segunda-feira, 30 de abril de 2012

100 discos de 1973, n.º 6



RAW POWER
IGGY AND THE STOOGES (EUA)
Edição original: CBS
Produtor(es): Iggy Pop, David Bowie
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Entre todos estes discos, "Raw Power" é provavelmente o que conheço há mais tempo, de uma velhinha cassette que tanto terá rodado que ainda hoje recordo, quase nota por nota, o fuzz do James Williamson, quase berro por berro, a verborreia do Iggy Pop. Reza a história que, por esta altura, os Stooges já tinham acabado. A Elektra já não queria saber deles. O álbum homónimo de estreia (1969) e "Fun House" (1970) tinham vendido pouco. É neste contexto que Iggy Pop conhece David Bowie. Muda para a mesma empresa de management do inglês e viaja para Londres com Williamson para gravar um disco a solo. Não encontra músicos ingleses que o satisfaçam e chama os irmãos Ron e Scott Asheton. Os Stooges voltavam assim a gravar, mas agora o grupo chamar-se-ia, de forma honesta, Iggy & Stooges. Bowie produziu num só dia sete das oito faixas, a partir de... três pistas que Iggy Pop lhe passou, banda na primeira, guitarra solo na segunda e a voz na terceira. O resultado, ainda que com a limitada cirurgia plástica que Bowie conseguiu fazer, não deixa de ser uma amálgama sonora de fuzz e berraria puxados aos limites, que, para a altura, mesmo para o contexto de Detroit de onde vinham os Stooges, metia medo. Parecia que queriam destruir tudo o que lhes aparecesse pela frente. Parecia tudo aquilo que anos mais tarde se encontraria na explosão do punk em Inglaterra. Mas, muitos anos depois, Iggy Pop, talvez para destruir ainda mais, voltaria a colocar "Raw Power" na história por outros motivos. À produção de Bowie sucedeu-se, em 1995, uma versão pirata, com a primeira mistura de Pop. Mas em 1997, numa reedição em CD da Columbia, Pop pegaria em tudo de novo para produzir aquele que é, mesmo para os dias de hoje, um dos discos com volume permanentemente mais alto de sempre, um trabalho que desagradou meio mundo, incluindo os próprios James Williamson e Ron Asheton. E, convenhamos, é uma merda.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

L'Enfance Rouge de volta a Sines (e mais)

Já sabem que muito por aqui se fala dos L'Enfance Rouge. É tão só porque são bons, bons, bons como tudo, mesmo que meio mundo ande... distraído. Nem mesmo com o apadrinhamento do Thurston Moore, que um dia terá dito serem a melhor banda da Europa, ou do Mike Patton, para quem são um dos melhores grupos ao vivo. Mas adiante. A motivo para mais uma alusão aos L'Enfance Rouge prende-se com a confirmação pela organização do FMM Sines da vinda do grupo à próxima edição do festival. Três anos depois de terem deixado sangue, suor e lágrimas no palco da praia, François Cambuzat (voz e guitarra), Chiara Locardi (voz e baixo) e Jacopo Andreini (bateria) voltam a Sines, desta vez com direito ao palco do castelo e na companhia do tunisino Lofti Bouchnak, com o qual o grupo tem vindo a trabalhar para o próximo álbum, "At-tufuula al-hamra" e do qual já se tem aqui falado. O espetáculo está marcado para o dia 20 de julho.

Nas novidades hoje dadas pela organização do FMM, há ainda dois outros nomes, estes a estrearem-se em Portugal. Dos Estados Unidos da América, vem o bluesman Otis Taylor. Também do continente americano, mas mais acima, vem o canadiano Socalled, que cruza hip hop com tradições klezer dos seus antepassados judeus. A Ottis Taylor Band sobe ao castelo no dia 19 e Socalled toca no dia 28.

L'Enfance Rouge, Otis Taylor Band e Socalled juntam-se assim a um cartaz já composto por estes nomes (e muitos mais estão ainda por anunciar):

19 JUL: NARASIRATO (ILHAS SALOMÃO)
19 JUL: OTIS TAYLOR BAND (EUA)
20 JUL: BOMBINO (NÍGER – CULTURA TUAREGUE)
20 JUL: L'ENFANCE ROUGE & LOFTI BOUCHNAK ENSEMBLE (FRANÇA/ITÁLIA/TUNÍSIA)
21 JUL: MARC RIBOT Y LOS CUBANOS POSTIZOS (EUA)
21 JUL: OUMOU SANGARÉ & BÉLA FLECK (MALI / EUA)
26 JUL: ASTILLERO (ARGENTINA)
26 JUL: GURRUMUL (AUSTRÁLIA – CULTURA ABORÍGENE)
26 JUL: FATOUMATA DIAWARA (MALI)
27 JUL: DHAFER YOUSSEF QUARTET (TUNÍSIA)
27 JUL: MARI BOINE (NORUEGA – POVO SAMI)
27 JUL: JUJU (GÂMBIA / REINO UNIDO)
28 JUL: SOCALLED (CANADÁ)
28 JUL: HUGH MASEKELA (ÁFRICA DO SUL)
28 JUL: JUPITER & OKWESS INTERNATIONAL (R. D. CONGO)

