quarta-feira, 26 de junho de 2013

Bilhetes caros, salas cheias e a crise

Ontem, um amigo perguntava-se como é que, no nosso país e no atual contexto económico que vivemos, podia haver bilhetes tão caros para um concerto como o dos Bon Jovi (59 a 295 euros.) Mais ainda, não será coisa inédita que, apesar dos preços, a lotação esgote (ainda que, especificamente, pouco ou nada saiba sobre o estado de vendas para o concerto desta noite).

É frequente fazermos este tipo de perguntas. Eu próprio aqui a faço, frequentemente. Sabemos da crise, sabemos das dificuldades pelas quais passam muitos portugueses, sentimos em maior ou menor escala o efeito da austeridade na carteira, no nível de vida que levamos. É uma pergunta legítima. E até tem resposta fácil e simples.

Constituímos, na União Europeia, uma das sociedades com distribuição de rendimento mais desigual. Em 2010, éramos batidos apenas por Letónia e Bulgária, se consultarmos os valores para o índice de Gini, o principal indicador para a medição das desigualdades. Num outro indicador de leitura mais fácil, vemos que, para a mesma altura, os 20% mais ricos, em Portugal, ganhavam 5,7 vezes mais que os 20% mais pobres (média UE: 5,1). Ou que os 10% mais ricos ganhavam, em 2009, 9,4 vezes mais que os 10% mais pobres. E, voltando à pergunta inicial, sabemos que a maior parte dos concertos que a motivam ocorrem na região de Lisboa. É precisamente esta região que regista o maior nível de desigualdade no país.

É isto que permite que haja público suficiente para a venda de bilhetes a estes preços. Para uns, são preços que estão perfeitamente ao seu alcance, esteja como estiver a economia, esteja como estiver a austeridade gaspariana. Para outros, é um sacrifício para se poderem juntar ao grupo dos primeiros. É também isto que explica por que é Portugal um dos países onde mais se vendem carros de luxo e onde as marcas como a BMW ou a Audi têm ganho quota de mercado a outras como a Fiat ou a Citröen. Já agora, porque está também relacionado, ninguém se deve igualmente espantar que o Rock in Rio seja um conceito importado do Brasil, uma das sociedades mais desiguais do mundo...