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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

10 anos, 10 concertos

São 10 anos de muitos concertos, estes últimos. Entre perto de dois milhares de espetáculos, eis dez favoritos:

10. AMADOU & MARIAM @ Grande Auditório da Gulbenkian
18 de novembro de 2012
"Se podes ouvir, escuta. Se podes escutar, repara. A citação de Saramago ao "Livro dos Conselhos" não é bem esta, mas assim ajusta-se bem a "Eclipse", o espetáculo que o casal Amadou & Mariam trouxe ontem ao Grande Auditório da Gulbenkian. Um espetáculo que prometia uma experiência multissensorial única, vedado que estava o sentido da visão de se distrair (a sala foi mergulhada durante quase todo o concerto na completa escuridão), deixando livres a audição para a música e os sons ambientes da história subjacente, o olfato para os odores de África e a perceção da temperatura que foi oscilando ao longo do concerto. (...) sentimo-nos felizes por nos terem deixado experimentar o bom que é reparar no que escutamos."


9. SWANS @ Aula Magna
9 de abril de 2011
"Quantas bandas viram vocês que, regressadas ao ativo, gravam um disco tremendo como "My Father Will Guide Me Up a Rope to the Sky", dão concertos tão intensos como o de ontem, onde tocam versões demolidoras de temas antigos, com a segurança perfeita de um relógio suíço, e ainda... surpreendem com dois temas inéditos?"




8. CORDEL DO FOGO ENCANTADO @ Teatro Viriato
15 de junho de 2007
"(...) Se os Mão Morta não tivessem nascido em Braga, mas sim em Pernambuco, na pequena cidade de Arco Verde, talvez tivessem sido como o Cordel. E se Adolfo Lúxuria Canibal não crescesse a ler Lautréamont ou outros autores malditos e tivesse os poemas de cordel do interior brasileiro na mesinha de cabeceira, talvez tivesse sido Lirinha, figura epicêntrica deste abalo de terras que dá pelo nome de Cordel do Fogo Encantado. Foi melhor que em Sines? Foi sim, embora não consiga sequer explicar como é que isso ainda pôde ser possível."


7. DIRTY THREE @ Lux
2 de junho de 2007
"(...) é sobre o violino de Warren Ellis que acaba por recair, na maior parte das vezes, a atenção. Ele não fez um pacto com o diabo. Ele é mesmo o diabo. Não que seja o mais virtuoso dos violinistas. (...) Ellis é o 'fiddler' que anima uma tasca barulhenta algures no meio do deserto australiano, acompanhado de bouzukis num numa aldeia grega, musicando lendas de lobos algures na Europa de Leste. E ainda tem a lata de tirar feedbacks do instrumento. O concerto desta noite conseguiu ser, por diversos momentos, e não se tenha pejo em usar a palavra quando ela deve ser efectivamente usada, epifânico. Foi a celebração plena daquilo que a música consegue por vezes produzir ao vivo: um rapto violento da consciência do ouvinte (e tão bem que sabe fechar os olhos e facilitar essa captura) para uma terra de ninguém, onde se experimentam sensações que só algumas drogas poderão produzir."




6. CONGOTRONICS VS. ROCKERS @ FMM Sines (Castelo)
23 de julho de 2011
"Intenso, esgotante. Talvez o melhor concerto que alguma vez o FMM acolheu."




5. KONONO n.º 1 @ Museu de História Natural
4 de julho de 2009
"Totalmente poderosos. A 'orquestra folclórica toda poderosa Konono nº1 de Mingiedi' voltou a mostrar por cá por que é cada vez mais famosa, por que é que o Congo está de volta ao mapa da música reconhecida pelo Ocidente, depois do soukous e kwassa kwassa dos anos 80. (...) Dança-se -- mesmo o pé de chumbo mais empedernido -- como se não houvesse amanhã."




4. DAMO SUZUKI NETWORK @ ZDB
19 de julho de 2004
"(...) A 'comunicação' tinha acontecido e, ao fim da noite, entendia-se melhor o que Damo antes explicava acerca da sua forma de ver a música. Afinal, não se tratava de meros símbolos, de meras teorias de 'proggie'. Era mesmo a música a assumir o seu mais ancestral desígnio, amplamente disseminado pelas civilizações desde a idade da pedra. Magnífica comunhão de espaço e tempo."


3. TOM ZÉ @ FMM Sines (Castelo)
30 de julho de 2004
"(...) Por vezes rimos, por vezes chorámos, por vezes dançámos, por vezes saltámos e a toda a hora fomos levados por um moleque safado de 67 anos. Não há palavras suficientemente justas para Tom Zé, para as suas palavras, para as suas músicas, para a sua banda."


2. AKRON/FAMILY @ MusicBox
22 de abril de 2007
"(...) como não haveremos nós de reagir perante tipos simples e humildes que tocam bem e suam em palco (conseguido com que a plateia os acompanhe nessa missão), enquanto esticam os limites da imaginação melómana ao jogarem os Can e os Faust com a free folk marada norte-americana, as polifonias do gospel com as polifonias das guitarras?"