100 discos de 1973, n.º 7



FLYING TEAPOT
GONG (França/Inglaterra)
Edição original: Virgin
Produtor(es): Giorgio Gomelsky
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Se isto fosse a lista dos discos mais chanfrados de 1973, este estava batido no topo. A chanfradice não vem só do tema cósmico que atravessa todo o disco, apesar de ser uma história que merece a pena ser contada. Inspirada numa alegada visão do vocalista australiano Daevid Allen durante uma lua cheia na páscoa de 66, a história de "Flying Teapot" fala de um egiptologista suinicultor, Mista T Being, a quem um vendedor de rua de bules antigos e colecionador de rótulos de chá, Fred the Fish, vende um brinco mágico, o qual é capaz de captar mensagens do planeta Gong através de uma estação pirata de rádio chamada Radio Gnome Invisible. Os dois viajam para o Tibete onde se encontram com o abominável homem da cerveja, Banana Ananda, que passa o tempo a cantar "Banana Nirvana Mañana" e se embebeda com Foster's... Só por isto, já merece a pena ir até ao fim do mundo à procura deste disco. Esta história está então na base da trilogia aqui iniciada e prosseguida em "Angel's Egg" -- 64º nesta lista -- e em "You" (1974). Mas, dizia atrás, a chanfrandice não vem só da história. Musicalmente, "Flying Teapot" é um disco de loucos. Só tipos completamente fora do registo de lucidez que a sociedade entenda como normal seriam capazes de chegar a composições e a arranjos desta natureza, um autêntico frenesi de géneros (jazz, rock, prog e muito mais), de instrumentos, de ritmos, de tempos. É o melhor, a par com "Camembert Electrique" (1971), da fase Daevid Allen dos Gong. Pode não chegar para dar alucinações como a que Allen teve naquela tal páscoa, mas poucas vezes a música consegue chegar tão perto de ser assim tão alucinante.

Amanhã há...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Mor Karbasi vai voltar, desta vez a Turres Veteras, perdão, Torres Vedras

Anunciam as Crónicas da Terra que a israelita Mor Karbasi vai regressar a Portugal, pouco menos de três anos após aquela atuação arrepiante no FMM Sines. Desta vez, Karbasi vem ao "TURRES VETERAS - Encontro Internacional de História", que terá lugar na cidade de Torres Vedras entre 17 e 19 de maio. O concerto da cantora sefardita está agendado para a cerimónia de organização, no primeiro dia, às 21h30, no Teatro-Cine.

Vem aí o RSD, ou seja, o DLD

"Folks who work here are professors. Don't replace all the knowers with guessors. Keep'em open. They're the ears of the town"
(Tom Waits)

É já neste sábado que se celebra mais um Record Store Day, ou se quisermos, o Dia das Lojas de Discos. Desde 2008 que o terceiro sábado de abril é celebrado de uma forma especial por lojas, compradores e, claro, por músicos e pelas suas editoras, um pouco por todo o mundo. Há um número exaustivo de edições especiais lançadas neste dia e as lojas, em vias de extinção, apresentam programas especiais, que passam por concertos, festas, ou, simplesmente, por aplicação de descontos nas vendas desse sábado.

Em Portugal, há várias lojas a celebrarem o RSD. A Flur, em Lisboa, vai ter uma tarde especial com concertos de Tó Trips e de malta da Cafetra. Também na capital, a Trem Azul celebra o dia com o último dia do festival Rescaldo, com concertos de Cangarra e do quarteto Guilherme Canhão / Pedro Sousa / Rui Nogueiro / Gabriel Ferrandini, e ainda oferece 15% de desconto em todos os artigos. No Porto, a CDGo junta-se uma vez mais à festa, prometendo concertos de We Trust, Blac Koyote, Memória de Peixe, Evols, Keso e Ghuna X, e ainda descontos de 20% em discos, DVDs e merchandising, e 10% nos livros. A Quebra Orelha, nova loja em Coimbra, vai ter concertos com os espanhóis Emma Get Wild e os portugueses Birds Are Indie (portugal), oferecendo descontos de 10% nos discos, estando prevista uma edição especial do 10 polegadas de "Amateur", dos Wraygunn. A Louie Louie, que tem lojas em Lisboa e Braga, vai oferecer descontos, com especial destaque nos discos de música portugesa. Outras lojas ainda, como a Matéria Prima (Lisboa e Porto), Wah Wah (Aveiro), prometem um dia diferente.

