segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Breves memórias do FMM 2012: África e GNR

Regressado a Lisboa para uma breve escala antes de mais uma semana de férias, deixo aqui algumas das memórias a reter em mais um FMM que terminou. Talvez por desígnio do circuito de digressões dos grupos, este foi um FMM com lanças apontadas especialmente a África:

A Oumou e o Béla

Béla Fleck toca no banjo, acústico ou elétrico, como mais ninguém, aqui intrometendo-se na música do Mali e entregando ao seu instrumento, na maior parte das vezes, o pepel que a kora tradicionalmente assume nestas paragens da música africana, enquanto Oumou Sangaré domina o palco mostrando por que é uma das maiores divas da atualidade. É qualidade de sobra para um único projeto. Como se não bastasse, no grupo viajam ainda o baixista senegalês Alioune Wade -- de tal forma fluente na sua disciplina que quase faz esquecer o habitual companheiro de Fleck neste papel, o incrível Victor Wooten -- e o baterista Will Calhoun, dos Living Colour.



Fatoumata Diawara, a linda

Começou como Rokia Traoré, sua compatriota, no primeiro dos seus dois concertos em Sines. Calma, serena, intimista. Acabou como Rokia no segundo. Explosiva, festiva, imparável. Fatoumata Diawara, provavelmente a mulher mais bonita que alguma vez pisou o palco do castelo de Sines, foi a grande revelação deste ano.



Dhafer Youssef e o quarteto do mundo

Dhafer Youssef pode não ser o mais exímio dos intérpretes de alaúde -- e nesse campo, até já ali tínhamos visto, dias antes, o prodigioso Bassam Saba, com o seu Al-Madar -- mas se aliarmos a essa capacidade o seu arrepiante domínio da voz, fazendo lembrar Milton Nascimento do inicio, mas com técnica imensuravelmente melhor, e a forma como o quarteto se entende nos diversos diálogos que se vão construindo ao longo do espetáculo, percebemos um pouco da magia, dos sorrisos de alegria na plateia, do sorriso que Youssef levou para fora do palco. Foi talvez o melhor episódio deste FMM.



Masekela, o génio de palco

Já anda pelos setentas e afirma-se como músico desde os 5. Todos estes anos de digressões, discos, experiências bem sucedidas por África e pelos EUA, fizeram dele a maior lenda viva da música africana. E é ali no palco que ele o prova. Não só mantém intacta toda a sua capacidade técnica instrumental e vocal, como sabe como poucos como se dirigir a uma audiência, mesmo que seja para a “picar”.

Outros destaques

Há que guardar, uma vez mais, memória dos L’Enfance Rouge, que talvez nunca tenham tido na sua vida um palco tão grande como o do castelo de Sines e que estiveram irrepreensíveis nesta primeira apresentação do projeto com o tunisino Lofti Bouchnak, ele que se mostrou bastante divertido com a experiência de partilhar o palco com o power trio sónico e o pequeno ensemble magrebino.
Há que falar também no Bombino, que no primeiro dia do festival, levou a festa dos blues a todos os que ali estavam, num formato intenso e marcadamente hipnótico, muito diferente daquele que apresentou no ano passado, em Lisboa. O pobre do Otis Taylor, que tocou imediatamente antes, terá inventado “trance-blues”. Talvez tenha ficado envergonhado ao ouvir o trance no blues do guitarrista do Níger.
Junte-se ainda os Staff Benda Bilili, que regressaram àquele palco apenas dois anos depois, por força do cancelamento do concerto de Gurrumul. Houve festa rija, claro, ainda que pudesse ter ajudado ter havido um maior distanciamento face ao anterior concerto dos congoleses.
Mais destaques breves: Marc Ribot esteve impecável, tanto enquanto convidado dos Dead Combo, como na direção dos Cubanos Postizos. Diabo a Sete foi uma excelente revelação para este escriba (ao contrário dos Uxu “Absoluta Desilusão” Kalhus, que agora se perdem num hard rock sem qualquer tipo de piada). A nova banda do Lirinha deixa muito a desejar, mas os poemas do brasileiro continuam a ser explosivos. Os Osso Vaidoso são uma das melhores coisas a terem acontecido à música feita por cá nos últimos anos.

Pela lei e pela grei, dizem eles

A Guarda Nacional Republicana apareceu este ano com intenções de estragar a festa. Chegou mesmo a fechá-la quando irrompeu pelos bastidores do palco secundário, junto ao rochedo do Pontal, tendo alegadamente dado voz ao tradicional “acabam a bem ou acabam a mal?”. Mas este triste desfecho não foi o pior. O corpo de segurança pública que na sua insígnia carrega, sem que realmente se entenda porquê, a expressão “pela grei”, fez tudo o que esteve ao seu alcance ao longo de duas semanas para incomodar esse mesmo povo que pretendia estar ali no clima de festa que sempre foi próprio do FMM, ora com mega-operações à entrada da cidade, onde cães farejavam viaturas individuais e autocarros, ora com a barraca preta ao estilo de confessionário à porta do castelo para onde enfiavam o espetador que apresentasse “pinta” que não lhes agradasse, ora com a presença constante, em estilo de ameaça contida, nas imediações dos dois palcos. Como se nestas duas semanas se concentrassem em Sines os piores malfeitores do mundo. Triste e vergonhoso. Nestes dias que se seguem, é a vez do Boom. 1500 militares destacados para Idanha-a-Nova, dizem as notícias. Mil e quinhentos.

quarta-feira, 18 de Julho de 2012

20 concertos a não perder no FMM

Por ordem cronológica:



WAZIMBO
(Moçambique)

Dia 19 (quinta-feira), 21h45 - Castelo
Oportunidade para ouvir a voz da mítica Orquestra Marrabenta Star de Moçambique.



OTIS TAYLOR BAND
(EUA)

Dia 19 (quinta-feira), 23h15 - Castelo
Venha o blues de palco grande, para a festa!



BOMBINO
(Níger/Povo Tuaregue)

Dia 19 (quinta-feira), 00h45 - Castelo
E logo a seguir o melhor do blues do deserto. Quem esteve no Jardim das Oliveiras, no ano passado, não vai perder.



AL MADAR
(Líbano/EUA)

Dia 20 (sexta-feira), 21h45 - Castelo
Primeiro episódio da Nova Iorque multicultural neste FMM 2012, com a baterista April Centrone e o violinista Timba Harris a regressarem ao palco do castelo, depois dos Secret Chiefs no ano passado, agora neste projeto de raízes árabes centrado na figura do libanês Bassam Saba. Também vão à ZDB, já amanhã, quarta-feira.



