sexta-feira, 30 de abril de 2010

Duas mãos

Noutros tempos, uma resposta frequente de Adolfo Luxúria Canibal a perguntas do género "a quem é que os Mão Morta se dirigem?" era algo como: "Os Mão Morta dirigem-se tanto ao miúdo traquinas da última carteira como ao intelectual de óculos da primeira". Ou outras palavras parecidas. Com o tempo, fosse pelo permanente desejo da banda, enquanto colectivo, em arriscar pisar novos terrenos sonoros, fosse pela entrada de novos elementos provenientes de outras andanças, fosse pelo que fosse, os Mão Morta vieram alargando a sua base de seguidores, ao mesmo tempo que deixavam claro (e continuam a deixar) provas de vida inegáveis. Do ponto de vista estritamente musical, que é olhar para a carreira do grupo como descrever um elefante pela tromba, meteram-se no trip-hop com "Tu Disseste", foram ao nu-metal com "Cão da Morte", experiência que ganhou com o tempo (falo por mim, obviamente) e que acabou por, de alguma forma, moldar os arranjos ao vivo para temas mais antigos, como os mais pesados do disco "Mutantes S.21". Pelo caminho, reforçaram a expressão conceptual e dramática como ninguém por cá (e poucos lá fora) consegue, com projectos como "Müller..." e "Maldoror". Hoje, 25 anos depois dos primeiros concertos, e para responder àquela tal pergunta usando o mesmo tipo de metáfora, o Adolfo teria que demorar mais tempo a apontar os estereótipos da sala de aula. E parte desta noite no Coliseu dos Recreios teve a ver com isto, como numa ilustração viva do que têm sido estes 25 anos e do que poderão ser os próximos.

Apetecia-me escrever 500 ou 1000 linhas sobre "Tiago Capitão", tema que abriu o primeiro dos três encores da noite, que encerra o novo "Pesadelo em Peluche" e que é, na minha opinião, o melhor momento dos Mão Morta nos últimos anos. Ainda que não seja especialmente rico ou diversificado de composição ou de arranjos, podendo resumir-se a um riff de piano, ao qual vão sendo sobrepostos e contrapostos cânones nos outros instrumentos, inclusive na voz de Adolfo, num refrão também ele repetitivo -- "Vamos em frente, olho por olho, dente por dente, ó Capitão" -- há algo por ali que mexe em memórias e afectos, talvez a atmosfera de canção antiga de revolução, de canção de partisanos em homenagem a um herói nunca esquecido no tempo... cheguei até a imaginar o tema no reportório do Zeca Afonso. Não é tão bom quando a música nos faz ter estas viagens?

O contraponto de "Tiago Capitão", e daí o título deste texto rapidamente amanhado por falta de tempo para mais, foi "Como um Vampiro". Confesso que tenho grandes dificuldades em conceber o grupo neste registo (inédito) de "gótico alla Heroes del Silencio" -- lamento não encontrar outra forma menos ofensiva de o dizer -- ainda para mais com o vocalista dos Moonspell, segunda voz no disco e no palco desta noite, que ainda trouxe um colorido, passe o termo, mais folclórico à ocasião.

Entre os novos temas, aos quais faltará certamente a necessária rodagem (ainda que, surpreendentemente, tenham corrido muito melhor do que esperava para uma primeira apresentação, fosse quem fosse que estivesse em palco), destaco ainda "O Seio Esquerdo de R.P.". Juntamente com "Tiago Capitão" e "Estância Balnear" (que, salvo erro, faltou) constitui um dos melhores momentos do disco. Houve ainda, claro, a recuperação de canções antigas, que funcionam sempre -- começaram, aliás, por agarrar desde logo o público com "Oub'Lá" e "E Se Depois".

Foi bom, mas também foi estranho. Certamente que os extremos a que aludi ajudaram muito a esta sensação de estranheza com que saí (não fui o único, entre os que me rodeavam) do Coliseu depois destas duas horas ou mais de concerto. Uma coisa é garantida: venham mais, que até agora, não nos cansámos. E eles também não.

Alinhamento, obtido em parte com ajuda da reportagem da querida Lia no Blitz (para o fim, a ordem já não é certa, desculpem): Oub'Lá, E se Depois, Teoria da Conspiração, O Seio Esquerdo de R.P., Fazer de Morto, Como um Vampiro, Budapeste, Novelos da Paixão, Amesterdão, Barcelona, Vamos Fugir, Cão da Morte, Anarquista Duval, Tiago Capitão, 1º de Novembro, Quero Morder-te as Mãos, Velocidade Escaldante e Charles Manson. Actualização, com ajuda do Nuno Proença: 1. Oub'Lá, 2. E Se Depois, 3. Teoria da Conspiração, 4. Penitentes Sofredores, 5. Tu Disseste, 6. O Seio Esquerdo de R.P., 7. Fazer de Morto, 8. Como Um Vampiro, 9. Budapeste (Sempre a Rock & Rollar), 10. Novelos de Paixão, 11. Tardes de Inverno, 12. Em Directo para a Televisão, 13. Amesterdão (Have Big Fun), 14. Barcelona (Encontrei-a na Plaza Real), 15. Vamos Fugir, 16. Cão da Morte, 17. Anarquista Duval // 18. Tiago Capitão, 19. Paisagens Mentais / 20. 1º de Novembro // 21. Quero Morder-te as Mãos // 22. Velocidade Escaldante, 23. Charles Manson

quinta-feira, 29 de abril de 2010

É hoje!