100 discos de 1973, n.º 8



MARGEM DE CERTA MANEIRA
JOSÉ MÁRIO BRANCO (Portugal)
Edição original: Guilda da Música
Produtor(es): José Mário Branco
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«Não foi por vontade nem por gosto que deixei a minha terra»
(in "Por Terras de França")

Segundo álbum do exilado José Mário Branco e, em certa medida, continuação do primeiro, "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1970). Em jeito de parêntesis, tenho aqui um pequeno, minúsculo problema entre mãos. É que "Margem de Certa Maneira" não saiu, tecnicamente, em 73. Foi gravado em novembro de 72, em França, e foi lançado poucos dias antes do Natal. Pormenores. Fim de parêntesis e avante com o que interessa. Algumas destas canções vinham de um projeto anterior de José Mário Branco com o escritor e jornalista Álvaro Guerra, "Crónicas". A censura, que andava mais atenta desde 71, rejeitou dois terços do trabalho, que foi assim posto de lado e aqui recuperado em parte. Nos arranjos (não será José Mário Branco o melhor arranjador que este país alguma vez conheceu?), nos instrumentos (o estranho cromorno em "Engrenagem" ou no tema-título remete os ouvidos atuais para outros iconoclastas geniais, os Gaiteiros de Lisboa), na reconstrução de uma certa musicalidade portuguesa, se assim lhe podemos chamar, ainda para mais num disco que, curiosamente, é gravado essencialmente por músicos franceses, "Margem de Certa Maneira" é tanto ou mais revolucionário que o seu antecessor, é tão ou mais digno de figurar para sempre na galeria das melhores obras de autores portugueses. Como em Zeca Afonso, com quem José Mário Branco tantas vezes trabalhou, a música popular portuguesa dava um passo gigantesco em frente. E nos temas abordados, "Margem de Certa Maneira" parece tão atual como então. Ou ainda mais.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Recordando o Ritz

Na sequência ainda da notícia dada há pouco, a respeito da reabertura para breve do Ritz Club, lembrei-me de alguns episódios passados naquela sala, durante os anos 90:

Passagem de ano com os Irmãos Catita, já lá vão uns 20 anos. Absolutamente gloriosa, com tudo o que se quer de uma passagem de ano.

Gaiteiros de Lisboa, em 98 ou 99. Havia pouca gente, tão pouca que o Carlos Guerreiro lembrava ao público que era aquela vida que se arriscavam a ter se se metessem na música. Entre os inúmeros concertos dos Gaiteiros a que assisti, este foi provavelmente o mais íntimo, o mais cómico e, claro, um dos mais interessantes.

Tédio Boys, em 98 ou 99. Aquilo que diziam dos concertos dos Tédio Boys era verdade. A puta da loucura.

Will Oldham, em 97. Ainda não tinha adotado o nome Bonnie 'Prince' Billy e era ainda conhecido como o vocalista desafinado dos Palace Music ou Palace Brothers. Mas o Ritz estava cheio (pode ter ajudado o facto de a entrada ser gratuita...)

Pop Dell'Arte, em 14 de novembro de 1999. Fui com o Adolfo Luxúria Canibal, a quem o João Peste, ao vê-lo na assistência, desafiou para subir ao palco para cantar o "Juramento Sem Bandeira", tantos anos depois da última vez que o fizeram. Não me lembro se o Adolfo subiu, mas se o fez, foi contrariado (acho que subiu). Salvo erro, era também um dos primeiros concertos dos então novos elementos do grupo.

Final do concurso/festival 365, organizado pelo Alvim e ganho pelos Slamo. Fiz parte do júri e, caramba, Alvim, aquilo durou até quase de manhã...

Chokebore, em abril de 1998. O concerto dos americanos serivu à minha primeira reportagem para a Musicnet e o entusiasmo era tanto que foi também a primeira entrevista, ali feita à pressão, no papel e com perguntas da treta.

Na memória, mas num recanto mais difícil de recuperar, ainda pairam outras atuações: Sérgio Godinho, Hipnótica, Rollana Beat, etc.

O Ritz Club vai reabrir!



É das melhores notícias que aqui se podiam dar. O nº 57 da rua da Glória vai reabrir portas no próximo mês de maio! 12 anos depois de ter fechado para obras que pareciam nunca mais ter andamento, com processos no tribunal para aqui e para acolá, e várias tentativas goradas de regressar à atividade, desta é de vez. Uma das salas mais históricas de Lisboa, que a viu abrir pela primeira vez em 1908, vai poder acolher de novo concertos e outras "experiências artísticas", nas palavras da nova gerência.
(Página no facebook)

Vai haver um 4º volume de "À Sombra de Deus"

Já vai longe no tempo, mais de vinte anos, a edição de "À Sombra de Deus", coletânea lançada com o selo da Câmara Municipal de Braga com o intuito de expor ao país a efervescência que se fazia sentir por aquelas bandas, com bandas como os Mão Morta, os Rongwrong e os Bateau Lavoir, entre outras. Com o passar dos anos, outras duas edições vieram a ser dadas à estampa, mostrando novos projetos que entretanto vieram a aparecer (e a desaparecer). Está para breve a saída de um novo volume, o quarto, com 23 bandas ligadas à cidade de Braga, como Long Way to Alaska, Mundo Cão, Peixe:Avião, Smix Smox Smux e, claro, os Mão Morta, que aqui trazem um inédito, "A Ver o Mar". O quarto volume tem edição da Capital Europeia da Juventude - Braga 2012. Fica aqui a história da coletânea nas palavras do Adolfo Luxúria Canibal:
À SOMBRA DE DEUS – Uma Retrospectiva