1. NEIL YOUNG @ Alive
12 de julho de 2008
"(...) Não é uma banda nova que promete vir a revolucionar a música e que provavelmente estará esquecida daqui a poucos anos. E também não é (só) uma lenda que está ali em palco. É, genuinamente, um músico vivo e transbordante de energia que, à frente da sua banda, mostra, quase como se fosse a primeira vez que o fizesse, uma pequena parte de um reportório tão rico que devia ser património mundial da UNESCO."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os 100 mais de uma década de concertos, #7

7. DAMO SUZUKI NETWORK @ ZDB
19 de Junho de 2004
Muito escrevi sobre esta noite, na altura: " 'Provavelmente, só deixarei isto quando for para debaixo da terra.' Era assim que o Damo Suzuki respondia neste sábado a uma de muitas questões que lhe fiz: 'por quanto tempo mais vais continuar com a never ending tour?' Aos 54 anos, Damo, o mítico vocalista dos Can era 70-74, é um poço imenso de vitalidade. Quem o escuta inunda-se de fascínio. Nas coisas mais simples, como a comemoração da vitória da República Checa, depois da sua Alemanha ter empatado, ou o mal menor do molho de manteiga no robalo ('vocês, com peixe tão bom e tão fresco, deviam comê-lo o mais natural possível') a teses mais profundas, como o cancro que ultrapassou, o que lhe trouxe 'uma nova vida' e um regresso à música, 11 anos de ausência depois, ou aquilo que o leva, desde os dezasseis anos, a girar constantemente à volta do mundo, ou ainda todo um conjunto de noções simbólicas e filosóficas que sustentam o conceito do 'instant composing'. O que é o 'instant composing'? Numa palavra, improvisação. Damo raramente conhece os músicos com quem toca nos locais por onde passa a digressão -- a 'never ending tour' -- do Damo Suzuki Network. No sábado, por exemplo, só conhecia o baixista italiano Massimo Pupillo, dos Zu, porque com ele havia tocado nos dias anteriores, em Vigo e no Porto. Do resto da formação do concerto na ZDB, os portugueses Marco Franco (bateria) e Nuno Rebelo (guitarra) eram os únicos que estavam mais à vontade entre si. E o quinto elemento, um americano de origem francesa que tocou flauta transversal e clarinete baixo, é a ilustração perfeita do conceito de 'instant composing': a cerca de meia-hora do início do concerto, Damo, eu, o Scott Nydegger e o Pilot Rouge, dos Mécanosphère, entrámos na sala vazia da ZDB, onde este indivíduo, com ar de professor, tocava flauta sozinho, para ele próprio; pouco depois, Damo dizia-nos: 'vou falar com o técnico de som, gostava que este tipo tocasse connosco.' O músico americano seria mais um 'sound carrier' -- é assim que Damo chama a si próprio e aos músicos que o acompanham nestas aventuras. Damo coloca muito ênfase, para explicar a forma como entende aquilo que faz, no termo 'comunicação'. Uma comunicação que ocorre entre um grupo de pessoas 'que partilham as mesmas parcelas de espaço e de tempo'. Comunicação entre os 'sound carriers', entre estes e o público, entre as pessoas que compõem a plateia da ZDB. E é isso o que acontece ao longo das mais de duas horas (?) de improvisação. É, obviamente, sobre Damo que recaem os olhares do público. Dali saem frases melódicas e hipnóticas como aquelas fizeram de álbuns como 'Tago Mago' ou 'Future Days' obras primas eternas. Dali sai uma entrega que abala, logo desde o início, com qualquer postura mais indiferente que o espectador possa imaginar. Entre os outros 'sound carriers', é Marco que se destaca, comandando a improvisação rítmica, fornecendo pistas ao resto do grupo, com a preciosa ajuda de Massimo, que contanstemente maltrata o seu instrumento, tal como mostrara em Zu, meses antes. Também o Nuno compreende de forma soberba os caminhos que a secção rítmica lhe abre e assume a autoridade suficiente para, frequentemente, lançar, ele próprio, deixas sublimes para todos os outros. O flautista americano compõe o cenário com altivez, principalmente na primeira do espectáculo, improvisando linhas livres que assentam e cristalizam sobre a torrente de lava sónica que do palco corre. Improv meets rock meets free jazz meets metal meets Damo. Perto do fim, o japonês mergulharia nos braços da assistência, enquanto os outros 'sound carriers' se entregavam ao último, porventura o mais agressivo, dos caos sonoros que naquela sala foram fabricados. A 'comunicação' tinha acontecido e, ao fim da noite, entendia-se melhor o que Damo antes explicava acerca da sua forma de ver a música. Afinal, não se tratava de meros símbolos, de meras teorias de 'proggie'. Era mesmo a música a assumir o seu mais ancestral desígnio, amplamente disseminado pelas civilizações desde a idade da pedra. Magnífica comunhão de espaço e tempo."