Hoje dá-se o regresso, 11 anos depois, dos Mão Morta ao Coliseu dos Recreios, com o novo álbum, "Pesadelo em Peluche", que entrou directamente para o 3º lugar de vendas, e os 25 anos de carreira a contarem como motivos. As portas abrem às 20h30 e o concerto está marcado para começar uma hora depois. Os bilhetes para a plateia custam 20 euros.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Forro in the Dark e outros "latinos" no FMM



Mauro Refosco (tambor zabumba), Davi Vieira (percussão), Guilherme Monteiro (guitarra), e Jorge Continentino (saxofone e pífaro) são quatro brasileiros emigrados em Nova Iorque, como tantos outros. Músicos, como tantos outros. Mas os quatro formam também o colectivo Forro in the Dark, único na forma como casa o forró do Nordeste brasileiro com outras músicas, do rock ao jazz, numa maneira, digamos, muito nova-iorquina. Tornaram-se especialmente conhecidos quando David Byrne os apadrinhou e desde então tem sido aclamados por meio mundo. Vão estrear-se em Portugal com um concerto em Sines, na madrugada de 30 de Julho, junto à praia.

O próximo FMM vai, aliás, ter mais música de expressão ou tons latinos. É o caso da cantora Céu, também brasileira e cada vez mais famosa nos EUA, ocupando na tabela billboard uma posição que já não se via desde Astrud Gilberto, nos anos 60. O seu espectáculo vai ser dia 28 de Julho, no Castelo. Dias antes, a 24 sobe ao palco de Porto Covo, La 33, uma orquestra colombiana de salsa. Da Argentina, e cinco anos depois, regressam ao FMM os 34 Puñaladas: dia 27, no auditório do Centro de Artes de Sines. Na madrugada de 28, actuam na praia os peruanos Novalima. Também na praia, mas na madrugada seguinte, uma estreia em palcos europeus: Las Rubias del Norte vêm dos EUA, não são de origem latina e vêm do canto clássico, com um projecto que recupera a música latina dos anos 30 a 50 do século passado, que dominava as ondas da rádio antes do rock entrar em força. Finalmente, no que a este conjunto de novidades latinas no FMM diz respeito, outro colectivo norte-americano, Grupo Fantasma, também destacado para a praia, para a madrugada de 29.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Vashti Bunyan um dia antes e com B Fachada na primeira parte

Qual Papa, qual Cova da Iria, qual quê. 13 de Maio vai ser o dia de Vashti Bunyan no Lux, antecipado que foi, num dia, o primeiro concerto por cá da mítica figura da folk inglesa dos anos 60. E a primeira parte vai estar a cargo de um valor enorme da nova música portuguesa, B Fachada. Os bilhetes custam 12€ e vão ser colocados à venda na Flur, na Louie Louie e na bilheteira do Lux, a partir da próxima quinta-feira, dia 29 de Abril.

domingo, 25 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mas este gajo só fala de alinhamentos?

Como é que dois alinhamentos tão semelhantes...
Perdoem-me os que não tiveram oportunidade de ver os Sonic Youth, no ano passado, no Primavera Sound, mas não consigo deixar de reagir ao concerto desta noite sem ter por referencial aqueloutro. Como é que dois espectáculos com alinhamentos tão semelhantes, conseguem ser tão diferentes, pelo menos nas reacções que provocaram a mim e, suspeito, a outros que, como eu, também lá estiveram? Será porque hoje estávamos numa sala cheia, comprimida, com muito calor e muito suor, e não numa doca, ao ar livre, entre largos milhares de pessoas, entre horários de dezenas e dezenas de outras actuações? Será porque os temas mais recentes estão agora mais rodados ao vivo? Será porque hoje a banda esteve efectivamente melhor, sem ostentar aquele ar de frete do ano passado? Será porque a empatia com o público foi outra? Será pelo clima de euforia com que toda a gente -- pelo menos ao meu redor -- ansiava pelo concerto de hoje? Não sei. O que sei é que tudo hoje, desde os temas mais recentes até coisas antiquíssimas como "Shadow of a Doubt", "Schizophrenia", "Cross the Breeze" ou "Death Valley '69" soava (e fazia suar) de uma forma que me fez sentir um miúdo a ir aos seus primeiros concertos no Coliseu (tal como o André, que tem 14 anos e saiu de lá com um sorriso de orelha a orelha). Estes foram os "meus" Sonic Youth. Os meus e os de muita gente, ao longo de várias gerações. E provavelmente vão por cá andar ainda em 2020 ou 2030, a conquistar novos públicos e a manter estas relações "para a vida" com as gerações mais antigas. Pelo menos, é o que o espectáculo de hoje sugere.
Muito bem estiveram também os Gala Drop. Surpresa ou não, o cosmos alucinante que o grupo serve tão bem modo dub -- hoje com uma incursãozita por uma cena mais disco-trashy -- acabou por colher bastante entusiasmo junto de público que não os conhecia e que até protestou pelo acontecimento estranho ao último tema. É que as luzes apagaram-se e, segundos depois, aconteceu o mesmo ao som. Toda a gente ali por perto imaginou que terão sido "calados", mas fontes próximas da banda (sempre quis usar esta expressão) garantiu que foi uma falha técnica. Há quem não acredite...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Hits are for squares" ou afinal, o alinhamento vai ser outro