Quando em 1987/88 eu e o Berto Borges, então baterista dos Rongwrong, concebemos o projecto À Sombra de Deus, estávamos longe de imaginar a importância histórica e documental que o mesmo iria adquirir. Tínhamos a percepção nítida que estava a chegar ao fim um ciclo de grande pujança criativa da juventude da cidade e o nosso intuito era não deixar que o seu legado, no que à música diz respeito, fosse varrido pelo tempo. A maioria dos protagonistas dessa agitação juvenil da primeira metade da década de 1980 – grupos como Auaufeiomau, Ruge-Ruge, Comédia Selvagem, PVT Industrial, Os Eléctricos Chamados Desejo… – tinham cessado a actividade ou – no caso dos Bateau Lavoir – evoluído para algo diferente, sem deixarem qualquer documento que atestasse o que tinham sido esses anos. E quando em 1986 os seus herdeiros mais directos – Rongwrong, Mão Morta e Bateau Lavoir – fazem parangonas nas páginas dos jornais nacionais por via da participação no III Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous, em Lisboa (que ganhariam em toda a linha, com a vitória dos Rongwrong e a atribuição do Prémio de Originalidade aos Mão Morta), isso acaba por funcionar como caução do que já sabíamos: era não só social e culturalmente galvanizante como artisticamente relevante o que se passava em Braga. Mas se em 1988 tanto os Rongwrong como os Mão Morta já tinham a sua música gravada e editada, havia uma considerável quantidade de pérolas musicais do passado recente que só existiam na memória de quem tinha estado presente – eram essas pérolas que nós queríamos recuperar! Mas depressa nos demos conta que isso era como querer ressuscitar um cadáver: ninguém estava interessado em revisitar o passado, as circunstâncias que tinham ditado o fim das bandas pesavam mais do que quaisquer outras considerações e toda a gente preferia concentrar-se nos seus novos grupos e projectos. É assim que o nosso objectivo inicial acaba a ser desviado, obrigando-nos a olhar o presente e a fazer focagem na actualidade musical da cidade, que acabaria por dar subtítulo ao disco: Braga 88. E em 1988 essa cena musical juvenil era de transição: para além do triunvirato que dois anos antes colocara Braga no mapa musical português estavam ainda activos três outros grupos saídos das cinzas das movimentações juvenis da primeira metade da década (Rua do Gin, Baile de Baden-Baden e Espírito Ressacado) e surgiam já grupos de uma geração nova, que tinha por referência os ecos dos seus conterrâneos mais velhos (Orfeu Rebelde, Pai Melga, Os Gnomos). A colectânea integraria todos esses grupos – a excepção seriam os Espírito Ressacado que, quando da gravação do disco, tinham ido tentar a sua sorte para Berlim, por onde se mantiveram quase um ano –, fazendo um retrato fiel do que era a Braga musical em 1988. E foi com esta ideia já bem assente que Berto Borges foi apresentar o projecto aos responsáveis municipais, que o receberam de braços abertos e o assumiram como de interesse municipal. Foi assim já com o patrocínio da Câmara Municipal de Braga que em Dezembro de 1988 a colectânea À Sombra de Deus começou a tomar forma, com as diversas bandas participantes a deslocarem-se aos estúdios Tcha-tcha-tcha, em Miraflores, para registarem as suas intervenções, face à inexistência de estúdios de gravação em Braga. E a 19 de Abril de 1989 era então editado “À Sombra de Deus – Braga 88”, o primeiro disco publicado por uma Câmara Municipal a fazer o retrato musical juvenil de uma cidade, que para a história da música portuguesa revelaria ainda os Rua do Gin e o tema “Rebeca”.

Uns anos depois, já com Berto Borges afastado dos meandros musicais e concentrado na sua carreira de professor universitário e eu com a minha vida quase totalmente centralizada em Lisboa, onde se desenrolava a minha actividade jurídica, é Miguel Pedro, baterista dos Mão Morta, que, juntamente com Henrique Moura, retoma a ideia da colectânea. O panorama musical bracarense tinha-se alterado significativamente, num refluxo de visibilidade e de dinamismo colectivo, com a geração dos anos 80 reduzida aos Mão Morta, que prosseguiam o seu percurso cada vez mais destacado, aos Rua do Gin, intermitentes e à deriva, sem soluções de estabilidade, a projectos paralelos, como os Um Zero Amarelo, formado por Carlos Fortes e António Rafael, membros dos Mão Morta, ou a diversões de estúdio, como os Humpty Dumpty, do próprio Miguel Pedro e de Manuel Leite, antigo mentor e baixista dos Rongwrong, ou os Electrodomésticos, um devaneio de alguns sobreviventes dos Bateau Lavoir; quanto ao mais, havia ecos esporádicos de outras existências musicais pela cidade, sem conexão entre si, numa dispersão que acentuava ainda mais a sensação de vazio colectivo e de falta de uma cultura juvenil partilhada como a que movimentara a cidade na década anterior. Fazendo um levantamento dessas existências dispersas, Miguel Pedro encontrou um punhado de bandas – Blind Panic, Dusk, Industrial Metal Machine, Tass, Wodka Technicolor (esta integrando um sobrevivente dos Orfeu Rebelde) –, com algum dinamismo criativo e actividade efectiva, provenientes de uma nova geração com referências e motivações muito diversas e diferentes das dos seus conterrâneos mais velhos, e considerou que, juntamente com as bandas e projectos da geração anterior, tinha matéria suficiente para avançar para um segundo volume do À Sombra de Deus. Obtido o necessário apoio da Câmara Municipal, que mais uma vez se mostrou receptiva à ideia, e também da BMG – então editora dos Mão Morta –, o disco “À Sombra de Deus – Volume 2” começa a ser gravado em Novembro de 1993 no estúdio EPVA, de Manuel Leite, que com as facilidades ocasionadas pela tecnologia digital montara o primeiro micro-estúdio de gravação da cidade. Seria depois editado pela BMG em Setembro de 1994, numa cerimónia de lançamento que contou com um concerto de todas as bandas participantes e dos convidados britânicos Inspiral Carpets.