L'ENFANCE ROUGE & LOFTI BOUCHNAK
(França/Itália/Tunísia)

Dia 20 (sexta-feira), 23h15 - Castelo
Um dos mais energéticos trios de rock dos últimos tempos volta a Sines, agora com direito a toda a magia do castelo e com um novo convidado tunisino, o cantor Lofti Bouchnak. Da outra vez que os L'ER trouxeram tunisinos, foi um fim de noite arrasador. O trio vai andar pelo país (Portalegre, Lisboa, Milhões de Festa), mas a apresentação com os músicos tunisinos é exclusiva do FMM.



DEAD COMBO & MARC RIBOT
(Portugal/EUA)

Dia 21 (sábado), 19h00 - Castelo
Sines é fértil em encontros de músicos e de culturas. E este é um dos mais especiais de toda o historial do festival.



OUMOU SANGARÉ & BÉLA FLECK
(Mali/EUA)

Dia 21 (sábado), 21h45 - Castelo
Outro encontro impossível de perder.



MARC RIBOT Y LOS CUBANOS POSTIZOS
(EUA)

Dia 21 (sábado), 23h15 - Castelo
Mais um episódio da Nova Iorque multicultural. Marc Ribot volta a Sines, com o seu projeto mais famoso. Da outra vez foi tremendo. Agora pode ainda ser melhor.



JESSIKA KENNEY & EYVIND KANG
(EUA)

Dia 24 (terça-feira), 22h00 - Centro de Artes de Sines
Mais Nova Iorque (ou quase), no único concerto marcado para o CAS, numa atmosfera que se pretende mais intimista.



ENSEMBLE NOTTE DELLA TARANTA
(Itália)

Dia 25 (quarta-feira), 22h00 - Castelo
Noite especial com uma orquestra apuliana para fazer a malta dançar a pizzica.



STAFF BENDA BILILI
(RD Coongo)

Dia 26 (quinta-feira), 00h45 - Castelo
O cancelamento do concerto do aborígene Gurrumul veio precipitar o regresso, passado tão pouco tempo, deste grupo de músicos de Kinshasa, protagonista de um dos melhores momentos do historial do FMM, há dois anos.



KOUYATÉ-NEERMAN
(Mali/França)

Dia 27 (sexta-feira), 20h00 - Pontal
Espécie de encontro entre o balafon do Mali e o vibrafone europeu, acompanhados de uma secção rítmica que parece ter saído do pós-rock ou do jazz-rock. Promete!



DHAFER YOUSSEF
(Tunísia)

Dia 27 (sexta-feira), 21h45 - Castelo
O alaúde árabe no jazz europeu/escandinavo. Isto vai fazer estremecer as paredes do castelo.



MARI BOINE
(Noruega/Sápmi)

Dia 27 (sexta-feira), 23h15 - Castelo
Finalmente, porra. Mari Boine em Sines!



ZITA SWOON GROUP
(Bélgica/Burkina Faso)

Dia 27 (sexta-feira), 00h45 - Castelo
Também a Stef Kamil Carlens chegou o chamamento de África.



JUJU
(Gâmbia/Inglaterra)

Dia 27 (sexta-feira), 02h30 - Pontal
Mais um encontro Europa-África. Diz-se que o projeto está a funcionar melhor desde que surgiu em Sines pela primeira vez, já lá vão quatro anos.



ORQUESTRA TODOS
(Portugal/...)

Dia 28 (sábado), 18h45 - Castelo
O primeiro concerto da Orquestra Todos, no Largo do Intendente, no passado, foi uma experiência bonita a todos os níveis. O modelo adotado da Orchestra di Piazza Vittorio, é o de pôr em palco músicos residentes em Lisboa e provenientes dos mais diversos cantos e culturas do mundo. Não podia fazer mais sentido em Sines.



HUGH MASEKELA
(África do Sul)

Dia 28 (sábado), 21h45 - Castelo
O nome maior desta edição do FMM. Aos 73 anos, Masekela traz a Portugal um dos trompetes mais iconográficos da história da música africana, do jazz norte-americano e das lutas políticas do seu país.



TONY ALLEN FEAT. AMP FIDDLER
(Nigéria)

Dia 28 (sábado), 23h15 - Castelo
Agora, no castelo, a oportunidade para o Tony Allen se refazer, na companhia de Amp Fiddler (antigo companheiro de estrada de George Clinton), da fraca prestação de há anos, junto à praia. A secção de metais tem marca local: é constituída pelos professores da Escola de Artes de Sines. E deverá ser a primeira vez que se verá uma keytar (a de Amp Fiddler) em Sines.



LIRINHA
(Brasil)

Dia 28 (sábado), 02h30 - Pontal
Há seis anos, deixou o castelo de Sines semi-destruído na companhia dos já míticos Cordel do Fogo Encantado. Veio depois a separação e só agora José Paes de Lira volta aos palcos de música, a solo, apresentando um disco menos tribal, mais rock, mais eletrónica, a mesma carga emocional. Vai ser um encerramento bonito para o FMM 2012.

quinta-feira, 12 de Julho de 2012

Entrevista ao sr. FMM, parte 7

(Continuação da entrevista ao diretor artístico e de produção do FMM Sines, Carlos Seixas)
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7. Falemos então da edição deste ano. Quais são, para o programador do FMM, os principais destaques destes dois fins-de-semana de música?

Vítor, seria a última pessoa a quem poderias fazer uma pergunta destas! Mas, que fazer? Respondo sob protesto. Para mim não há destaques! O FMM funciona como um todo. Respondo-te de outro modo, sobre a 14ª, sem respeitar datas ou radiografar competências. Vou mais pelas emoções!

Como já tens notícia, o Gurrumul está doente e cancelou a digressão europeia. Estou desolado porque era para mim um dos concertos de maior expectativa. E não por ser estreia, mas porque gosto tanto daquelas canções, a voz emotiva, brilhante, apetece-me dizer a face identitária atual do povo aborígene! Tão maltratado e tão longe de nós.

Os blues americanos. E há tanto tempo que não vinham cá! Logo com o senhor Otis Taylor. Conheci-o, e ao dizer conhecer digo a sua música, alguns anos atrás através de um amigo que não me disse nada... Só me ofereceu um disco – "White African” – e logo ali me interroguei: como é que das montanhas rochosas me aparece este homem branco conhecedor da cultura afroamericana, inovador, multi-instrumentista, respeitado no meio como poucos, autêntico!

Hugh Masekela. Tantos anos a querer que ele viesse e sempre algum obstáculo, por vezes digressões fora de época, outras por negociações adiadas! Mas sempre a vontade presente de ver esta personagem lendária no palco do castelo. E de repente, outubro passado em Copenhaga, um encontro de minutos com o senhor Hugh Ramopolo Masekela. Sorrisos, um abraço, duas ou três palavras em português e um sim de convicção, final feliz! Vasco da Gama que se cuide!