Ao que tudo indica, o alinhamento dos concertos dos Sonic Youth nestas quinta e sexta-feira, em Lisboa e Porto, vai ser diferente daquele que foi tocado em Barcelona e na primeira das datas de Madrid, esta semana, ao contrário do que anunciava aqui. Acontece que aquele alinhamento de hits antigos se deveu ao facto de Mark Ibold, baixista dos Pavement e -- desde a saída de Jim O'Rourke -- também baixista dos SY, não ter conseguido voar para Espanha a tempo daqueles primeiros dois concertos. Entretanto, chegou e já pôde estar presente na segunda data de Madrid e também já se encontra por Lisboa, com o resto da banda. Pelo que se conta, embora ainda não tenha conseguido encontrar nada, com a presença de Ibold, o alinhamento já foi (e será, portanto) diferente.
(Ah, e a performance do Lee Ranaldo na sua Fender Jaguar suspensa no tecto, com a percussão de Rafael Toral, esta noite, foi soberba. E os Times New Viking, que são os filhos rebeldes dos Pavement, ao vivo, são também devastadores.)

terça-feira, 20 de abril de 2010

Canal Panda

"This is Happening", LCD Soundsystem, álbum do ano? Vai estar nas listas, certamente, mas se há uma certeza inabalável, perfeitamente inabalável (e inapelável), é que o videoclip para o primeiro single, "Drunk Girls", é das melhores coisas que já foram vistas nos últimos tempos no que ao casamento entre imagens e música diz respeito. E diz-se que foi realizado por Spike Jonze.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ainda mais a respeito dos SY (spoiler)

(E esta não é para ser lida para quem se aborrece quando vê o alinhamento de canções antes do concerto.)




(Vamos dar aqui alguns espaços, para não haver percalços da vossa parte.)









(Ok, um bocadito mais de espaços.)


















(Está quase, se andarem mais para baixo, vão acabar por ver o alinhamento...)











(Foram avisados)










(3)












(2)












(1)
















(Ok, aqui vai.)









(Só mais algumas linhas, por causa dos últimos distraídos.)















Setlist do concerto no Razzmatazz, ontem em Barcelona, a acreditar no fã que a deixou no last.fm (obrigado, João Belo, pela dica):




1.Candle 2.Bull in the Heather 3.Catholic Block 4.Stereo Sancity 5.Hey Joni 6.The Sprawl 7.Cross the Breeze 8.Trilogy:The Wonder 9.Trilogy:Hyperstation 10.Skip Tracer 11.Shaking Hell 12.White Cross 13.Expressway to Yr Skull (ENCORE) 14.Tom Violence 15.Brother James (ENCORE 2) 16.Shadow of a Doubt 17.Death Valley '69

Quem é que esperava temas do último álbum ou até mesmo temas inéditos, como não é raro nos Sonic Youth? Os Sonic Youth em modo nostalgia. :)
(VAI SER B-R-U-T-A-L, CLARO.)

Apesar do Eyjafjallajökull, há Sonic Youth

Só para sossegar os mais receosos fica aqui a nota de que, apesar das restrições no espaço aéreo e apesar ainda de não haver respostas da entidade organizadora dos concertos por cá às duvidas entretanto surgidas, os Sonic Youth conseguiram chegar a Barcelona, onde actuaram ontem (eis uma prova aqui, por exemplo). Seguem-se hoje e amanhã os concertos no La Riviera, de Madrid, sendo que na quarta-feira teremos o Lee Ranaldo na ZDB com o Rafael Toral (e ainda os Times New Viking), e os esperados concertos de Sonic Youth, nos coliseus de Lisboa e Porto, nos dias subsequentes.

sábado, 17 de abril de 2010

E, já agora, também sobre a celebração do objecto

Por trás da celebração das lojas de discos, naturalmente se esconde a celebração do próprio objecto que naquelas é transaccionado, consultado, discutido, admirado. A esse propósito, veja-se, por exemplo, esta edição luxuosa que a editora belga Crammed acabou de lançar:




Congotronics Vinyl Box Set


Imaginem que, sob este aspecto deslumbrante, se podem encontrar:
- O primeiro álbum dos Konono nº1, "Congotronics";
- O segundo álbum, a editar em breve, dos mesmos Konono nº1, "Assume Crash Position" (LP duplo);
- A compilação "Congotronics 2";
- O álbum dos Staff Benda Bilili, "Très Très Fort", uma das grandes obras primas lançadas no ano passado (e que vamos poder assistir ao vivo no próximo FMM Sines);
- O álbum dos Kasaï Allstars, "In The 7th Moon, The Chief Turned Into A Swimming Fish And Ate The Head Of His Enemy By Magic";
- Um livro de fotografias tiradas em Kinshasa sobre toda a cena "Congotronics";
- Uma pen de 2GB com nove vídeos e mp3s de todos os cinco álbuns aqui incluídos;
- Um sete polegadas com faixas inéditas dos Kasaï Allstars, uma das quais com a colaboração dos norte-americanos... Akron/Family!

Ufa. Até dói.
Tudo isto por 80 libras (para já, em pré-compra durante quatro semanas) e com entrega para o final do mês de Junho.

Hoje é RSD



A Pitchfork apresenta na íntegra, a partir de hoje e durante uma semana, "I Need That Record!", um documentário sobre o declínio das lojas independentes de discos nos EUA.
Não vejam o documentário hoje. Hoje é dia para celebrarmos as (boas) lojas de discos que temos (e que queremos continuar a ter). Hoje é o Record Store Day.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sábado é RSD

O próximo sábado é o grande dia das lojas independentes de discos, o "Record Store Day". Há quase um milhar de lojas de discos por todo o mundo que depois de amanhã vão celebrar o dia de forma especial, com concertos, sessões de deejaying e outras iniciativas. O dia serve também de mote para bandas como os Blur, entre muitas outras, lançarem edições especiais. Por cá, e à semelhança do que já aconteceu no ano passado, o dia é celebrado por alguns dos nossos santuários de perdição:

* A FLUR (Lisboa) é uma das mais empenhadas e vai contar com concerto de Pedro Magina (Aquaparque), sendo que a actuação de Bill Orcutt foi cancelada, por causa das restrições aéreas no Reino Unido provocadas pelas cinzas do vulcão islandês. O Teatro Praga fará uma apresentação especial para "Demo, Um Musical", de Kevin Blechdom, Christopher Fleeger e Andres Loo. Haverá ainda sets de DJ Ride, Vítor Belanciano, Nuno Galopim, Rui Tentúgal e Bros. Rui Miguel Abreu fará uma visita guiada a capas de discos sob a temática "Electrónica e Espaço". No balcão vão estar Joaquim Albergaria, Rui Miguel Abreu, Isilda Sanches, Joana Bernardo, Sérgio Hydalgo, etc. E há também, claro, as inevitáveis promoções, algumas das quais já activas, que podem ser consultadas aqui.

* A JO-JO'S/CD-GO (Porto) vai ter espectáculos de Soaked Lamb (12h), Cavalheiro (16h), Complicado (17h) e Andrew Thorn (18h30). Os discos, o equipamento hi-fi e o merchandising terão 20% de desconto, ao passo que os livros e revistas estarão 10% mais baratos.

* A LOUIE LOUIE (Lisboa, Porto e Braga), terá desconto de 20% em todos os artigos. Na loja de Lisboa vai haver uma exposição retrospectiva de capas de discos da Factory.

* A CARBONO (Lisboa) aproveita e celebra também o seu 17º aniversário. Vai oferecer t-shirts da loja e pacotes surpresa com CDs.

* A TREM AZUL (Lisboa), que estará ocupada em larga parte com a Festa do Jazz terá ainda assim oportunidade de celebrar o RSD através de promoções em alguns artigos.

O site www.recordstoreday.com indica ainda que a WAHWAH (Aveiro) vai associar-se ao dia, mas não é indicada a forma com que o vai fazer. Se alguém souber, se alguém souber de outras iniciativas noutras lojas nacionais, por favor: comentários. E, já agora, para quem se vir perdido em Lisboa, há por cá isto.

Vêm aí o Indie

Vem aí mais um Indie, o festival de cinema independente de Lisboa, que pelo sétimo ano volta a colocar parte da cidade em alvoroço com uma programação criteriosa e atenta. Entre 22 de Abril e 2 de Maio, oito salas vão estar a funcionar durante centenas de sessões de projecção. Entre os vários blocos de programação (consultar aqui), a música volta a ter um espaço importante. Aqui, o principal destaque vai para a estreia mundial de "Significado - A Música Portuguesa se Gostasse Dela Própria", de Tiago Pereira, já aqui falado (só é pena que haja apenas uma sessão, para mais na sala menor do São Jorge). Há também um documentário sobre o festival All Tomorrow's Parties, com actuações de Animal Collective, Sonic Youth, Lightning Bolt, Akron/Family, Grinderman e dezenas de outros nomes incontornáveis num festival que já é mítico. Há filmes sobre a nova música popular de Angola, há os documentários gravados recentemente no MusicBox (ver aqui) e, entre outras propostas, o último documentário sobre os Doors, de Tom DiCillo, "When You're Strange". Mas aqui fica a programação completa do IndieMusic:

All Tomorrow's Parties
Jonathan Caouette (Doc, Reino Unido, 2009, 82')
Un 45 tour de cheveu (ceci n'est pas un disque)
Frank Beauvais (Exp, França, 2009, 7')
23 Sex, 00h00, São Jorge 3
1 Sáb, 23h00, São Jorge 3

Angola - Histórias da Música Popular
Jorge António (Doc, Portugal/Angola, 2005, 52')
Kuduro - Fogo na Museke
Jorge António (Doc, Portugal/Angola, 2007, 52')
27 Ter, 21h45, Culturgest Peq. Auditório

O Lendário "Tio Liceu" e os Ngola Ritmos
Jorge António (Doc, Portugal/Angola, 2009, 52')
30 Sex, 21h30, Culturgest Grande Auditório

Leonard Cohen: Live at the Isle of Wight 1970
Murray Lerner (Doc, EUA, 2010, 64')
24 Sáb, 00h00, São Jorge 3
2 Dom, 18h45, São Jorge 3

Dealema (MusicBox Club Docs)
Paulo Prazeres (Doc, Portugal, 2010, 58')
28 Qua, 19h, São Jorge 1

JP Simões (MusicBox Club Docs)
Paulo Prazeres (Doc, Portugal, 2010, 58')
26 Seg, 19h, São Jorge 1

Micro Audio Waves (MusicBox Club Docs)
Paulo Prazeres (Doc, Portugal, 2010, 58')
27 Ter, 19h, São Jorge 1

Terrakota (MusicBox Club Docs)
Paulo Prazeres (Doc, Portugal, 2010, 58')
29 Qui, 19h, São Jorge 1

X-Wife (MusicBox Club Docs)
Paulo Prazeres (Doc, Portugal, 2010, 58')
30 Sex, 19h, São Jorge 1

On the Road to Femina
Jorge Quintela (Doc, Portugal, 2010, 58')
Life Ain't Enough for You
Paulo Furtado (Exp, Portugal, 2010, 3')
No Way to Leave on a Sunday Night
Paulo Furtado (Exp, Portugal, 2010, 3')
I Just Wanna Know (What We're Gonna Do)
Paulo Furtado (Exp, Portugal, 2010, 3')
25 Dom, 18h, São Jorge 1