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Damo Suzuki com Loosers

Foram entretanto confirmados os Loosers para "sound carriers" de Damo Suzuki, a banda que acompanhará o japonês no concerto da ZDB, no próximo dia 1 de Novembro. Para o concerto da Casa da Música, no dia anterior, já se sabia que a missão estaria a cargo dos Mental Liberation Ensemble.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Damo Suzuki também no Porto

Vai também haver concerto da Damo Suzuki Network no Porto, no dia 31 de Outubro, na Casa da Música. O espectáculo está integrado em mais uma noite clubbing da Casa da Música, que contará também com a irlandesa Róisin Murphy. Os sound carriers de Suzuki, isto é, os músicos locais que o vão acompanhar no improviso são os Mental Liberation Ensemble, um colectivo composto por gente da Soopa (e colaboradores próximos), que organiza o evento em conjunto com a Matéria Prima: Gustavo Costa (F.R.I.C.S., Most People..., Lost Gorbachevs, Mécanosphère, etc.), na bateria, João Filipe (F.R.I.C.S., Eskizofrénicos, Sektor 304, etc), na bateria, Henrique Fernandes (F.R.I.C.S., Mécanosphère, Lost Gorbachevs, etc), no contrabaixo eléctrico, Jonathan Saldanha (F.R.I.C.S., Mécanosphère, Faca Monstro e diversos outros projectos da Soopa), no shenai (uma espécie de oboé originário da Índia) e nas electrónicas, e Filipe Silva (F.R.I.C.S.), na guitarra e no gerador de feedback.
E, já que se fala na Soopa, os outros eventos promovidos pelo colectivo portuense incluem:
- SECRET CHIEFS 3, conforme já foi anunciado, no Plano B, a 30 de Setembro;
- FANFARRA RECREATIVA E IMPROVISADA COLHER DE SOPA (F.R.I.C.S.), com José Cid como convidado, no Passos Manuel, a 16 de Outubro. Já agora, fica aqui o myspace da F.R.I.C.S.: myspace.com/fanfarraimprovisada

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Silver Mt. Zion, Damo Suzuki, No Age e outros na ZDB e não só


No Age

A programação da ZDB (e de outros locais do país que também vão receber estes concertos) para o Outono é de arregalar os olhos. Ora vejamos alguns dos nomes já confirmados, a acrescentar aos que já foram anunciados aqui t:

OUTUBRO
* Dia 2 - MI AND L'AU (Finlândia/França) - tocam ainda no Orfeão Velho de Leiria e na Sociedade Convívio de Guimarães, nos dias imediatamente seguintes.
* Dia 9 - CHICO ANTÓNIO (Moçambique)
* Dia 16 - TORA TORA BIG BAND (Portugal)
* Dia 17 - PAUL METZGER (EUA) - toca no dia anterior em Aveiro / TIAGO SOUSA (Portugal)
* Dia 18 - SPACE COLLECTIVE 5 (Rafael Toral, João Paulo Feliciano, César Burago, Ruben da Cosa e Rute Praça) / JORGE HARO
* Dia 23 - NO AGE (EUA) / LUCKY DRAGONS (EUA)
P Dia 25 - JONQUIL (Inglaterra) - tocam dois dias antes em Aveiro.
* Dia 30 - A SILVER MT. ZION (Quebeque) - tocam, como já se sabia, no Passos Manuel, Porto, a 1 de Novembro, existindo ainda a hipótese não confirmada de um concerto em Leiria.

NOVEMBRO
* Dia 1 - DAMO SUZUKI NETWORK (Japão) - O antigo vocalista dos Can anda há anos nesta digressão. Em cada terra que pára, junta-se a um grupo de músicos locais, com os quais se aventura na improvisação. Nas duas outras apresentações que fez em Lisboa (também esteve no Porto), no aquário da ZDB, teve por companhia um colectivo composto por Nuno Rebelo, Marco Franco, Massimo Zu e outros, da primeira vez, e dos Caveira, na segunda. Foram noites inesquecíveis (a tal ponto que me fizeram apontar um para segundo melhor concerto de 2004 e outro para terceiro melhor de 2006). Ainda não está confirmada a banda que o vai acompanhar desta vez. Para conhecer melhor o homem e o espírito desta aventura, sugiro a entrevista que lhe fiz há quatro anos.
* Dia 7 - JAMES BLACKSHAW (Inglaterra) - depois do cancelamento da data anterior, eis de volta o génio inglês do fingerpicking, que pisa de novo os palcos portugueses depois de ter feito as primeiras partes de Josephine Foster. Desta vez, toca também no Mercado Negro, em Aveiro (dia 6) e no Armazém do Chá, no Porto (dia 8).
* Dia 23 - LIGHTNING BOLT - Para alguns (dedo no ar), um dos concertos mais esperados dos últimos anos.
* Dia 28 - YACHT (EUA)

DEZEMBRO
* Dia 11 - HIGH PLACES (EUA) - a coqueluche mais recente da Thrill Jockey.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Classe de 2006 - os concertos

Os clientes do tasco foram convidados a deixarem as suas preferências de 2006. Este é o resultado da votação para os melhores concertos de 2006. Obrigado a todos.