Era uma ou a outra! Gosto tanto das duas mas tinha de ter calma como a que tive durante os anos que se passavam sem as poder ver nos palcos FMM. Mari Boine ou June Tabor? A folk na sua dimensão universal. O poder xamânico do joik adiantou-se à antiga "silly sister" de Maddy Prior e aí está para pôr à prova o público no terreiro do castelo. Atenção meus senhores, muita atenção ao voo dos pássaros!

E por falar em pássaros, que bom poder receber mais uma vez a senhora de Wassoulou num encontro que espero memorável com o galáctico do banjo, senhor de todos os grammys! Que felicidade ter o privilégio de ouvir o alaúde e a voz dos tunisinos Dhafer Youssef e Lotfi Bouchnak, do libanês Bassam Saba, este com um trabalho notável com a Orquestra Árabe de Nova Iorque. A vinda de repetentes como a April Centrone e o Timba Harris dos Secret Chiefs 3, do casal nómada François e Chiara de guitarras em punho, do sempre jovem Tony Allen, master drummer of afrobeat...

Que o público apareça em força. Há sempre lugar para mais um! A festa começa já para a semana, são 36 concertos 36, cinema, encontros, praia, peixe ou carne?, ateliês, vai e vem castelo - pontal - centro de artes, ervas de cheiro, compra de discos, olha o Bombino! E a vida é tão curta!


[Ali mais acima, o Carlos Seixas referia-se a isto. Toma cuidado, Vasquinho...]

L'Enfance Rouge também em Lisboa

Parecia que já não havia interesse dos promotores lisboetas em voltar a ter por cá uma das bandas mais explosivas dos últimos tempos, mas eis que afinal não é de todo assim.
Os L'Enfance Rouge, que vão passar por Sines com o novo projeto em que se juntam ao tunisino Lofti Bouchnak (20 de julho), e, já em formato de trio, pelo Milhões de Festa (22 de julho), vão também aproveitar a passagem por Portugal para tocarem em Lisboa. Vai também ser no formato de trio e precisamente entre aquelas duas datas, ou seja, 21 de julho. A sala que os acolhe é o Clube Ferroviário e a primeira parte vai estar a cargo dos dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS, que através da sua Associação Terapêutica do Ruído, promovem o concerto. A entrada custa seis euros, com direito a duas imperiais ou uma bebida branca.

ATUALIZAÇÃO: Os L'ER vão também passar por Portalegre, no Centro de Artes do Espetáculo, no dia 18.

quarta-feira, 11 de Julho de 2012

E o que se ouve hoje na NPR? O novo de The Very Best!



Chama-se "MTMTMK" -- tem piada, porque ao contrário de "The Very Best", arranjaram agora um título facilmente googlável -- e sai já no dia 16 deste mês. É o novo álbum dos The Very Best e pode ser escutado na íntegra através da NPR. Alguém que dê um prémio de reconhecimento à NPR.


Entrevista ao sr. FMM, parte 6

(Continuação da entrevista ao diretor artístico e de produção do FMM Sines, Carlos Seixas)
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6. O FMM tem sido terreno fértil para encontros de artistas, de músicas, de culturas. Este ano, os Dead Combo vão estar em palco com o Marc Ribot. Como surgiu esta colaboração inédita? Que papel jogou o FMM (ou o seu programador) nesta e noutras ocasiões no passado?

A colaboração foi concretizada de uma forma pacífica no princípio do ano em conjunto com os agentes de ambos. Havia o "Lisboa Mulata" e eu tinha acabado de negociar a presença do Marc Ribot com os Cubanos Postizos. Andava desde há anos interessado em apresentar este projeto e, em 2005, na altura dos The Young Philadelphians, falei com o Marc sobre essa intenção. Felizmente que conseguimos este encontro que podemos nomear "em estreia mundial" :)

Sabes que o circuito da música ao vivo relacionado com músicos de outros continentes, sobretudo nos festivais de verão, depende muito das digressões europeias. Embora a oferta seja maioritariamente de "grupos formatados", há sempre a oportunidade de negociar alguns encontros. Com anos de contacto no meio e a confiança estabelecida com agentes, managers e músicos, estas situações começam a ser cada vez mais fáceis de concretizar.

No historial do FMM há exemplos de "encomendas", nem todas de caráter único e exclusivo, mas cozinhadas entre vários cúmplices, onde nós também tivemos a palavra. O caso do Trilok Gurtu com The Misra Brothers, a apresentação da Flat Earth Society com o Jimi Tenor, o David Murray com Pharoah Sanders, Jean-Paul Bourelly meets Melvin Gibbs & Will Calhoun, Cheick Tidiane Seck com Mamani Keita, Tuba Project com Bob Stewart e, para dar mais um exemplo onde entram músicos portugueses, Mandrágora & Special Guests (os Mandrágora estiveram durante um mês na Bretanha a trabalhar com músicos locais e a preparar esta apresentação). E para o ano há já pelo menos dois encontros em preparação! Afinal não é habitual um festival desta natureza, enquanto serviço público cultural, comemorar o 15º aniversário.

terça-feira, 10 de Julho de 2012

Saiu hoje o novo do Delicate Steve e isso é motivo de festa por aqui



Por aqui, já sabe quem regularmente espreita estas letras em fundo amarelo, gosta-se muito do Delicate Steve. Muito. E o David Byrne também, porque a Luaka Bop volta a apostar no guitarrista de Nova Jérsei com um segundo álbum, "Positive Force", que sai precisamente hoje. O disco está em escuta na NPR. Já no site do músico pode-se descarregar desde há algum tempo o mp3 do "Afria Talks to You" (assim mesmo, Afria; não é erro).

E ainda há mais gente boa a gostar. Os Akron/Family, os Ra Ra Riot, a Tune-Yards, os Javelin, os Givers, os Wild Belle, o Janka Nabay, os Yeasayer, os Fang Island e os Yellow Ostrich participaram numa ação de marketing inédita (ou perto disso), o "Friendship Stream", divulgando, cada um, uma das faixas do novo disco do amigo Delicate Steve, através das suas páginas no facebook.

Faltam só nove dias para o Milhões

Está aí quase a chegar mais uma edição do Milhões de Festa. Dia 19 começa a maratona de concertos e mergulhos na piscina. Ao final do dia 22 contaremos os sobreviventes. Os bilhetes diários custam 25€ e os passes para o fim-de-semana 45€, sendo que a partir desta próxima quinta-feira aumentam para 52€ e na véspera do festival passam para 60€.

