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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

António Sérgio no lugar de entrevistado, em 2002

Em 2002, por ocasião da edição da primeira colectânea evocativa do programa Som da Frente, tive a honra de entrevistar o António Sérgio. A honra e os nervos em franja. Afinal, nas ocasiões em que ele me convidou para os seus programas, senti-me sempre esmagado pela sua capacidade notável de estabelecer uma conversa agradável, com conteúdo interessante. Desta vez trocávamos os papéis e era eu que tinha que encontrar a boa história, a boa conversa. Mas se o dom de comunicação estava do lado do Sérgio entrevistador, também estava do lado do Sérgio entrevistado. Deixo aqui a gravação, sem qualquer edição, em sinal de tributo a quem tanto fez abrir os meus horizontes de escuta (e de tanta outra gente):

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #10 (e última)



10. "Maldoror" mudou-vos, de alguma forma?

ALC: Não! Pelo menos não temos consciência de uma qualquer mudança... As reações epidérmicas sempre foram uma constante no percurso dos Mão Morta, de disco para disco, de espectáculo para espectáculo, e isso nunca provocou qualquer mudança significativa - as reações epidérmicas e a versatilidade de propósitos fazem parte da nossa identidade mais profunda!


Não esquecer: as últimas apresentações de "Maldoror" (serão mesmo as últimas) acontecem já na próxima quarta-feira, na Culturgest, em Lisboa, e no dia 3 de Maio, no Theatro Circo, em Braga. Entretanto, a gravação dos primeiros espectáculos de "Maldoror" já anda por aí em CD, disponível apenas nos locais e nos dias dos concertos e no site da Cobra.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #9


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

9. Dedicados quase em exclusivo a "Maldoror" ao longo destes últimos dois a três anos, os Mão Morta devem sentir alguma ansiedade por voltar ao formato tradicional de rock'n'roll. Perspectiva-se algo para os tempos imediatamente posteriores a "Maldoror"?

ALC: Estamos epidermicamente ansiosos por passar para outra coisa, que em antítese nos surge como crua, simples e enérgica!... No entanto, estamos demasiado imergidos no "Maldoror", que necessita de toda a nossa atenção e disponibilidade, para verdadeiramente pensarmos no que quer que seja extra "Maldoror"... Felizmente, a Chave do Som vai cuidando do nosso futuro e tem vindo a colocar alguns concertos em perspectiva, mas não temos real consciência do quando e do como possam vir a ser essas actuações!

Maldoror: a entrevista #8


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

8. A esta data, restam ainda duas apresentações de "Maldoror", uma na Culturgest, em Lisboa, e outra que constituirá o regresso do espectáculo à casa de onde partiu, por assim dizer, o Theatro Circo de Braga. Será o fim definitivo de "Maldoror" em palco?

ALC: Sim, é o fim definitivo de "Maldoror" em palco. Ficam os testemunhos, o CD e o DVD (quando sair), e sobretudo a memória das pessoas que tiveram a oportunidade de assistir ao "Maldoror" ao vivo!... É um espectáculo que se torna relativamente leve com o decurso das apresentações, com os automatismos que se vão desenvolvendo, mas demasiado pesado para ficar em stand-by e de arranque excessivamente trabalhoso e caro para ter aparições esporádicas! Por outro lado, não sei se fará sentido extirpar pedaços desse corpo, que é uno, para usar como canções em concertos mais tradicionais... Não, definitivamente será o fim de "Maldoror" ao vivo!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #7


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

7. No prefácio que escreveste para a edição de "Os Cantos de Maldoror" pelas Quasi, relembras a tua adolescência, quando andavas a pichar as paredes de Braga com slogans tirados do livro. Hoje, não é isso que fazes, enquanto voz do grupo, quando declamas algumas frases, que ficam na memória dos espectadores, como "Estou sujo. Roído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam." (em "A Porcaria") ou como acontecia nos refrões do "Latrina...", por exemplo?

ALC: Bom, em última análise estamos sempre a fazer a mesma coisa sob maneiras diversas, como se diz do Hemingway que escreveu sempre o mesmo livro apesar dos diferentes títulos e enredos!... Mas as pichagens de 74/75 obedeciam a uma vontade precisa, dar um pouco de graça literária às paredes cobertas de propaganda partidária, ainda que jogando no campo do imediatismo propagandístico, e daí a escolha de frases que podiam revestir a forma de slogan, enquanto a construção de canções, discos ou espectáculos, ainda que baseados noutros autores ou em obras literárias, obedece unicamente à necessidade de evasão que a criação artística propicia, tanto maior quanto essa criação é partilhada e colectiva. O efeito de memorização e de reprodução de partes dessa criação artística é mera consequência do formato canção utilizado, que inclui na sua estrutura o refrão ou estribilho, e não o objectivo primeiro. Claro que este efeito colateral, de certo modo, vai ao encontro do efeito colateral e slogan das pichagens, mas é necessária muita teoria analítica para os colocar lado-a-lado...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #6


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

Continuação da entrevista a Adolfo Luxúria Canibal, a propósito do espectáculo "Maldoror" e de outros assuntos. A digressão de apresentação de "Maldoror" está já na recta final, com os últimos concertos, que acontecerão em Lisboa (Culturgest, dia 23 de Abril) e em Braga (Theatro Circo, dia 3 de Maio):

6. Para este espectáculo, e ao contrário do que aconteceu em "Müller...", os Mão Morta contaram com a intervenção do encenador António Durães. Como decorreu a integração e quais são os aspectos mais visíveis do seu trabalho?