Significado - A Música Portuguesa se Gostasse Dela Própria
Tiago Pereira (Doc, Portugal, 2010, 42')
B Fachada Tradição Oral Contemporânea
Tiago Pereira (Doc, Portugal, 2009, 52')
2 Dom, 16h15, São Jorge 3

Strange Powers - Stephin Merrit and The Magnetic Fields
Kerthy Fix/Gail O'Hara (Doc, EUA, 2009, 82')
29 Qui, 00h00, São Jorge 3

Villalobos
Romuald Karmakar (Doc, Alemanha, 2009, 110')
29 Qui, 21h45, São Jorge 1
2 Dom, 21h30, São Jorge 3

We Don't Care About Music Anyway…
Cédric Dupire/Gaspard Kuentz (Doc, França, 2009, 80')
23 Sex, 16h15, São Jorge 3
1 Sáb, 21h30, São Jorge 3

When You're Strange
Tom DiCillo (Doc, EUA, 2009, 90')
23 Sex, 19h00, São Jorge 1
25 Dom, 00h00, São Jorge 3

(Os bilhetes já se encontram à venda.)

Temos um Sónar aqui mesmo acima de nós

O Sónar Galicia, a nova extensão do festival barcelonês, que se realiza na Corunha enter 17 e 19 do mês de Junho (e é sempre mais giro dizer Xuño), está a ficar com uma programação apelativa. Entre concertos e sets de deejaying, vai haver LCD Soundsystem, Air, Hot Chip, 2manydjs, Laurent Garnier, Sasha, Booka Shade, Matthew Herbert's One Club, Fuck Buttons, Flying Lotus, Fat Fish, Uffie, Broadcast, anbb / Alva Noto + Blixa Bargeld, Carte Blanche (DJ Mehdi & Riton), Delorean, The Slew featuring Kid Koala,Cora Novoa, Grobas , Viktor Flores, O.M.E.GA, John Talabot, Ino, Eme DJ, 6PM, Fake Robotique, Fluzo, Caradeniño DJ, BFlecha vs Mwëslee, Cauto, David M, entre outros. E entre o contigente de artistas, encontram-se também os "nossos" valentes Octa Push e ainda Labrador + P.MA (já agora, alguém me confirma que este é P.MA, artista visual nortenho, é o Pedro Maia da movida bracarense dos anos 80, tendo integrado a formação dos Bang Bang, uma versão pré-histórica dos Mão Morta?).
O passe para os três dias custa 50€, havendo bilhetes diários.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pesadelo em escuta

"Pesadelo em Peluche", o novo álbum dos Mão Morta, cuja saída para as lojas ocorrerá na próxima segunda-feira, já pode ser escutado na íntegra no myspace da banda, pelo menos durante esta semana.

Hoje há The Sticks


Mais uma noite Filho Único no Lounge, hoje com os ingleses The Sticks, que já cá vieram fazer a primeira parte dos Black Lips na Caixa Económica Operária, no ano passado. Tocam também amanhã em Coimbra, no Via Club, tendo já passado por Bragança ontem, aparentemente.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Uma viagem pela Ocitânia, paragem nº5



Quem: LO CÒR DE LA PLANA
Onde: Marselha
Quando: 2001-...
Como: Meia dúzia de homens que mantém bem viva a tradição das polifonias ocitanas, cantando na língua da sua nação. Estiveram em Sines há dois anos.
Mais: myspace.com/locordelaplana

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Uma viagem pela Ocitânia, paragem nº4



Quem: MASSILIA SOUND SYSTEM
Onde: Marselha
Quando: 1984-...
Como: Verdadeira instituição da expressão ocitana moderna, este colectivo de reggae (e muito mais) está para Marselha como o Olympique no futebol. E já lá vão mais de duas décadas.
Mais: myspace.com/massiliasoundsystem // www.massilia-soundsystem.com // fr.wikipedia.org/wiki/Massilia_Sound_System

E a boa nova de ontem à noite, agora no formato original



Ou melhor ainda, em www.1119732.net. Já agora, especulando um pouco acerca deste URL, 1119732 será, provavelmente, o número da patente com que Nikolai Tesla registou um dos seus inventos mais curiosos, a bobina de Tesla. Mas isso sou eu, que sigo religiosamente o Lost, que especulo...

Vashti Bunyan em Portugal!

Não param de chegar notícias a que é fundamental dar eco, umas boas, outras más. Esta é uma daquelas notícias que me enche de alegria. Vashti Bunyan, símbolo mítico da nova folk inglesa dos anos 60 (já aqui falei dela por várias vezes, por exemplo nesta postagem) vem a Portugal, no próximo dia 14 de Maio, em sala a anunciar. Façam o favor de dar os parabéns à boa gente da Filho Único (que ainda anuncia o regresso do Atlas Sound, para um concerto no Lux, a 4 de Junho, com Aquaparque na primeira parte).

Esta noite somos visitados por um daqueles colossos imensos



Há quarenta e tal anos, Holger Czukay, então aluno de Stockhausen, então professor de música, então pouco fã de rock, não imaginava provavelmente que viria a ficar com o nome gravado profundamente na história relevante daquele género popular da música moderna, ao fundar e constituir-se como um dos principais motores criativos desse formidável grupo que foram os CAN. Em 11 anos, os CAN vieram e foram, não deixando porém de ficar na cartilha de milhares e milhares de bandas que ainda hoje trilham os caminhos abertos pelos alemães. Czukay continuou com os seus projectos em nome próprio, brincou com a rádio de ondas curtas, fez-se pioneiro da arte do sampling, cortando as fitas das gravações e colando-as, e colaborou com um número infindável de boa gente, com gente mais nova, mas clientes da mesma fonte de génio, como David Sylvian, Brian Eno ou Jah Wobble.