1. lisa germano @ santiago alquimista
2. kode9 & spaceape @ musicbox
3. liars @ clube lua
4. comets on fire @ zdb
5. damo suzuki + caveira @ zdb
6. kanye west @ cool jazz fest
7. cordel do fogo encantado @ fmm sines
8. yo la tengo @ aula magna
9. heavy trash @ tagv
10. tom zé @ culturgest

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Os meus concertos de 2006 (#1 - #10)

1. 4 mai - tom zé @ culturgest
2. 28 jul - trilok gurtu & the misra brothers @ sines
3. 20 jan - damo suzuki network damo suzuki + caveira) @ zdb
4. 29 jul - cordel do fogo encantado @ sines
5. 2 dez - lisa germano @ santiago alquimista

6. 21 jan - estilhaços adolfo luxúria canibal + antónio rafael) @ zdb
7. 13 out - comets on fire @ zdb
8. 28 jun - think of one @ teatro variedades
9. 27 jul - gaiteiros de lisboa @ sines
10. 18 fev - pop dell'arte @ zdb

domingo, 22 de janeiro de 2006

Fim-de-semana de loucos

Sexta-feira: Damo Suzuki com CAVEIRA, na ZDB.
Palavras e expressões como "demolidor", "cataclismo sonoro", "catártico" ou "devastação total" foram apropriadas pela crítica musical para caracterizar momentos como este. Não começou da melhor forma, é certo, mas desde cedo se assistiu a um galopante crescendo de uma determinada tensão sónica, fruto das felizes interacções que foram sucedendo cada vez com maior frequência entre os três músicos de CAVEIRA e Damo Suzuki. Foi diferente, naturalmente, do concerto de há dois anos, naquele mesmo sítio. Mas a magia voltou a acontecer.

Sábado: Estilhaços, de Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael, na ZDB.
"Estilhaços", o espectáculo, é muito mais do que uma simples leitura de textos. O Adolfo, sentado, evita a declamação e entrega-se à performance dramática, a partir dos ambientes que já se liam nas entrelinhas dos seus textos. A escolha destes textos é variada, desde aqueles que foram escritos há quase trinta anos, como o frenético "Braga, Meu Amor", durante a sua vida de estudante em Lisboa, como o diário de viagens entre o bairro dos Prazeres e a Graça patente em "Orçamento Geral de Estado", ou outros, mais recentes, marcados por quotidianos parisienses, como no alegre "O Tempo que Passa" ou no pungentemente triste "A Filha Surda". O Rafael, por sua vez, ajuda a sublinhar as dinâmicas do texto, com um piano que soa a neoclássico, como Wim Mertens a fazer música para Greenaway. Ficou muito acima de qualquer expectativa levada para esta minha primeira experiência com o "Estilhaços" ao vivo.

Sábado: D3Ö e DJ set de Paulo Furtado, no Mercado.
O Mercado esgotou nesta noite. Com 350 pessoas a abafarem a cave quando cheguei e a entrada de novo público que ia chegando a ser feita a conta-gotas, porque só se entrava se alguém saísse, acabei por perder o concerto dos Vicious Five. Mas os D3Ö viriam também a arrasar e a provar a mim próprio porque é que continuo a vê-los como a minha banda favorita de Coimbra. O melhor, porém, ainda estava para vir. Paulo Furtado, o Legendary Tiger Man, fez *a* festa com grandes faixas de rock'n'roll, soul, funk e disco, que trouxe de casa. Que festa, senhores... (Parabéns à Kid City)

Pena que domingo acabe com uma má notícia. É o yin e yiang deste fim-de-semana, que começou brilhante, com CAVeira, e acaba num pesadelo real, com CAVaco.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Entrevista com Damo Suzuki

Quando Damo Suzuki veio a Lisboa há dois anos atrás, aproveitei a ocasião para o entrevistar. O que se segue foi publicado na edição de Novembro de 2004 da revista Número Magazine, assim como está, em inglês.
É favor não esquecer que Damo está de volta a Portugal neste fim-de-semana: sexta-feira, com os CAVEIRA, na ZDB, e, no sábado, com os Soopa, nos Maus Hábitos.

DAMO SUZUKI
Turning European, I think I'm turning European, I really think so

Image hosted by Photobucket.comDamo Suzuki, Japanese-Born, 54, pop industry phobic, has been doing this for seven years or so. That is, touring every underground venue in the world, improvising with local musicians, communicating through music. The Damo Suzuki Network, as it is called, is growing larger every time. Last June, when the ex-Can singer played in Oporto and Lisbon, he joined musicians -- or "sound carriers", as he likes to put it -- like Nuno Rebelo, Marco Franco, Scott Nydegger (Mécanosphère), Massimo Pupilo (Zu) or people from Sooba, the experimental act from Oporto. He didn't know them before, as it happens most of the time, one fact that pushes the freedom frontiers in terms of improvisation and "instant composing", a term that Damo likes to underline in his unique concept for music. Did it work? Oh hell, it really did.

You ran away from your folk's house by the time you were 16.
It was quite necessary to get out from Japan. Japan lost the II World War and so they had many things to develop. I was very curious about other countries, as I was quite good with geography. If you'd live in Ireland or England or Japan, you would have this sentiment to see other countries. It's different from here. Well, ok, Portuguese people were quite a sentimental people, with Vasco da Gama, but it was different. And today you have information. You don't have to travel anywhere.