ALC: O mais importante do trabalho de António Durães não é propriamente visível mas sentido! Quer dizer, nós no "Müller..." tínhamos uma narrativa, a sequenciação dos poemas de Heiner Müller compunha uma narrativa e a progressão do espectáculo acontecia à boleia dessa narrativa. A encenação limitava-se a dar visualidade estética à narrativa - e por isso é que me atrevi a fazê-la, mesmo sem ter aptidões particulares para isso! No caso do "Maldoror" não existe qualquer narrativa nem poderia existir, sob pena de traição ao livro - existem várias narrativas, esboços e farrapos de narrativas! A progressão no livro, na ausência de narrativa, acontece pela própria escrita, por truques literários - no caso do espectáculo, a sua progressão tinha que acontecer por truques cénicos! Isso implica um conhecimento de encenação que ultrapassa de longe as nossas competências e é esse o principal trabalho de António Durães enquanto encenador, dar progressão ao espectáculo... O recurso ao vídeo faz parte dos truques cénicos utilizados por António Durães para imprimir essa progressão, e talvez seja aquele que é mais imediatamente visível, mas a forma final acaba por ser de Nuno Tudela - como a forma final da cenografia é de Pedro Tudela e a dos figurinos de Cláudia Ribeiro, embora todos estejam na dependência do pretendido pelo encenador para fazer avançar o espectáculo.
Quanto à sua integração no trabalho dos Mão Morta, foi perfeita! Há que dizer que já o conhecíamos (entra mesmo como figurante no clip de "Sangue no Asfalto"!...) e que gostamos do seu trabalho, tanto enquanto actor como enquanto encenador - e por isso o convidámos! -, e que portanto sentíamo-nos confiantes para nos entregar nas suas mãos. Por outro lado, o António Durães teve o cuidado de vir ao encontro do que achava que seria a nossa estética e do que pretendíamos fazer com "Os Cantos...". E quando as coisas se passam assim a integração é sempre perfeita!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #5


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

5. Qual é a principal motivação dos Mão Morta quando pegam noutros autores ou imagéticas concretas, do Müller ao Ducasse, da Internacional Situacionista à geração perdida de Braga? Tributo? Propaganda panfletária (num bom sentido da palavra)? Exploração artística de um tema?

ALC: Bem, antes de mais há uma motivação de ordem prática e que tem a ver com a dispersão geográfica dos diversos elementos da banda e que sempre esteve presente desde os primórdios, independentemente da formação em causa. Ter um assunto definido, para o qual cada um, no seu canto, possa sintonizar energias criativas, ajuda a ultrapassar a distância e a separação e a evitar que a dispersão geográfica se transforme em indefinição estética ou em cacofonia. Depois, porque trabalhar um conceito torna-se mais objectivo (e portanto menos sujeito a divagações e interpretações subjectivas) se esse conceito tiver um modelo a balizá-lo e a concretizá-lo. Finalmente, porque a literatura é, para nós, grande fonte de inspiração, que nos induz a querer explorar ou trabalhar artisticamente um assunto ou uma imagética ou um autor, independentemente das vicissitudes particulares que nos levam a pegar hoje nisto e não naquilo. Claro que as escolhas assim operadas têm um lado de tributo e mesmo de divulgação/propaganda, que é inerente ao facto de, ao fazê-lo, estarmos a confessar publicamente o nosso agrado e interesse por um autor ou uma obra e a focalizar as atenções de terceiros, ou mesmo a sua curiosidade, nessa obra ou autor, mas não são esses os nossos objectivos primeiros.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #4


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

4. Enquanto letrista e vocalista dos Mão Morta, onde te sentes mais à vontade? Na escrita de raiz dos temas e dos conceitos presentes em discos ditos "comuns" ou na adaptação de textos e ambientes de outros para espectáculos como "Müller..." ou "Maldoror"? Sentiste que invadias espaço alheio quando pegavas em Heiner Müller ou, agora, em Isidore Ducasse?

ALC: Como letrista sinto-me, não me parece que o termo "à vontade" seja o mais correcto!... Sinto-me menos angustiado, mais relaxado, quando faço meras adaptações e traduções de textos pré-existentes, escritos por outros autores. Porque, quando acontecem, isso pressupõe que haja, desde logo, alguma identificação com o autor, portanto uma sensibilidade para o entender e uma cumplicidade - o contrário da sensação de intrusão em espaço alheio! E havendo essa cumplicidade e estando o texto já escrito, a tradução ou a adaptação para um fim determinado são pequenas operações sem história... Diferente da angústia da folha em branco, em que tudo tem ainda de ser escrito! Embora, ainda como letrista, pior do que a folha em branco é a foha em branco para escrever letras e textos originais mas respeitando ideias e conceitos de outros autores ou adaptando imagéticas e vivências, como aconteceu com as letras para o "Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável", baseado no legado teórico da Internacional Situacionista, ou para o "Nus", informado pelo "Uivo" do Allen Ginsberg. Como vocalista, é-me indiferente a origem das letras, se são próprias ou se são de outrém.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #3


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

3. Falavas, na resposta anterior, nas salas que existem actualmente no nosso país, por contraponto com a situação de 1997. "Maldoror" não passou pelo Porto ou por Coimbra. Isso deve-se à inexistência de condições técnicas, de programação ou de interesse?