Em 2004 caberia mais uma vez a Miguel Pedro o ressuscitar da ideia da colectânea. Tinham-se passado dez anos e, depois de um refluxo que se pressentia já na edição anterior, Braga parecia ter de novo uma situação musical dinâmica, com alguns nomes a ganharem relevo nacional, como os Big Fat Mamma, que haviam assinado por uma multinacional, ou os Demon Dagger, um valor emergente na enérgica e marginal cultura do rock extremo. Fazendo um levantamento das existências, que continuavam dispersas, Miguel Pedro inventariou, para além dos Mão Morta, ainda uns restos de actividade da geração dos anos 80, corporizada nos Os Seis Graus de Separação, novo grupo de Paulo Trindade depois de encerrado o capítulo Rua do Gin, e nos Wave Simulator, nova encarnação musical de Jorge Roque cujas raízes longínquas remontavam aos Espírito Ressacado. Já da geração que havia despontado nos anos 90, mais concretamente do borralho dos Wodka Technicolor, vinham os VortexSoundTech e a banda de apoio a Sandy Kilpatrick, The Neon Road, um escocês então radicado em Braga, numa primeira nota de cosmopolitismo a querer romper no meio musical bracarense. As outras notas eram os Mécanosphère, que eu integrava juntamente com o francês Benjamin Brejon e o americano Scott Nydegger – que protagonizariam, inclusive, algumas colaborações com Sandy Kilpatrick –, e a vocalista brasileira dos Big Fat Mamma, Alex Liberalli. Ainda com ligações à geração dos anos 80, embora de outra ordem, surgia também André Leite, então um jovem e promissor songwriter, filho de Manuel Leite e de Teota, dos Rongwrong. As restantes existências musicais que Miguel Pedro recenseou com actividade significativa na cidade – bandas como Freequency, Jack In The Box, Phi, Spank The Monkey, Zero e as já referidas Big Fat Mamma e Demon Dagger – eram fruto de uma geração mais recente, que assomara para a música no final da década ou mesmo já no decorrer do novo milénio. Encontrados os protagonistas e recebido novamente o apoio da Câmara Municipal de Braga, o “À Sombra de Deus – Volume 3” começa a ser gravado em Maio de 2004 no estúdio que os Mão Morta, através da sua editora Cobra, haviam instalado com o técnico Nelson Carvalho na Casa do Rolão, então a sua histórica sala de ensaios. Seria depois editado a 26 de Julho do mesmo ano, com o selo do Município. Este terceiro volume, e a continuidade – por ele representada – do retrato panorâmico do som bracarense num momento concreto, transformaria definitivamente o projecto À Sombra de Deus num registo da actividade musical juvenil na cidade ao longo dos tempos, a primeira e única monitorização com estas características a existir em Portugal.

