acima, 1982]
18. Não Canto Porque Sonho [L: Eugénio de Andrade; M: Fausto e António Pedro Braga; de P’ró que Der e Vier, 1974]
19. O Charlatão [L: Sérgio Godinho; M: José Mário Branco; de Sobreviventes, 1971, e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, 1971]
Os três, já com a banda de regresso:
20. De Não Saber o que me Espera [L e M: José Afonso; de Fura Fura, 1979]
21. Ser Solidário [L e M: José Mário Branco; de Ser Solidário, 1982]
22. Faz Parte (O Retorno das Audácias) [Inédita]
23. Olha o Fado [L e M: Fausto, de Por Este Rio Acima, 1982]
24. Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades [L: Luiz Vaz de Camões; M: Fausto; de Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, 1971]
25. Foi por Ela [L e M: Fausto; de Para Além das Cordilheiras, 1987]
26. Que Força É Essa [L e M: Sérgio Godinho; de Os Sobreviventes, 1971]
27. Confederação [L e M: José Mário Branco; de A Confederação, 1978]
1º encore:
28. Maré Alta [L e M: Sérgio Godinho; de Os Sobreviventes, 1971]
29. Inquietação [L e M: José Mário Branco; de Ser Solidário, 1982]
2º encore:
30. Na Ponta do Cabo [L e M: Fausto; de Crónicas da Terra Ardente, 1994]