Segue-se a programação completa (via Blitz):

19 de julho

Patuscada
Pedro Santos 02h00
Ana 01h00
Gnod 00h00
The Glockenwise 23h00
Johnny Sem Dente 22h00
Pedro Santos 21h00

Red Bull City Gang
Cálculo 19h30
Aspen 18h30
Käil 17h30
The Glockenwise 16h30

20 de julho

Palco Milhões
Throes + The Shine 00h45
Baroness 23h00
Sensible Soccers 21h30
La La La Ressonance 20h00

Palco Vice
Glam Slam Dance 03h00
Meneo 02h15
Youthless 01h30
Holy Other 00h00
League 22h15
Ra / Löbo 20h45

Palco Piscina
Lovers & Lollypops SS 17h30
ALTO! 16h45
Equations 15h30
Jibóia 14h30

Palco Taina
Savanna 18h00
Burning Man 17h00
New Kind of Mambo 16h00
Tren Go! Soundsystem 15h00

21 de julho

Palco Milhões
Weedeater 01h00
Connan Mockasin 23h15
El Perro Del Mar 21h30
Blues Pills 20h00

Palco Vice
Hoy! 04h45
XXXY 03h30
Publicist 02h45
Ghunagangh 02h00
Gala Drop 00h15
Prinzhorn Dance School 22h30
Lüger 20h45

Palco Piscina
Da Chick (live act) 18h30
Moullinex + Xinobi 17h30
Bro-X 16h45
Revengeance 15h30
Gnod 14h30

Palco Taina
Unicornibot 18h00
Hunted Scriptum 17h00
Was An Outsider 16h00
Jorge Coelho 15h00

22 de julho

Palco Milhões
Red Fang 01h00
Alt-J 23h00
L'Enfance Rouge 21h30
Al-Madar 20h00

Palco Vice
Zombies For Money 03h45
Shangran Electro 02h45
The Discotexas Band 02h00
Black Bombaim / Gnod 00h00
Memória de Peixe 22h15
Riding Pânico 20h45

Palco Piscina
DJ Fitz 18h00
Moon Duo 17h00
Naytronix 15h45
Grup Ses Beats 14h30

Palco Taina
Quartel 469 18h00
Midnight Priest 17h00
Amazonas 16h00
Killimanjaro 15h00

O Tiago Sousa e o povo queixam-se no Maria Matos

Em 2005, os artistas finlandeses Tellervo Kalleinen e Oliver Kochta-Kalleinen montaram o primeiro Complaints Choir em Birmingham, Inglaterra. A ideia, que tem vindo a ser replicada por várias cidades do mundo (vejam aqui), é a de juntar o contributo, ou seja, as queixas dos cidadãos que queiram participar, os quais se podem depois juntar ao coro que, a dia e hora marcados, cantarão para o público em geral. A partir desta ideia, o Teatro Maria Matos encomendou a Tiago Sousa que encabeçasse um projeto semelhante em Lisboa. A apresentação vai decorrer já neste próximo sábado, dia 14, a partir das 20h30, podendo os bilhetes (gratuitos) ser levantados a partir das 15h. Mais informação aqui.

Olha o Joãozinho, perdão, o Lil'John, perdão, o J-Wow, perdão, o Branko na Mad Decent

Branko é o novo "moniker" a solo do Lil'John, dos Buraka Som Sistema. De J-Wow mudou para Branko, para evitar confusões com uma apresentadora da televisão norte-americana com nome semelhante, e já com o novo nome lança este tema pela Mad Decent do Diplo (o que já não era inédito para ele, pois já lá estava como O Dedo -- tantos nomes, caramba).

Os festivais de músicas do mundo de verão, cinco anos depois (uma espécie de obituário)

Em julho de 2008, publicava-se aqui a nota "O Verão dos festivais de músicas do mundo e afins", dando-se conta da "febre" que então havia neste circuito específico de música ao vivo. Cinco anos passaram e algo mais mudou além do verão que o acordo ortográfico remeteu para a categoria das palavras normais. Dos festivais ali indicados, a maior parte ficou pelo caminho. Ora vejamos, começando precisamente pelo lado mau desta história:

Galaicofolia (Esposende) - teve aquela edição de 2008 e, aparentemente, ficou-se por aí.

Festival Ollin Kan (Vila do Conde/Porto) - A extensão portuguesa do festival mexicano realizou-se de 2008 até ao ano passado. Não existe qualquer indicação que venha a realizar-se este ano.

CCB Fora de Si (Lisboa) - A programação de verão de músicas do mundo do CCB, que já ali trouxe Gilberto Gil, Rabih Abou-Khalil ou Toumani Diabaté, foi cancelada este ano, por alegado corte no financiamento do Turismo de Portugal.

Festival M.U.N.D.O. (Viana do Castelo) - Realizou-se em 2008 e, aparentemente, ficou-se por aí. Entretanto, Viana passou a ter outro festival de verão, este dedicado às eletrónicas e com mais sucesso, o Neopop.

Ecofest (Odeceixe) - 2007, 2008 e, aparentemente, nada mais.

Músicas do Mar (Póvoa de Varzim) - 2007, 2008 e mais nada.

Vinhais Fest (Vinhais) - 2008 e mais nada.

Arraiais do Mundo (Tavira) - Outro festival da PédeXumbo. Fez-se nesse ano de 2008 e, aparentemente, ficou-se por aí.


E muitos mais houve que tiveram a sua primeira ou segunda edição naquele ano e que a meio do percurso desapareceram. Outros surgiram, outros mantém-se desde então. Entre novos e velhos que se mantém, o destaque:

MED (Loulé) - Já teve lugar, há dois fins-de-semana. A programação tem vindo a descaracterizar-se cada vez mais e o anúncio do festival chegou tão tardiamente que chegou-se a pensar que já não aconteceria em 2012.

Festim (Águeda / Albergaria-a-Velha / Estarreja / Ovar / Sever do Vouga) - A d'Orfeu conseguiu a programação de vários eventos em cidades do distrito de Aveiro, ao longo dos meses de junho e de julho.

FMM (Sines) - Mantém-se desde 1999 e a 14ª edição começa já para a semana. Decorre de 19 a 28 de julho. Mais informação aqui.

Intercéltico de Sendim (Sendim, Miranda do Douro) - Um dos mais antigos festivais do país continua a marcar presença na agenda de 2012, a 3 e 4 de agosto, com um cartaz humilde mas honesto (parece coisa pouca, mas é algo de que nem todos os festivais mais antigos conseguiram manter até hoje). Mais informação aqui.

Andanças (São Pedro do Sul/Celorico da Beira) - O festival de danças que já se realiza desde 1996 está em... mudanças. Diz a PédeXumbo que procura nova localização. Entretanto, para que as danças não parem este ano, vai haver uma edição especial e condensada de 24 horas, entre os dias 4 e 5 de agosto, em Celorico da Beira (mais informação aqui).

Fatt - Festival de Didgeridoo (Ameixial/Estômbar) - É um pouco diferente de todos os outros, mas também se mantém (e já vai para a 10ª ediçã). Realiza-se a 9 e 11 de agosto. Mais aqui.

