quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Maquinista



O João dos Hipnótica pediu-me para escrever algumas palavras para a promoção do seu álbum de estreia a solo, «O Maquinista», que sai para as lojas no próximo dia 2 de Fevereiro:
(Conheçam mais em myspace.com/omaquinista)

O disco d'«O Maquinista» parece coisa do passado. Primeiro, pelo interesse que coloca nas palavras. Portuguesas, ainda por cima. Coisa rara no meio artístico nacional, esta de ouvir palavras assim, poemas sofisticados, palavras faladas com um respeito fundamental por algo que é, aqui, mais do que apenas um instrumento (também o é), mais do que uma peça do puzzle harmónico (também o é). É coisa do passado quando nos monopoliza a atenção e nos obriga a escutá-lo sem que nada mais nos distraia. Qual foi o último disco que nos pôs assim, a largar tudo aquilo que habitualmente fazemos quando ouvimos música, como se à música apenas reservássemos a função de banda sonora do quotidiano? É coisa do passado quando ouvimos que «A vida não é mais que uma colecção de polaroids, onde colo um selo e envio a todos os amigos e irmãos que me foram». É coisa do passado quando, no tempo da desmaterialização, nos dá o prazer de abrir uma embalagem diferente do comum, onde encontramos uma fotografia numerada, única, como sinal da ligação pessoal, nada industrializada e nada maquinal (!), que «O Maquinista» pretende estabelecer com o ouvinte. Mas aqui a coisa do passado, afinal, é também moderna, ainda que no sentido que os modernistas lhe deram no século passado. As artes, as da palavra, as da música e as da imagem, fundem-se num objecto rico, de formas multifacetadas, como quando ouvimos a voz dizer-nos «sou o anjo perdido nas ruas de Wender (...), sou a estrada sem fim de Kerouac, sou a rouquidão na voz de Tom Waits (...), sou o violino cavalgante de Venus in Furs (...), sou a árvore imóvel de Ginsberg (...), sou o cavalo de corrida de Bukowski». É também coisa moderna nos loops e demais elementos sonoros, como a bela harpa de Eduardo Raon ou o contrabaixo de Sergue, entre outros retalhos de som com que João Branco Kyron, o vocalista dos Hipnótica e o maquinista deste projecto a solo cose os temas onde se sustentam (e se amparam mutuamente) as palavras. Autêntica poesia sonora.