ALC: Um pouco de tudo!... O Porto está sem salas: a Casa da Música não tem condições técnicas (palco sem fundo e teia inexistente) para receber um espectáculo como o Maldoror; o Teatro Nacional de S. João e o Teatro Carlos Alberto têm a sua programação vocacionada exclusivamente para teatro e não têm condições técnicas (potência de som) para receberem grupos musicais; o Teatro Rivoli está entregue a um privado (La Féria) que o utiliza exclusivamente para as suas produções; o Teatro Sá da Bandeira não tem política de programação, para além de ser vetusto e estar sem manutenção; o Coliseu não tem política de programação... Quanto a Coimbra, o Teatro Académico Gil Vicente está descapitalizado (o que levou, inclusivé, o seu director a despedir-se na semana passada, por falta de condições para conseguir programar espectáculos para a sala - só tinha a dotação da própria Universidade, que cobre apenas as despesas correntes, e tanto a Câmara Municipal de Coimbra como o Ministério da Cultura contribuem com zero Euros!...) e não há mais nada!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #2


(Ilustração de Isabel Lhano que acompanha a edição em CD de "Maldoror")

2. Havendo já a experiência tida com "Müller no Hotel Hessischer Hof", tem sido mais fácil levar este espectáculo à cena, bem como tudo o que lhe está intimamente associado (disco e DVD)? Ou existem novos desafios agora colocados?

ALC: Bem, tendo em conta que o "Müller..." teve apenas seis apresentações em quatro cidades e que o "Maldoror" já leva oito apresentações e vai chegar às 11, visitando oito cidades, parece óbvio concluir que tem sido mais fácil levar este espectáculo à cena... E é verdade que, a nivel de equipamentos, o Portugal de 2007/2008 não é o mesmo Portugal de 1997: há muitas mais salas, embora grande parte sem condições mínimas, estruturais ou técnicas, para receber o "Maldoror" e a maioria sem dotação orçamental para fazer programação! Mas o que parece uma conclusão óbvia não é verdadeira: este espectáculo é muito mais complicado de montar, torna-se muito mais caro fazê-lo circular e é muito mais exigente quer física quer intelectualmente, obrigando a um grande esforço de todos os envolvidos. E se o duplicar do número de espectáculos em relação ao "Müller..." só foi possível pelo aumento de salas no país, há que acrescentar também, ou principalmente, uma maior teimosia em querer fazer o máximo de datas, e um grande empenho em o conseguir por parte da Chave do Som [NE: a agência dos Mão Morta], a ponto de se aguardar quase um ano desde a estreia para que as condições se propiciassem...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Maldoror: a entrevista #1


(Ilustração que acompanha a edição em CD de "Maldoro", de Isabel Lhano)

Maldoror anda por aí a semear a perfídia e a crueldade. O espectáculo que os Mão Morta andam a levar à cena, e do qual já existe edição luxuosa em CD, aguardando-se pelo formato em DVD, vai passar ainda por Estarreja (12 de Abril), Lisboa (23 de Abril), regressando a Braga a 3 de Maio.
Ao longo dos próximos dias, Adolfo Luxúria Canibal, vai responder aqui a algumas perguntas. Esta é a primeira:

1. Parafraseando o início do espectáculo, dir-me-ás em poucas palavras como tem sido Maldoror, nestas apresentações pelo país fora?

ALC: Tem sido óptimo! Os espectáculos têm corrido bem, corrigimos alguns problemas que havia na estreia, nomeadamente na qualidade do som da voz e na visibilidade de pormenores dos figurinos, temos conseguido fazer a adaptação do cenário às diversas configurações dos palcos por onde passamos, as salas têm estado esgotadas ou cheias e o público tem invariavelmente aplaudido de pé. Houve um ou outro susto, umas asas que se perderam e reapareceram quando já tínhamos asas substitutas, outras asas que se quebram, uma camisola que dá sumiço, mas nada que não tenha sido resolvido a tempo e horas... Está dito!

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Abertura total, de novo #6 (Einstürzende Neubauten em Portugal e depois, descanso...)

(Conclusão da entrevista a Alexander Hacke, dos Einstürzende Neubauten, a propósito do novo álbum, "Alles Wieder Offen", que saiu hoje para os escaparates das lojas.)

Q6. Quando saiu "Perpetuum Mobile", disse-se que era essencial para que pudesse acontecer uma digressão mundial. Este novo "Alles Wieder Offen" vai também dar origem a uma digressão do mesmo género?

ALEX HACKE: Sim, vamos fazer uma digressão intensiva a partir de Abril do próximo ano e Portugal vai estar de certeza incluído.

Q7. Pensam voltar, depois disto, aos álbuns exclusivos para os supporters?

ALEX HACKE: Não. Nem sequer temos sessões de estúdio planeadas a breve prazo. Após a digressão do próximo ano, vamos deixar os Neubauten descansarem um pouco. Pensaremos em qualquer coisa para o nosso 30º aniversário, em 2010...

Q8. Passaram, mais ou menos, 10 anos desde que Mufti e Marc Chung deixaram o grupo, abrindo caminho para Jochen Arbeit e Rudi Moser. Como avalia estes anos a trabalhar com eles?

ALEX HACKE: Fizemos muitas coisas na última década que teriam sido impossíveis com o line-up antigo e tem sido muito bom.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Abertura total, de novo #5

(Continuação da entrevista a Alexander Hacke, dos Einstürzende Neubauten, a propósito do novo álbum, "Alles Wieder Offen".)

Q5. A primeira leitura que se faz ao título do álbum (algo como "Tudo aberto de novo") é a de que, depois de mais de dez discos lançados em exclusivo para os supporters, vocês estão de volta a uma audiência alargada. Abertura total, de novo?

ALEX HACKE: Quando tudo se abre de novo, fica também tudo por resolver, de novo. Algo que está exposto de novo deixa de estar protegido. Isso também implica uma certa obrigação de revermos uma decisão que tomámos ou de escolher seguir uma qualquer de outras opções.

