sexta-feira, 29 de abril de 2011

E assim (não) acontece aqui ao lado

Se alguém vos perguntar quantos discos precisam de vender numa semana para entrar no top 100 espanhol, arrisquem 75. Não ponham as mãos no fogo por isso, contudo, porque confirmação oficial é coisa que não existe. A informação foi divulgada, por lapso, pela associação responsável no país aqui do lado por publicar tabelas de vendas, a Promusicae. Tal como por cá, as tabelas divulgadas junto do público em geral não costumam trazer informação sobre o número de discos vendidos. Mas esta semana trouxeram. Foram retiradas, claro, após alguém ter dado pela bronca, mas houve quem, alegadamente, fez o favor de guardar esses dados para que todos possamos ver. Espreitem neste forum, por exemplo, que o Blitz, que por cá avançou com a notícia, indicou. A tabela saiu desformatada, mas basta saber que os números aparecem a seguir à designação da editora: exemplares vendidos na semana atual, variação relativa de vendas de exemplares face à semana anterior, exemplares vendidos na semana anterior e, finalmente, total de exemplares vendidos nas semanas em que o artigo esteve na tabela. Importa ainda dizer que a recolha de informação abrange 79% das lojas -- e que nestas estão incluidas as principais, pelo que haverá uma cobertura de vendas superior a 79% -- e ainda as vendas digitais.

Voltemos aos 75 discos. Acham pouco? Mais impressionados ficamos quando começamos a subir na tabela. Nesta semana, para entrar na lista dos 50 mais vendidos, por exemplo, os Strokes apenas precisaram de vender... 162 discos. Estão há cinco semanas na tabela e venderam pouco mais de dois milhares de cópias. Convém recordar, se entretanto já se perderam, que estamos a falar de... Espanha. Não é a lista de vendas do Jumbo de Alfragide.

Ora, se isto acontece em Espanha, o que acontece neste mercadinho pequenininho que é o português? O Blitz aponta algumas pistas, mas o melhor mesmo é esperarmos se a AFP comete o mesmo lapso que os seus homónimos espanhóis.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Música em BD nas bancas

Nas próximas sextas-feiras, tanto o Diário de Notícias como o Jornal de Notícias vão sair para as bancas acompanhados de livros de banda desenhada (e ainda uma compilação em CD) dedicados à carreira de artistas e bandas que marcaram a cena portuguesa nos últimos 30 anos. Trata-se da coleção da Tugaland, editada há pouco mais de dois anos. Por mais nove euros, pode-se levar para casa os seguintes exemplares (sejamos francamente parciais -- só três ou quatro se justificam):

29 de Abril - Xutos & Pontapés (Alex Gozblau)
6 de Maio - GNR (Nuno Saraiva)
13 de Maio - Jorge Palma (Susa Monteiro)
20 de Maio - UHF (Pedro Brito)
27 de Maio - Trovante (Maria João Worm)
3 de Junho - António Variações (Daniel Lima)
10 de Junho - Sétima Legião (Rui Lacas)
17 de Junho - Pop Dell'Arte (Fernando Martins)
24 de Junho - Rui Veloso (Vasco Gargalo)
1 de Julho - Rádio Macau (Luís Lázaro)
8 de Julho - Clã (Tiago Albuquerque)
15 de Julho - Jáfumega (Afonso Ferreira)
22 de Julho - Trabalhadores do Comércio (Pedro Pires, Hugo Jesus e André Caetano)
29 de Julho - Delfins (Adolfo Ana)
5 de Agosto - Heróis do Mar (António Jorge Gonçalves)

No próximo sábado, há...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Morreu a Poly Styrene

(Perdoai o registo de obituário que por aqui anda, mas não há como não falar disto.) Ainda há dias estávamos a pôr os ouvidos no seu regresso aos discos e agora chega esta notícia. Poly Styrene, a antiga vocalista dos X-Ray Spex morreu na segunda-feira, aos 53 anos, vítima de cancro da mama.


("I Luv Ur Sneakers", do novo álbum, "Generation Indigo")

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Morreu o Zé Leonel

Foi um dos fundadores e o primeiro vocalista dos Xutos & Pontapés. Em 1981, saiu da banda, oito anos depois formou os Ex-Votos. O Zé Leonel morreu ontem, vítima de cancro no fígado. Tinha 50 anos.


(Ex-Votos com Kalu, há uma semana, na Malaposta, com "Sémen", um dos temas da autoria do Zé Leonel.)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Meia-dúzia de números

A International Federation of the Phonographic Industry (IFPI), uma confederação de associações empresariais ligadas à indústria musical, lançou no início deste ano o relatório "Recording Industry in Numbers 2011". Eis alguns dos números divulgados junto do público em geral:

* As receitas do negócio digital cresceram 6% em 2010, globalmente (20% na Europa, 29% no Reino Unido, 43% em França). Passaram a representar 29% de todas as receitas (era 25% em 2009).