Maré de Agosto (Santa Maria, Açores) - Um dos mais antigos - já vai para a 28ª edição. Realiza-se entre 23 e 26 de agosto. Mais informação aqui.

Festa do Avante! (Seixal) - A festa continua, claro. Este ano acontece no fim-de-semana de 7 a 9 de setembro. Mais informação aqui.

sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Detesto world music

"I Hate World Music" é o título de uma crónica de David Byrne a que o diretor do FMM Sines se refere mais abaixo. Foi publicada no New York Times, em 1999. Já passaram quase 13 anos, mas o texto do músico e do dono da Luaka Bop, a editora que nos EUA mais fez por tentar apagar as fronteiras que ainda hoje existem no mapa da música, continua perfeitamente atual. E tanto estas palavras tem para serem lidas com atenção e para serem usadas no confronto com a realidade dos dias de hoje, que o próprio texto vai servir de mote a duas sessões especiais de debate no âmbito das sessões paralelas do FMM, nos dias 24 e 25 de julho, assim organizadas:

24 de julho (terça)
17h30 – Abertura, pela Unipop
18h30 – Mesa-redonda, com Manuel Deniz Silva (musicólogo), JP Simões (músico), Raquel Bulha (jornalista e apresentadora do programa «Planeta 3», da Antena 3), Afonso Cortez (investigador e editor da coletânea Portuguese Nuggets) e Marta Lança (editora e programadora do projeto Buala)

25 de julho (quarta)
17h30 – Assembleia/seminário de discussão do texto «Transpor as fronteiras da música: I hate world music», de David Byrne

Aqui fica a reprodução do texto, também consultável no site do David Byrne:

I HATE WORLD MUSIC
David Byrne

New York Times, 3 de Outubro de 1999

I hate world music. That's probably one of the perverse reasons I have been asked to write about it. The term is a catchall that commonly refers to non-Western music of any and all sorts, popular music, traditional music and even classical music. It's a marketing as well as a pseudomusical term — and a name for a bin in the record store signifying stuff that doesn't belong anywhere else in the store. What's in that bin ranges from the most blatantly commercial music produced by a country, like Hindi film music (the singer Asha Bhosle being the best well known example), to the ultra-sophisticated, super-cosmopolitan art-pop of Brazil (Caetano Veloso, Tom Zé, Carlinhos Brown); from the somewhat bizarre and surreal concept of a former Bulgarian state-run folkloric choir being arranged by classically trained, Soviet-era composers (Le Mystère des Voix Bulgares) to Norteño songs from Texas and northern Mexico glorifying the exploits of drug dealers (Los Tigres del Norte).

Albums by Selena, Ricky Martin and Los Del Rio (the Macarena kings), artists who sell millions of records in the United States alone, are racked next to field recordings of Thai hill tribes. Equating apples and oranges indeed.

So, from a purely democratic standpoint, one in which all music is equal, regardless of sales and slickness of production, this is a musical utopia.

So Why Am I Complaining?

In my experience, the use of the term world music is a way of dismissing artists or their music as irrelevant to one's own life. It's a way of relegating this "thing" into the realm of something exotic and therefore cute, weird but safe, because exotica is beautiful but irrelevant; they are, by definition, not like us. Maybe that's why I hate the term. It groups everything and anything that isn't "us" into "them." This grouping is a convenient way of not seeing a band or artist as a creative individual, albeit from a culture somewhat different from that seen on American television. It's a label for anything at all that is not sung in English or anything that doesn't fit into the Anglo-Western pop universe this year. (So Ricky Martin is allowed out of the world music ghetto — for a while, anyway. Next year, who knows? If he makes a plena record, he might have to go back to the salsa bins and the Latin mom and pop record stores.) It's a none too subtle way of reasserting the hegemony of Western pop culture. It ghettoizes most of the world's music. A bold and audacious move, White Man!

There is some terrific music being made all over the world. In fact, there is more music, in sheer quantity, currently defined as world music, than any other kind. Not just kinds of music, but volume of recordings as well. When we talk about world music we find ourselves talking about 99 percent of the music on this planet. It would be strange to imagine, as many multinational corporations seem to, that Western pop holds the copyright on musical creativity.

No, the fact is, Western pop is the fast food of music, and there is more exciting creative music making going on outside the Western pop tradition than inside it. There is so much incredible noise happening that we'll never exhaust it. For example, there are guitar bands in Africa that can be, if you let them, as inspiring and transporting as any kind of rock, pop, soul, funk or disco you grew up with. And what is exciting for me is that they have taken elements of global (Western?) music apart, examined the pieces to see what might be of use and then re-invented and reassembled the parts to their own ends. Thus creating something entirely new. (Femi Kuti gave a great show the other night that was part Coltrane, part James Brown and all African, just like his daddy, Fela Kuti, the great Nigerian musical mastermind.)

To restrict your listening to English-language pop is like deciding to eat the same meal for the rest of your life. The "no-surprise surprise," as the Holiday Inn advertisement claims, is reassuring, I guess, but lacks kick. As ridiculous as they often sound, the conservative critics of rock-and-roll, and more recently of techno and rave, are not far off the mark. For at it's best, music truly is subversive and dangerous. Thank the gods.

Hearing the right piece of music at the right time of your life can inspire a radical change, destructive personal behavior or even fascist politics. Sometimes all at the same time.

On the other hand, music can inspire love, religious ecstasy, cathartic release, social bonding and a glimpse of another dimension. A sense that there is another time, another space and another, better, universe. It can heal a broken heart, offer a shoulder to cry on and a friend when no one else understands. There are times when you want to be transported, to get your mind around some stuff it never encountered before. And what if the thing transporting you doesn't come from your neighborhood?

Why Bother?

This interest in music not like that made in our own little villages (Dumbarton, Scotland, and Arbutus, Md., in my own case) is not, as it's often claimed, cultural tourism, because once you've let something in, let it grab hold of you, you're forever changed. Of course, you can also listen and remain completely unaffected and unmoved — like a tourist. Your loss. The fact is, after listening to some of this music for a while, it probably won't seem exotic any more, even if you still don't understand all the words. Thinking of things as exotic is only cool when it's your sister, your co-worker or wife; it's sometimes beneficial to exoticize that which has become overly familiar. But in other circumstances, viewing people and cultures as exotic is a distancing mechanism that too often allows for exploitation and racism.

Maybe it's naïve, but I would love to believe that once you grow to love some aspect of a culture — its music, for instance — you can never again think of the people of that culture as less than yourself. I would like to believe that if I am deeply moved by a song originating from some place other than my own hometown, then I have in some way shared an experience with the people of that culture. I have been pleasantly contaminated. I can identify in some small way with it and its people. Not that I will ever experience music exactly the same way as those who make it. I am not Hank Williams, or even Hank Jr., but I can still love his music and be moved by it. Doesn't mean I have to live like him. Or take as many drugs as he did, or, for that matter, as much as the great flamenco singer Cameron de la Isla did.