Then you went to Moscow.
Yes, but before I were in America and Asia. First time I came to Europe was 1968. Since then I've been living in Europe. It's quite important for me.

Did you ever get back to Japan and stayed for, like, more than a week?
I did, but not more than one month.

You feel more like Japanese or European?
I don't like to have any kind of responsibilities and if you are connected to one nation, you feel some kind of responsibilities, like elections and so on. But I don't have that kind of feeling because no country in the world is good enough for me [laughter]. Maybe I'm being quite arrogant [laughter]. I think is much better not to have any kind of nationality.

Still, have you found something you could call home, in Germany?
No, it's not home. I have three kids, so that's where I have to stay, as a responsibility of a father, but that's not too much important, because "home" is some kind of answer I'm still looking for and maybe I cannot find it. "Home" for me is not a geographical place. It has to do much more with spiritual things.

And then, Damo met Can. Could you describe what happened that day you met Holger Czukay and Jaki Liebezeit from Can?
It was 1970, April or May. I used to work in a musical play, in Munich. I was there only to get money to get back home.

That play was Broadway's "Hairs", right?
Yeah, I did it for three months. I was singing, and dancing and doing that sort of stuff. But it wasn't a pleasant job. I did it only for the money, because it was really very boring everyday. And one day -- I was used to make street music -- I was doing this happening and the members of Can were there, sitting at a café and watching me. They came up to tell me that they had no singer and that they had a concert that night and asked me if I could join them. I had nothing to do, so "ok, I can join you". It was fun, because, apart from doing music in the streets, I never thought on making music as my life.

What happened that night can somehow be related to what you do nowadays? I mean, you go to a venue, you don't know the people you're going to play with...
Today [this interview was set before the Lisbon's gig], I don't know two of them. Well, I met them at the sound-check... But it's ok, it's our communication.

How does it work? How do you set these lineups? Do you choose the people you're going to work with?
Most of the time, I don't choose them. Sometimes it's the venue that asks people to come and play. Others, like when I'm playing in small villages, where there aren't musicians who can improvise, I ask some people. I have a list of the "sound carriers" -- I call them "sound carriers" because it's better than the word "musicians". They don't have to follow theory or systems in music. We are free when we make sound at the moment.

Don't you fear not having that kind of communication happening one night?
No, it's being good every time, in a way. Just different. For instance, in Portugal I'm playing much more with experimental or free-jazz musicians, but if I play in England, I'll have much more rock music. So, it's different every time. And that's why I'm not tired. If you are doing the same kind of music everyday, with the same people, it's stressant... It's like getting a regular job. I don't like that. Our concerts are freedom. You can make much more creative things.

And how is it when you get to play this way with ex-Can members? Is it different?
It's not different, but it's like a football game. If you already played with someone, you know how he moves. So, it's much easier. But I don't like to take that easy work all the time. I like to do adventures in my life. It's really nice enter into adventure when you don't have a concept. Every moment you create is something. If you're playing composed old stuff, you cannot find this. And also the mistakes: here it is not a mistake, you can get another way to create; in composed music, a mistake is a mistake. Human being is not perfect. Everybody does mistakes. And it's important you accept other people that also make mistakes.

How do people react to your concerts?
Place to place it is very different. In some country, people are watching a little bit distant from us. In other, people are dancing all the way from the beginning. But I cannot say "this place is good" or "this place is bad". Actually, everywhere it's good.

When you left Can, you also took departure from music...
Eleven years. I didn't make any music in these eleven years. I was enjoying family and I really don't like pop culture. We were getting quite famous in Germany and also in England. That time, I met a German girl and we married. For me, family was, suddenly, much more important than music itself. I was quite fed up of music. Last Can recording I did was "Future Days" and it was for me the best LP. It was easy for me to get out of music because I thought I couldn't do better than that. So why should I continue?

In this Can book that was released two or three years ago, the late Michael Karoli says "It's beyond doubt that Damo became more professional the longer we worked with him. When he left us after 'Future Days' he was just at the point where he could have become an amazing fantastic singer."
[Laughter] I didn't know this. This is really good. He's isn't any more here and it's really nice to remember him.

And what made you turn again to music?
Oh, that was a really horrible story. I had a cancer. I was Jehovah's Witness that time and I made every operation without blood transfusions. In the first operation, chances to survive were 30% with blood from other people. I did it without. I survived but three days later it went wrong and then the doctor said he could only give 15% of possibility to live. "With or without blood transfusion, it doesn't matter; you don't have so many chances to live." It was a really hard situation, but I survived, without the blood transfusion. Since then -- anything like 18 years ago or so -- I've been feeling so good. I even had the feeling that I like to injury myself [ed: then I got why he ripped those filters off his cigarettes] and do the things that I really want to do, so that's why I came back to music. And besides that I like to help people telling them the way I survived this bad situation. If I can share my energy with the people, then it is really good. For me, music has always been communication. If we are in one room together with the audience, the audience doesn't know a thing, as well as the musician, as it is going to happen tonight. We are on the same stage. We are living the time together. So, it's quite important for me to be making music again. And I like to reach more than music, especially now, with all these materialisms. I'd like to change it a little bit. It's called the "Never Ending Tour". It's not only me. I'd like to continue this forever, but the day I go under the ground, perhaps there'll be new people that can take this on. Now, in the 21st century, we have so much information... For instance, when I was 13, I hadn't so much information like my kid. They have to change the next world in a better way. But we can make some kind of stone -- like when building a house -- and then generation after generation can change it. With music, I think is quite possible, but only if you do improvised music, because music is not communicated though industry. On another kind of music, the system is already there to get success, to become popular, to look good or any other thing.