Conscientes desse facto, e do valor histórico, patrimonial e musicológico que isso implica, eu e o Miguel Pedro há muito que sentíamos chegado o momento para um novo volume do À Sombra de Deus. Com efeito, depois da conversão do espaço vazio sob a bancada Nascente do Estádio 1.º de Maio em modernas salas de ensaio e da sua disponibilização pela autarquia às bandas da cidade em 2006, o meio musical bracarense não era mais o mesmo. Ganhara uma nova dinâmica colectiva e, mais do que isso, um protagonismo de âmbito nacional que ultrapassava mesmo o alcançado pela mítica geração dos anos 80. Hoje, a par dos Mão Morta, nomes como Peixe:Avião, Long Way To Alaska, Mundo Cão, Smix Smox Smux ou At Freddy’s House são referências incontornáveis do panorama musical português. E com eles muitas outras bandas e projectos coexistem, em combinações diversas e percursos díspares, mas igualmente passíveis do mesmo destaque. E isso devia ficar registado. Tanto mais que a riqueza criativa do presente, ainda que potenciada pela partilha de áreas de ensaio e de convívio, era muito fruto da história musical da cidade, essa mesma história que vinha sendo contada pelos vários volumes do À Sombra de Deus. Assim, se da primitiva geração dos anos 80 só restavam musicalmente activos os Mão Morta, era dos seus membros que partiam muitas das ramificações e movimentações de intercâmbio que caracterizam de novo a cena musical bracarense – seja com elementos de outras bandas e de outras gerações seja chamando à cidade músicos e artistas de outras latitudes –, dando origem a colectivos e projectos como Mundo Cão, Estilhaços, O Governo ou Palmer Eldritch. Também da geração dos anos 90 só Marco Pereira, revelado nos Wodka Technicolor, se mantinha musicalmente activo – depois da sua passagem nos anos 00 pelos The Neon Road, VortexSoundTech e Wave Simulator –, mas dava logo corpo a Tatsumaki e aos Nyx. Finalmente, da geração revelada ao terceiro volume do À Sombra de Deus havia ainda um grande rasto de actividade: das cinzas dos Big Fat Mamma vinham os Monstro Mau e os Balão de Ferro, com Gonçalo Budda a integrar também os Mundo Cão; do lume dos Freequency vinham bandas e projectos como os Smix Smox Smux, os Peixe:Avião, The Astroboy e Palmer Eldritch; do ocaso dos Spank The Monkey vinha o At Freddy’s House. Tudo isto, com epicentro nas salas de ensaio do Estádio 1.º de Maio, já daria para preencher um novo disco do À Sombra de Deus, embora lhe ficasse a faltar um novo capítulo da gesta da música bracarense – o capítulo aberto por bandas como Long Way To Alaska, Ermo, Hunted Scriptum, Spitting Red, Egg Box, Vai-te Foder, The 1969 Revolutionary Orgy ou Angúria, nascidas no seio de uma nova geração particularmente activa e promissora. Por fim, o retrato musical da cidade não ficaria ainda completo se não incluísse os projectos de músicos que, tendo tido percurso por outras paragens, se tinham entretanto fixado em Braga, como é o caso de Cavalheiro e de Dead Men Talking. Era pois toda esta riqueza e diversidade que devia ficar documentada, fixando um momento especialmente mágico da história musical da cidade. Assim, quando Braga foi nomeada Capital Europeia da Juventude, logo nos demos conta que tínhamos aí a oportunidade para o concretizar desse almejado novo volume do À Sombra de Deus. Miguel Pedro tratou pois de apresentar o projecto aos responsáveis pela Capital Europeia da Juventude, que imediatamente o apadrinharam, e em Fevereiro de 2012, no estúdio Moby Dick que Gonçalo Budda propositadamente deslocara e montara no complexo das salas de ensaio do Estádio 1.º de Maio, iniciavam-se as gravações das bandas participantes. Começava a tomar forma a colectânea “À Sombra de Deus 4 – Braga 2012”, o quarto volume desta narrativa da música juvenil bracarense, agora editado sob os auspícios da Capital Europeia da Juventude – Braga 2012 e com distribuição nacional pela Compact.

Adolfo Luxúria Canibal

À SOMBRA DE DEUS – BRAGA 88 (1989)
01. Rongwrong – Estranho Prazer / 02. Pai Melga – Protesto do Diabo / 03. Orfeu Rebelde – Através dos Tempos / 04. Os Gnomos – Destino / 05. Bateau Lavoir – Até Um Dia / 06. Baile de Baden-Baden – Chuva de Verão / 07. Rua do Gin – Rebeca / 08. Mão Morta – 1º de Novembro

À SOMBRA DE DEUS VOLUME 2 (1994)
01. Blind Panic – Negative I.D. / 02. Dusk – Fuga / 03. Electrodomésticos – Ramiz Alia / 04. Humpty Dumpty + Teota – Lição / 05. Industrial Metal Machine – Máquinas de Guerra / 06. Mão Morta – Rotte (A Morte É um Acto Solitário) / 07. Rua do Gin – Caravelas de Plástico / 08. Tass – Margem / 09. Um Zero Amarelo – Mel / 10. Wodka Technicolor – Deadecisions

À SOMBRA DE DEUS VOLUME 3 (2004)
01. André Leite – Queen of Fools / 02. Big Fat Mamma – Alcoholic Blues / 03. Demon Dagger – Away / 04. Freequency – Stone / 05. Jack in the Box – Empty, Alone, Barren / 06. Mão Morta – Sobe, Querida, Desce / 07. Mécanosphère – O Cavalo Branco / 08. Os Seis Graus de Separação – Não Lugar Sem Sombra / 09. Phi – Electrified / 10. Spank The Monkey – Half a Man / 11. The Neon Road – The Junkie Park / 12. VortexSoundTech – Distances / 13. Wave Simulator – Adeus Mutante / 14. Zero – Quantas Vezes

À SOMBRA DE DEUS 4 – BRAGA 2012 (2012)
01. The Astroboy – Intention to Treat / 02. Mundo Cão – Meu Deus! / 03. Nyx – Music for a While / 04. Peixe:Avião – Voltas Cegas / 05. Estilhaços – Nevoeiro / 06. Long Way To Alaska – Yonder Year / 07. Ermo – Augusta / 08. Cavalheiro – Bom Jesus / 09. Dead Men Talking – Absolution of Time / 10. Monstro Mau – A Crise Está na Tua Cabeça / 11. The 1969 Revolutionary Orgy – Time for Living / 12. Vai-te Foder – Nascido para Odiar / 13. Palmer Eldritch – Bubble Chamber / 14. At Freddy’s House – Written in Blood, Water and Mud / 15. Smix Smox Smux – Par / 16. Egg Box – Slowdown / 17. Balão de Ferro – Soul do Rock / 18. Governo – Saudades de Sebastião / 19. Mão Morta – A Ver o Mar / 20. Tatsumaki – Dream Drive / 21. Angúria – Necrologia / 22. Hunted Scriptum – Melancolia / 23. Spitting Red – Inceptions Delay