É hoje, sexta-feira. Aos 72 anos, Czukay a Lisboa, ao palco do Lux, num espectáculo promovido pela Filho Único. A primeira parte vai estar por conta dos Gala Drop, que aproveitam para lançar a versão LP do seu magnífico álbum de estreia (e que, entre outras coisas, os vai levar também ao palco do Coliseu dos Recreios, para a primeira parte dos Sonic Youth). Os bilhetes custam 15€, estão à venda na Flur e na Louie Louie ou, depois, na bilheteira do Lux.

Amanhã há...

PÁRA TUDO. Os godspeed vão voltar.

Reza assim um comunicado do grupo deixado no site da boa gente do All Tomorrow's Parties:

FOR IMMEDIATE RELEASE

after a decade's retreat, god's pee has decided to roll again.

we are, as always, stoked, stubborn and petrified.

it's been awhile, and left in the rain, the brakes have rusted and seized- we'll have to go at it with hammers probably, with elbow grease and with fury, just like the old days all over again. we look forward to it. also, moya's back in the fold (hallelujah!)

what we've been up to since the last time= a handful of other bands, and solitary roadtrips and wanderings, a couple of recording studios built, and a restaurant and 3 live venues also. a film soundtrack and 4 new kids and 3 new dogs. dead-end jobs. some farming and vegetable gardens. a small record label. acupuncture as a livelihood. and three of us just stayed on the road.

current plans= a.t.p.u.k., a handful of british and european shows, and then 9 american towns.
until further introspection, WE WILL NOT BE FIELDING ANY OTHER OFFERS. nor will we be doing any interviews. inquiries directed to band, record label, or bookers will not be guaranteed a reply. alls we really want to do is the thing we do, heads down and leaned into the squall.

between now and the live-dates, there'll be rivers of noise and distraction. and the internet is a petty tyrannical monster. please remember that really all that matters is the keep on keeping on. and all that really matters is the shows. and physical engagement in the world. and folks like us and folks like you. thanks for understanding, and thank you for still listening.

see you next winter.

xoxoxox godspeed you! black emperor

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Malcom McLaren (1946-2010)



Ele achava que tinha inventado o punk. E até, justiça lhe seja feita, não estava muito longe da verdade. Sem ele, todo um capítulo imenso da história da cultura popular dos últimos 40 anos teria hoje outra redacção. Situacionista convicto, trouxe o choque e a provocação como tema ao trabalho que desde cedo empreendeu. Com a namorada Vivienne Westwood, abriu a Let it Rock (mais tarde Too Fast To Live Too Young To Die, mais tarde SEX), loja de roupa para teddy boys ou de roupa sado-maso na hoje famosa rua dos punks em Londres, a Kings Road. Em Nova Iorque, fez-se manager dos New York Dolls e levou o grupo ao fim quando os vestiu de uma estética provocativamente comunista numa América habitada pelos fantasmas da guerra fria. De regresso a Londres, criou literalmente os Sex Pistols com os quais construiu a estética que ficaria para sempre associada a Londres e ao ano de 1977. A relação com os Pistols foi efémera, tendo acabado mal, uma vez mais, mas o fenómeno que ajudou a criar foi marcante e teve efeitos duradouros. Criou ainda os Bow Wow Wow, onde uma vez mais gerou polémica, chegando a envolver a Scotland Yard, desta vez por causa das capas com a vocalista Annabella Lwin, menor de idade, em poses de nudez, e foi também manager de Adam and The Ants. Também veio a gravar, ele próprio, discos (curiosamente, ainda há dias comprei o seu segundo single, "Soweto", numa loja do Porto), trabalhou no cinema e, recentemente, chegou mesmo a concorrer às eleições para a câmara de Londres.

Malcom McLaren morreu em Nova Iorque esta manhã, vítima de cancro.

Novelos da Paixão, o vídeo



Primeiro single retirado de "Pesadelo em Peluche", cuja saída está agendada para dia 19 deste mês. A autoria do videoclip é de Rodrigo Areias, o realizador de "Tebas" e habitual colaborador da cena rock de Coimbra (The Legendary Tiger Man, Wray Gunn, D3Ö, etc.).

The Very Best no Sudoeste!

E eis que se encontra finalmente agendada a estreia em Portugal do projecto The Very Best, de Esau Mwamwaya e Radioclit. Fazem parte da mais recente vaga de novidades do festival Sudoeste, a respeito do palco Planeta, que além dos TVB contará ainda com Beirut (dia 8 de Agosto), Friendly Fires (dia 7) e Rye Rye (dia 5, o mesmo dia dos TVB).

Uma viagem pela Ocitânia, paragem nº3



Quem: FABULOUS TROBADORS
Onde: Toulouse (Médios-Pireneus)
Quando: 1987-...
Como: Além dos temas em que, também eles, revitalizam o suposto elo entre o Nordeste brasileiro e a Ocitânia, Claude Sicre e Ange B são reconhecidos pela forma como pegaram na "tenson", uma espécie de desgarrada dos antigos trovadores da região, e a transpõem para um cenário mais próximo, ainda que particularmente distinto e único, do hip hop ou do ragga, em duelos verbais (duels de tchaches) carregados de política e humor. Só é pena que alguns destes melhores duelos não estejam disponíveis no youtube.
Mais: www.fabulous-trobadors.com // oc.wikipedia.org/wiki/Fabulous_Trobadors

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Um pouco de economia não faz mal a ninguém: "Os discos estão caros?"

