terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Kill the Boy

A páginas tantas da saga "Songs of Ice and Fire", de George R.R. Martin, levada à televisão na série "Game of Thrones", uma das personagens, um miúdo recém-nomeado comandante de um corpo militar (poupo nos detalhes para não estragar a leitura de quem venha a fazê-lo), revela um pensamento persistente: "Kill the boy". Mais à frente, percebemos a expressão por intermédio de outras que lhe sucedem: "Kill the boy. It takes a man to rule. Kill the boy and let the man be born."

Sem pretender atalhar foice em searas da psicologia ou da antropologia para as quais não me formei, julgo que era assim (e ainda é, em grande medida) que os homens e mulheres fechavam fronteiras entre as etapas de crescimento. A realidade de hoje, porém, é muito mais complexa. Somos, muitos de nós, aquilo que entretanto os sociólogos e marketeers passaram a designar por "kidults", adultos a meio caminho entre a infância ou a adolescência e a idade adulta, ou até mesmo adultos já avançados na idade, que se divertem como crianças, que guardam interesses ainda do tempo em que eram as maiores dúvidas eram se a Cristina da carteira da frente ia dizer que sim ou para que servia o teorema de Pitágoras. E isto sem deixarem de ser responsáveis como se quer que um adulto seja.

Não sei que razões costumam ser apontadas para que este fenómeno tenha surgido nas últimas décadas nas sociedades modernas. Mas suspeito que o rock, nos cinquenta ou sessenta anos que leva, bem como outras indústrias culturais massivas das sociedades ocidentais, desempenhem aqui um papel muito forte. Há, pelo menos, uma clivagem notória entre quem, já em idade adulta, opta, consciente ou inconscientemente, por manter tais laços com os interesses da juventude e aqueles que rompem, aqueles que "matam a criança", como no caso da saga acima citada, porque os contextos sociais, culturais ou económicos assim o determinam. Todos encontramos essa experiência no dia-a-dia, principalmente no local mais óbvio em que nos encontramos com outros adultos da nossa idade, o local de trabalho. Há quem nos olhe de esguelha, há quem nos olhe com alguma ponta de inveja (haverá mesmo ou estarei a ser demasiado otimista?), há quem desde logo sinta cumplicidade mútua connosco. Não espanta que sejam, muitas das vezes, as primeiras amizades que fazemos no sítio em que nos damos com outras pessoas que não escolhemos.

Poderá também ser um motor de desigualdades sociais, seguramente. Um grupo de pessoas move-se no tecido social com uma mundividência que pode ser bastante diferente da do outro, e não são tão pouco frequentes os episódios de arrogância e sobranceria de parte a parte. A nível pessoal, a opção poderá também trazer inconvenientes: o sentido de responsabilidade pode lá estar, mas a falta de tino, para usar uma palavra boa, é mais frequente no caso dos "kidults". Mas é provavelmente essa "falta de tino" que torna mais colorida a vida desta pessoas, o suficiente para que cada um assim justifique as suas escolhas face aos outros que levam a vida normal. É que, seja isto um ato de sobranceria ou não, julgo que, por vezes, se sobrevaloriza a normalidade.
Vá, deixem a criança viver, se isso vos fizer mais felizes. A mim, faz. Não me olhem é de esguelha, vocês os outros, que eu chamo a turma lá da rua.