(Continua. O álbum sai para as lojas no dia 19.)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Abertura total, de novo #4

(Continuação da entrevista a Alexander Hacke, dos Einstürzende Neubauten, a propósito do novo álbum, "Alles Wieder Offen".)

Q4. A maior parte das faixas deste disco têm partes retiradas dos vossos arquivos sonoros, de gravações ao vivo (como "Von Wegen", que aproveita um improviso do último concerto em Lisboa), destes álbuns exclusivos dos supporters ou, recuando mais no tempo, de gravações como a que foi usada em "Susej", que recupera o Blixa a tocar guitarra em 1982. É correcto dizer-se que "Alles Wieder Offen" é, por excelência, o disco de estúdio dos Neubauten, aquele em que houve menos tempo passado na sala de gravações?

ALEX HACKE: Não... "Von Wegen", tal como "Redukt", "Alles", "Seltener Vogel" e muitas outras faixas nossas derivam meramente de um "rampe", uma improvisação ao vivo. Como gravamos cada espectáculo que fazemos, voltamos a ouvir as gravações e analisamos essas improvisações, de forma a construírmos canções propriamente ditas a partir daí. No caso da gravação do Blixa, a bater com o pé e a tocar guitarra, nós voltámos a isso inúmeras vezes ao longo destes anos, mas até agora nunca tínhamos conseguido retirar daí algo com sentido e, daí, nunca a usámos de uma forma construtiva.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Abertura total, de novo #3

(Continuação da entrevista a Alexander Hacke, dos Einstürzende Neubauten, a propósito do novo álbum, "Alles Wieder Offen".)

Q3. Em alguns dos discos destinados em exclusivo aos supporters, vocês criaram um método de trabalho, através da utilização de cartões tirados à sorte. Li que também está presente neste "Alles Wieder Offen". Do que se trata, afinal de contas?

ALEX HACKE: O oráculo divinatório (ou sistema de navegação, se quisermos), ao qual demos o nome Dave foi aplicado na criação das "Jewels" de que falava há pouco. É uma caixa com 600 cartões contendo informação como: "algo suave", "arranhar", "Fa #", "Vegetais" e outras especificações úteis como estas ou ainda mais confusas. Cada elemento da banda pega em algumas cartas e usa-as para se inspirar no que tocar nessa peça em particular.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Abertura total, de novo #2

(Continuação da entrevista a Alexander Hacke, dos Einstürzende Neubauten, a propósito do novo álbum, "Alles Wieder Offen".)

Q2. Levaram cerca de 200 dias a gravar este disco. Não é muito tempo?

ALEX HACKE: Até foi muito rápido, tendo em conta que antes de começarmos estes projectos exclusivos para os "supporters", os Neubauten produziam discos em períodos que nunca eram inferiores a dois anos, em média. Ao longo destes duzentos dias, gravámos, na verdade, dez álbuns. Este de que estamos a falar, oito edições da série "Musterhaus" e quinze das chamadas "Jewels", que serão editadas em CD no próximo ano.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Abertura total, de novo #1

"Alles Wieder Offen", que é como quem diz "tudo aberto, de novo", é o título do mais recente álbum dos alemães Einstürzende Neubauten, que deverá chegar às lojas a 19 de Outubro. Nos três anos que o separam de "Perpetuum Mobile", muito aconteceu na história do grupo. Mais de dez discos foram lançados exclusivamente para o clube restrito dos "supporters" que têm contribuído financeiramente para a independência do grupo da tradicional indústria discográfica. O disco de regresso, por assim dizer, ao grande público, é mais um sinal da independência adquirida pelos Neubauten: o selo é da Potomak, editora constituída pelos próprios. É um belíssimo disco. E a digressão vem a seguir. Preparem-se.

Ao longo dos próximos dias, deixarei as respostas de Alexander Hacke, um dos Neubauten, às perguntas que lhe fiz.



Q1. Este disco parece dar um passo em frente no processo de maturação dos Einstürzende Neubauten, tal como se tem visto desde "Silence is Sexy" ou, indo mais longe, desde "Tabula Rasa". É um disco Einstürzende Neubauten, não haja dúvida, mas parece ter mais instrumentos convencionais, a voz do Blixa soa ainda mais suave e todos os arranjos parecem estar perfeitos. Faz isto algum sentido para si? Discutiram isto no processo de composição, gravação e mistura do disco?

ALEX HACKE: Estou contente por saber que existe alguma espécie aparente e reconhecível de progresso. Nós apenas trabalhamos com todas as ferramentas disponíveis para criar a música que entendemos. Desta vez, não aplicámos nenhuma forma conceptual como no "Perpetuum Mobile", onde o tema era o ar, a perspectiva dos pássaros, viagens e assim. Apenas tentámos fazer a música que gostamos de ouvir. O resultado é um álbum muito pessoal, que leva em linha de conta e acarinha a nossa história enquanto um grupo de indivíduos que passaram a maior parte das suas vidas juntos.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