That's what art does; it communicates the vibe, the feeling, the attitude toward our lives, in a way that is personal and universal at the same time. And we don't have to go through all the personal torment that the artist went through to get it. I would like to think that if you love a piece of music, how can you help but love, or at least respect, the producers of it? On the other hand, I know plenty of racists who love "soul" music, rap and rhthym-and-blues, so dream on, Dave.

The Myth of the Authentic

The issue of "authenticity" is such a weird can of worms. Westerners get obsessed with it. They agonize over which is the "true" music, the real deal. I question the authenticity of some of the new-age ethnofusion music that's out there, but I also know that to rule out everything I personally abhor would be to rule out the possibility of a future miracle. Everybody knows the world has two types of music — my kind and everyone else's. And even my kind ain't always so great.

What is considered authentic today was probably some kind of bastard fusion a few years ago. An all-Japanese salsa orchestra's record (Orquestra de la Luz) was No. 1 on the salsa charts in the United States not long ago. Did the New York salseros care? No, most loved the songs and were frankly amazed. African guitar bands were doing their level best to copy Cuban rumbas, and in their twisted failure thay came up with something new. So let's not make any rules about who can make a specific style of music.

Mr. Juju himself, King Sunny Adé, name-checks the country and western crooner Jim Reeves as an influence. True. Rumor has it that the famous Balinese monkey chant was coordinated and choreographed by a German! The first South African pop record I bought was all tunes with American car race themes — the Indy 500 and the like. With sound effects, too! So let's forget about this authenticity bugaboo. If you are transported by the music, then knowing that the creators had open ears can only add to the enjoyment.

White folks needed to see Leadbelly in prison garb to feel they were getting the real thing. They need to be assured that rappers are "keeping it real," they need their Cuban musicians old and sweet, their Eastern and Asian artists "spiritual." The myths and clichés of national and cultural traits flourish in the marketing of music. There is the myth of the untutored, innocent savant whose rhymes contain funky Zen-like pearls of wisdom — the myth that exotic "traditional" music is more honest, more soulful and more in touch with a people's real and true feelings than the kid wearing jeans and the latest sports gear on Mexican television.

There is a perverse need to see foreign performers in their native dress rather than in the T-shirts and baggies that they usually wear off stage. We don't want them looking too much like us, because then we assume that their music is calculated, marketed, impure. Heaven forbid they should be at least as aware of the larger world as we are. All of which might be true, but more important, their larger awareness might also be relevant to their music, which in turn might connect it to our own lives and situations. Heaven forbid.

La Nueva Generación

In the last couple of years, there have been any number of articles in newspapers and magazines about how Latin music in particular was finally going to become hugely popular in the U.S. of A. Half — yes, half — of the current top 10 singles in Britain, that hot and sweaty country, are sort of Latin, if you count Geri Halliwell's "Mi Chico Latino," and why not? The others are watered-down remakes of Perez Prado's hits from the 50's and 60's. The Buena Vista Social Club record is the No. 1 selling record, in any category, in funky Germany. Les Nubians, a French-African group, is getting played on urban (translate as "black") radio in America. So is this a trend or what? Are these more than summer novelty tunes for anglos? Are we really going to learn to dance, or is this some kind of aberration?

But what about the alterna-Latino bands that are touring the United States and Europe in increasing numbers. The Columbian band Bloque (which, I confess, is on my label) was named best band of the year by a Chicago critic; Los Fabulosos Cadillacs won a Grammy last year. Both bands, and many, many others, mix the grooves of their neighborhoods with the sounds and attitudes of the North American tunes they also grew up with. They are a generation with a double heritage, and their music expresses it.

It's tough for this bunch to crack the American market: they're not always cute, safe or exotic. Their music is often more innovative than that of their northern counterparts, which is intimidating. And as cool as they are, they insist on singing in their own language, to an audience that identifies completely with them, thereby making it more difficult to gain a foothold in the States.

These bands are the musical equivalent of a generation of Latin American writers, including Gabriel García Márquez, Isabel Allende, José Amado and Mario Vargas Llosa, that was referred to as the Boom. These musicians are defining their generation, finding a unique voice, and will influence countless others outside their home countries. Here, I believe, is where change will happen. Although they don't sell very many records yet, these and others (for things analogous to this are happening everywhere, in Africa, in Morocco, in Turkey) will plant the seeds, and while I enjoy hearing Ricky Martin's merengue on the radio, these others will change my life.

Entrevista ao sr. FMM, parte 5

(Continuação da entrevista ao diretor artístico e de produção do FMM Sines, Carlos Seixas)
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5. Deixemos os números para trás. O saxofonista norte-americano David Murray esteve no FMM em 2001. Voltou em 2002 e 2004. Arranjou até casa em Sines e hoje é uma figura fácil de encontrar pela cidade. É o caso extremo de uma relação que os músicos constroem com o festival, com a zona. Que outras histórias há para contar?

Vítor, o David já esteve em mais edições! Também em 2007 e 2010. As cinco vezes com projetos diferentes, que revelam a criatividade e trabalho de composição notável deste músico maior. Vive em Paris mas passa aqui em Sines alguns meses por ano, intervalo entre palcos. Comprou casa com vista para o mar, sedimentou amizades e sente-se integradíssimo na comunidade local.

Penso que um festival com objetivos bem definidos como este tem uma palavra a dizer quanto à ligação da comunidade com os artistas que a visitam. Como sabes, durante o período da festa há alguns músicos que se misturam facilmente com a população e os visitantes. Outros ficam pela região mais uns dias para férias. Há pequenas histórias, histórias simples com gente afável e sem vedetismo! Que gostam tanto de nós como nós gostamos deles. Profundamente!

E tudo isto me leva ao texto do Byrne, "i hate world music", ficando feliz porque isso acontece aqui:

"…Talvez esteja a ser ingénuo, mas gostaria de acreditar que assim que passamos a amar certos aspetos de uma cultura – a sua música, por exemplo –, nunca mais poderemos pensar no povo dessa cultura como menor do que nós próprios. Gostaria de acreditar que se me emocionar profundamente com uma canção que tenha origem num lugar diferente do sítio onde vivo, terei, em certo sentido, partilhado uma experiência com o povo dessa cultura. Terei sido agradavelmente contaminado..."



(Na fotografia, Carlos Seixas e David Murray)

quinta-feira, 5 de Julho de 2012

E porque, como sempre, os cartazes bonitos são para serem vistos, eis o de godspeed you! black emperor



Entretanto, já há mais informações aqui. Os bilhetes vão ser postos à venda em breve.

PARA JÁ TUDO! godspeed no Porto, em outubro!