Talvez haja quem se lembre do Radiobutt, um blogue que, até há pouco tempo, e pelo meio de links para o descarregamento de álbuns inteiros, apresentava análises interessantes e descontraídas do ponto de vista do economista/estatístico para questões muito, pouco ou nada importantes no tema música. O blogue fechou as portas na plataforma da blogger, mas em Fevereiro surgiu de novo, com cara lavada, num novo espaço (radiobuttmusic.com), onde, pelo menos até agora, ainda nenhuma abordagem daquele género surgiu. Para quem ainda quiser apanhar os trabalhos feitos a partir de informação de fontes como o last.fm, do metacritic, ou coisas cómicas como a resposta a uma entrevista dos Kings of Convenience, pode ver neste apanhado que se encontra no elbo.ws, que mostra ainda outros exemplos de estudos além dos do Radiobutt.

Na música, como em tudo (leia-se o "Freakonomics", de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, por exemplo), surgem questões que, ora ficam sem resposta, ora são desde cedo coladas a argumentos provenientes dessa coisa perniciosa chamada "senso comum", que podem, muitas das vezes, e com relativa facilidade, serem postos em causa por uma análise mais fria e mais rigorosa da realidade.

Lembrei-me, por isso, de aqui iniciar uma rubrica, sem qualquer espécie de regularidade fixa, a propósito de algumas destas questões, procurando respostas na informação disponível. E a primeira destas questões, vulgarmente usada e abusada sempre que se fala da crise discográfica:

Os discos estão caros?

Há, entre várias outras possibilidades, duas formas de interpretar a pergunta. Numa primeira abordagem, pretende-se saber se os discos estão hoje mais caros relativamente a outros bens de consumo, do que estavam num momento passado. Não se trata tanto de perceber se os discos são caros, mas sim se estão mais caros hoje do que antigamente por comparação com outros bens. Há que concordar que, se há 20 anos já eram intrinsecamente caros, por mais subjectiva que possa ser esta qualidade, então não será por o serem também hoje que o preço pode servir como argumento para a crise discográfica. O que interessa aqui, então, é perceber se o preço dos discos subiu mais do que o dos outros produtos.

Para esta tarefa, há um indicador ideal: o Índice de Preços no Consumidor (IPC). O IPC é medido a partir dos preços de um conjunto de bens e serviços considerados representativos da estrutura de consumo da população residente em Portugal. A famosa taxa de inflação, por exemplo, é construída a partir da evolução média a Dezembro de cada ano dos últimos 12 meses. Mas não compliquemos. Através de um cálculo muito básico, aqui só se pretende saber quanto este índice evoluiu entre um qualquer momento no passado e a actualidade, como se chegássemos a uma taxa de inflação de um longo período de anos.

Mas antes disso ainda, há que ter uma noção dos preços dos discos nesse passado que queremos comparar com a actualidade. A memória diz-me que no final dos anos 80, comprava LPs na discoteca do Xenon por cerca de 1800 escudos, um preço mais baixo do que na generalidade dos sítios, a começar pela Motor, que uma ou duas centenas de metros mais abaixo, nos Restauradores, tinha preços à volta de 1900 ou 2000 escudos. De uma consulta que fiz à memória de amigos, não há grande divergência de números. Quem estiver a ler isto pode também avançar com outros preços que se lembre (ou até que estejam ainda afixados nas capas dos discos).

Voltando ao IPC, e se usarmos os anos de 1989 e de 2009 como balizas temporais de um período de aproximadamente duas décadas, podemos concluir que os preços, na sua generalidade, evoluíram 2,34 vezes (fonte: INE, Índice de Preços no Consumidor no Continente). Se olharmos para a série do IPC que não considera o preço da habitação, essa variação é ligeiramente menor: 2,28.

Ora, se um disco custava em 1989, em termos médios, 1900 ou 2000 escudos (ou seja, 9,5€ ou 10€), e se este evoluísse à mesma medida que os preços dos bens que compõem o cabaz de consumo dos portugueses, incluindo a habitação, hoje teríamos preços à volta dos 22€ ou 23€. E temos, realmente? Não. Em 2010, não é, de facto, frequente um disco, em CD, chegar sequer aos 20€. Já os LPs custam isso ou mais em sítios não especialmente vocacionados para a venda do formato, mas ficam aquém destes preços nas lojas especializadas. Estão os discos mais caros do que eram antigamente? Não.

Numa segunda abordagem, como prometida mais acima, podemos olhar não só para a evolução dos preços, mas também para o que aconteceu com os ganhos de poder de compra. De uma forma geral, embora isso não aconteça sempre, muito menos neste período de recessão, os salários crescem mais que os preços. Em termos simplistas, a economia cresce e o ganho desse crescimento é distribuído pelos factores que o geraram (não vem ao caso a justiça dessa distribuição). Podemos então olhar para o que foi o crescimento dos ganhos resultantes do trabalho, o que podemos fazer através da informação de um instrumento estatístico chamado Quadros de Pessoal, do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, que regista, entre muitas outras coisas, as remunerações e os ganhos (um conceito mais lato de vencimento) ao longo dos anos (informação, uma vez mais, disponível no pordata). E, entre 1989 e 2008 (ano disponível mais recente), os ganhos médios dos trabalhadores por conta de outrem portugueses, do regime privado, aumentaram 2,47 vezes. Mais do que os preços, como dizia. Ou seja, se o tal disco que em 89 custava 1900/2000 escudos evoluísse da mesma maneira, hoje teria que custar quase 25€. E não custa.