ENTREVISTA: Badawi aka Raz Mesinai, o nómada

Raz Mesinai nasceu em 1973 em Jerusalém, mas desde muito novo que Nova Iorque é a sua cidade. E se ele sabe dizer onde fica a sua casa, mais difícil é tentar encontrar-lhe residência fixa na música. À parte das tradições médio-orientais que lhe correm no sangue, Mesinai tem vindo a absorver e a unir diversas outras formas de entender e trabalhar a música, da electrónica pura à electro-acústica, das técnicas do dub aos esoterismos do jazz moderno, do gira-discos de uma festa ao piano de cauda de um concerto. O seu currículo é igualmente diversificado, destacando-se as experiências na cena "illbient", com DJ Spooky e DJ Olive, as ligações à cena nova-iorquina que circula em torno de John Zorn, a sonorização de filmes e uma extensa e variada discografia repartida por várias editoras, como a Asphodelic, a ROIR ou a Tzadik.
"Safe" é o título do novo álbum editado sob o nome Badawi (provavelmente, o último). Desde logo, ajuda a perceber, para quem não conhecia nada até agora, que a biografia não era enganadora. Por ali passa mesmo um pouco disto e daquilo, num trabalho de fusão que é mais do que um simples trabalho de fusão e que só está ao alcance de verdadeiros músicos nómadas como Raz Mesinai (Bill Laswell, Jah Wobble e Marc Ribot seriam outros exemplos).
Raz Mesinai vai estar em Portugal, ao vivo, já neste próximo fim-de-semana. Na sexta-feira, dia 2, toca em Lisboa, na ZDB, num cartaz que inclui ainda Bryan Eubanks e Natasha Anderson (o 1º concerto começa às 23h). No dia seguinte, toca no Porto, inserido no programa das 40 horas non-stop da Fundação Serralves (o concerto de Mesinai está marcado para as 20h30).
E, agora, a entrevista, realizada recentemente por email:

Eyvind Kang na viola d?arco, Mark Feldman no violino, Marc Ribot na guitarra e toda a outra gente. Mais uma vez, reuniu um ensemble notável. Como conheceu e como veio a trabalhar no seio da cena downtown nova-iorquina?
O Elliot Sharp convidou-me para tocar numa das suas performances no The Cooler quando eu tinha cerca de 20 anos. Isso fez-me pensar muito em improvisação e eu acabei por me tornar frequentador habitual da cena, conhecendo mais tarde o John Zorn assim como muitos outros. Sempre fui um nómada que vaguei por várias cenas.
Como é que se processa, isto é, funciona como um grupo em tempo real, eventualmente respondendo a si como director, ou grava-os separadamente?
É uma coisa que varia de disco para disco. Tenho que chegar à melhor forma de obter um determinado efeito a partir dos músicos. Passa-se algo parecido com um director musical, mas eu também tenho composto muita música em papel primeiro.
Poder-se-á dizer que prossegue com o seu passado enquanto giradisquista, ao lado de DJ Olive e DJ Spooky? Isto é, colecciona e transforma as peças dos outros no seu trabalho próprio e único?
Na verdade, não. O giradisquismo é uma forma de xamanismo e também uma boa maneira de apreender o ritmo universal de que ando à procura.
Educado nas tradições médio-orientais, contaminado pela cena electro de NY e por tudo o resto como o hip hop, o dub, as novas formas do jazz, a composição clássica, as músicas do mundo, etc., acabou por dominar diferentes noções de música: os propósitos, as técnicas, os instrumentos, etc. Verdade ou não, os franceses dizem que ?Qui a deux femmes perd son ame, qui a deux maisons perd sa raison?. Como lida com isso?
Antes de mais, apenas tenho uma casa, que é Nova Iorque. E a minha música não é DO Médio Oriente. Apenas PASSA por lá. Para mim, é apenas som. Não penso em géneros, mas apenas no som.
Vê a percussão e o dub como possíveis pontes entre as diferentes culturas musicais? Que outras formas ou aspectos da música poderiam ter esta qualidade?
Não sei. Não tento salvar o mundo. Sou um anarquista e se não o posso ter no meu país, então insisto em fazê-lo na minha música.
Que Raz Mesinai estará presente nos concertos em Portugal? O pianista e percussionista? O programador? O director de ensembles? O giradisquista? Ou uma mistura de tudo isto?
Eu estou a atingir uma nova fase no meu trabalho. Não tenciono fazer mais discos sob o nome de Badawi. Sinto que só agora estou a sentir que a minha música está a chegar onde eu quero que chegue. Este disco, ?Safe?, já tem, na verdade, quatro anos. Daí que não mostre onde é que eu estou agora. O concerto vai dar às pessoas o sabor de um "trance" futurista livre de religião.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Entrevista com Damo Suzuki

Quando Damo Suzuki veio a Lisboa há dois anos atrás, aproveitei a ocasião para o entrevistar. O que se segue foi publicado na edição de Novembro de 2004 da revista Número Magazine, assim como está, em inglês.
É favor não esquecer que Damo está de volta a Portugal neste fim-de-semana: sexta-feira, com os CAVEIRA, na ZDB, e, no sábado, com os Soopa, nos Maus Hábitos.

DAMO SUZUKI
Turning European, I think I'm turning European, I really think so

Image hosted by Photobucket.comDamo Suzuki, Japanese-Born, 54, pop industry phobic, has been doing this for seven years or so. That is, touring every underground venue in the world, improvising with local musicians, communicating through music. The Damo Suzuki Network, as it is called, is growing larger every time. Last June, when the ex-Can singer played in Oporto and Lisbon, he joined musicians -- or "sound carriers", as he likes to put it -- like Nuno Rebelo, Marco Franco, Scott Nydegger (Mécanosphère), Massimo Pupilo (Zu) or people from Sooba, the experimental act from Oporto. He didn't know them before, as it happens most of the time, one fact that pushes the freedom frontiers in terms of improvisation and "instant composing", a term that Damo likes to underline in his unique concept for music. Did it work? Oh hell, it really did.