quarta-feira, 18 de abril de 2012

100 discos de 1973, n.º 9



RALF UND FLORIAN
KRAFTWERK (Alemanha)
Edição original: Philips
Produtor(es): Conny Plank, Ralf Hütter, Florian Schneider
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Agora que tanto se fala dos Kraftwerk, a propósito da residência no MoMa de Nova Iorque e do anúncio de Ralf Hütter do sucessor de "Tour de France" (2003), aqui fica a menção para o terceiro álbum dos alemães. Como o título não deixa escapar, a formação era constituída por Ralf Hütter e Florian Schneider, que deixou o grupo em 2008. Em 1973, os Kraftwerk estavam de novo reduzidos ao duo fundador, depois de por lá ter passado gente como Michael Rother e Klaus Dinger, que viriam a ser os Neu!. Na verdade, ao duo deve ser acrescentado o nome de Conny Plank, o produtor que acompanhava os Kraftwerk desde o início e que esteve por trás do som de tanta boa gente do kraut, como os já mencionados Neu! (todos os álbuns), os Kluster/Cluster (idem), Harmonia, Guru Guru, Ash ra Tempel, etc. "Ralf und Florian" (ou "Ralf and Florian" nas edições internacionais) é essencialmente instrumental e aponta para aquela que será a marca do som dos Kraftwerk daí para a frente, assentando essencialmente na experimentação de sintetizadores e no uso de caixas de ritmo.
(Passaram quase quarenta anos. Digam lá se não vos parece ouvir o Panda Bear no "Tanzmuzik" (youtube abaixo). Em todo o caso, o desafio traz água no bico... é que o Panda Bear até já o samplou.)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

100 discos de 1973, n.º 10



CLOSING TIME
TOM WAITS (EUA)
Edição original: Asylum
Produtor(es): Jerry Yester
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Now it's closing time, the music's fading out
Last call for drinks, I'll have another stout.
Well I turn around to look at you, you're nowhere to be found,
I search the place for your lost face, guess I'll have anotherround
And I think that I just fell in love with you.

(in "I Hope That I Don't Fall in Love with You")

Entre os discos que constam da minha coleção pessoal e desta longa lista, este é aquele que comprei há mais tempo. Na adolescência, ouvia tanta gente a tecer todo o tipo de elogios a Waits que tinha de perceber o que era. Não tínhamos youtube nem sequer internet para sacar discos, diria agora um avozinho meio trocado das ideias. A rádio, ou melhor, o António Sérgio era uma das poucas hipóteses de ouvir música antes de a comprar (a outra era, claro, o já tão longínquo sistema de partilha de discos entre amigos). Mas adiante. Aconteceu que "Closing Time" não bateu à primeira. Só com "Heartattack and Vine" (1980) ou "Swordfishtrombones" (1983) se faria luz e só anos mais tarde, já com meia discografia de Waits na estante e nos ouvidos, é que o álbum de estreia voltaria à liça, como se fosse preciso conhecer o porteiro deste bar fumarento de jazz, country e canção americana que é "Closing Time".

sexta-feira, 13 de abril de 2012

E viva a crise, como se costuma dizer

"Querem apostar que vão esgotar num instante?", perguntava há um mês atrás no anúncio dos concertos do Bon Iver, com bilhetes a 30 euros.
E, pronto, os do Coliseu dos Recreios já foram (ver notícia no Blitz).

Uma espreitadela ao que os L'Enfance Rouge têm andado a preparar na Tunísia

aqui havia falado do mais recente projeto dos franco-italianos L'Enfance Rouge na Tunísia, com o cantor Lotfi Bouchnak. Agora podemos espreitar um ensaio na medina de Tunes. Isto promete muito. E, não digam ainda nada a ninguém, mas eles vão por cá andar novamente...

25 anos de Veneno, hoje

Augusto Figueira e Renato Conteiro, autores de "Angústia de Viver", a biografia dos Censurados, voltaram à carga com um novo livro, agora sobre os Peste & Sida e, concretamente, sobre os 25 anos decorridos desde a edição de "Veneno", o álbum de estreia do grupo. E, para assinalar o lançamento do livro, há festa e concerto dos Peste & Sida, na versão que desde há alguns anos tem sido conduzida pelo baixista João San Payo. Vai ser na República da Música, o antigo Tuatara, no centro do bairro de Alvalade, a partir das 22h. Para o sábado da semana seguinte, dia 21, é a vez do Porto, com a festa a instalar-se no Hard Club.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ainda no Cais do Sodré (e esta noite!)