Parece que os godspeed you! black emperor, que recentemente voltaram a dar concertos, dizendo-se por aí que vão gravar novo álbum, estão escalados para atuarem no Amplifest, o festival organizado pela Amplificasom, no Porto. Vai ser no dia 28 de outubro e é a primeira data da digressão europeia do coletivo no outono, como se pode ver no site da constellation.

Entrevista ao sr. FMM, parte 4

(Continuação da entrevista ao diretor artístico e de produção do FMM Sines, Carlos Seixas)
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4. A propósito de números, o crescimento trouxe ou virá a trazer ao FMM sustentabilidade financeira ou a sua realização estará sempre dependente do financiamento da autarquia? Como é que a crise das finanças públicas tem afetado, nesse contexto, o FMM?

A sustentabilidade de qualquer serviço público cultural é problema sério! Exceto se há mecenato forte e duradouro por trás ou pela frente! Ou então uma qualquer candidatura específica a financiamento de Bruxelas! Mas sempre a prazo. Como sabes basta haver uma leve crise financeira ou, em caso extremo, uma delegação externa a dirigir um baile mandado e o primeiro setor a levar com restrições é o da cultura.

Quanto ao FMM afina por este diapasão. Para simplificar, digo direto: a produção é cara e tem qualidade, o bilhete é barato e mesmo assim com algum público renitente em comprá-lo preferindo assistir através dos ecrãs ou reservando-se para os concertos gratuitos. As receitas de bilheteira vão um pouco mais além de um terço do orçamento global. O apoio e mecenato de empresas com outras receitas provenientes de licenciamento de vendas ao público, merchandising e afins dão para outro terço. O restante dos custos era suportado pela autarquia.
No entanto, desde 2010 e até 2013, o FMM é cofinanciado pela Rede Urbana Mobilidade Inovação e Memória / Rede de Cidades do Litoral Alentejano, no âmbito do programa operacional INALENTEJO do QREN 2007-2013, com fundos FEDER/UE. O que garante uma comparticipação financeira da autarquia muito leve. E após 2013??

Mas, sem espanto, as estatísticas oficiais servem para reativar memórias: "em 2010, realizaram-se 30 088 sessões de espetáculos ao vivo, com um total de 10,2 milhões de espetadores, dos quais 4,6 milhões pagaram bilhete"! Afinal esta coisa até é relevante para a economia nacional. No caso específico da música: número de espectadores a roçar os quatro milhões e receitas de bilheteira na ordem dos cinquenta milhões de euros.

quarta-feira, 4 de Julho de 2012

Sexta-feira, há...

Entrevista ao sr. FMM, parte 3

(Continuação da entrevista ao diretor artístico e de produção do FMM Sines, Carlos Seixas)
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3. Falavas atrás, a propósito de Sines, de "uma comunidade aberta ao mundo". Todos os anos se vê a simpatia com que os locais recebem, de uma forma geral, pessoas que lhes são tão diferentes. Como vês a região a receber o festival e em que é que o festival mudou a região?

Olha, já que ambos gostamos de números respondo-te com eles.

De 1999 até agora a estimativa de espetadores ronda os seiscentos mil. Uma grande fatia proveniente de outras paragens que não a cidade de Sines. A economia local e regional beneficia! Mesmo que o nosso público, que não é esbanjador, seja comedido com a oferta gastronómica da região e não seja demasiado exigente com o alojamento, a coisa já ultrapassa as centenas de milhares de euros. Basta fazer contas!

Depois há a imagem da cidade. No site FMM referimo-nos a isso. Desde as primeiras edições temos recebido jornalistas de vários órgãos de comunicação europeus, a crítica especializada, a blogosfera, e todos são unânimes na qualidade do festival. Publicações como o Libération, o L'Humanité, o Courrier International, o The Sunday Times, a revista Songlines têm destacado a qualidade da programação, os músicos participantes consideram-no um dos melhores festivais da Europa e toda a imprensa portuguesa tem dado relevo à sua excelência como evento cultural. E Sines lá está! Com todo o seu charme e localização apetecível. O complexo petroquímico ou as indústrias pesadas passam a segundo plano.

E para terminar mais um dado relevante: segundo um estudo efetuado pela Cision, em 2011, a cobertura mediática do FMM só nos meses de julho e agosto representava um valor publicitário correspondente a mais de um milhão de euros.


(Resposta atualizada com mais detalhe às 15:46)




terça-feira, 3 de Julho de 2012

Entrevista ao sr. FMM, parte 2

(Continuação da entrevista ao diretor artístico e de produção do FMM Sines, Carlos Seixas)
<< Parte 1

2. A primeira edição, em 1999, tinha apenas sete nomes, quatro deles portugueses. Durou três dias e realizou-se apenas no castelo. Nessa altura, passava-te pela cabeça que o FMM podia vir a dar o salto que deu alguns anos mais tarde, em público, em organização, em dimensão do cartaz?

Como sabes, naquela altura a oferta cultural na periferia era reduzida e muitas vezes redutora, embora quanto a festivais de matriz similar houvesse as referências dos Encontros Musicais da Tradição Europeia, promovidos pela Etnia em várias cidades do país; o Cantigas do Maio, organizado pela Associação José Afonso, iniciado em Setúbal e depois consolidado no Seixal; o Viva a Rua em Évora, organizado pela câmara local; o Tom de Festa em Tondela, promovido pela Acert; o Festival Intercéltico do Porto, entre outros. Alguns destes já com bastante público e divulgação mediática.

A primeira edição curiosamente foi realizada no mês de agosto. Tinha sido preparada em poucos meses. Havia algumas reservas por parte de alguns membros do executivo da câmara mas uma vontade firme do presidente, um orçamento reduzido e uma grande ansiedade para saber como o público reagiria. Sabíamos que mais cedo ou mais tarde o Festival de Sines poderia dar o salto! Seria uma questão de tempo e de afinação organizativa, mesmo que nos primeiros anos fosse difícil.

Mas queríamos uma programação mais abrangente, que o FMM não se resumisse ao "reino do exótico" como escreveria o David Byrne em outubro desse ano. Da tradição ao jazz, do tango ao reggae, da fusão ao folk. Mas também da erudita ao rock!

Pretendíamos um festival que servisse de ponte cultural entre o norte e o sul, o oriente e o ocidente, que motivasse o diálogo intercultural. Que desse importância ao trabalho criativo de artistas que normalmente são afastados dos grandes circuitos mediáticos, independentemente do género musical e da geografia dominantes. Três anos mais tarde acontecia a primeira grande enchente do castelo!

O novo dos Dirty Projectors

"Swing Lo Magellan", o novo álbum dos Dirty Projectors, sai para a semana, pela Domino. Se ainda não o apanharam por aquela via do costume, podem ouvi-lo através do Guardian.