Foram duas abordagens possíveis para uma resposta negativa à pergunta "os discos estão caros?". Por favor, deixem de usar esse argumento para a queda no mercado da música gravada. Talvez seja mais indicado o argumento do alargamento da gama de bens consumidos hoje aos telemóveis e às respectivas chamadas, ao fornecimento de internet e de televisão, às roupas caras de usar e deitar fora, ou, mesmo na música, aos dvds, aos concertos, etc. Ou ainda, claro, à gratuitidade das canções. Há até instrumentos estatísticos que permitem estudar a evolução da composição do cabaz de consumo dos portugueses, mas isso fica para outras núpcias...

Uma viagem pela Ocitânia, paragem nº2



Quem: BOMBES 2 BAL
Onde: Toulouse (Médios-Pireneus)
Quando: 2000-...
Como: Quatro mulheres, dois homens, cantam em ocitano, mas também muito em francês, e têm mostrado, logo desde o primeiro álbum, "Danse Avec ta Grand-Mère" (2004), a notável relação que existe entre a música da sua região e aquela que no Nordeste brasileiro veio a ser conhecida por forró.
Mais: www.bombes2bal.com // myspace.com/bombes2bal // oc.wikipedia.org/wiki/Bombes_2_bal

terça-feira, 6 de abril de 2010

Uma viagem pela Ocitânia, paragem nº1



Quem: LA TALVERA
Onde: Còrdas (Médios-Pireneus)
Quando: 1979-...
Como: Enquanto grupo, La Talvera surgiu como meio de financiamento dos trabalhos de pesquisa e difusão do rico património cultural ocitano levados a cabo pela associação Cordae (ver no site abaixo indicado). Ao longo destes 30 anos, têm não só trazido a cultura da terra da "língua do oc" ao mundo, como têm trazido esse mesmo mundo até aquelas paragens geográficas e culturais, à semelhança do que tem sido prática de outros grupos ocitanos. Nos últimos anos têm colaborado com os conterrâneos Massilia Sound System, com músicos brasileiros como o Silvério Pessoa, entre outros.
Mais: www.talvera.org // reportagem dos 30 anos de La Talvera

Fela, o musical?

Sim, a vida de Fela Kuti é o tema de um musical que estreou em Novembro do ano passado na Broadway, com... Jay-Z e Will Smith na lista de produtores, e com estreia prevista para Novembro deste ano em Londres (mais aqui).

O fim do Imago

Já não vai haver 11ª edição do Imago. A organização do festival de cinema (e muito mais) do Fundão, pôs um ponto final no projecto, deixando em aberto a possibilidade de regressar com novas ambições, num comunicado pouco esclarecedor e até mesmo confuso (qual o significado das comparações das bandas, escritores e realizadores?):
IMAGO. O Fim, porque Sim!

Caros Senhores

Depois de 10 anos a sermos pioneiros e a marcarmos tendências em termos do que são hoje as estruturas dos maiores festivais de cinema nacionais.
Depois de 10 anos a combater a ostracização por parte dos poderes públicos e da generalidade dos media nacionais ("de Lisboa") que não conseguem ver a mais de 1 km de distância da capital (e o Fundão está quase a 300).
Depois de 10 anos a trazer até Portugal alguns dos nomes que marcaram o cinema e a música do final do século XX e do inicio do século XXI.
Depois de 10 anos a procurar estar permanentemente na vanguarda duma programação cultural sem cedências.

Achamos (em comum acordo com o parceiro local - a Câmara Municipal do Fundão) que é a hora de colocar a palavra "FIM" neste projecto.

Hoje em dia para nós o modelo "festival de cinema" é extremamente limitador e até caduco. A generalidade dos festivais de cinema (em Portugal e lá fora), para não dizer todos, são aborrecidos, enfadonhos e sem alma.

Fazêmo-lo numa altura em que tínhamos garantidos mais dois anos de subsídios do ICA/MC e todo o apoio da Câmara Municipal do Fundão e dos maiores sponsors para continuar com o modelo existente.
Fazêmo-lo porque achamos que é a hora e o momento de o fazer, a exemplo de tudo o que fizemos até aqui.
Com 10 edições a correrem bastante bem e a darem momentos às pessoas capazes de perdurarem para sempre no tempo, parece-nos que esta é a opção que se impõe.

Se fôssemos uma banda rock queríamos ser os Beatles ou os Smiths e não os Rolling Stones ou os U2!
Se fôssemos um escritor queríamos ser o J. D. Salinger e não o Saramago!
Se fôssemos um realizador queríamos ser o Terrence Malick ou o Charles Laughton e não o Oliveira ou o Scorsese!

O IMAGO fica por aqui!
Muito provavelmente a partir de 2011 a equipa que o produziu ao longo destes 10 anos voltará com um novo projecto muito mais ambicioso e adaptado aos tempos que correm! Um projecto que possa ser tão ou mais inovador do que foi o IMAGO em cada uma das fases por que passou. Um projecto de ambição internacional com uma marca e um rumo bem vincados. Em suma, um projecto que nos possa preencher intelectual e artisticamente.

Mas também pode ser que não oiçam mais falar de nós.

Por isso, fica desde já o nosso muito obrigado àqueles que estiveram sempre connosco de alma e coração!

A DIRECÇÃO DO IMAGO
Pedro Teles Ramos
Sérgio Felizardo

domingo, 4 de abril de 2010

E a pergunta da semana é...



E se o Rui Santos falasse de música e não de futebol, a pergunta da semana seria: estarão ainda vivos estes Specials? A resposta será dada, com ou sem Rui Santos, em Paredes de Coura, a 31 de Julho, no último dia do festival minhoto.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Wumbanzanga

É o primeiro tema que podemos escutar de "Assume Crash Position", o novo álbum dos Konono nº1, cuja saída está prevista para o início de Junho, na Crammed, e está disponível para descarga livre na Rolling Stone.