* Ainda assim, estima-se, a partir de inquéritos levados a cabo nos EUA e no Reino Unido, que entre os respetivos utilizadores de internet apenas 16,5 e 14% fazem compras de música online.

* É cada vez mais raro o sucesso a nível mundial de novos artistas. Os novos artistas que conseguiram entrar na tabela global dos 50 álbuns mais vendidos venderam apenas um quarto do que, em 2003, artistas nas mesmas condições conseguiram. Em Espanha, onde as vendas de música caíram 22%, e onde, tradicionalmente, os artistas nacionais têm um peso significativo no negócio, não houve nenhum espanhol a entrar no top 50 (em 2003, havia 10).

* O mercado do "ao vivo" parece não estar a oferecer garantias de cobertura das perdas nas vendas de música, pelo menos ao nível dos tubarões, de acordo com o relatório e com os dados da Pollstar: em 2010, a venda de bilhetes para as maiores 50 digressões do mundo caiu, em valor, 12%.

* Investigação levada a cabo por entidades alegadamente independentes revelou que até 2015 as indústrias criativas poderão perder 1,2 milhões de empregos na Europa. Nos EUA, entre 1999 e 2009, o número de músicos diminui 17%, ao passo que as vendas de discos caíram 53%.

* Outras investigações apontam ainda para um crescimento forte da pirataria em países como Brasil e Espanha, onde 45 e 44% dos respetivos utilizadores ativos de internet usam serviços não licenciados (sendo de 23% a média nos cinco maiores mercados da Europa). Mas até nos países com baixa utilização de serviços não licenciados, o volume de consumo de música de forma "não autorizada" é significativo: no Reino Unido, por exemplo, 76% da música obtida pela via online em 2010 não era licenciada.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A mixtape dos curadores, volume dois

Há semanas, os Animal Collective, que são os programadores do próximo ATP de Minehead, em Inglaterra, disponibilizaram uma compilação com os artistas por eles convidados. Eis que voltam à carga com um segundo volume:

ATP Animal Collective Mix Vol. 2 by All Tomorrows Parties

00:00 Walkabout - Atlas Sound (Featuring Panda Bear)
03:54 Golden Phone - Micachu And The Shapes
06:33 Psychotic Photosynthesis - Omar-S
17:07 F Kenya Rip - Highlife
22:40 Physical Memory - Oneohtrix Point Never
33:26 Armour - Kria Brekkan
35:14 The Ecstasy (At The Summit) - Terry Riley
40:37 Tunnel Rats - Soldiers Of Fortune

Mais uma leva de novidades FMM: agora nomes para REBENTAR

É caso para parar o que se esteja a fazer, marcar ou confirmar férias para Julho, arranjar casa ou começar a arejar a tenda e tratar de tudo o resto que importa, porque não vai dar para perder mais uma edição do FMM Sines. A organização abriu hoje mão de mais três dos nomes que fazem parte do cartaz, três nomes com peso suficiente para rebentar com tudo.

A dupla Sly & Robbie vai voltar a Sines, depois do mítico encerramento de há dez anos atrás, quando compunham a secção rítmica dos Black Uhuru. Agora, vão voltar a encerrar (dia 30, portanto), prestando suporte a Junior Reid, que curiosamente também já passou pelos Black Uhuru nos anos 80.



No dia anterior, sobem também ao palco do castelo os alemães (e marroquinos) Dissidenten. Foi um dos primeiros projetos a aliar o rock às músicas de África e do Oriente, tem na discografia esse disco obrigatório em qualquer casa de gente com bom ouvido, "Sahara Elektrik", e, mesmo apesar de um dos seus fundadores, Uve Müllrich, residir em Portugal, esta será a estreia em palcos nacionais.



No primeiro fim-de-semana, a 22, há Secret Chiefs 3! A banda de Trey Spruance (também Mr. Bungle, entre um rol imenso de projetos pelos quais passou) já tinha vindo ao Porto (atualização: e a Lisboa), estreando-se agora no palco de um grande festival. É para estourar logo ao primeiro fim-de-semana.



Entretanto, e durante a minha mais recente ausência, a organização do FMM tinha já anunciado a vinda ao festival do senegalês Cheikh Lô e dos palestinos Le Trio Joubran (ambos dia 22, aos quais se juntam agora os Secret Chiefs 3) e dos suíços Mama Rosin (dia 27).

domingo, 10 de abril de 2011

Mas, já agora, uma pergunta

Quantas bandas viram vocês que, regressadas ao ativo, gravam um disco tremendo como "My Father Will Guide Me Up a Rope to the Sky", dão concertos tão intensos como o de ontem, onde tocam versões demolidoras de temas antigos, com a segurança perfeita de um relógio suíço, e ainda... surpreendem com dois temas inéditos?
(Segundo o Mário, os temas inéditos chamam-se, pelo menos por enquanto, "The Apostate" e "Avatar".)

Foi ontem. E ficou marcado para a vida.