You ran away from your folk's house by the time you were 16.
It was quite necessary to get out from Japan. Japan lost the II World War and so they had many things to develop. I was very curious about other countries, as I was quite good with geography. If you'd live in Ireland or England or Japan, you would have this sentiment to see other countries. It's different from here. Well, ok, Portuguese people were quite a sentimental people, with Vasco da Gama, but it was different. And today you have information. You don't have to travel anywhere.

Then you went to Moscow.
Yes, but before I were in America and Asia. First time I came to Europe was 1968. Since then I've been living in Europe. It's quite important for me.

Did you ever get back to Japan and stayed for, like, more than a week?
I did, but not more than one month.

You feel more like Japanese or European?
I don't like to have any kind of responsibilities and if you are connected to one nation, you feel some kind of responsibilities, like elections and so on. But I don't have that kind of feeling because no country in the world is good enough for me [laughter]. Maybe I'm being quite arrogant [laughter]. I think is much better not to have any kind of nationality.

Still, have you found something you could call home, in Germany?
No, it's not home. I have three kids, so that's where I have to stay, as a responsibility of a father, but that's not too much important, because "home" is some kind of answer I'm still looking for and maybe I cannot find it. "Home" for me is not a geographical place. It has to do much more with spiritual things.

And then, Damo met Can. Could you describe what happened that day you met Holger Czukay and Jaki Liebezeit from Can?
It was 1970, April or May. I used to work in a musical play, in Munich. I was there only to get money to get back home.

That play was Broadway's "Hairs", right?
Yeah, I did it for three months. I was singing, and dancing and doing that sort of stuff. But it wasn't a pleasant job. I did it only for the money, because it was really very boring everyday. And one day -- I was used to make street music -- I was doing this happening and the members of Can were there, sitting at a café and watching me. They came up to tell me that they had no singer and that they had a concert that night and asked me if I could join them. I had nothing to do, so "ok, I can join you". It was fun, because, apart from doing music in the streets, I never thought on making music as my life.

What happened that night can somehow be related to what you do nowadays? I mean, you go to a venue, you don't know the people you're going to play with...
Today [this interview was set before the Lisbon's gig], I don't know two of them. Well, I met them at the sound-check... But it's ok, it's our communication.

How does it work? How do you set these lineups? Do you choose the people you're going to work with?
Most of the time, I don't choose them. Sometimes it's the venue that asks people to come and play. Others, like when I'm playing in small villages, where there aren't musicians who can improvise, I ask some people. I have a list of the "sound carriers" -- I call them "sound carriers" because it's better than the word "musicians". They don't have to follow theory or systems in music. We are free when we make sound at the moment.

Don't you fear not having that kind of communication happening one night?
No, it's being good every time, in a way. Just different. For instance, in Portugal I'm playing much more with experimental or free-jazz musicians, but if I play in England, I'll have much more rock music. So, it's different every time. And that's why I'm not tired. If you are doing the same kind of music everyday, with the same people, it's stressant... It's like getting a regular job. I don't like that. Our concerts are freedom. You can make much more creative things.

And how is it when you get to play this way with ex-Can members? Is it different?
It's not different, but it's like a football game. If you already played with someone, you know how he moves. So, it's much easier. But I don't like to take that easy work all the time. I like to do adventures in my life. It's really nice enter into adventure when you don't have a concept. Every moment you create is something. If you're playing composed old stuff, you cannot find this. And also the mistakes: here it is not a mistake, you can get another way to create; in composed music, a mistake is a mistake. Human being is not perfect. Everybody does mistakes. And it's important you accept other people that also make mistakes.

How do people react to your concerts?
Place to place it is very different. In some country, people are watching a little bit distant from us. In other, people are dancing all the way from the beginning. But I cannot say "this place is good" or "this place is bad". Actually, everywhere it's good.

When you left Can, you also took departure from music...
Eleven years. I didn't make any music in these eleven years. I was enjoying family and I really don't like pop culture. We were getting quite famous in Germany and also in England. That time, I met a German girl and we married. For me, family was, suddenly, much more important than music itself. I was quite fed up of music. Last Can recording I did was "Future Days" and it was for me the best LP. It was easy for me to get out of music because I thought I couldn't do better than that. So why should I continue?

In this Can book that was released two or three years ago, the late Michael Karoli says "It's beyond doubt that Damo became more professional the longer we worked with him. When he left us after 'Future Days' he was just at the point where he could have become an amazing fantastic singer."
[Laughter] I didn't know this. This is really good. He's isn't any more here and it's really nice to remember him.

And what made you turn again to music?
Oh, that was a really horrible story. I had a cancer. I was Jehovah's Witness that time and I made every operation without blood transfusions. In the first operation, chances to survive were 30% with blood from other people. I did it without. I survived but three days later it went wrong and then the doctor said he could only give 15% of possibility to live. "With or without blood transfusion, it doesn't matter; you don't have so many chances to live." It was a really hard situation, but I survived, without the blood transfusion. Since then -- anything like 18 years ago or so -- I've been feeling so good. I even had the feeling that I like to injury myself [ed: then I got why he ripped those filters off his cigarettes] and do the things that I really want to do, so that's why I came back to music. And besides that I like to help people telling them the way I survived this bad situation. If I can share my energy with the people, then it is really good. For me, music has always been communication. If we are in one room together with the audience, the audience doesn't know a thing, as well as the musician, as it is going to happen tonight. We are on the same stage. We are living the time together. So, it's quite important for me to be making music again. And I like to reach more than music, especially now, with all these materialisms. I'd like to change it a little bit. It's called the "Never Ending Tour". It's not only me. I'd like to continue this forever, but the day I go under the ground, perhaps there'll be new people that can take this on. Now, in the 21st century, we have so much information... For instance, when I was 13, I hadn't so much information like my kid. They have to change the next world in a better way. But we can make some kind of stone -- like when building a house -- and then generation after generation can change it. With music, I think is quite possible, but only if you do improvised music, because music is not communicated though industry. On another kind of music, the system is already there to get success, to become popular, to look good or any other thing.