Do you listen to music at home?
I do. Mostly, classical music. From today I listen only to my music. I record every concert, so there's enough material. I listen only to live recordings.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Damo Suzuki também no Porto

Um dia depois de tocar com os CAVEIRA, em Lisboa (ZDB, sexta-feira), Damo Suzuki vai ao Porto, ao Maus Hábitos, para se reunir uma vez mais em palco com o colectivo Soopa.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Damo CAVEIRA Suzuki

A "neverending tour" do japonês Damo Suzuki vai voltar a passar por Portugal, e em concreto pela ZDB, já no dia 21 de Janeiro. Desta vez, os "sound carriers" -- assim chama Damo aos músicos locais que o acompanham nas suas improvisações por cada ponto do planeta em que toca -- vão ser os CAVEIRA. É uma ocasião imperdível.
(Também há data marcada para o Porto, no dia a seguir; os sound carriers serão outros, eventualmente.)

ACTUALIZAÇÃO: a data para os CAVEIRA e Damo Suzuki é 20 de Janeiro. Dia 21, é a vez do projecto Estilhaços, de Adolfo Luxúria Canibal.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Só faltava esta

A cada vez maior fartura de concertos dá nisto. Só faltava marcarem o regresso dos Skatalites para o mesmo dia de Damo Suzuki, 9 de Abril. Segundo o Blitz, os jamaicanos vão tocar na zona ribeirinha de Algés. Sinto-me furioso.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Loosers + Suzuki

Damo Suzuki, o mítico vocalista dos Can nos anos 70, vai regressar a Portugal com a sua "neverending tour", depois da noite incrível que proporcionou na ZDB, no ano passado (e que, segundo as crónicas, teve efeitos semelhantes nos Maus Hábitos, no Porto). Esta nova ocasião está prevista acontecer no próximo dia 9 de Abril, uma vez mais na ZDB. Os "sound carriers", como ele chama aos músicos locais que o acompanham nas diferentes datas desta "neverending tour" vão ser, desta feita, os Loosers. Ou seja, promete e muito.
ACTUALIZAÇÃO: Damo Suzuki vai também ao Porto, ao Passos Manuel, no dia anterior. Falta saber ainda quem vão os "sound carriers" nortenhos.

domingo, 2 de janeiro de 2005

O balanço do Juramento #6

OS MELHORES CONCERTOS (TOP TEN)

1. 30 jul - TOM ZÉ @ sines, castelo
2. 19 jun - DAMO SUZUKI NETWORK @ zdb
3. 5 fev - MOGWAI @ paradise garage
4. 11 jun - PIXIES @ superrock
5. 25 abr - JOHN ZORN'S ELECTRIC MASADA @ aula magna
6. 20 fev - ZU @ zdb
7. 29 jul - WARSAW VILLAGE BAND @ sines, castelo
8. 10 set - CURRENT 93 @ teatro ibérico
9. 27 mai - DAT POLITICS @ zdb
10. 31 jul - SEPTETO ROBERTO JUAN RODRIGUEZ @ sines, castelo

terça-feira, 2 de novembro de 2004

Um palco português (breves notas de optimismo)

Já aqui defendi a tese -- e não encontrei ainda razões para ter outra opinião -- de que a indústria do disco, conforme a conhecemos, vai acabar e que o futuro da música passará essencialmente pelos palcos. De facto, todos os dias nos chegam exemplos de editoras (a médio prazo chamar-lhes-emos "antigas editoras") que despendem mais tempo e mais recursos na carreira dos seus artistas, particularmente nas digressões dos mesmos. Ao mesmo tempo, assistimos ao curioso facto de ver cada vez mais gente nos concertos, num tempo em que cada vez menos discos são vendidos. Se um disco se copia e se partilha com a maior das facilidades, impossíveis serão, por outro lado, as probabilidades de se duplicar a míriade de sensações que se obtém de um concerto, por definição único. Não pretendo alongar-me sobre estas evidências, já anteriormente debatidas, mas proponho a reflexão do assunto, tendo como pano de fundo a evolução do mercado "live" em Portugal, nos últimos tempos.