As quintas-feiras de verão no Museu do Chiado

No Jardim das Esculturas do Museu Nacional de Arte Contemporânea, o final de tarde das quintas-feiras volta a ser preenchido com programação da Filho Único. Sempre a partir das 19h30, haverá concertos ou gente a passar discos. Na próxima quinta-feira vai por lá estar B Fachada, em concerto. A entrada é livre. Programa:

5/7: B Fachada
12/7: IKB
19/7: Dolphins Into The Future
26/7: Éme
2/8: Slight Delay (DJ Set)
9/8: Rui Miguel Abreu (DJ Set)
16/8: João Peste (DJ Set)
23/8: Norberto Lobo (DJ Set)
30/8: B Fachada (DJ Set)

segunda-feira, 2 de Julho de 2012

Entrevista ao Sr. FMM, parte 1

Chegámos a julho. Todos os anos, quando no calendário o L toma o lugar do N, há muitos portugueses que entram de férias, há os que delas regressam, há ainda os que se lembram do que era ter um emprego e do que era terem agora o descanso, há os que bulem todo o ano para que não lhes aconteça o mesmo, há os que se queixam do calor, há os que se queixam que o verão ainda não chegou, há os que desesperam porque o futebol parou ou porque não há amigos com quem sair para os copos. Entre estes e além destes, há os que anseiam pela chegada iminente de mais um FMM Sines, que desde 1999 vem conquistando corações e multidões.

No próximo dia 19, começa mais uma edição. Até dia 28, cumprindo a tradição do encerramento no último fim-de-semana do mês, os palcos do FMM vão receber gente de todas as paragens, engrossando um vasto e nobre currículo que atira com este festival para as melhores páginas das publicações estrangeiras dedicadas às músicas das várias latitudes e longitudes. Este ano, vamos ali ter, entre muitos outros, a Oumou Sangaré a partilhar o Mali com o Béla Fleck; o Marc Ribot, que traz os seus fantásticos Cubanos Postizos, a partilhar a sua guitarra com os “nossos” Dead Combo; os L’Enfance Rouge que trocam receitas de explosão sónica com as melodias árabes da voz do tunisino Lotfi Bouchnak; também da Tunísia, o Dhafer Youssef que empresta a magia do toque no seu Alaúde ao jazz; a Orquestra Todos que reúne parte do mundo que Lisboa alberga; o Ensemble Note della Taranta que prepara um espetáculo nunca antes visto em Sines; a Amélia Muge, que se junta ao grego Michales Loukovikas num périplo mediterrânico; e mais o Tony Allen com o afro beat, o Otis Taylor com o blues americano, o Bombino com o blues do Saara, o Hugh Masekela com todo o peso de uma carreira notável no jazz africano e norte-americano, o Nortec Collective com eletrónica Cal-Mex, a Imperial Tiger Orchestra com a Etiópia gloriosa, os Shangaan Electro com a velocidade estonteante das novas batidas sul africanas, a Mari Boine, que é sempre tão bem vinda, o Lirinha que regressa depois do cataclismo que protagonizou em Sines com o Cordel do Fogo Encantado, o Zita Swoon Group, que agora se virou também para África, o Eyvind Kang, o Gurrumul, os Astillero, os Uxu Kalhus, os Osso Vaidoso, o Lirinha. Estes e tantos, tantos mais.



Thank you, Carlos. Quem vai ao FMM já se habituou a ouvir esta frase, pequena mas sentida, da boca dos músicos que por ali vão passando e que ano após ano perguntam se podem regressar. Mas, ainda assim, pouca gente entre o público conhece o diretor artístico do festival. Carlos Seixas, o homem ao leme do FMM desde o seu início, pai e avô, fez 60 anos há poucas semanas, mas tem o entusiasmo, o gosto pelo que faz e o espírito de risco que poucos conseguem ainda conservar quando atingem metade daquela idade. Além de meter inveja a todos com a jovialidade que transporta no rosto. Diz-se que tem o retrato de Dorian Gray em casa.

Nasceu em Viseu e viveu a primeira juventude no Porto, onde estudou Economia. Foi professor de matemática de liceu entre 73 e 84, do norte ao sul de Portugal e, pelo meio, em Angola. Como qualquer pessoa que se preze nesta geração, também ele esteve ligado ao famoso movimento dos cine clubes, primeiro o CCP (Porto), depois o Cine Clube e Cooperativa Livreira de Viseu, ajudando ainda a fundar o Cine Clube de Lagos. Viveu em Sines, onde colaborou com o Teatro do Mar e fez parte da comissão instaladora do Centro Cultural Emmerico Nunes. Em 1987, foi para a Guiné-Bissau, onde trabalhou para o Centro Cultural Francês e para a UNICEF. Em Angola, liderou um projeto da ONU para a reintegração de militares. No regresso a Portugal, em 1998, Manuel Coelho, o presidente até hoje da Câmara Municipal de Sines, convida-o para a programação cultural da autarquia, dando início, no ano seguinte, ao FMM. Hoje é ainda responsável pela programação do Centro de Artes de Sines e integra a Associação Pró-Artes desde a fundação da Escola das Artes de Sines. O FMM não foi o único festival em que trabalhou em Portugal. Também o "Músicas do Mar", na Póvoa de Varzim (2007 e 2008) e o "Viseu a 15 do 6" (2007), contaram com a sua ajuda na programação.
Ao longo destes próximos dias, enquanto não chega o FMM, o Carlos Seixas vai responder aqui a algumas perguntas a respeito do festival. O que já passou, o que passará este ano, o que se passa na sua cabeça para o futuro do festival. Para primeira pergunta, um clássico das entrevistas. Como é que tudo começou.


1. Como é que surgiu o FMM? Como é que surges ao leme desta aventura, sem teres experiência, pelo menos por cá, na produção deste tipo de eventos?

Numa conversa prévia com o Manuel Coelho, constatou-se que a cidade tinha todas as condições para acolher um festival de música. Um porto milenar e cosmopolita; uma personagem histórica que embora controversa nasceu aqui; um espaço nobre, uma estrutura urbana e envolvente adequada; uma comunidade aberta ao mundo e recetiva à diferença.

Não havia dúvidas quanto ao formato do festival. É nos portos que o mundo se encontra após travessia de oceanos ou de um sem fim de cruzamentos aleatórios numa terra que não é a nossa. Os contactos interculturais existiam de há séculos, mesmo anteriores às viagens do capitão no século XVI e continuaram após a implantação dos portos industriais na zona.

O festival teria de ser um ponto de encontro da diversidade cultural, acontecimento e montra das expressões musicais do mundo! O nome embora ambíguo surgiu de uma forma óbvia: FMM.

A minha experiência africana foi determinante. Já tinha programado e produzido, durante vários anos, eventos para o Centro Cultural Francês e para a Unicef. Como exemplo em relação à música, um concerto ao ar livre do senegalês Youssou N’Dour, em 1992, na praça Che Guevara, na cidade de Bissau.