Do you listen to music at home?
I do. Mostly, classical music. From today I listen only to my music. I record every concert, so there's enough material. I listen only to live recordings.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Na sex shop com...

(Aproveito o dia de hoje para recuperar uma entrevista que fiz a Ann Shenton há cinco anos atrás, para a Musicnet. Ann Shenton militava então nos add n to (x), dando hoje cara pelo projecto Large Numbers, que sobe ao palco da ZDB esta noite, num programa que ainda inclui o mui-aguardado-por-estes-lados espectáculo da ex-Raincoats Ana da Silva.)

NA SEX SHOP COM?
ADD N TO (X)
Outubro de 2000


Os britânicos add n to (x), ou seja, Ann Shenton, Barry 7 e Steve Claydon, estiveram recentemente em Lisboa para promover o seu terceiro e novíssimo trabalho, "Add Insult to Injury". Depois da estreia, há mais de dois anos, com "On the Wires of Our Nerves", e de "Avant Hard" (1999), já pela Mute, os add n to (x) continuam a sua cruzada em prol da pop electrónica praticada em exclusivo sobre instrumentos da era analógica, encontrados em sucatas e antiquários. "Add Insult to Injury" é mais uma inteligente e divertida descarga de energia sonora, algures entre a pop esquizofrénica dos Devo, o terrorismo sonoro dos Suicide e o heavy metal electrónico dos Trans Am, embrulhado pelo visual sado-ciber-pornográfico, que esteve aliás na base da escolha do sítio para a realização das entrevistas com a imprensa portuguesa: uma... sex shop. Foi aí que a Musicnet teve uma desinibida conversa com Ann Shenton, a dominatrix do grupo.