Cinco bares do Cais do Sodré acolhem esta noite 13 projetos do catálogo da Optimus:

Pensão Amor
21h00 - Lucas Bora Bora
22h00 - The Poppers
23h00 - Miúda

Velha Senhora
21h30 - Pedro Cardoso
22h30 - Hello Atlantic

Lounge
23h00 - Nice Weather for Ducks
00h00 - The Doups

Musicbox
22h45 - Best Youth
23h45 - Souls of Fire
01h00 - Pontos Negros
02h00 - Balla Redux

Europa
23h30 - Capicua
00h30 - Chullage

(via Blitz)

Gaiteiros de Lisboa e a recuperação do GAC no MusicBox

De 19 a 21 deste mês, o Musicbox volta a receber o festival "Lisboa, Capital, República, Popular". Na quarta edição, o destaque vai para a recuperação de canções do GAC (Grupo de Acção Cultural) por músicos da nova geração, para o regresso aos concertos dos Gaiteiros de Lisboa e para os Ladrões do Tempo, a banda que reúne Zé Pedro, Tó Trips, Pedro Gonçalves, Paulo Franco e Samuel Palitos. Como sempre, vai também ser editado o jornal de distribuição gratuita, este ano com a manchete "Ser Solidário", que serve ainda de tema geral ao debate que decorrerá no Povo, no primeiro dia do festival, com a participação de dois bloggers (Francisco Silva e Pedro Marques Lopes) e a moderação de Nuno Miguel Guedes, coordenador da edição do jornal.

Quinta-feira, 19:
Ladrões do Tempo
Luís Varatojo (DJ set na 1ª parte)

Sexta-feira, 20:
Toca'Andar
Omiri
Gaiteiros de Lisboa

Sábado, 21
GAC - VOZES NA LUTA
Filho da Mãe, Manuel Fúria, Cão da Morte, Vicente Palma, Bob da Rage Sense, Bruno Vasconcelos, Inês Pereira, Diego Armês, Afonso Cabral, Hélio Morais + Quim Albergaria e Elisa Rodrigues + Júlio Resende c/ banda residente: Flak, Nuno Pessoa e Filipe Valentim.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Laurie Anderson imita o ex-camarada do marido e visita cinco cidades portuguesas que não Lisboa e Porto

Tem piada que justamente hoje tenha saído na lista dos 100 discos de 1973 o "Paris 1919" do John Cale. Lembram-se, no ano passado, da mini-digressão que o ex-Velvet fez pelo nosso país? Em fevereiro, John Cale passou por Coimbra, Guimarães, Aveiro, Leiria, Torres Vedras e Torres Novas. Foi bom saber que terras menos habituadas a receberem estes nomes podem, afinal, fazer parte do circuito, gozando até na cara de Lisboa e Porto. Foi justamente para isso que os cine-teatros foram construídos -- e tantos mais há por este país fora, muitos deles quase votados ao abandono.

Ora, tem piada porque Laurie Anderson prepara-se para fazer o mesmo este ano, passando pelas mesmas salas, no mês de maio. Há apenas uma pequena diferença: Leiria não consta desta digressão. Laurie Anderson vai então estar por cá entre 22 e 26 de maio, nas seguintes salas:

22: Guimarães, CCVF
23: Coimbra, TAGV
24: Aveiro, Teatro Aveirense
25: Torres Vedras, Teatro-Cine
26: Torres Novas, Teatro Virgínia

(Via bodyspace)

100 discos de 1973, n.º 11



PARIS 1919
JOHN CALE (País de Gales)
Edição original: Reprise
Produtor(es): Chris Thomas
discogs allmusic wikipedia

Tendo trabalhado com La Monte Young e Tony Conrad, tendo ajudado a fazer história no rock com os Velvet Underground, tendo depois trabalhado com Terry Riley e produzido discos para muito boa gente, John Cale surpreendeu, ao abrir ainda mais a sua área de intervenção com este "Paris 1919". Soberbo, belo, elegante, sofisticado, arrojado, luxuoso, poético, literário. Ao longo dos anos, têm sido usada toda a espécie de adjetivos apreciativos. É para isso que eles estão no dicionário.

terça-feira, 10 de abril de 2012

100 discos de 1973, n.º 12



IN A GLASS HOUSE
GENTLE GIANT (Inglaterra)
Edição original: WWA
Produtor(es): Gentle Giant, Gary Martin
discogs allmusic wikipedia

"Tens que levar esse disco", dizia-me o Fernando Magalhães na casa do "vendedor". Esta história já tem mais de 10 anos e o "vendedor" era um melómano que havia perdido o interesse na extensa discografia prog (e não só) da década de 70 que colecionara. "In a Glass House" e outros, como o "Naked Shakespeare" do Peter Blegvad, o "1001º Centigrades" dos Magma, mudavam assim de casa, mas de todo o produto da rapina, seria o disco dos Gentle Giant aquele que maior fascínio viria a despertar nos meus ouvidos. É, provavelmente, o disco prog a que continuo a recorrer com maior frequência, até hoje. São desconcertantes as mudanças de tempos, o encaixe meticuloso dos instrumentos de diferente espécie, a incursão por pequenos trechos folk, medievais até, e a precisão das costuras que unem todos estes retalhos. Por mais que tenha vindo a tentar, nenhum outro disco dos Gentle Giant conseguiu reproduzir o mesmo efeito. Eu bem tinha que ter trazido este disco.