Por mais que aumentem o número de concertos ou o número de festivais de Verão, o preço dos bilhetes ou a repetição de determinados artistas, ficamos sempre com a ideia, perante as lotações esgotadas que vão acontecendo, que, com um bom cartaz e/ou uma boa promoção, quase tudo é possível. Mas estaremos a falar de algo realmente significativo ou é apenas conversa para inglês ver? Não. Se nos detivermos um pouco para reflectir na agenda de concertos deste ano de 2004, podemos contemplar o imenso salto que foi dado. Senão, vejamos:

No circuito de contornos mais "underground", já cá tivemos este ano nomes como os de Zu, Sole, Mono, Numbers, Deadbeat, Dat Politics, Xiu Xiu (mais do que uma vez), Damo Suzuki, Califone, Calexico, Steve MacKay, Liars, Six Organs of Admittance (mais do que uma vez), Panda Bear, Rosie Thomas, Devendra Banhart, Alias, The Cheese, Kid606, Gang Gang Dance, Elysian Fields, etc. Tudo isto e muito mais em dois ou três espaços (ZDB, Maus Hábitos, Alquimista ou O Meu Mercedes é Maior que o Teu), é certo, mas com perspectivas de se verem acompanhados de outras alternativas em breve. A incidência natural ocorre sobre Lisboa e Porto, mas aqui e ali vão aparecendo exemplos de digressões por outras cidades, como é o caso de Leiria, da Guarda ou da Feira, onde se realizou o "Festival para Gente Sentada".

Num circuito a meio caminho entre o "undergroud" e o "mainstream", muitos rejubilarão com a vinda dos Mogwai, dos Lambchop, dos Fantômas, dos Pixies, do Rufus Wainwright, do Nick Cave e de mais umas duas boas mãos cheias de nomes que tenham enchido a Aula Magna, o CCB ou o Coliseu do Porto.

No mainstream, são também inúmeros os casos que atestam a apetência do público por ver música (e todo o espectáculo e toda a histeria social promovida pelas marcas comerciais, é certo) em palco. Dos festivais de Verão da Música no Coração (a única má notícia pode ser o fim do Festival de Vilar de Mouros) ao Rock in Rio, de Phil Collins a Madonna, de Caetano Veloso a Maria Rita, encontramos grandes produções, elevadas ao direito de notícias de abertura dos jornais televisivos da hora de jantar e responsáveis pela deslocação de numerosas multidões a espaços como o Pavilhão Atlântico, em Lisboa.

Tematicamente, tivemos (e vamos continuar a ter) propostas de qualidade às quais o público acorre em grandes números redondos. No domínio das músicas do mundo, por exemplo, há a referir o cada vez maior festival de Sines ou, mais recatado por natureza, o Sons em Trânsito de Aveiro (a realizar em breve), para além de uma cada vez maior diversidade de pequenos festivais locais, sem esquecer o caso de sucesso que foi (e promete voltar a ser no próximo mês) a canadiadana Lhasa (não esquecer também o regresso de Kimmo Pohjonen). Nas electrónicas, mantém-se, com algum fausto programativo (não tanto na música, mas nas actividades paralelas) o Número Festival, enquanto outras entidades, como a Matéria Prima, do Porto, ou a Journeys, de Lisboa, mantém programações regulares (se isto continua a acontecer numa época em que toda a gente redescobriu o rock, é caso para dizer que "é obra").

E na música portuguesa? Como estamos? Os Xutos encheram o Pavilhão Atlântico. Os Mão Morta repetem o sucesso da "Carícias Malícias Tour", com as actuais "Sessões de Outono", desdobrando-se em inúmeros espectáculos todos os fins-de-semana. Vários outros grupos, como os X-Wife, os Texabilly Rockers, os Sloppy Joe ou os Loto seguem-lhes as pisadas e fazem ocasionalmente os cartazes de pequenos bares espalhados pelo país. Em Lisboa, nota-se, ainda que muito ligeiramente, uma certa apetência crescente por concertos de novas bandas. E as salas pequenas, fundamentais para a vitalização deste circuito? Em Lisboa, a ZDB parece ter já consolidado a sua acção, com duas ou mais noites de música ao vivo, de referência, a acontecerem todas as semanas, factor essencial para a fixação e, consequentemente, educação de novos públicos. O Santiago Alquimista esforça-se por oferecer uma alternativa a outro nível e promete regressar em força após neste final de ano. Novos espaços, como o Atmosferas, vão aparecendo. No Porto, a oferta parece ser maior, com os mui activos Maus Hábitos, Mercedes ou Hard Club, aos quais se juntará brevemente o novíssimo Passos Manuel. Em Coimbra, o Le Son promete voltar a agitar as águas. Por todo o país parece assistir-se ao reaparecimento de alguns bares, a maior parte deles acabados em "...u's" (Kastru's, Santu's, Ministrus, etc.), com música ao vivo para as populações jovens locais. E, na maior parte das vezes, isto está a acontecer, lembrem-se, sem os viciosos apoios das câmaras...