Não há de todo tempo para desenvolver, mas fica o testemunho que ontem assisti a um dos mais impressionantes, um dos mais intensos, um dos melhores concertos da minha vida. O Pacheco gravou o encore:

terça-feira, 5 de abril de 2011

Mais um indício do estouro que está aí para vir com os Gang Gang Dance

A boa gente da 4AD libertou mais uma faixa de "Eye Contact" (sai dia 10 de Maio), depois de "Glass Jar", posta na rua no mês passado. Esta chama-se "Mindkilla" e já se está mesmo a ver que vai dar para remisturas com fartura.

The Brothers Unconnected também em Portugal!

Sir Richard Bishop anunciou hoje no facebook duas datas para The Brothers Unconnected em Portugal, no mês de Maio: dia 6, na Culturgest do Porto (esta já tinha sido divulgada pela Filho Único, que promove os concertos) e dia 7 no auditório da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Tomboy" em posto de escuta

"Tomboy", o novo do Panda Bear, já pode ser escutado no Guardian ou na NPR. Sai dia 19, via Paw Tracks.



After a stint in New York, Lennox relocated to Lisbon, where Person Pitch and Tomboy were made. The sunny and colorful Portuguese capital seems like a perfect match for Panda Bear's radiant music, but for Tomboy, Lennox chose a secluded basement studio in which to record. NPR

O fim, agora em versão completa



Mais de três horas e meia de, de, ... enfim, de uma vontade indómita de lá ter estado.

O fim



Foi assim, no sábado, no Madison Square Garden de Nova Iorque. O fim dos LCD Soundsystem. Trago para aqui o texto que o Vítor Belanciano deixou na sua coluna de opinião do Público na passada quarta-feira. Há que concordar com todas as palavras, todos os sinais de pontuação:

O FIM

Talvez tenha começado a fazer aquilo em que realmente acreditava tarde, mas sei lá o que é isso de ter começado tarde. A frase é de James Murphy, americano, músico, 40 anos, líder dos LCD Soundsystem, um dos projectos da música popular mais expressivos dos últimos dez anos. No sábado, em Nova Iorque, num concerto de três horas no Madison Square Garden, sobem ao palco pela última vez. Depois, o fim.

Nos últimos oito anos entrevistei quatro vezes James Murphy e vi-o em palco em meia dúzia de concertos em diferentes partes do mundo. Dos muitos músicos com quem já falei foi talvez aquele em que percebi uma maior consciência do lugar que ocupava e do que desejava para si próprio. Não por calculismo. Mas para poder assegurar que os efeitos sociais e culturais da sua actuação correspondiam às suas escolhas de base.

Não por acaso, o primeiro tema que criou, “Losing my edge” (2002), constituía uma brilhante e irónica reflexão sobre como gostar de determinada música nunca é um gesto desinteressado. É uma forma de dizermos que pertencemos a um mundo e não queremos pertencer a outro. É uma escolha não dissociada do que somos e com quem desejamos estar conectados.

Em Maio do ano passado, quando o entrevistei pela última vez, já sabia que a presente digressão seria a última. Dizia não ver propósito em continuar apenas para ser mais conhecido, ganhar mais dinheiro ou ser obrigado a reinventar-se a partir de estímulos exteriores, quando o seu desejo era ser ele próprio.

Há quem não acredite no seu gesto, dizendo que é apenas mais uma encenação. Há quem sustente que é desejo de atenção. E quem acredite que regressará como outros. Não creio. Pelo menos no formato actual.

Há um ano, quando proferiu a frase com que iniciei este texto, acrescentava que ser um músico tardio tinha inconvenientes mas vantagens. Ser mais seguro das suas opções permitia-lhe obter hoje muito mais prazer.

É assim James Murphy. Num contexto onde todos se pisam por momentos de fama em reality-shows e onde todos querem parecer jovens, o quarentão de ar anafado, assumiu as suas fragilidades – não é grande cantor, não é um dotado tecnicamente – para as superar, criando alguma da música mais vital dos últimos anos, apostando em ser autêntico porque é essa a única forma de ser singular e retirando-se de cena com naturalidade.

Enquanto uns desesperam com o futuro das suas carreiras e em estarem sempre sob as luzes dos holofotes, ele vai à sua vida, para ter uma existência tranquila. Trocou os aviões, a exaustão das digressões e os quartos de hotel, por uma presença mais relaxada.

Os vinte anos não foram fáceis para ele. Andou perdido. Reinventou-se aos trinta. Mas acabar agora nada tem a ver com a idade, nem com o mito da juventude ainda tão conectado com a cultura pop ou com querer acabar no auge. É outra coisa. É a verdadeira mudança, dizia o ano passado. A que exige persistência, conhecimento de si e dos outros. É aceitar que chegou o tempo de recomeçar de outra forma. Na música, não é fácil encontrar alguém tão livre como ele.


Vítor Belanciano, Público 30-3-11

Faltam cinco dias

(Cinco para Lisboa, seis para o Porto.)