Alguma vez foi entrevistada numa sex shop?
Nunca. Esta é a minha primeira entrevista numa sex shop [N.R.: ainda que isso pouco interesse, também era a primeira vez do entrevistador. Primeira vez que fazia uma entrevista numa sex shop, entenda-se].
Qual é o seu item favorito aqui?
As cabines. Assim que cheguei percebi logo que tinha que ir ver alguns shows. Vi o das duas pessoas a fazerem sexo, o "double", vi a Nicki e - fui lá três vezes (risos) - vi a Doris.
É uma fã do porno?
O meu filme porno favorito é com uma dinamarquesa chamada Bodil, a "horse woman". Talvez não seja na verdade o meu filme favorito mas eu fui levada pelo seu estilo de vida. Ela adorava animais (risos) e na aldeia em que ela vivia, com um realizador dinamarquês de porno famoso (não me recordo do nome dele), toda a gente lhe chamava nomes, tendo ela acabado por se matar na companhia do seu cavalo. Ela tinha umas botas lindíssimas, enquanto era comida por um cavalo...
Se tivesse que escolher, "Deep Throat" ou "Behind the Green Door"?
Não conheço o "Behind the Green Door"... O meu namorado tinha um vídeo com vários "clips". Um numa quinta com uma mulher a fazer sexo com um cão e coisas assim que um amigo dele havia feito há montes de tempo. Esse era o melhor vídeo que eu alguma vez tinha visto. Mas a sua mãe, que era muito religiosa, encontrou-o. Quando ele chegou a casa não o encontrou na sua colecção de vídeos no seu quarto. Desceu e viu-o na sala de estar. A mãe dele havia gravado por cima um programa religioso qualquer...
Quem desenhou a "add n to (x) fucking machine" [visível no videoclip de "You Plug Me In", por exemplo]?
Foi feita por um tipo que trabalhou no filme "Alien". Agora tenho-a no meu apartamento em Londres Ocidental e as minhas companheiras de casa odeiam-no.
Já alguma vez brincou com ela?
Aquilo trabalha e tudo, mas o "dildo" é muito frouxo. É mais uma coisa visual e acho que não servirá para muito mais que isso. Eu fiz demonstrações na sala de estar e era aqui que ele estava, mesmo no meio da carpete, mas as raparigas de lá de casa chatearam-me para eu o tirar e agora está na cozinha, debaixo da mesa e com uma toalha por cima. Elas têm medo. Algumas pessoas acham-lhe graça, outras assustam-se.
Qual foi o pior comentário feito aos vídeos de "You Plug Me In" ou "Metal Fingers in my Body"? [N.R.: videoclips que geraram alguma polémica, devido aos seus conteúdos menos católicos.]
Não houve nada de particularmente mau. Até foi engraçado e simpático. Foi estranho [o vídeo de "Metal Fingers in my Body"] não ter sido autorizado para passar no Japão, porque o desenho da mulher tinha pelos púbicos e no Japão os pelos púbicos não são permitidos. Foi uma coisa que me deixou magoada. No Japão, os desenhos manga são tão violentos mas tudo bem, não têm pelos púbicos. O nosso vídeo foi censurado no Japão porque um desenho tinha pelos púbicos. Achei isso insultante e estúpido.
Qual é a sua ideia de sexo virtual? [N.R.: atenção, a entrevista foi feita ao vivo e nada se passou depois da mesma.]
Aqui há alguns anos, havia uma rapariga conhecida minha que estava a fazer pesquisa nessa área e estava à procura de voluntários para testar os aparelhos. Eu ia mesmo fazê-lo, mas depois não aconteceu. Queria mesmo tê-lo feito e ainda o quero.
É boa a matemática?
De maneira nenhuma.
Se Leon Theremin [N.R.: Lev Sergeivitch Termen, russo que inventou o theremin, o primeiro instrumento musical a ser tocado sem o contacto físico do intérprete] fosse vivo, o que lhe diria?
Diria-lhe: "pode-me construir um daqueles [theremins] grandes de madeira, como o do Jon Spencer?". Eu perguntei ao Jon se ele queria trocar o dele e ele mandou-me dar uma volta. Quero um dos grandes, dos originais. Eu tenho um bom, um etherwave assinado pelo Bob Moog, mas adoraria ter um dos originais.
E ao Bob Moog [N.R.: inventor do MOOG, outro dos instrumentos analógicos - um sintetizador, neste caso - mais utilizado pelos add n to (x)] , o que diria se o encontrasse?
Já tivemos - eu, o Barry e o Steve - esta conversa antes. Não achamos que o Bob Moog iria gostar de nós. Ele fez o MOOG para sintetizar outros instrumentos e nós usamo-lo como o raio de uma máquina com uma sonoridade louca.
Qual é a sua boysband favorita?
Iggy Pop and The Stooges.
David Holmes ou John Holmes?
Nenhum deles.
Aphex Twin ou Cocteau Twins?
Cocteau Twins. Creio que Liz Fraser é uma das mais incríveis mulheres assustadoras e estranhas. Liz Fraser, Marianne Faithful, Janis Joplin, Nico, ... eu sempre gostei destas mulheres. Estranhas, pouco comuns, ... Adoraria poder sair com Janis Joplin. Gostaria de ter uma noite de raparigas com a Mariane Faithful, a Liz Fraser, a Janis Joplin e a Anita Pallenberg.
E se fosse uma noite com rapazes?
Tom Verlaine, Iggy Pop e os Black Sabbath (todos eles). Isso seria uma óptima noite. Uma vez estive no Idaho, no centro da América, e saí com uns motoqueiros - os Irmãos Velocidade - e eles eram óptimos tipos para com quem se sair. Se o Iggy Pop lá estivesse teria sido ainda melhor.
Suicide ou Devo?
Eu adoro ambos. Eu vi os Suicide tocarem três noites seguidas no Garage, em Londres, e foi tão, tão barulhento que fiquei surda no fim... Nunca vi os Devo ao vivo, pelo que acho que devo escolher Devo, até porque me sinto mais intrigada por eles. Já conheci o Martin Rev e o Alan Vega e já os vi tocar uma série de vezes, mas nunca conheci ninguém dos Devo, nem nunca os vi a tocar ao vivo. E também porque eu pareço, toda a gente o diz, uma mongolóide, quando acordo de manhã (risos), e isso é uma das grandes canções deles [N.R.: "Mongoloid", do álbum de estreia "Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!"].
Brian Eno ou Brian Ferry?
Eu conheci o Brian Ferry num restaurante e consegui o seu autógrafo. Penso que deve ser um dos homens velhos mais atraentes na Terra, mas eu adoro o cabelo do Brian Eno e ele tem um óptimo equipamento analógico, também.
Qual é o significado de "Peanuts for Eno", título de uma das faixas do novo álbum?
(Risos) Nós temos estas frases entre nós... Não é necessariamente um insulto. Temos outra em que, em vez de dizermos Enio Morricone, dizemos Uncle Morricone. Apenas mudamos palavras fazendo nonsense a partir delas, a partir dos nomes das pessoas. Quando estamos aborrecidos em estúdio começamos a fazer palavras estúpidas.
Spice Girls ou Chicks on Speed?
Chiiiiiicks on Speeeeed!!!!!
Walter ou Wendy Carlos?
(Risos) Wendy? Vá lá, a Wendy tem que ser mais feliz que o Walter, ou então o Walter não se tinha tornado na Wendy, vá lá... E eu poderia sempre lhe pedir emprestado o seu bâton ou poderíamos fazer o penteado uma à outra. Adorava sair com a Wendy.
O que acha da Goldfrapp? [N.R.: Allison Goldfrapp participou no anterior "Avant Hard" e é colega de editora, isto é, na Mute]
Fui ver a Allison tocar num clube londrino na passada semana. Acho que ela consegue mesmo agarrar uma assistência. Ela tinha todos estes tipos estranhos a olhar para ela. Nós também temos tipos estranhos nos nossos concertos, e eu gosto de tipos estranhos, mas ela atrai homens que estão apaixonaaaaaaaados por ela e nós atraímos pessoal que está mais interessado no material analógico. Eu trabalhei durante algum tempo numa instituição psiquiátrica e consigo lidar com malucos, talvez a Allison não consiga. Posso lhe dar algumas lições.
Costumam acontecer coisas menos comuns na primeira fila dos vossos concertos?
Sim, e isso é óptimo. É esta coisa catártica, louca e sexual. Se alguém se quer despir, despe-se. Se alguém se quer masturbar, masturba-se. Já vi um pouco de tudo em concertos.
Quem é o "Regent" que aparece em todos os vossos discos?
Morreu, graças a Deus. É uma trilogia que chega ao fim. Tínhamos o "Black Regent", depois o "Revenge of the Black Regent" e agora está morto, cometeu suicídio (N.R.: "Add Insult to Injury" termina com a faixa "The Regent is Dead"]. Era uma coisa das trevas que nos assombrava, um terrível e estranho conde vestindo roupas negras que andava sempre com um olho nos add n to (x) e agora matámo-lo. E não vai ser como o Bobby Ewing. Ele não vai voltar.