A conclusão óbvia que se tira deste breve retrato é que houve um salto importante na cultura da "live music". Quanto tempo vai durar este "boom" é uma pergunta difícil, mas o que mais importa agora é saber aproveitar a onda e esquecer, de uma vez por todas, o velho e habitual miserabilismo nacional, já hoje, num palco perto de si.

segunda-feira, 21 de junho de 2004

A rede

"Provavelmente, só deixarei isto quando for para debaixo da terra." Era assim que o Damo Suzuki respondia neste sábado a uma de muitas questões que lhe fiz: "por quanto tempo mais vais continuar com a never ending tour?" Aos 54 anos, Damo, o mítico vocalista dos Can era 70-74, é um poço imenso de vitalidade. Quem o escuta inunda-se de fascínio. Nas coisas mais simples, como a comemoração da vitória da República Checa, depois da sua Alemanha ter empatado, ou o mal menor do molho de manteiga no robalo ("vocês, com peixe tão bom e tão fresco, deviam comê-lo o mais natural possível") a teses mais profundas, como o cancro que ultrapassou, o que lhe trouxe "uma nova vida" e um regresso à música, 11 anos de ausência depois, ou aquilo que o leva, desde os dezasseis anos, a girar constantemente à volta do mundo, ou ainda todo um conjunto de noções simbólicas e filosóficas que sustentam o conceito do "instant composing".

O que é o "instant composing"? Numa palavra, improvisação. Damo raramente conhece os músicos com quem toca nos locais por onde passa a digressão -- a "never ending tour" -- do Damo Suzuki Network. No sábado, por exemplo, só conhecia o baixista italiano Massimo Pupillo, dos Zu, porque com ele havia tocado nos dias anteriores, em Vigo e no Porto. Do resto da formação do concerto na ZDB, os portugueses Marco Franco (bateria) e Nuno Rebelo (guitarra) eram os únicos que estavam mais à vontade entre si. E o quinto elemento, um americano de origem francesa que tocou flauta transversal e clarinete baixo, é a ilustração perfeita do conceito de "instant composing": a cerca de meia-hora do início do concerto, Damo, eu, o Scott Nydegger e o Pilot Rouge, dos Mécanosphère, entrámos na sala vazia da ZDB, onde este indivíduo, com ar de professor, tocava flauta sozinho, para ele próprio; pouco depois, Damo dizia-nos: "vou falar com o técnico de som, gostava que este tipo tocasse connosco." O músico americano seria mais um "sound carrier" -- é assim que Damo chama a si próprio e aos músicos que o acompanham nestas aventuras.

Damo coloca muito ênfase, para explicar a forma como entende aquilo que faz, no termo "comunicação". Uma comunicação que ocorre entre um grupo de pessoas "que partilham as mesmas parcelas de espaço e de tempo". Comunicação entre os "sound carriers", entre estes e o público, entre as pessoas que compõem a plateia da ZDB. E é isso o que acontece ao longo das mais de duas horas (?) de improvisação. É, obviamente, sobre Damo que recaem os olhares do público. Dali saem frases melódicas e hipnóticas como aquelas fizeram de álbuns como "Tago Mago" ou "Future Days" obras primas eternas. Dali sai uma entrega que abala, logo desde o início, com qualquer postura mais indiferente que o espectador possa imaginar. Entre os outros "sound carriers", é Marco que se destaca, comandando a improvisação rítmica, fornecendo pistas ao resto do grupo, com a preciosa ajuda de Massimo, que contanstemente maltrata o seu instrumento, tal como mostrara em Zu, meses antes. Também o Nuno compreende de forma soberba os caminhos que a secção rítmica lhe abre e assume a autoridade suficiente para, frequentemente, lançar, ele próprio, deixas sublimes para todos os outros. O flautista americano compõe o cenário com altivez, principalmente na primeira do espectáculo, improvisando linhas livres que assentam e cristalizam sobre a torrente de lava sónica que do palco corre. Improv meets rock meets free jazz meets metal meets Damo.

Perto do fim, o japonês mergulharia nos braços da assistência, enquanto os outros "sound carriers" se entregavam ao último, porventura o mais agressivo, dos caos sonoros que naquela sala foram fabricados. A "comunicação" tinha acontecido e, ao fim da noite, entendia-se melhor o que Damo antes explicava acerca da sua forma de ver a música. Afinal, não se tratava de meros símbolos, de meras teorias de "proggie". Era mesmo a música a assumir o seu mais ancestral desígnio, amplamente disseminado pelas civilizações desde a idade da pedra. Magnífica comunhão de espaço e tempo.
(10/10)
(entrevista com Damo Suzuki para breve, algures)

sábado, 19 de junho de 2004

Hoje na ZDB



Damo Suzuki
Scott Nydegger
Massimo Pupilo
Nuno Rebelo
Marco Franco

terça-feira, 15 de junho de 2004

Damo Suzuki no Blitz

Excelente a entrevista do Gonçalo Palma ao Damo Suzuki, nas páginas da edição de hoje do Blitz. Faz o apanhado histórico da carreira do vocalista japonês e obtém dele as descrições essenciais para que percebamos conceptualmente o que é Damo Suzuki tanto hoje como no passado.
Não esquecer que o Damo Suzuki Network vai estar ao vivo, já no próximo fim-de-semana, no Maus Hábitos (sexta-feira) e na ZDB (sábado). Além de Damo, o palco preencher-se-á com Scott Nydegger (o americano também conhecido pelo seu projecto Sikhara, e pela colaboração íntima com os Mécanosphère), Massimo Pupilo (italiano, baixista dos Zu, que já passaram por Portugal este ano, numa série de concertos fantabulásticos) e, dispensando apresentações, os portugueses Nuno Rebelo e Marco Franco.